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terça-feira, 15 de julho de 2014

O Regresso do Transperceneige... como Snowpiercer


“Percorrendo a branca imensidão de um inverno eterno e gelado de uma ponta à outra do planeta, roda um comboio que nunca pára. É o trespassa-neve das mil e uma carruagens. É o último bastião da civilização!”




Assim começa Le Transperceneige, a Banda Desenhada de culto de Jacques Lob e Jean-Marc Rochette que, mais de 30 anos após a sua publicação original, conhece uma segunda vida graças ao cineasta coreano Bong Joon-Ho que a usou como ponto de partida do seu filme Snowpiercer.
Publicado originalmente em 1982 na revista (A Suivre) a partir do nº. 57, o percurso do Transperceneige iniciou-se 5 anos antes, em 1977, quando Jean-Paul Mougin, o carismático chefe de redacção, convidou Lob a estar presente desde o primeiro número da nova revista, com uma história a preto e branco, de grande fôlego, na linha do conceito do romance em BD que a revista ajudou a lançar.
Primeiro (e até agora, único) argumentista a vencer o Grande Prémio de Angoulême, Jacques Lob era um talentoso e prolífico escritor, com colaborações com alguns dos maiores desenhadores franco-belgas, como Pichard (Blanche Epiphanie), Druillet (Delírius), Baudoin (Carla) e Jijé (Jerry Spring), entre outros, no seu currículo e que para Le Transperceneige decidiu trabalhar com Alexis, um dos principais desenhadores da revista Fluide Glacial, na qual Lob também participou escrevendo a meias com Gotlib alguns episódios de Superdupont.
Infelizmente, a colaboração dos dois autores em Le Transperceneige seria rapidamente interrompida pela morte de Alexis, aos 31 anos, devido à ruptura de um aneurisma, quando apenas tinha desenhado 16 páginas da história, páginas essas que nunca veriam a luz do dia.

Passado o choque causado pelo brutal desaparecimento do jovem e talentoso desenhador, tanto o argumentista como o editor acharam que a história de Le Transperceneige não devia terminar aqui e começaram as buscas para encontrar um novo desenhador. Entre os desenhadores convidados a realizar duas páginas de teste estavam Michel Rouge (que haveria de substituir Hermann em Comanche e William Vance em Marshall Blueberry), Regis Loisel (o desenhador de La Quête de L'Oiseau du Temps e Peter Pan) e François Schuiten, então com apenas 20 anos. Curiosamente, apesar do extraordinário talento gráfico de Schuiten e das suas afinidades com os comboios, evidentes em livros como Le Rail, ou no mais recente 12 La Douce, a verdade é que as páginas apresentadas pelo criador da série As Cidades Obscuras, tal como o estudo para o comboio que podem ver aqui,  não convenceram Lob e os leitores perderam assim a oportunidade de lerem essa história desenhada por Schuiten.
O artista escolhido para suceder a Alexis seria finalmente Jean-Marc Rochette, um jovem desenhador de 21 anos que começava a dar nas vistas com a série Edmond Le Cochon, escrita por Martin Veyron, que os leitores portugueses mais atentos puderam ler nos finais dos anos 80 nas páginas da saudosa revista brasileira Animal. Está série humorística, com animais antropomorfizados e influências de Robert Crumb, estava longe de tornar evidente a escolha de Rochette para ilustrar um drama sombrio e claustrofóbico como Le Transperceneige, mas o futuro viria dar razão a Jacques Lob, e a colaboração entre os dois criadores deu origem a uma das mais inesquecíveis séries publicadas na revista (A Suivre).
Ambientada num futuro pós-apocalíptico, em que a Terra está assolada por uma nova Idade do Gelo, a história de Le Transperceneige reflecte as angústias com o futuro do planeta que a Guerra Fria ajudou a alimentar e que está patente em muita ficção da época, seja em BDs como Simon Du Fleuve, de Auclair, ou Jeremiah de Hermann, ou em filmes como a série Mad Max, de George Miller. Há também uma dimensão política bem evidente, na estratificação social que impera no comboio, com os ricos luxuosamente instalados nas carruagens da frente e o povo amontoado sem quaisquer condições nas carruagens da retaguarda.
Gerindo o espaço fechado e claustrofóbico do comboio, em contraste com a imensidão gelada que o envolve, Lob cria uma história de amor trágica entre Prolof e Adeline, dois passageiros de classes sociais diferentes, ambientada num futuro distópico, que esteticamente remete para o regime soviético, sendo provável que o Transiberiano, onde a companheira de Lob viajou, tenha servido de inspiração para o Transperceneige. Concebido como uma história fechada, como era regra na revista (A Suivre), o Transperceneige foi recolhido em álbum em 1984, com grande sucesso crítico e comercial. Apesar desse sucesso, a continuação da história nunca esteve em equação, até porque Rochette decidiu trocar a BD pela pintura e Jacques Lob morreria em 1990, vítima de cancro.
Só que Rochette, entretanto regressado à BD, tinha vontade de voltar ao universo do Transperceneige e em 1998 convenceu o escritor Benjamin Legrand, vindo do cinema, mas que já tinha mostrado o seu talento para a BD ao assinar o argumento de Tueur de Cafards, para Tardi, a acompanhá-lo nesta nova viagem. A missão de Legrand não era fácil, pois a história original não dava a azo a continuações, até que Legrand se lembrou de inventar um segundo comboio, ainda maior, que percorria os mesmos carris, sem notícias sobre o destino do Transperceneige original, com quem se arriscava a chocar. Este segundo ciclo deu origem a dois álbuns, L'Arpenteur e La Traversée, publicados em 1999 e 2000, cuja carreira comercial acabou por ser prejudicada pelo fim da revista (A Suivre) e pela crise que à época afectava a editora Casterman, inviabilizando a ideia de Rochette e Legrand de um terceiro volume que fechasse este segundo ciclo.
No início do século XXI parecia que esta série mítica tinha caído finalmente no esquecimento, até que, já em 2005, curiosamente no mesmo dia em que recebeu um mail da editora a avisar que as sobras dos livros iam ser destruídas, Rochette recebe também um telefonema do editor a contar-lhe que havia alguém na Coreia interessado em adquirir os direitos do Transperceneige para o levar ao cinema. Esse alguém era o realizador Bon Joon-Ho, fã de Banda Desenhada, que descobriu o livro numa livraria de Seul, quando estava a preparar as filmagens de The Host e que, mal o leu, soube que estava ali o seu próximo projecto cinematográfico. A descoberta da BD por Bong Joon-Ho foi ainda mais inesperada, porque o livro oficialmente nem sequer tinha edição coreana (a editora coreana tinha contactado a Casterman para adquirir os direitos para a Correia do Sul, mas como a editora francesa nunca lhes respondeu, decidiram publicar o livro mesmo assim...).

Embora tenha adquirido os direitos do livro em 2005, Bong Joon-Ho só começou a trabalhar verdadeiramente no filme em 2010, começando por se ocupar do argumento. Um argumento que, mais do que adaptar directamente os livros, retém o cenário e a ideia da personagem que atravessa o comboio, para além de um ou outro pormenor, como o engenheiro aprisionado numa gaveta como se estivesse na morgue, ou o passageiro de uma das últimas carruagens que, como prenda de anos, pede para ser deixado sozinho na sua carruagem por alguns minutos. Esses elementos das BDs são usados como ponto de partida para uma história original, com novas personagens, como Curtis, o protagonista do filme, que inicia a revolta que lhe permitirá percorrer o comboio e confrontar Wilford, o inventor do Snowpiercer, que vive recluso na carruagem da frente. Um percurso que não pode deixar de evocar o do personagem de Martin Sheen no filme Apocalipse Now, que sobe o rio para enfrentar o Coronel Kurtz, como Curtis percorre o comboio para chegar a Wilford, comparação que o próprio realizador não renega.

Produzido por Park Chan-Wook, o realizador de Old Boy, o filme com um orçamento considerável (para os padrões coreanos) de 40 milhões de dólares, reúne um surpreendente elenco internacional, com destaque para Tilda Swinton, John Hurt, Ed Harris, Jamie Bell e Chris Evans, o Capitão América que, para grande espanto de Bong Joon-Ho apresentou-se no casting por sua própria iniciativa, decidido a lutar pelo papel principal, que desempenha de forma muito convincente. Visualmente espectacular, com cenas de acção viscerais, extraordinariamente coreografadas (pensem na célebre cena do martelo e do corredor em Old Boy, elevada à quinta potência) e uma história cativante e muito bem contada, Snowpiercer conheceu um êxito estrondoso na Coreia do Sul e em França, onde estreou em 2013. Infelizmente, Harvey Weinstein, o produtor dos filmes de Quentin Tarantino, que comprou os direitos de exibição de Snowpiercer para os mercados de língua inglesa, pretendia impor cortes de mais de meia hora no filme, contra a vontade do realizador, que sempre teve o “final cut” das suas obras. Em consequência disso, a estreia de Snowpiercer no mercado americano foi sendo sucessivamente adiada e, finalmente, após muitas discussões, estreará nos Estados Unidos em Junho de 2014, sem cortes, mas numa distribuição limitada a um número reduzido de salas de cinema.
Quanto a Portugal, o filme cegou às salas na passada quinta-feira, 24 de Julho, apesar do trailler já estar a passar nos cinemas nacionais, com o subtítulo "expresso do amanhã", mas para além da excelente edição em DVD da Wild Side, pejada de extras, que está disponível na Amazon francesa, é relativamente fácil encontrar o filme nos sites de partilha de ficheiros na Internet.
Para os autores da BD ainda vivos, para além da participação no filme como figurantes e, no caso de Rochette, de emprestar as mãos e o talento ao personagem que no filme desenha o dia-a-dia do comboio, Snowpiercer permitiu a redescoberta do seu trabalho, praticamente caído no esquecimento, por um público muito mais alargado, até porque, graças ao filme, os livros tiveram finalmente edição em língua inglesa.
Como refere Rochette: “O Transperceneige é neste momento a BD francesa mais conhecida no mundo. O Tintin não é francês e o Asterix vende sobretudo em França e na Alemanha, enquanto que o Transperceneige está actualmente disponível em 167 países. É delirante!”
Texto publicado no nº 16 da revista Bang!, de Junho de 2014.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Le Transperceneige em destaque na revista Bang!


Já está disponível nas lojas FNAC de todo o país o nº 16 da revista Bang!, a excelente revista gratuita de informação sobre fantasia, ficção científica e terror, editada pela editora Saída de Emergência. Como de costume, este número conta com um texto meu sobre Banda Desenhada. Neste caso sobre Le Transperceneige, a mítica BD de Jacques Lob e Jean-MarcRochette, publicada no início dos anos 80 na revista (A Suivre) e recentemente adaptada ao cinema, com excelentes resultados, no filme Snowpiercer, do coreano Bong Joon-Ho. E enquanto não coloco aqui o texto deste número (o que acontecerá no início de Julho), deixo-vos com um punhado de imagens que não couberam nas páginas da Bang! e com o trailler do filme
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sábado, 5 de abril de 2014

Capitão América regressa ao cinema em clima de conspiração


Já está nas salas de cinema nacionais desde quinta-feira, dia 27 de Março, o novo filme da Marvel, que traz de volta o Capitão América, para combater uma conspiração bem no coração dos serviços secretos americanos, que ameaça a liberdade do mundo ocidental.
Depois de um primeiro filme de ambiente mais “retro”, que explora as origens do Capitão América, durante a II Guerra Mundial, este 2º filme do Capitão América está mais próximo do ambiente de paranóia dos trillers de espionagem dos anos 70, que cruza com a recuperação de uma das histórias recentes, das mais importantes do personagem na BD, escrita por Ed Brubaker. Essa história, em que Brubaker introduz no universo do Capitão América elementos característicos das histórias de espionagem ambientadas na Guerra Fria, chama-se O Soldado de Inverno e assinala o regresso à BD de Bucky, o jovem ajudante do Capitão América, que estava oficialmente morto desde a II Guerra Mundial.
Com efeito, nessa história escrita por Ed Brubaker e ilustradas por Steve Epting, descobrimos que o corpo congelado de Bucky foi descoberto por um submarino soviético e que os serviços secretos soviéticos que o vão conseguir fazer regressar à vida, lhe fizeram uma lavagem cerebral e o programaram para ser um assassino frio e extraordinariamente eficiente, sem qualquer lembrança do seu passado, o Soldado do Inverno.
É precisamente esse o ponto de partida do filme Capitão América: O Soldado do Inverno dirigido por Anthony e Joe Russo, com argumento de Christopher Marcus e Stephen Mcfeely, que já tinham escrito o anterior filme do Capitão América e que prosseguem com a adaptação do herói ao mundo actual, colocando-o no centro de uma história de espionagem, que reflecte acontecimentos recentes como as acções de espionagem da NSA denunciadas por Edward Snowden, que vão abalar as convicções de Steve Rogers na política de segurança do país que jurou defender.

 Mais do que uma história de super-heróis (com a excepção da Viuva Negra, os outros membros dos Vingadores brilham pela ausência), ou sequer uma adaptação literal da BD de Brubaker, este é sobretudo um filme de espionagem, que presta homenagem aos filmes políticos dos anos 70, aspecto reforçado pela presença de Robert Redford, actor que nos anos 70 esteve presente em Os Três Dias do Condor e Os Homens do Presidente, os dois mais importantes filmes desta tendência e que em Capitão América: O soldado de Inverno, veste a pele de Alexander Pierce, um director da S.H.I.E.L.D que vai ter um papel muito importante na história.
Ed Brubaker, que leu o argumento e acompanhou as filmagens, não hesita em afirmar que “este vai ser o maior filme de super-heróis jamais feito. Não me consigo lembrar de nenhum melhor e estou a contar com a trilogia do Cavaleiro das Trevas, do Christopher Nolan. É acima de tudo um triller e o facto de se tratar de um filme de super-heróis parece acessório. Está mais próximo de filmes como Os Três Dias do Condor, ou Missão Impossível, do que do filme dos Vingadores. Tem uma atmosfera fantástica e a forma como são filmadas as cenas de acção é muito excitante”.

Visto o filme, a verdade é que Brubaker não exagera e este é, quanto a mim, o mais conseguido filme da Marvel até agora, com excelentes cenas de acção, uma intriga bem construída, um pouco menos de humor que os filmes do Homem de Ferro, ou dos Vingadores e excelentes interpretações, especialmente de Chris Evans, que está cada vez mais à vontade na pele do herói-símbolo da América. O maior senão talvez seja o facto da personagem do Soldado do Inverno não ser tão explorada como podia, nem ser explicado, como é que ele, sendo “criado” pelo KGB, acaba a trabalhar para a HIDRA… Mas alguns desses aspectos poderão vir a ser desenvolvidos em próximos filmes, até porque o contrato de Sebastian Stan, o actor que fez primeiro de Bucky e agora de Soldado do Inverno, contempla 6 filmes da Marvel.
O mais adulto dos filmes da Marvel, Capitão América: O Soldado do Inverno é claramente um passo em frente na consolidação do universo da Marvel no cinema, tão recomendável para os fãs do super-herói, como para quem gosta de uma boa história de espionagem.
A terminar, um aviso. Como é habitual nos filmes da Marvel, convém não sair do cinema mal acaba o filme e acompanhar a ficha técnica até ao fim, pois há, não uma, mas duas cenas extras, que preparam o caminho para os próximos filmes da “Casa das Ideias”.
 (“Capitão América: o Soldado do Inverno”, de Anthony e Joe Russo, com Chris Evans, Sebastian Stan, Scarlett Johansson e Samuel L. Jasckson, Marvel Studios, 2014. Em exibição em Coimbra nos cinemas Zon Lusomundo Dolce Vita e Fórum Coimbra) 
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 05/04/2014