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domingo, 22 de junho de 2014

Maus finalmente reeditado em português



Depois de uma primeira edição em 2 volumes, lançada pela Difel durante a década de 90 e há muito esgotada, Maus, a obra-prima de Art Spiegelman volta a estar finalmente disponível em português, numa edição integral da Bertrand, que junta mais um título de peso ao seu catálogo de novelas gráficas.
Professor na Scholl of Visual Arts de Nova Iorque (por onde passou também Will Eisner), vencedor do Grande Prémio de Angoulême, colaborador da prestigiada revista New Yorker (cuja directora de arte é a sua mulher, Francoise Moully) e editor da revista Raw, a mais célebre revista alternativa de BD americana, onde Maus foi pré-publicado e onde se estrearam no mercado americano nomes como Jacques Tardi, ou Joost Swarte, Art Spiegelman é um nome incontornável da BD, mas apesar da importância da sua obra global, é Maus que lhe garante um lugar de destaque no panteão da BD.
Obra singular e dificilmente classificável (como constatou o júri do Prémio Pulitzer, que não sabia se havia de o incluir na categoria "ficção", ou "reportagem", optando por lhe atribuir um Pulitzer especial...), Maus reúne de forma nunca antes vista dois géneros de BD antagónicos, mas com grandes tradições nos E.U.A.: os "funny animals", em que personagens animais antropomorfizadas se comportam como seres humanos, de que as criações da Disney são o exemplo mais evidente e popular, e a BD de cariz autobiográfico, que de Robert Crumb a Will Eisner, passando por Harvey Pekar, esteve na origem de alguns dos mais interessantes comics e graphic novels publicados nos E.U.A. nas últimas décadas.

A opção de Spiegelman, oriundo de uma família de judeus polacos, de utilizar animais para relatar a dramática história dos seus pais, desde o gueto de Varsóvia até ao pesadelo de Auschwitz, permite resolver de forma eficaz a dificuldade de transmitir o horror inimaginável de que se revestiu a "solução final". Ao substituir seres humanos (completamente despojados da sua humanidade e reduzidos a fantasmas que apenas tentam sobreviver) por ratos, gatos, ou porcos, vai permitir um certo distanciamento do leitor, que facilita a leitura e a apreensão de um dos maiores horrores da história da humanidade.
A opção por animais e o estilo minimalista do desenho, são bem sintomáticos do talento narrativo de Spiegelman, que soube encontrar a linguagem mais ajustada para contar a história de um sobrevivente e a sua complexa relação com o passado e com a sua família. O traço de Spiegelman, apesar de simples, revela-se quase expressionista nas situações de maior intensidade dramática, numa perfeita sintonia com as necessidades do argumento. Do mesmo modo, o autor mistura de forma equilibrada as recordações do seu pai, Vladeck Spiegelman, com a sua relação com ele, não hesitando em julgar, de uma forma que pode parecer demasiado dura,  o actual comportamento do seu pai, marcado pela amargura, desconfiança e uma profunda avareza. E não deixa de ser algo incómodo para o leitor a forma extremamente sincera e até despudorada, como são desvendadas todas as angústias e inseguranças que minaram a relação familiar entre Vladeck e a sua mulher, Anja, e a forma como isso se vai reflectir na difícil relação de Art Spiegelman com o seu pai, que apesar de ter sobrevivido, ficou inevitavelmente marcado pela experiência traumática de Auschwitz.
Embora faça todo o sentido num único volume, Maus foi publicado originalmente em dois volumes e há uma clara separação entre eles, com a primeira parte da história centrada no advento do nazismo e na dramática situação do gueto de Varsóvia, enquanto que a segunda parte nos leva até ao coração das trevas, o campo de concentração de Auschwitz onde, com o Vladeck sublinha ironicamente, os seus problemas começaram. E o humor não está ausente deste dramático relato, com Spiegelman a revelar grande ironia na forma como lidou com o sucesso do primeiro livro, com umas cenas de crise existencial que recordam Woody Allen, outro autor de origem judaica, o que parece vir confirmar que a ironia desencantada é uma característica genética dos judeus.
Belíssimo e doloroso exorcismo do tenebroso e incompreensível  genocídio de um povo, Maus é também uma forma singular de psicoterapia da complexas relação entre o autor e o seu pai.  Prova definitiva das potencialidades da Banda Desenhada como linguagem narrativa autónoma, ao mesmo nível da literatura, Maus é uma obra obrigatória e incontornável pelas suas qualidades artísticas e pela importância do seu testemunho sobre o Holocausto. Uma obra-prima que finalmente, volta a estar novamente disponível para os leitores portugueses.
Maus de Art Spiegleman, Bertrand Editora, 296 pags, 17,70 €

sábado, 18 de maio de 2013

Rugas: O Apagar da Memória





Depois de ter lançado recentemente algumas Bandas Desenhadas importantes, como Persepolis, de Marjane Satrapi e Fun Home de Alison Bechdel, (e outras nem tanto, como os “Pequenos Prazeres”, de Arthur De Pins…) através do seu selo, Contraponto, a editora Bertrand regressa à edição de BD com selo próprio, com Rugas, do espanhol Paco Roca.
Para além da importância simbólica do regresso de uma editora com largas tradições no género, tendo sido responsável pela edição da versão portuguesa da revista Tintin e pela estreia em álbum no nosso país de autores como Hugo Pratt, Tardi, ou Comés, este lançamento é importante pelo livro que assinala o regresso. Uma belíssima reflexão sobre um tema delicado e cruel, a doença de Alzheimer, contada com um rigor que não se revela incompatível com a delicadeza e o humor.

Embora praticamente desconhecido em Portugal, Paco Roca é um dos mais interessantes autores de BD espanhóis da nova geração, como demonstrou em El Juego Lúgubre, o seu livro de estreia, em que a personagem e a obra de Salvador Dali servem de ponto de partida para uma história policial com contornos (naturalmente) surrealistas. Mas foi este Rugas, editado originalmente em França pela Delcourt em 2007, que o lançou internacionalmente, tendo arrebatado diversos prémios, sido editado em vários países e adaptado ao cinema numa longa-metragem de animação que venceu dois prémios Goya (os Óscares espanhóis) e que tem estreia comercial em Portugal marcada para o próximo dia 23 de Maio.
Na origem de Rugas está a velhice dos pais de Paco Roca e a descoberta que Emílio, o pai de um dos seus melhores amigos, tinha Alzheimer. O assistir à rápida degeneração intelectual de uma pessoa culta e muito inteligente como Emílio, levou-o a investigar a doença e a visitar vários lares, onde colheu vários episódios verídicos, que acabou por incorporar na sua história, como a personagem de Rosário, que se imaginava num comboio em direcção a Istambul, ou Carmencita, que nunca ficava sozinha, com medo de ser raptada pelos marcianos. E Rugas, para além da história pessoal de Emílio, um bancário reformado que é metido num lar quando a doença já não lhe permite manter-se autónomo, é um retrato simultaneamente terno e cruel da vida num lar de idosos, em que a maioria das pessoas vegeta, num dia a dia sempre igual, marcado pelo horário das refeições e pela televisão que lhes embala o sono.

Optando por um registo clássico, com cores suaves e um traço semi-caricatural, muito próximo da “linha clara” franco-belga, que confere grande legibilidade à história e ajuda a atenuar a carga dramática do tema, Paco Roca concilia esse “classicismo” gráfico, com algumas soluções narrativas brilhantes. Veja-se a forma como as feições de Miguel, o melhor amigo de Emílio, se vão esbatendo, à medida que Emílio vai deixando de o reconhecer, ou a belíssima ilustração da capa, em que as principais personagens viajam no comboio do sonho de Rosário e as memórias de Emílio que a doença vai inexoravelmente apagando, surgem representadas por velhas fotografias a preto e branco que o vento leva da sua cabeça aberta, numa solução gráfica que me recordou Le Voyage, de Baudoin.      
Depois de Comprimidos Azuis, de Frederik Peeters, em relação à SIDA, este Rugas mostra uma vez mais a capacidade da Banda Desenhada de tratar temas delicados de uma forma única. Basta que os autores tenham o talento que não falta a Paco Roca.
(“Rugas”, de Paco Roca, Bertrand edições, 106 pags,16,60 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 18/05/2013

domingo, 13 de maio de 2012

Apresentação de O País dos Cágados

Vai ser esta terça-feira, às 18h30m, no Centro Nacional de BD e Imagem da Amadora. Apareçam!