Num ano marcado pelo regresso dos principais
heróis da Marvel ao cinema, que se iniciou com o segundo filme do Capitão
América, nenhum regresso é tão aguardado como o dos X-Men, os populares
mutantes, que estão de volta num filme que, além de assinalar o retorno do
realizador
Bryan Singer à franquia que ajudou a lançar, reúne no mesmo ecrã os
principais actores da trilogia inicial, com os da prequela dirigida por
Matthew
Vaughn, que relançou a série no cinema.
Para juntar num mesmo filme duas distintas
versões temporais dos mesmos personagens, era preciso encontrar primeiro uma
história que o possibilitasse. História essa que já existia e que tinha sido
publicada em 1981, nos # 141 e 142 da revista
The Uncanny X-Men. Refiro-me,
como já terão percebido os leitores mais atentos, ao clássico
Days of the
Future Past, de
Chris Claremont e
John Byrne, uma história inesquecível que
voltará a estar disponível em português este Outono, na nova colecção da Marvel
que a Levoir vai lançar com o jornal
Público.
Apesar de durar apenas dois números, está é uma
das histórias mais míticas da incontornável passagem de Claremont e Byrne pelos
mutantes da Marvel, tendo tido diversas continuações e uma influência visível
noutras áreas, incluindo no cinema, onde é possível detectar ecos evidentes do
Days
of the Future Past no filme
Terminator, de
James Cameron.
A história em causa tem por cenário um futuro
distópico, com Nova Iorque destruída e o mundo à beira de um ataque nuclear, em
que os mutantes são perseguidos pelos Sentinelas, robôs gigantes criados para
detectar e eliminar mutantes, e abatidos, ou encerrados em campos de
concentração.
É esse futuro, passado no então distante ano de 2013, que os
raros sobreviventes dos X-Men tentam evitar, enviando Kitty Pryde para os anos
80, de modo a impedir o assassinato do Senador Robert Kelly por um mutante,
acontecimento fulcral, que a concretizar-se, irá desencadear esse futuro negro
em que os mutante deixam apenas de ser olhados com desconfiança, para passarem
a ser caçados e abatidos como cães raivosos.
Lauren Shuler Donner, responsável pela produção
de todos os filmes da série é a primeira a reconhecer a importância desta
história incontornável. Como a própria refere " sempre adorei
Days of
the Future Past e sempre quis fazê-la no cinema. Desde o primeiro
X-Men que
fomos roubando a história, pedaço a pedaço. Agora que já a saqueamos, podemos
finalmente adaptá-la".
Mas essa nem sempre foi a ideia para este filme.
Face ao sucesso de
X-Men: O Início, a vontade do Estúdio ia para uma sequela
com os mesmos actores, passada pouco depois do filme anterior, cuja acção
decorre no início dos anos 60, mais concretamente em 1962, com a crise dos
Mísseis de Cuba em primeiro plano. A ideia inicial explorava a participação de
Magneto no assassinato do Presidente Kennedy, mas Mathew Vaughn preferia antes
transferir a acção para os anos 70, sendo escolhido o ano de 1973 por assinalar
a fase final da guerra do Vietname e ser também o ano em que foram
assinados os acordos de paz de Paris.
Foi então que
Tom Rothman, um director dos
Estúdios Fox se lembrou que o filme podia começar e terminar com Patrick
Stewart e Ian McKelen, os actores que interpretaram O Professor X e Magneto nos
primeiros filmes, de modo a juntar os dois universos. Claro que, para isso ser
possível era preciso que alguém viajasse no tempo até ao passado e ficou logo
óbvio para todos que a história de Claremont e Byrne seria o ponto de partida
ideal para isso.
Naturalmente que o filme que chega aos cinemas
este mês de Maio, não adapta directamente a história clássica da BD, mas usa o
conceito de forma inteligente para juntar no mesmo filme um leque
impressionante de actores, representando duas gerações de X-Men unidas para
mudar o futuro. As diferenças são várias, começando logo na data em que se
passa a sequência no futuro, que de 2013 passa para 2023, e no membro dos X-Men
que regressa ao passado, que no filme não é Kitty Pryde, mas o Wolverine. Uma
mudança lógica, pois nos anos 70 A mutante ainda não era sequer nascida,
enquanto que Wolverine, graças ao seu factor de cura, praticamente não
envelhece. Além disso, está solução permite dar mais tempo de ecrã ao mais
popular dos mutantes, que na BD original é rapidamente pulverizado pelos
Sentinelas, permitindo a
Hugh Jackman regressar pela sétima vez à personagem
que o tornou famoso.
Quando
Matthew Vaughn, que tinha escrito o
argumento do filme, em colaboração com
Jane Goldman e
Simon Kinberg, decide
abandonar a realização de
Dias de um Futuro Esquecido, para se dedicar à
adaptação ao cinema de
The Secret Service, o novo projecto do
Argumentista
Mark Millar, com quem Vaughn já tinha trabalhado em
Kick-Ass, foi
necessário encontrar um substituto. Um contratempo que acabou por criar as
condições ideais para Bryan Synger, que tinha saído em litígio com os Estúdios
Fox quando decidiu abandonar o terceiro filme dos
X-Men para dirigir
O
Regresso de Superman, regressar em glória à franquia que ajudou a lançar.
Um regresso que permitiu a Singer, que conversou
longamente com James Cameron sobre viagens no tempo e universos paralelos,
dirigir actores do calibre de
Michael Fassbender, Ian McKelen, James McAvoy,
Hale Berry, Jennifer Lawrence, Hugh Jackman, Ellen Page e
Anna Paquin, mesmo
que no caso da actriz que faz de Rogue, a sua participação no filme tenha
acabado por ser cortada na montagem final e só possa ser vista mais tarde nos
extras da edição em DVD.
Mas se Rogue está fora do filme, há outros
mutantes novos que aparecem aqui pela primeira vez, como Blink, Sunspot,
Warpath, QuickSilver e Bishop, tal como o vilão Bolívar Trask, o inventor dos
sentinelas, interpretado por
Peter Dinklage, o tão pequeno quanto carismático
actor que faz de Tyrion Lannister na série televisiva
Game of Thrones.
Depois daquele que tem tudo para ser o maior
filme dos X-Men e um dos maiores filmes de super-heróis de sempre, Bryan Singer
já trabalha em
X-Men: Apocalipse, o próximo filme da saga, com estreia
marcada para 2016. Um ano que promete para os fãs dos filmes de super-heróis,
pois para além dos X-Men, estreia também o terceiro filme do Capitão América e
tão aguardado encontro entre Batman e Superman.
Texto publicado originalmente na revista X-Men nº 4, de Maio de 2014