quarta-feira, 21 de maio de 2014

Textos Editoriais MARVEL NOW! 3 - X-Men: Dias de um Futuro Esquecido


Num ano marcado pelo regresso dos principais heróis da Marvel ao cinema, que se iniciou com o segundo filme do Capitão América, nenhum regresso é tão aguardado como o dos X-Men, os populares mutantes, que estão de volta num filme que, além de assinalar o retorno do realizador Bryan Singer à franquia que ajudou a lançar, reúne no mesmo ecrã os principais actores da trilogia inicial, com os da prequela dirigida por Matthew Vaughn, que relançou a série no cinema.
Para juntar num mesmo filme duas distintas versões temporais dos mesmos personagens, era preciso encontrar primeiro uma história que o possibilitasse. História essa que já existia e que tinha sido publicada em 1981, nos # 141 e 142 da revista The Uncanny X-Men. Refiro-me, como já terão percebido os leitores mais atentos, ao clássico Days of the Future Past, de Chris Claremont e John Byrne, uma história inesquecível que voltará a estar disponível em português este Outono, na nova colecção da Marvel que a Levoir vai lançar com o jornal Público.
Apesar de durar apenas dois números, está é uma das histórias mais míticas da incontornável passagem de Claremont e Byrne pelos mutantes da Marvel, tendo tido diversas continuações e uma influência visível noutras áreas, incluindo no cinema, onde é possível detectar ecos evidentes do Days of the Future Past no filme Terminator, de James Cameron. A história em causa tem por cenário um futuro distópico, com Nova Iorque destruída e o mundo à beira de um ataque nuclear, em que os mutantes são perseguidos pelos Sentinelas, robôs gigantes criados para detectar e eliminar mutantes, e abatidos, ou encerrados em campos de concentração.
É esse futuro, passado no então distante ano de 2013, que os raros sobreviventes dos X-Men tentam evitar, enviando Kitty Pryde para os anos 80, de modo a impedir o assassinato do Senador Robert Kelly por um mutante, acontecimento fulcral, que a concretizar-se, irá desencadear esse futuro negro em que os mutante deixam apenas de ser olhados com desconfiança, para passarem a ser caçados e abatidos como cães raivosos. Lauren Shuler Donner, responsável pela produção de todos os filmes da série é a primeira a reconhecer a importância desta história incontornável. Como a própria refere " sempre adorei Days of the Future Past e sempre quis fazê-la no cinema. Desde o primeiro X-Men que fomos roubando a história, pedaço a pedaço. Agora que já a saqueamos, podemos finalmente adaptá-la".
Mas essa nem sempre foi a ideia para este filme. Face ao sucesso de X-Men: O Início, a vontade do Estúdio ia para uma sequela com os mesmos actores, passada pouco depois do filme anterior, cuja acção decorre no início dos anos 60, mais concretamente em 1962, com a crise dos Mísseis de Cuba em primeiro plano. A ideia inicial explorava a participação de Magneto no assassinato do Presidente Kennedy, mas Mathew Vaughn preferia antes transferir a acção para os anos 70, sendo escolhido o ano de 1973 por assinalar a fase final da guerra do Vietname e ser também o ano em que foram assinados os acordos de paz de Paris.
Foi então que Tom Rothman, um director dos Estúdios Fox se lembrou que o filme podia começar e terminar com Patrick Stewart e Ian McKelen, os actores que interpretaram O Professor X e Magneto nos primeiros filmes, de modo a juntar os dois universos. Claro que, para isso ser possível era preciso que alguém viajasse no tempo até ao passado e ficou logo óbvio para todos que a história de Claremont e Byrne seria o ponto de partida ideal para isso.
Naturalmente que o filme que chega aos cinemas este mês de Maio, não adapta directamente a história clássica da BD, mas usa o conceito de forma inteligente para juntar no mesmo filme um leque impressionante de actores, representando duas gerações de X-Men unidas para mudar o futuro. As diferenças são várias, começando logo na data em que se passa a sequência no futuro, que de 2013 passa para 2023, e no membro dos X-Men que regressa ao passado, que no filme não é Kitty Pryde, mas o Wolverine. Uma mudança lógica, pois nos anos 70 A mutante ainda não era sequer nascida, enquanto que Wolverine, graças ao seu factor de cura, praticamente não envelhece. Além disso, está solução permite dar mais tempo de ecrã ao mais popular dos mutantes, que na BD original é rapidamente pulverizado pelos Sentinelas, permitindo a Hugh Jackman regressar pela sétima vez à personagem que o tornou famoso.
Quando Matthew Vaughn, que tinha escrito o argumento do filme, em colaboração com Jane Goldman e Simon Kinberg, decide abandonar a realização de Dias de um Futuro Esquecido, para se dedicar à adaptação ao cinema de The Secret Service, o novo projecto do Argumentista Mark Millar, com quem Vaughn já tinha trabalhado em Kick-Ass, foi necessário encontrar um substituto. Um contratempo que acabou por criar as condições ideais para Bryan Synger, que tinha saído em litígio com os Estúdios Fox quando decidiu abandonar o terceiro filme dos X-Men para dirigir O Regresso de Superman, regressar em glória à franquia que ajudou a lançar. Um regresso que permitiu a Singer, que conversou longamente com James Cameron sobre viagens no tempo e universos paralelos, dirigir actores do calibre de Michael Fassbender, Ian McKelen, James McAvoy, Hale Berry, Jennifer Lawrence, Hugh Jackman, Ellen Page e Anna Paquin, mesmo que no caso da actriz que faz de Rogue, a sua participação no filme tenha acabado por ser cortada na montagem final e só possa ser vista mais tarde nos extras da edição em DVD.

Mas se Rogue está fora do filme, há outros mutantes novos que aparecem aqui pela primeira vez, como Blink, Sunspot, Warpath, QuickSilver e Bishop, tal como o vilão Bolívar Trask, o inventor dos sentinelas, interpretado por Peter Dinklage, o tão pequeno quanto carismático actor que faz de Tyrion Lannister na série televisiva Game of Thrones.
Depois daquele que tem tudo para ser o maior filme dos X-Men e um dos maiores filmes de super-heróis de sempre, Bryan Singer já trabalha em X-Men: Apocalipse, o próximo filme da saga, com estreia marcada para 2016. Um ano que promete para os fãs dos filmes de super-heróis, pois para além dos X-Men, estreia também o terceiro filme do Capitão América e tão aguardado encontro entre Batman e Superman.
Texto publicado originalmente na revista X-Men nº 4, de Maio de 2014

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Fernando Relvas e a revista Tintin em destaque no CNBDI da Amadora


É já na sexta-feira, dia 16 de Maio, que inaugura a exposição Fernando Relvas e a revista Tintin, que tive o prazer de comissariar, aproveitando o espólio de originais de Relvas que a Câmara Municipal da Amadora adquiriu em 2013. Vão estar expostos originais do Espião Acácio, Viagem ao Centro da Terra, Rosa Delta sem Saída, L123, Cevadilha Speed e Slow Motion, que permitem perceber a evolução do traço de Relvas e recordar histórias e personagens inesquecíveis. Se estiverem por aqueles lados, apareçam!

sábado, 26 de abril de 2014

Estética, propaganda e Utopia no Portugal do 25 de Abril



Vai esta noite para o ar na RTP2, pelas 22h, o documentário de Paulo Seabra, Estética, Propaganda e Utopia no Portugal do 25 de Abril. Tal como aconteceu com o VER BD, a série documental sobre a Banda Desenhada portuguesa que Seabra realizou com Pedro Vieira de Moura, também desta vez gravei um depoimento sobre a BD e o cartoon, antes e depois do 25 de Abril, juntando a minha voz à de (bem mais) ilustres entrevistados, como o historiador Fernando Rosas e os designers Jorge Silva e Henrique Cayatte, entre outros. Aqui fica então o trailler.

ACTUALIZAÇÃO -  O documentário já está disponível no site da RTP e pode ser visto aqui


O Capitão Falcão está chegar!



Terminada a semana revolucionária do 25 de Abril e do 1º de Maio, é tempo para algo completamente diferente. Aqui vos deixo então com o super-herói preferido de Salazar, o Capitão Falcão. Personagem de culto que parodia a estética  e a ideologia do Estado Novo e séries de televisão como o Batman e Green Hornet, o Capitão Falcão esteve para protagonizar uma série de televisão em 2011, de que apenas se filmou o divertido episódio-piloto, cujo trailer pode ser visto aqui. Mas goradas as negociações com a RTP para a exibição da série, o herói fascista vai prosseguir a sua luta contra o comunismo no grande ecrã, na companhia do seu inseparável side-kick, o Puto Perdiz, de Salazar, e de Dom Afonso Henriques. Tudo isto num filme escrito e realizado por João Leitão,  que foi o produtor da série Um Mundo Catita, protagonizada por Manuel João Vieira e realizada pelo grande Filipe Melo.

A longa metragem que ainda não tem data de estreia, vai chegar às salas de cinema ainda este ano e, entre vários actores conhecidos, como Miguel Guilherme, Bruno Nogueira, José Pinto e Gonçalo Wadington, que faz de Capitão Falcão,e de David Chan, que além do papel de Puto Perdiz, é responsável pela coreografia das (excelentes) cenas de acção, conta ainda com Ricardo Carriço como Major Al...berto, numa óbvia alusão a outra personagem de culto que também teve direito a uma série televisiva, o famoso Jaime Eduardo de Cook e Alvega, mais conhecido por Major Alvega.
Esperemos que o sucesso do filme facilite a realização de uma série de TV, pois o Capitão Falcão ainda tem muitas aventuras para viver. Mas o melhor é esperar para ver como corre o filme nas bilheteiras e não fazer grandes planos, pois como bem diz o Capitão Falcão, elogiando a conhecida capacidade de improviso lusitana:" Somos portugueses. Não precisamos de planos!"


sábado, 19 de abril de 2014

Lá Fora - Charly 9, de Richard Guerineau e Jean Teulé


Publicado em França em finais do ano passado pela Delcourt, Charly 9 adapta à BD o romance de Jean Teulé sobre o Rei Carlos IX de França, que entrou para a História como o responsável pelo famoso massacre da noite de São Bartolomeu, em que vários milhares de protestantes huguenotes foram chacinados em Paris, por ordem da Coroa francesa, às mãos de católicos fervorosos. Uma personagem trágica que, perseguida pelos remorsos, vai morrer louco um ano depois, a suar sangue, com apenas 23 anos.

Este episódio sangrento da História de França, ocorrido na noite de 23 para 24 de Agosto de 1572, dia de São Bartolomeu, inspirou diversas obras de ficção, começando pelo livro A Raínha Margot, de Alexandre Dumas, (é a Dumas que se deve a propagação da lenda de que o Rei Carlos IX teria morrido a suar sangue, informação não referida na autópsia) adaptado ao cinema num filme de Patrice Cheréau, com Isabelle Adjani, particialmente filmado em Portugal, no Convento de Mafra.  Também George R. R. Martin foi buscar inspiração nesta tragédia real para a famosa cena do Casamento Vermelho, um dos momentos mais perturbadores da saga da Guerra dos Tronos. Mais recentemente, em 2011, o escritor francês Jean Teulé utilizou o mesmo ponto de partida para a biografia romanceada de Carlos IX, que esteve na base da BD de Richard Guérineau, que motiva este texto.
 Nomeado para os últimos  Prémios de Angoulême, Charly 9 acabou por não ganhar nada, o que me pareceu uma injustiça, pois trata-se de um excelente livro, dos melhores que li este ano, que explora de uma forma surpreendente as imensas potencialidades da linguagem da Banda Desenhada.
Tão mais surpreendente, pois os trabalhos anteriores de Guérineau não deixavam antever tamanha versatilidade e uma utilização tão criativa da herança clássica da BD franco-belga, que se adapta muito bem ao humor do texto original de Teulé, onde a comédia e a tragédia andam a par, bem evidente logo na cena inicial, em que a Raínha-mãe, Catarina de Médicis, e o resto da Corte manipulam o jovem Rei para ele dar a sua autorização para o massacre.
Nascido em 1969, Guérineau é conhecido sobretudo pelo seu trabalho como desenhador na série Le Chant des Stryges, escrita por Éric Corbeyran, tendo desenhado recentemente um álbum da série XIII Mystery, com argumento de Fabien Nury. Em ambos os casos, o seu trabalho mostrava um registo realista bastante clássico, que não deixava adivinhar  tamanha versatilidade gráfica.
Mas,muito  mais do que uma mera demonstração de virtuosismo vazia, Guérineau pretende, nas suas próprias palvras, "dar conta das mudanças de registo do texto de Teulé, através de rupturas gráficas, seguindo os capítulos, em tormo dos temas da morte, da loucura e do sangue".
E essas rupturas são bem evidentes, com o resgisto mais realista da cena inicial, em que o dramatismo é dado sobretudo pela cor e pela iluminação, a ser posteriormente substituído por cenas de alto contraste, quase monocromáticas, com um grau de estilização que não está longe do Sin City de Frank Miller, que transmitem bem a dimensão do massacre. Mas o mais curioso, são mesmo as homenagens inesperadas a Morris, o criador de Lucky Luke e, sobretudo a Peyo, com a descrição de uma caçada do Rei a ser mostrada como se se tratasse de uma história de Johan e Pirlouit.

Como referiu numa entrevista à revista Casemate:  "Com Charly 9, tinha vontade de mudar de época, de registo gráfico. Mas também de formato, com menos quadrados por prancha e, de tempos a tempos, com desenhos de página inteira. Perante a rotina de uma série como Le Vent des Stryges, estas histórias completas tornaram-se uma necessidade."
Face aos resultados conseguidos com este Charly 9, esperemos que Guérineau continue a intervalar os álbum de Le Chant des Stryges, série que já vai em 15 volumes, com as histórias em álbum que lhe permitem mudar de registo.
Os leitores agradecem!
E para terminar, deixo-vos com o belo trailler feito pela Editora para divulgar este livro.
Charly 9, de Teulé e Guerineau, Delcourt, 2013. à venda na Livraria Dr. Kartoon