quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Universo Marvel 17 - Hulk: Cinzento


UNIVERSO MARVEL VOL 17
Hulk: Cinzento
Argumento - Jeph Loeb
Desenhos - Tim Sale

TRÊS CORES: CINZENTO

Se dissessem a um cinéfilo mais tradicional, daqueles que lêem a revista Cahiers du Cinema, que há grandes pontos de contacto entre a trilogia das cores do cineasta polaco Krzysztof Kieslowski e os trabalhos de Jeph Loeb e Tim Sale para a Marvel, este teria certamente dificuldade em acreditar, mas a verdade é que, por mais improvável que pareça, há muita coisa que aproxima os filmes do cineasta polaco e as Banda Desenhadas dos dois americanos.
Se Azul, Branco e Vermelho, os três filmes que Kieslowski dedicou às cores da bandeira de França e aos ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) são histórias de amor, marcadas pelo peso da memória, o mesmo se pode dizer de Homem-Aranha: Azul, Demolidor: Amarelo e Hulk: Cinzento, a trilogia das cores que Loeb e Sale dedicaram aos principais heróis da Marvel e que, depois da edição pela Devir dos dois livros anteriores, está finalmente disponível na íntegra em Portugal.
Revisitações nostálgicas dos primeiros tempos de actividade dos heróis, os três livros seguem uma estrutura muito semelhante, marcada pelos flash-backs. Tanto em Homem-Aranha: Azul, como em Demolidor: Amarelo, as histórias são narradas como cartas de amor a pessoas que já morreram (Peter Parker a Gwen Stacy em Homem-Aranha: Azul e Matt Murdock a Karen Page em Demolidor: Amarelo), mecanismo que permite o desencadear das recordações de um tempo que já passou, e que Loeb e Sale recuperam com o talento que se lhes reconhece.
Em Hulk: Cinzento, o que desencadeia os flash-backs, são as sessões de terapia entre Bruce Banner e Leonard “Doc” Samson, mas no centro dessas recordações está igualmente uma história de amor trágico, o triângulo amoroso entre Bruce Banner, Betty Ross e o Incrível Hulk, com a história mais centrada na relação impossível entre Betty e o Hulk, de uma forma que nos recorda o fascínio de King Kong por Ann Darrow (personagem interpretada de forma memorável pela actriz Fay Wray no filme original de Merian C. Cooper) que acaba por levar à sua perdição. Uma história centrada numa etapa inicial menos conhecida do percurso de Hulk, em que o gigante esmeralda era cinzento e a sua transformação era não consequência do aumento do stress, mas do cair da noite.
Mesmo que os outros heróis da Marvel com a excepção do Homem de Ferro, que não sai muito bem tratado desta história, brilhem pela ausência, Loeb não esquece os criadores que antes dele escreveram as aventuras do Hulk e em especial Peter David, responsável pelo argumento da revista do Hulk durante doze anos e que recuperou a versão cinzenta do Hulk, para além de ter criado também uma versão vermelha (cá temos outra trilogia das cores: cinzento, verde e vermelho...) A homenagem de Loeb a David é evidente no diálogo entre Banner e Samson sobre a mudança de cor do Hulk, com Banner a concluir o tema com a frase “mas estou a divagar” (“but I digress”, no original), que é precisamente o título da coluna de comentário sobre Banda Desenhada que Peter David Assinou na revista Comics Buyers Guide, de 1990 até 2013, data em que a revista cessou a publicação.
Nascido em 1956 em Ithaca, Nova Iorque, Sale passou a infância e a adolescência em Seattle, de onde saiu durante dois anos para frequentar a School of Visual Arts, a célebre escola nova-iorquina criada por Burne Hogarth, onde Will Eisner foi professor, para além de ter feito um workshop em Banda Desenhada com John Buscema. Mesmo que tenha regressado a Seattle sem ter concluído a sua licenciatura na S.V.A., o contacto com tão bons mestres deixou marcas e não admira que tenha acaba por decidir fazer carreira na Banda Desenhada. Uma carreira que se iniciou em 1983, com a série Mith Adventures da Warp Graphics, mas que só arrancaria realmente dois anos mais tarde ao conhecer o autor Matt Wagner e a editora Diana Schutz na Comic Con de San Diego. Encontro que lhe valeu o convite para colaborar na série Grendel, de Wagner, como desenhador, e que acabou por levar ao encontro mais importante da sua vida, com o escritor Jeph Loeb, que lhe foi apresentado por Wagner e Schutz.
Vindo do mundo do cinema, onde foi responsável pelo argumento de filmes como Teen Wolf e Commando e trabalhou na primeira série de ficção da HBO, The Hichhiker, foi o seu trabalho para um filme do Flash que nunca chegou a ser feito, que lhe abriu as portas da DC Comics, que detém os direitos da personagem e lhe permitiu iniciar uma carreira na Banda Desenhada, que não se limitou às colaborações com Sale. Uma carreira prolífica e frutuosa como argumentista de BD ligado às maiores editoras americanas, que Loeb tem sabido conciliar com a sua actividade de argumentista e produtor para televisão e que faz dele o homem ideal para o cada vez maior número de projectos em que Hollywood vai beber ao mundo da Banda Desenhada.
A série Chalengers of the Unkwon, o primeiro argumento de comics escrito por Loeb em 1991, foi naturalmente ilustrado por Sale e desde então a dupla colaborou em inúmeros projectos, com destaque para as sagas The Long Halloween e Dark Victory, que exploram o destino do Batman imediatamente após os acontecimentos do Year One, de Frank Miller e David Mazzucchelli e para Superman For All Seasons, história muita na linha da trilogia das cores da Marvel, de que é precursora e que foi assumida pelos criadores da série televisiva Smallville, onde Loeb também trabalhou, como uma das principais fontes de inspiração da série.
Mas as colaborações da dupla não se resumem à DC. Basta relembrar as mini-séries Homem-Aranha: Azul e Demolidor: Amarelo, os volumes anteriores da trilogia das cores, publicadas em Portugal pela Devir e da participação de Sale na série televisiva Heroes, de que Loeb foi produtor e argumentista e onde Sale, para além de conselheiro artístico, foi o responsável pelas pinturas de Isaac Mendez, um dos personagens da série, cujos poderes divinatórios se revelavam nos quadros que pintava.
E se Loeb e Sale já tinham estado em destaque nas duas colecções que a Levoir dedicou à DC, em que Loeb assinou o argumento dos últimos volumes da primeira e segunda série, com histórias que reúnem o Super-Homem e o Batman (A Rapariga de Krypton e Poder Absoluto) e Tim Sale foi responsável pela arte de Contos do Batman, em que ilustrava três histórias do Cavaleiro das Trevas, escritas por outros argumentistas que não Loeb, esta é a primeira vez que a dupla surge junta numa colecção da Levoir, assinando um dos seus melhores trabalhos conjuntos.
Um trabalho em que o traço de Sale revela uma plena maturidade, que ainda lhe faltava em Contos do Batman, e um apurado sentido narrativo, usando com grande efeito dramático, os grandes planos, as imagens de página inteira e as duplas páginas. Mas onde Sale mais brilha é na expressividade que consegue transmitir ao rosto do Hulk, usando com grande eficácia as sombras e os grandes planos, focando pormenores como os olhos e os dentes do Hulk, que se destacam no meio da escuridão. Veja-se, por exemplo a sequência que nos mostra a sua breve amizade com um coelho, ou o modo como o monstro se “derrete” na presença de Betty Ross. Betty, a mulher cuja memória está no centro da história, tal como aconteceu nos outros volumes da “trilogia das cores”, mas que na realidade acaba por ser mais um catalisador duma reflexão de contornos psicanalíticos sobre a relação difícil entre pais e filhos.
Pais geralmente ausentes, como nos casos de Bruce Banner e Rick Jones, dois órfãos com infâncias traumáticas, que estabelecem nesta história uma relação de pai e filho, ou mesmo de Betty Ross, que órfã de mãe tem no General Ross um pai ausente, para quem a obsessão em capturar o Hulk se sobrepõe tudo o resto, evocando uma personagem trágica da literatura, o capitão Ahab e a sua relação com Moby Dick, a baleia branca, que está no centro do famoso romance de Herman Melville.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Um Punhado de imagens da montagem da exposição Batman, Ano 75


Já está aí há uma semana e continuará em força até ao próximo dia 9 de Novembro, a edição 25 do Amadora BD. Ainda neste espaço farei o balanço da edição de 2014, mas as primeiras impressões foram muito positivas, tanto a nível das exposições, com a agradável surpresa da exposição dedicada ao livro Jim Curioso de Mathias Picard, como em termos da disposição do espaço comercial, bastante mais amplo e agradável.
Sugiro também que, quem visitou a exposição do Surfista Prateado no primeiro fim-de-semana, faça uma segunda visita, pois há uma série de pranchas, incluindo o único original de Moebius e mais uma dupla página de Alex Ross, que não chegaram a tempo da inauguração e só esta semana foram colocadas nas paredes.
Em relação à exposição do Batman, há a destacar o excelente trabalho cenográfico das Susanas (Lanceiro e Vicente) e a impossibilidade de expor no espaço que nos estava destinado, todas as pranchas originais que Lawrence Klein, o meu parceiro nesta aventura, conseguiu desencantar.
Uma referência obrigatória para as capas de homenagem dos desenhadores portugueses e dos "muchachos" do Filipe Melo, os argentinos Juan Cavia e Santiago Villa, em que é evidente a qualidade e a diversidade das abordagens à história e à imagem do Cavaleiro das Trevas.

Aqui fica, para já um punhado de imagens da montagem dessa exposição. Espero que gostem!








quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Universo Marvel 16 - X-Women: Mulheres da Marvel


Nesta série Universo Marvel, este foi o meu único texto que teve de ser alterado. Assim, na versão impressa desapareceram as referências ao filme Ilsa e os comentários ao argumento de Claremont tiveram que ser suavizados. Também a galeria de capas de Manara no final do livro sofreu alterações em relação ao previsto. Das 12 capas que falam no meu texto, apenas 11 aparecem. A ausente é (naturalmente) a famosa capa de Spider-Woman # 1 que tanta polémica provocou...

UNIVERSO MARVEL VOL 16
X-Women: Mulheres da Marvel
Argumento - Chris Claremont, Marjorie Liu, Stuart Moore e Kelly Sue DeConnick
Desenhos - Milo Manara, Filipe Andrade, Nuno Plati, Mark Brooks e Ryan Stegman


O HOMEM QUE GOSTAVA DE MULHERES

O cineasta François Trufaut dizia que “o cinema é arte de fazer coisas bonitas a mulheres bonitas”. Uma definição que assenta como uma luva ao trabalho em Banda Desenhada de Milo Manara. Um autor que apresenta grandes pontos de contacto com Bertrand Morane, o protagonista do filme de Truffaut O Homem Que Gostava de Mulheres, para quem “as pernas das mulheres são compassos que medem o globo terrestre em todas as direcções dando-lhe equilíbrio e harmonia”. Tal como Morane o fazia através da escrita, também Manara, graças ao seu traço sensual, fez do corpo feminino o centro do seu mundo poético.
Nascido em Luson, Itália, a 12 de Setembro de 1945, Manara depois do liceu, onde estudou arte, inscreveu-se na Faculdade de Arquitectura de Veneza, mas cedo abandonou os estudos para seguir a sua vocação artística, trocando Veneza por Verona, onde começou a trabalhar como ajudante do escultor espanhol Miguel Ortiz Berrocal. É então que descobre que a Banda Desenhada, à qual até então nunca dera muita atenção, se estava a tornar “um formidável meio de expressão total”.
Um meio em que se estreia em 1969, desenhando histórias eróticas, como as aventuras de Jolanda de Almaviva, para as Edições Erregi, ao mesmo tempo que colabora com Il Corriere dei Ragazzi desenhando La Parola Alla Giura (A palavra ao Júri), uma série escrita por Milo Milani que em Portugal foi publicada no Mundo de Aventuras. Seguiu-se entre 1976 a 1979, a participação na colecção A Descoberta do Mundo publicada pela prestigiada editora francesa Larousse, em que o seu desenho surge ao lado de outros grandes ilustradores franceses, espanhóis e italianos e do português Eduardo Teixeira Coelho.
Apesar do sucesso de Lo Scimmiotto, uma adaptação muito livre da mesma lenda chinesa que está na origem do Dragon Ball de Akira Toriyama, escrita por  Silvério Pisu, o grande ponto de viragem da obra (e da vida) de Manara dá-se quando conhece Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese, que além de seu mestre se torna seu grande amigo. Uma relação de respeito, amizade e cumplicidade, bem patente em H.P. e Giuseppe Bergman, a primeira aventura de Giuseppe Bergman, em que o próprio Pratt é um dos personagens, H. P., o mestre da aventura. Juntos, Pratt e Manara assinarão duas obras-primas, Verão Índio e El Gaúcho e construirão uma amizade que apenas a morte de Pratt veio interromper.

Mas os trabalhos que assinou com Hugo Pratt não são o único exemplo de colaboração entre Manara e outros importantes criadores, pois o desenhador vai trabalhar estreitamente com Pedro Almodovar, Alejandro Jodorowsky e sobretudo Federico Fellini, com quem vai transpor para a BD Viagem a Tulum e Il Viaggio di G. Mastorna detto Fernet, dois projectos cinematográficos de Fellini, nunca realizados.
Para além destas colaborações prestigiantes e das aventuras de Giuseppe Bergman o seu alter-ego em BD, ou se quisermos voltar a Trufaut, o seu Antoine Doinel, a carreira de Manara fez-se sobretudo de títulos que exploram a fundo o erotismo do corpo feminino, de que a série Clic é o exemplo mais popular e o seu maior sucesso comercial. Um sucesso que Manara não renega e que assume sem complexos, quando refere: “Não, não tenho a hipocrisia de quem mostra cús na televisão a toda a hora, para vender iogurte ou cera para pavimentos. Vendo o que desenho: exactamente aquilo que o público espera de mim”.
Perante o prestígio do seu nome, a popularidade da sua obra e, sobretudo, a qualidade do seu traço único e sensual, era só uma questão de tempo até Manara entrar no mercado americano. Essa entrada dá-se em 2003, através de Neil Gaiman, que o escolhe (naturalmente) para ilustrar o episódio protagonizado por Desire no livro Endless Nights, que assinalou o regresso do escritor inglês à série Sandman.
  Mais tarde, em Março de 2006, a Marvel anunciava que Manara estava a trabalhar com Chris Claremont numa história dos X-Men, em que seria dado natural destaque às heroínas do grupo. Como Manara tinha que conciliar este projecto com a sua colaboração com Jodorowsky na série Borgia, seria preciso esperar até ao Outono de 2008, para ver o trabalho de Manara nos X-Men, graças á edição italiana da Panini, que primeiro lançou a obra numa edição a preto e branco e formato europeu, com o título X-Men: Ragazze in Fuga. Finalmente, em Julho de 2009, chega a edição americana, numa revista de 48 páginas, com o título X-Women, em que Dave Stewart (colorista habitual de Mike Mignola e um dos mais premiados coloristas da indústria dos Comics) dá cor ao traço de Manara, substituindo Tanino Liberatore, o desenhador de Ranxerox que, conforme Manara me confidenciou em 2008, numa entrevista, era o colorista inicialmente previsto.
A história, feita por medida por Claremont para o desenho de Manara, é movimentada, tem algumas ideias interessantes, como a tribo de "cargo cultists", os adoradores de aviões, mas peca um pouco pela redundância dos textos, o que não é propriamente uma novidade em Claremont... Mas esta história, em que os elementos femininos dos X-Men vêm as suas férias na Grécia interrompidas pelo rapto de Rachel, o que as leva até Madripoor, onde têm que enfrentar uma inimiga que parece saída de um filme da série Ilsa, a Loba dos SS, é acima de tudo um pretexto para Manara fazer aquilo que faz melhor do que ninguém, desenhar mulheres elegantes e sensuais em poses provocantes e (até por vezes) gratuitas.

Tratando-se de uma história dos X-Men, não há qualquer nudez, mas o que o traço de Manara sugere é muito mais erótico do que se mostrasse tudo. E convém não esquecer que, além de saber desenhar mulheres como ninguém, Manara tem um perfeito domínio da narrativa em BD, um excelente sentido de composição da página e não poupa nos pormenores quando se trata de desenhar cenários naturais ou arquitectónicos.
Mas nem só de Manara vive este volume dedicado às Mulheres da Marvel. Temos também os portugueses Filipe Andrade e Nuno Plati, que ilustram uma história de Marjorie Liu centrada em X-23, a jovem mutante, clone de Wolverine, treinada para ser uma máquina de matar, que apenas quer viver a sua vida. A história de Marjorie Liu aproveita muito bem o talento e as características bem distintas dos dois desenhadores portugueses, como Plati a tratar num registo expressionista as cenas no mundo dos sonhos, enquanto Andrade desenha a realidade das ruas de Nova Iorque.

Também a heroína Adaga (e o seu inseparável Manto) está presente, numa história de Stuart Moore, ilustrada por Mark Brooks e Walden Wong, que explora a relação instável desta dupla inseparável de heróis, tal como Lady Sif, a companheira de Thor que, numa história escrita por Kelly Sue DeConick e ilustrada por Ryan Stegman, em que Sif se refugia em Nova Iorque para lidar com as memórias do período em que Loki assumiu o controlo do seu corpo.
E este volume termina como começou. Com o traço único e sedutor de Milo Manara a dar vida às principais heroínas da Marvel, numa dúzia de ilustrações, realizadas como capas alternativas de diversas revistas, em que Manara traz as mulheres da Marvel para o seu universo estético com excelentes resultados. Uma dúzia de imagens tão espectaculares como inesquecíveis, que aqui são recolhidas em conjunto pela primeira vez.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Universo Marvel 15 - Homem-aranha e Vingadores: Contos de Fadas Marvel


De toda a colecção Universo Marvel, este é o volume que mais me diz e aquele porque mais me bati para fosse incluído nesta colecção, apesar das reticências iniciais da Panini, que o considerava com um volume "pouco comercial". Mas, como achamos que é importante publicar em Portugal o trabalho que os artistas portugueses fazem para a Marvel, o volume fez-se e numa edição enriquecida com um dossier final que nos mostra os bastidores do trabalho de João Lemos e Nuno Plati. 
E, para que fique esclarecido, a não inclusão do Ricardo Tércio neste dossier resultou da vontade do próprio, que perdeu todo o material que tinha da história do Capuchinho Vermelho e já não se identifica com o trabalho que fez na história do Feiticeiro de Oz, preferindo que o mesmo não seja mostrado. Uma decisão que, naturalmente, aceitámos. 

UNIVERSO MARVEL VOL 15
Homem-Aranha e Vingadores: Contos de Fadas Marvel
Argumento – C. B. Cebulski
Desenhos – João Lemos, Nick Dragotta, Niko Enrichon, Nuno Plati, Ricardo Tércio

ERA UMA VEZ…  NO UNIVERSO MARVEL

Era uma vez… um desenhador português, João Lemos, que em Janeiro de 2005, no Festival de Banda Desenhada de Angoulême encontra por acaso Joe Quesada, desenhador e editor-chefe da Marvel e lhe entrega o seu portfólio. Portfólio esse que, um pouco mais tarde, acabaria por chegar às mãos de C. B. Cebulski, editor, director, principal caça-talentos e argumentista da Marvel, que ficou absolutamente fascinado com o traço único de Lemos e o contactou imediatamente.
Mas deixemos que seja o próprio Cebulski a contar como tudo aconteceu: “O primeiro autor português que conheci pessoalmente foi o João Lemos. Todo o grupo de artistas foi a Angoulême um ano em que o Joe Quesada era convidado. O Joe trouxe vários portfólios e pediu-me para lhes dar uma vista de olhos. Havia muitos artistas diferentes mas o portefólio do João era um dos mais únicos que tinha visto na vida e pensei logo que o tinha de contactar. Então a primeiro coisa que fiz foi enviar-lhe um email a dizer “Hey daqui é o C.B. Cebulski da Marvel. Recebi o teu portefólio pelo Joe Quesada. Estás interessado em trabalhar nalgumas ideias?” O email foi enviado no dia 1 de Abril, o dia das mentiras, e o que aconteceu é que ele pensou que era o Ricardo [Tércio] ou o Nuno [Plati] a pregarem-lhe uma partida, mas era mesmo eu. Ele respondeu que adorava trabalhar em algo, mas como na altura não havia nada disponível na Marvel então começámos a desenvolver um projecto para a Image e posteriormente através dele conheci os outros dois e a relação começou a crescer a partir daí.”
A ideia de Cebuslki, que além do seu trabalho como editor e director da Marvel, desenvolve uma actividade paralela como argumentista, alternando entre os trabalhos por encomenda para a Marvel e os projectos mais autorais para a Image, em que detém os direitos sobre a história e as personagens, era criar diferentes histórias de raiz com cada um dos desenhadores portugueses. O mais falado desses projectos foi Shiki, uma mini-série concebida a meias com João Lemos, que se ocupou dos desenhos. Mas o seu trabalho para a Marvel e as constantes viagens a que o mesmo obriga não lhe deixam grande tempo livre para escrever, o que fez com que, das colaborações previstas com os desenhadores portugueses, apenas tenha sido publicada uma história curta ilustrada por Nuno Plati, na antologia 24/Seven, editada pela Image.
Assim, a colaboração entre o argumentista americano e os três desenhadores portugueses que então partilhavam atelier no Estúdio da Bica, haveria por se concretizar finalmente um pouco mais tarde, no âmbito do projecto Marvel Fairy Tales, em que C. B. Cebulski pegava em contos de fadas e lendas tradicionais de diferentes países, com destaque para o Japão, de que Cebulski é um apaixonado, adaptando essas histórias ao universo Marvel.
Primeiro saiu em 2006 a mini-série X-Men Fairy Tales, em que desenhadores tão diferentes como Bill Sienkiewicz, Kyle Baker e os japoneses Sana Takeda e Kei Kobayashi ilustravam lendas japonesas e africanas e contos dos irmãos Grimm, protagonizados por membros dos X-Men. Seguir-se-ia em 2007, a mini-série Spider-Man Fairy Tales, que abre logo com uma versão da história do Capuchinho Vermelho, ilustrada por Ricardo Tércio e que inclui contos de fadas tradicionais e lendas africanas e japonesas. Finalmente em 2008, surge a mini-série Avengers Fairy Tales, centrada na transposição de clássicos da literatura, como o Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Pinóquio e O Feiticeiro de Oz (que antes de ser um filme com Judy Garland, já era um livro de L. Frank Baum) para o Universo Marvel, em que apenas o japonês Takeshi Miyazawa, que ilustra uma versão da Alice…, de Lewis Carol, e a francesa Claire Wendling que assegura as capas, ameaçam a hegemonia artística nacional. O facto dos desenhadores japoneses e portugueses substituírem os americanos nesta série, mostra a forma como Cebulski não olha a fronteiras para encontrar o desenhador certo para cada história. Citando mais uma vez Cebulski: “Trabalhei primeiro com o Ricardo Tércio no Spider-Man Fairy Tales, mas quando os Avengers Fairy Tales aconteceram, sabia que o João era perfeito para o Peter Pan, o Nuno para o Pinóquio e o Ricardo, com quem tive uma óptima relação a trabalhar antes, para o Feiticeiro de Oz.”
Se X-Men Fairy Tales e Spider-Man Fairy Tales foram recolhidas em livro, após a publicação inicial em revista, já Avengers Fairy Tales, apesar da excelente recepção crítica não terá vendido tanto como as mini-séries anteriores - talvez por não ter nenhum desenhador conhecido do público americano e os Vingadores não terem então a popularidade dos X-Men, ou do Homem-Aranha –   e não teve a mesma sorte, sendo apenas recolhida numa colectânea mais genérica, chamada Marvel Fairy Tales, que além das quatro histórias de Avengers Fairy Tales, recolhia também uma história de cada uma das mini-séries anteriores. Uma edição modesta, em formato digest (um formato de bolso, mais pequeno do que o formato americano tradicional) impressa num papel demasiado poroso, que não fazia justiça ao trabalho dos desenhadores, que apenas no volume que têm nas mãos vêm o seu trabalho reproduzido com a qualidade que a excelência do seu traço merece.
Um volume que recolhe pela primeira vez no seu formato original, uma selecção das melhores histórias das mini-séries Spider-Man Fairy Tales e Avengers Fairy Tales, dando natural destaque às histórias ilustradas pelos desenhadores portugueses. Assim, para além das histórias ilustradas pelos desenhadores portugueses, que analisaremos mais a seguir, temos Niko Henrichon, que os leitores portugueses conhecem de Fábula de Bagdad, uma história de Brian K. Vaughn sobre um bando de leões fugidos do jardim zoológico de Bagdad durante a guerra do Golfo, em que demonstra todo o seu talento para desenhar animais, a ilustrar uma lenda africana sobre Kwaku Anansi, o Deus Aranha e Nick Dragotta, contando com o apoio do traço inconfundível de Mike Allred na arte-final, ilustra uma variação da história da Cinderella, com uma curiosa inversão de género em que temos Gwen Stacy como a princesa e Peter Parker como Cinderello…
O primeiro ilustrador português a participar neste projecto, Ricardo Tércio, foi também o único a ilustrar duas histórias baseadas nos contos de fadas. Uma versão da história do Capuchinho Vermelho com Mary Jane no papel do Capuchinho e Venom como o lobo mau, ilustrada toda digitalmente por Tércio, que é também autor da ilustração da capa, num estilo próximo do cinema de animação. Um registo que Tércio altera na versão do Feiticeiro de Oz que ilustrou para Avengers Fairy Tales, em que desenho assistido por computador dá lugar ao mais tradicional desenho a tinta-da-china sobre papel, colorido com ecolines, mas com que o autor ficou bastante menos satisfeito do que os leitores, razão porque optou por voltar ao desenho digital nos seus trabalhos seguintes.
A menos óbvia das adaptações e, quanto a mim a mais conseguida, é a adaptação de Peter Pan de James Barrie com o Capitão América como Peter Pan e os restantes Vingadores como os Meninos Perdidos, em que o notável trabalho de pesquisa de João Lemos, que podemos apreciar mais em pormenor no dossier final, ajudou a dar maior solidez a uma belíssima história, tornada mágica pelo traço etéreo e estilizado de Lemos, muito bem servido pelas cores suaves de Christina Strain. Finalmente, Nuno Plati ilustra com grande elegância uma versão do Pinóquio de Carlo Collodi, como o Visão no papel do boneco que queria ser um menino de carne e osso.
Tem aqui o leitor seis histórias mágicas, unidas pelo argumento de Cebulski que fundem os contos de fadas, as lendas tradicionais e aos clássicos da literatura com a mitologia do Universo Marvel, dando origem a um novo género de contos de fadas. Contos pensados para os leitores do século XXI, para quem o Homem-Aranha e o Capitão América são tão ou mais familiares que o Pinóquio, ou o Peter Pan.

MAKING OF CONTOS DE FADAS MARVEL

Nas páginas que se seguem, podemos acompanhar a forma diferente, até no suporte (com o trabalho de Plati a ser inteiramente digital) como dois dos desenhadores portugueses deste volume abordaram a sua participação no projecto dos Contos de Fadas Marvel, através de exemplos do trabalho preparatório, que normalmente não chega ao leitor, que apenas tem acesso ao produto final. 

JOÃO LEMOS
  
Se, como já vimos no editorial que abre este volume, foi graças a João Lemos que Cebulski descobriu o talento e a versatilidade dos ilustradores portugueses, o desenhador luso nascido em 1977 ficará na história como o primeiro português a escrever uma história para a Marvel, pois Lemos foi o argumentista de Wolverine: The Dust from Above, uma história do mais popular mutante da Marvel, desenhada pela italiana Francesca Ciregia, para em seguida voltar a Wolverine como desenhador com The Adamantium Diaries, uma história curta, escrita por Sarah Cross para a revista Wolverine 1000. 
E o trabalho de Lemos para o mercado americano não se limitou à Marvel, pois ele foi um dos autores convidados por David Petersen para colaborar na série Tales of the Mouse Guard, editada pela Archaia Press, assinando como autor completo (argumento, desenhos cor e legendagem) a história que funciona como epílogo à edição encadernada, para além de ter trabalhado na série televisiva Once Upon a Time, da ABC, onde foi responsável pelas ilustrações do livro de contos de fadas que aparece no episódio piloto e tem um papel fundamental na série.

A grande cumplicidade existente entre Cebulski e João Lemos reflecte-se na forma quase orgânica como a história que transpõe o Peter Pan de J. M. Barrie para o Universo Marvel foi sendo construída. Nas palavras de Lemos: “O C.B. fez um guião/sinopse de guião que, como me coube a mim a pesquisa em relação à Terra do Nunca, foi sendo ampliado e remendado pelos dois ao longo do processo. Foram também feitos alguns ajustes em relação a que personagens Marvel equivaleriam a personagens da Neverland à medida que se avançava. A história foi trabalhada de um modo bastante orgânico, numa relação de ping-pong que preveniu grande parte das eventuais correcções, pois todas as partes estavam, mais do que a par dos avanços dos outros, envolvidas nos mesmos desde o início.”
Mas, para além da sintonia entre os dois criadores, outro aspecto importante deste trabalho é a pesquisa exaustiva que o desenhador efectuou e que lhe permitiu encher a história de referências à obra original J. M. Barrie, muitas delas só detectáveis pelos especialistas. Um trabalho exaustivo e por isso moroso, mas que deu grande prazer a Lemos como o próprio refere: “O ponto alto da pesquisa/imersão foi ter conseguido estabelecer contacto directo com Andrew Birkin, uma das maiores autoridades mundiais em tudo o que diz respeito a Peter Pan ou J.M. Barrie. Através da sua tremenda generosidade, tive acesso a recursos tais como scans das plantas de palco do quarto das crianças (do arquivo do Great Ormond St. Children's Hospital, que detém em perpetuidade os direitos de autor da obra). O quarto dos miúdos, nas primeiras páginas, é desenhado a partir da planta dos cenários da peça de teatro original, que o próprio J.M. Barrie traçou.  É apenas um dos vários easter eggs que couberam neste comic.”
A CONSTRUÇÃO DO JOLLY ROGER 
(OU COMO UMA MAQUETA TRIDIMENSIONAL AJUDA A CONTAR UMA HISTÓRIA EM BD)
Se a maqueta que Lemos construiu do quarto de Wendy com base nos cenários da primeira representação teatral de Peter Pan, sofreu um acidente fatal e está hoje reduzida a escombros, os leitores podem ver nesta página a outra maqueta que João Lemos usou para a sua participação no projecto Avengers Fairy Tales. A maqueta do Jolly Roger, o navio-pirata do Capitão Gancho, ou neste caso, do seu equivalente nos Contos de Fadas da Marvel, o Garra Sónica. A construção deste modelo tridimensional permitiu a Lemos estabelecer de forma mais rigorosa a diferente colocação das personagens no navio ao longo da história e ter uma noção mais exacta da coreografia a estabelecer para essas personagens.  

NUNO PLATI

De entre os três artistas lusos presentes neste livro, Nuno Plati, é indiscutivelmente o que mais histórias tem publicadas na Marvel. Nascido em Lisboa em 1975, Plati tem formação em Design Gráfico na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e como ilustrador freelancer trabalhou para os principais jornais e revistas nacionais e para empresas de dimensão global como a Marvel, a EA Games ou a Axis Animation, no design de personagens, storyboards, e livros de Banda Desenhada.
Para além da história que tivemos ocasião de ler neste livro, o trabalho de Plati para a “Casa das Ideias” disponível no nosso país inclui uma história curta para a revista Iron Man: Titanium (já publicada numa anterior colecção que a Levoir dedicou à Marvel) e um one-shot da X-23 - desenhada a meias com outro português, Filipe Andrade - que poderão ler no próximo volume desta colecção, dedicado às mais sensuais mulheres da Marvel. Ainda para a Marvel, Plati foi também responsável pelo desenho completo e cor dos comics Shanna, the She Devil e Marvel Girl, a que se seguiu mais uma história curta para a revista Amazing Spider-Man # 657, que assinala a entrada do Homem-Aranha para o Quarteto Fantástico, na sequência da morte de Johnny Storm, o Tocha Humana, pela mini-série Marvel Universe: Ultimate Spider-man e pelos números 10 e 11 da revista Superior Foes of Spider-man. Mais recentemente, desenhou a mini-série Alpha: Big Time, com argumento de Joshua Hale Fialkov e participou, com outros desenhadores no número final da revista Wolverine and the X-Men, escrita por Jason Aaron. 
Plati, que já tinha trabalhado com C. B. Cebulski numa história curta para a antologia 24/Seven, publicada pela Image, teve uma abordagem bastante mais descontraída do que João Lemos à fase da pesquisa, até porque a escolha do andróide Visão como o equivalente da Marvel do Pinóquio, era bastante evidente. 
Para além do filme da Disney, que apresenta uma versão mais asséptica e ligeira da história original de Carlo Collodi, a pesquisa de Plati incidiu mais no livro de Collodi e no trabalho dos diferentes ilustradores que ilustraram este clássico, de modo a entrar melhor no ambiente da história.
A partir daqui, a história foi crescendo de forma orgânica, através do diálogo constante com C. B. Cebulski e, com excepção de uma versão da Feiticeira Escarlate em criança, que acabaria por não entrar na história e de uma versão do Visão/Pinóquio com um colete, que acabaria por não ser usada, os estudos de personagens que podem ver nestas páginas foram aceites sem qualquer outra alteração – algo de invulgar no sistema de funcionamento habitual da indústria americana dos comics, em que o “editor” (termo que nos EUA designa não o dono da editora – o Publisher – mas sim quem faz o editing da história, sugerindo as alterações que considera necessárias aos autores) assegura a ligação entre a editora e as várias pessoas envolvidas no projecto, que não necessitam de estar fisicamente próximas e que, muitas vezes, nem sequer se conhecem pessoalmente. Neste caso, e tal como aconteceu com Lemos, deu lugar a um diálogo frutuoso entre amigos - o argumentista americano e os desenhadores portugueses - com Molly Lazer, a editora da série, a ter uma intervenção bastante menor do que é habitual.
Depois desta estreia fulgurante, com excepção do próprio Plati, que tem trabalhado com regularidade para a Marvel, os restantes artistas que se estrearam na com este projecto, acabaram por não ter as oportunidades que provavelmente esperavam de trabalhar com maior frequência para a “Casa das Ideias”, sendo o mais flagrante o caso de Tércio, que depois disso apenas coloriu a mini-série Onslaught Unleashed, desenhada pelo português Filipe Andrade. Na realidade, as características únicas e distintas do estilo personalizado dos desenhadores nacionais, que foi o que levou Cebulski a apostar neles, tornou-os difíceis de encaixar nas histórias de super-heróis mais tradicionais. João Lemos, por exemplo, teve editores que lhe disseram que o estilo dele era “demasiado mágico” para as histórias de super-heróis…
Por isso, Nuno Plati interroga-se se não teria sido melhor para as suas carreiras se os projectos para a Image se tivessem concretizado e a estreia no mercado americano não se tivesse feito através da Marvel. Sendo impossível de saber se assim seria, o que é uma verdade incontornável é que foi com os Contos de Fadas da Marvel que tudo começou. E é esse momento fundamental na carreira internacional dos três ilustradores portugueses, que está finalmente disponível em português no país que os viu nascer, numa edição que faz justiça à importância do acontecimento.   

domingo, 12 de outubro de 2014

Universo Marvel 14 - Thor e Capitão América: A Essência do Medo


THOR E OS VINGADORES CONFRONTAM OS SEUS MAIORES MEDOS

UNIVERSO MARVEL VOL 14
Universo Marvel: A Essência do Medo
Argumento – Matt Fraction
Desenhos – Stuart Immonen e Wade von Grawbadger
Quinta, 09 de Outubro + 8,90€
As consequências do cerco a Asgard que pudemos acompanhar no volume anterior, concretizam-se de forma tão trágica como espectacular neste A Essência do Medo, em que os esforços de Odin para evitar a concretização de uma antiga profecia que previa a morte do seu filho, Thor, e esconder erros passados, vão ter consequências de tal maneira graves, que podem até implicar a destruição da raça humana.
Thor, o Capitão América e os Vingadores vão ter que se opor aos desígnios de Odin, que se prepara para incendiar a Terra para salvar Asgard, mas esse está longe de ser o maior dos seus problemas, pois uma nova ameaça perfila-se no horizonte: Jormungand, a Serpente de Midgard, cuja morte às mãos de Thor, que também não sobreviverá ao combate, segundo as profecias, anunciará a chegada do Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses.
À medida que os imensos poderes mágicos da Serpente devastam o planeta, que aliados e inimigos são transformados em forças de destruição, Thor e os outros heróis terão que enfrentar e vencer os seus medos mais profundos, mesmo que no caso de Thor, cujo destino foi traçado pelos erros de Odin, este saiba que a vitória só é possível através do sacrifício derradeiro.
Assim, o medo, sob as mais diversas formas está no centro desta história épica e sombria. Medo de Odin, Deus e pai, pela vida do seu filho, Thor. O medo de uma filha, Pecado, que teme não estar à altura das ambições do pai, o Caveira Vermelha. O medo do Capitão América pelo caminho que o país de que é símbolo está a tomar. O medo de um cientista, Tony Stark, o Homem de Ferro, que se vê obrigado a recorrer à magia, quando a ciência se mostra incapaz de deter os poderes mágicos da Serpente e dos seus aliados involuntários e o medo de Peter Parker, o Homem-Aranha, de perder aqueles que lhe são queridos, que o leva a abandonar o campo de batalha e percorrer as ruas de Nova Iorque à procura da sua tia May.
É esse medo, que aproxima Deuses e mortais, heróis e vilões, que está no cerne de uma história cujo título é inspirado no famoso discurso de Franklin D. Roosevelt em 1929, em que avisou o povo americano, que “a única coisa que devemos temer é o próprio medo”. Uma escolha que não é inocente, pois Matt Fraction, o autor desta história, que é um dos mais populares e premiados argumentistas do momento, graças ao seu trabalho nas séries Hawkeye e Sex Criminals, faz um paralelo com a América da Grande Depressão, utilizando Deuses e Super-Heróis numa reflexão sobre os medos bem reais que marcam o Zeitgeist da América do século XXI, atormentada pelos traumas dos atentados de 11 de Setembro e pela crise económica iniciada em 2008 e que não dá mostras de ser superada.
A dar corpo a este relato tão certeiro como perturbador, Fraction conta com o traço de Stuart Immonen, desenhador que começou a dar nas vistas na rival DC Comics, onde ilustrou as aventuras do Super-homem e da Legião dos Super-Heróis, cujo traço dinâmico e detalhado se mostra igualmente adequado às cenas épicas de combates, como aos momentos mais intimistas.
Texto publicado no jornal Público de 03/10/2014