quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Cinema e Banda Desenhada no Cineclube de Tomar


O Cineclube de Tomar vai apresentar um conjunto de filmes subordinado ao tema Cinema e Banda Desenhada Francesa

Este Ciclo será apresentado em dois fins de semana: 21, 22, 23 de Novembro, e 5, 6, 7 de Dezembro. Em cada fim de semana teremos duas sessões para adultos e duas sessões infantis. As sessões infantis (às 15.30h) terão entrada livre.
Nas sessões para adultos serão cobrados os valores habituais.

Organizadores:
João Miguel Lameiras, Mestre em História da Arte pela Universidade de Coimbra e docente nos Mestrados de Ilustração e Animação da ESAP em Guimarães e do IPCA em Barcelos, tem desenvolvido vasta actividade no campo da Banda Desenhada enquanto crítico, investigador, conselheiro editorial, livreiro, tradutor e curador de diversas exposições. Autor do blog “Por um Punhado de Imagens”

João Miguel Reis, médico, amante de BD, e livreiro especializado em BD.

Duas artes visuais nascidas no final do século XIX, o Cinema e a Banda Desenhada percorreram um longo caminho juntas, de que o actual boom de adaptações cinematográficas de super-heróis levadas a cabo pelos grandes estúdios de Hollywood, é a face mais visível, com um protagonismo tal que acaba por tirar visibilidade a outras adaptações, feitas deste lado do Atlântico.

Concretamente, o cinema de expressão francesa tem uma grande ligação com a Banda Desenhada, menos conhecida do grande público e que, por isso mesmo, importa divulgar.

Uma ligação que começa mesmo com os irmãos Lumiere, cujo filme “L'Arroseur Arrosé” adapta directamente uma BD popularizada pelas célebres “Images d' Epinal”, gravuras vendidas avulsas muito populares no século XIX e inícios do século XX.

Uma ligação que se mantém até à actualidade, onde encontramos autores de BD como Enki Bilal, Marjane Satrapi e Joann Sfar a adaptarem os seus próprios livros ao cinema. É esse universo criativo que pretendemos mostrar num ciclo dedicado ao cinema e à Banda Desenhada francesa.

Programação 1º fim de semana:


21 de Novembro: Barbarella, de Roger Vadim (19h)  

22 de Novembro: O Menino Nicolau, de Laurent Tirard (15.30h)
                              Galinha com Ameixas, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (21.30H)
                           
23 de Novembro: Titeuf, de Zep (15.30h)


Programação 2º fim de semana:


5 de Dezembro: Imortal, de Enki Bilal (19h)

6 de Dezembro: O Gato do Rabino (15.30h)
                           A Vida de Adèle de Abdellatif Kechiche (Palma de Ouro no Festival de Cannes 2013) (21.30h)
                                                     
7 de Dezembro: Astérix e Cleópatra, de Jean Chabat (15.30h)

Se estiverem por esses lados, apareçam!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sábado, eles vão estar no Dr. Kartoon!


Como não podia deixar de ser, a Livraria Dr. Kartoon é um ponto de passagem obrigatório da tournée de lançamento do 3º volume da série Dog Mendonça, que Filipe Melo e sus muchachos, andam a fazer pelo país.
Assim, no sábado, 16 de Novembro, a partir das 18h30m, lá vos esperamos na Dr. Kartoon. para dois dedos de conversa e um autógrafo, com o Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa. Para o pessoal que fôr de Lisboa, fica o encontro marcado para o dia seguinte, no Fórum Fantástico, a decorrer desde esta sexta-feira, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras. Apareçam!.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

DC Comics Uncut 18 - Batman: Outros Mundos


OUTROS MUNDOS, O MESMO BATMAN

Todos conhecemos bem os principais heróis da DC comics. As suas origens, poderes, os seus principais amigos e adversários, o meio onde se movimentam… Mas, e se esses heróis familiares fossem retirados dos cenários habituais das suas aventuras e “transportados para outros tempos ou lugares - lugares que existiram, ou podiam ter existido, ou outros que não existem, não podiam, ou não deviam existir. O resultado são histórias que fazem com que as personagens que são tão familiares como o dia de ontem pareçam tão inovadoras como o dia de amanhã”.

Estas palavras, escritas por Denny O’Neil, definem com exactidão a premissa que orienta este volume e a linha Elseworlds, ou em português, Outros Mundos. Uma linha em que é dada aos autores a liberdade de pegar em personagens icónicas e imediatamente reconhecíveis, heróis clássicos como o Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha e transpô-los para contextos diferentes e inesperados, sejam épocas distantes ou mundos estranhos, jogando com essa diferença para criar histórias únicas, impossíveis de concretizar no contexto tradicional da cronologia regular do universo DC. Se as histórias imaginárias não eram exactamente uma novidade na DC Comics, sendo bastante frequentes durante a década de 60, especialmente nas revistas do Super-Homem editadas por Mort Weisinger que, não por acaso, era conhecido como “o rei das histórias imaginárias”, a linha Elseworlds, activa entre 1989 e 2005, veio desenvolver esse conceito, sem colocar qualquer limite às suas imensas potencialidades, levando-o até bastante mais longe do que Weisinger poderia sequer sonhar.  
As histórias protagonizadas pelo Batman que publicamos neste número exploram precisamente as imensas possibilidades proporcionadas pela linha Elseworlds, transpondo o Cavaleiro das Trevas para os finais do século XIX, onde tem de defrontar  Jack, o Estripador, numa Gotham City iluminada por candeeiros a gás e onde as sombras e o nevoeiro criam uma atmosfera tão misteriosa como sombria, ou transformando-o num vampiro de modo a combater a ameaça do mais poderoso de todos os vampiros, o Conde Drácula, ou ainda levando-o a enfrentar uma entidade lovecraftiana num cemitério, numa história em que as fronteiras entre o sonho e a realidade são demasiado difusas para serem perceptíveis.

Uma das razões que levaram Bruce Wayne a adoptar a imagem de um morcego, foi a necessidade de “infundir o terror no coração dos criminosos” e as três histórias que compõem este volume, mostram a forma como o terror e o Cavaleiro das Trevas podem andar de braço dado, ao tocarem diferentes géneros de terror. Gotham By Gaslight é um conto policial, com um clima de terror vitoriano, protagonizado pelo primeiro e mais famoso de todos os serial killers, Jack, o Estripador; Batman & Dracula: Red Rain é uma história de vampiros que tem Gotham City como cenário, mas uma Gotham City que parece saída do cruzamento entre a frieza de um filme expressionista alemão e a sensualidade dos filmes de vampiros da produtora Warren; enquanto que Sanctum é uma história de fantasmas, ambientada num cemitério e cheia de referências à obra de do escritor H. P. Lovecraft.
Publicada originalmente em 1989, Gotham by Gaslight é anterior à criação oficial da linha Elseworlds, mas foi posteriormente considerada como a primeira história do género, até porque foi o seu grande sucesso, tanto comercial, como crítico, que levou a DC a explorar de forma consistente as infinitas potencialidades deste tipo de histórias. Pensada originalmente para uma edição anual da revista Batman, a história, nascida de uma simples conversa entre o editor Mark Waid e o argumentista Brian Augustyn, rapidamente ganhou outra dimensão, graças ao entusiasmo do editor-chefe Dick Giordano e do desenhador Mike Mignola, cujo traço único, muito bem servido pela arte-final de P. Craig Russell contribuiu para a atmosfera sombria do livro.

Mignola, que tinha acabado de desenhar Cosmic Odissey, uma saga cósmica escrita por Jim Starlin, em que a Liga da Justiça se confronta com os personagens criados por Jack Kirby para o seu Fourth World, não pretendia continuar a ser conotado com as histórias tradicionais de super-heróis e Gotham By Gaslight permitia-lhe mudar de registo, numa história de época, em que a pesquisa histórica é fundamental, pois Bruce Wayne cruza-se com Sigmund Freud e personagens reais como Ted Roosevelt e os actores Conrad Vedlt e Bela Lugosi emprestam as suas feições a alguns dos protagonistas.
Publicada originalmente em 1991, e colocada pelo site especializado IGN Comics no Top Ten das melhores novelas gráficas protagonizadas pelo Cavaleiro das Trevas, Batman & Dracula: Red Rain, coloca o homem morcego em confronto com o mais famoso vampiro da literatura, o Conde Drácula, criado por Bram Stoker. Mas, mais do que ao romance original vitoriano, o livro escrito por Doug Moench presta homenagem ao cinema expressionista alemão dos anos 30, aos filmes de terror da Hammer, protagonizados por Peter Cushing e Christopher Lee e à arquitectura de Gaudí, contando com o contributo inspirado do traço pormenorizado de Kelley Jones e da arte-final de Malcom Jones III, dupla que estava perfeitamente à vontade a ilustrar histórias de terror e fantasia, por ter colaborado regularmente com Neil Gaiman na prestigiada série Sandman.

Publicada originalmente em 1993, no nº 54 da revista Legends of the Dark Knight, Sanctum não pode ser considerada como pertencendo à linha Elseworlds, mas o facto de assinalar o regresso de Mignola ao Batman depois de Gotham By Gaslight, de ser uma das melhores histórias de terror com o Batman como protagonista e de ser um momento incontornável da evolução do desenhador como criador, levaram-nos a incluí-la neste volume. Embora Dan Raspler surja creditado como argumentista, esta é uma história imaginada por Mignola, em que o seu universo estético e criativo já está bem presente. Ou seja, embora Sanctum seja uma história do Batman, o Mignola que conhecemos da série Hellboy, já é visível aqui e a história funcionaria igualmente bem se Hellboy substituísse o Cavaleiro das Trevas como protagonista. Veja-se a planificação, o uso das sombras, ou a utilização dos cenários, mais sugeridos do que representados, para criar um ambiente de terror gótico.

O próprio Mignola é o primeiro a reconhecer numa entrevista à revista Comic Book Artist a importância de Sanctum na criação de Hellboy: “era uma história de fantasmas, com o Batman e eu fiquei muito satisfeito com o resultado e com vontade de fazer mais histórias dessas. Será que devo criar mais histórias destas e tentar encaixar nelas o Batman, o Wolverine, ou outro personagem do género, ou devo criar um personagem meu especificamente para ser o protagonista desse tipo de histórias?”. O aparecimento de Hellboy, pouco tempo depois, não deixa dúvidas quanto à resposta encontrada por Mignola…
As aventuras do Batman da era vitoriana prosseguiram em Batman: Master of The Future, com o traço clássico e elegante de Eduardo Barreto a substituir, sem grandes vantagens o desenho mais ambiental de Mike Mignola, enquanto a trilogia de aventuras do Batman Vampiro, prosseguiu nas histórias Bloodstorm, de 1994, e Crimson Mist, de 1999, mas foi nas histórias incluídas neste volume que tudo começou. Tal como também é aqui que encontramos o ponto de viragem no estilo e na carreira de um dos mais influentes criadores de comics das últimas décadas, Mike Mignola.


DC Comics UNCUT 17 - Lanterna Verde: Origem Secreta


DA NOITE MAIS DENSA AO DIA MAIS CLARO

Para quem não é leitor assíduo de comics, o Lanterna Verde talvez seja daqueles heróis que se conhece, mas acerca do qual pouco se sabe, apesar de ele ser um dos «Sete Grandes» da afamada Liga da Justiça. Para isso, muito contribuiu o errático histórico de publicação da personagem, embora na última década tenha conseguido cimentar o seu estatuto como uma das estrelas maiores do panteão da DC. Seja como for, e independentemente do seu sucesso comercial ou da estabilidade do seu periódico, o Lanterna Verde foi frequentemente uma espécie de «farol» para o Universo DC, sinalizando o rumo durante algumas das épocas mais marcantes da história da editora.

Criado por Bill Finger e Martin Nodell na Idade de Ouro dos comics, a primeira encarnação do Lanterna Verde dava pelo nome de Alan Scott, um engenheiro ferroviário cuja vida mudaria para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um fato particularmente chamativo, munido de um anel mágico e uma lanterna verde provenientes de um meteorito que caíra na antiga China (e que lhe caíram nas mãos para que pudesse punir os responsáveis por um mortífero acidente ferroviário), Alan Scott reunia assim os ingredientes para uma personagem que incorporava vários dos elementos pulp que capturavam o espírito da época. Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos mais poderosos heróis do mundo, capaz de efectuar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel, que tinha contudo um ponto fraco: era incapaz de afectar madeira ou matéria vegetal. Este aparentemente arbitrário calcanhar de Aquiles era um constante entrave e empecilho nas aventuras de Alan Scott, que invariavelmente se via atingido por paus e enfrentava algozes compostos de matéria vegetal ou capazes de controlar plantas. Outro ponto fraco era a carga limitada do anel místico, que tinha de ser recarregado a cada 24 horas pela lanterna verde que dava o nome à personagem, num ritual pontuado por um simples juramento solene, que foi evoluindo ao longo dos anos e que viria a tornar-se numa peça fundamental do legado e posterior mitologia da figura. Alan Scott foi uma personagem popular nos anos 40, aventurando-se sozinho no seu próprio título e em All-Star Comics com a Sociedade da Justiça da América, da qual foi membro e líder. Porém, tal como referido num anterior editorial, os super-heróis tiveram vida complicada após o final da 2ª Guerra Mundial, e a carreira do primeiro Lanterna Verde decaiu de forma acentuada no final da década. O periódico Green Lantern foi cancelado em 1949 e foi precisa uma espera de 10 anos até a luz do Lanterna Verde tornar a luzir, como que sinalizando a alvorada da Idade da Prata dos comics.

Em 1959, e perante as claras evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse por super-heróis, o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o mesmo tratamento que fora dado a uma outra personagem dos anos 40, o Flash, e alistou John Broome e Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. Uma vez que o volume em mão trata precisamente da origem de Hal Jordan, o piloto de prova que se tornaria no segundo Lanterna Verde, este editorial não se alongará muito acerca da génese da personagem, mas sim das diferenças que a distinguem do seu predecessor e de como estas pautaram a evolução de uma parte considerável do Universo DC. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a natureza de ambos era agora científica e não mística, e ambos os artefactos eram obra de uma raça de potestades benignas que dedicavam as suas vidas à protecção do universo e se auto-intitulavam de Guardiões. Desta forma, o Lanterna Verde deixou de ser um herói baseado na Terra e a jurisdição dele estendeu-se a todo um sector espacial, o que deu uma nova esfera de acção às suas aventuras, cuja dimensão se expandiu mais ainda com a inclusão de um importantíssimo novo elemento: o Corpo dos Lanternas Verdes. Esta força policial intergaláctica composta de milhares de Lanternas de todos os cantos do universo rapidamente se tornou num dos principais esteios da DC, e viria a servir de base para algumas das mais marcantes sagas das décadas seguintes. Outro aspecto que se manteve foi o aparentemente arbitrário ponto fraco do anel, sendo que a madeira se viu substituída pela cor amarela, contra a qual a energia da bateria nada podia. Desta feita, o calcanhar de Aquiles foi explicado como uma «impureza necessária» na bateria, e escusado será dizer que não houve falta de inimigos e ameaças com guarda-roupa ou tez em tons amarelados. Este novo Lanterna Verde foi um sucesso, e Hal Jordan rapidamente ganhou a sua própria casa com o relançamento de Green Lantern em 1960, um título que, apesar do cariz cósmico das suas aventuras, pautou pela diferença de forma curiosamente mundana, nomeadamente a inclusão de personagens de minorias que não eram representadas como estereótipos, um aspecto no qual as histórias do Lanterna Verde foram pioneiras. A indústria dos comics espelhava assim as mudanças que se começavam a fazer sentir na consciência social americana do final da década de 60, sobretudo o movimento de contracultura que então predominava e que se reflectiu de forma notória no Lanterna Verde em particular.

Tal como o leitor pôde constatar em Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida (outro volume da presente colecção a não perder), Hal Jordan deu corpo à desautorização das normas vigentes da sua época e sofreu uma profunda crise de identidade, que culminou com o cancelamento do seu título em 1972, e a sua viagem de auto-(re)descoberta teve de continuar na forma de histórias complementares nas páginas de The Flash durante quatro anos. Green Lantern só regressou às bancas em 1976, e continuou a espelhar os danos que a guerra do Vietname e o escândalo de Watergate haviam infligido à auto-confiança e fé dos norte-americanos na sua presidência. Hal Jordan punha cada vez mais em causa o discernimento dos Guardiões e a situação chegou a um ponto crítico na década de 80, quando ele se viu forçado a escolher entre o dever e o amor, e acabou por abandonar o Corpo dos Lanternas Verdes. Não foi senão após a Crise nas Terras Infinitas (um evento espoletado pelas acções de um membro renegado da raça dos Guardiões, note-se) que Hal Jordan regressou ao Corpo, mas o seu título foi novamente cancelado em 1986. O que nem por isso diminuiu o impacto da mitologia do Lanterna Verde no resto do Universo DC, tal como o atesta a mini-série Millennium (1988), na qual se revela a terrível trama milenar dos Caçadores, os predecessores do Corpo. Enquanto isso, as aventuras do Lanterna Verde prosseguiram no título de antologia Action Comics Weekly, até Green Lantern ser novamente relançado em 1990.

Muitas outras mudanças se avizinhavam, no entanto. Além de ser dos poucos heróis de alto gabarito a envelhecerem visivelmente nas páginas do seu próprio título, qual baby boomer confrontado com a sua mortalidade e com as escolhas da sua vida, Hal Jordan tornou-se subsequentemente num dos mais proeminentes exemplos da mudança — a palavra de ordem da década de 90 — na DC. Numa altura em que o mundo assistia a um tremendo realinhamento do poder económico e político, à proliferação dos novos média e a um crescente cepticismo para com a ordem social estabelecida, vários super-heróis tombaram ou foram substituídos, e o Lanterna Verde foi quem sofreu a mais duradoura perda. A sua cidade-natal foi nivelada e Hal Jordan, tomado pelo pesar, tentou reconstrui-la com o poder do seu anel, que lhe foi então negado pelos Guardiões. Em resultado de tão grande perda e daquilo que viu como frieza e ingratidão dos seus mestres, Jordan enlouqueceu, destruiu o Corpo dos Lanternas Verdes e tornou-se no vilão Parallax, que mais tarde foi morto ao tentar reescrever a história em Zero Hour (1994). Foi então substituído por uma nova personagem, Kyle Rayner, que se tornou no novo Lanterna Verde. Hal Jordan apenas regressou em definitivo uns dez anos mais tarde em Green Lantern: Rebirth (2004), uma série limitada que redimiu e ressuscitou a personagem, dando início a uma autêntica vaga revivalista na DC Comics nos anos 00, nos quais, espelhando de certa forma o saudosismo que se fazia sentir na cultura popular, o panorama da DC viu o regresso de uma série de velhas personagens e conceitos. Foi esse o princípio do apogeu do Lanterna Verde, que às mãos de Geoff Johns viu redefinidos e modernizados inúmeros aspectos da sua mitologia e se tornou no portador da tocha para o rumo narrativo do Universo DC na década seguinte, conduzindo-o através de várias sagas de enorme sucesso como Sinestro Corps War (2007), Blackest Night (2009) ou Brightest Day (2010).

Assim, ao fim de mais de 50 anos de existência (70, se contarmos com Alan Scott), o Lanterna Verde é hoje uma das séries mais bem-sucedidas da indústria, tendo dado origem a uma autêntica «família» de títulos, algo que apenas está ao alcance dos nomes maiores dos comics — um estatuto que não mais pode ser negado a esta atribulada e fascinante personagem, cuja origem é recontada neste Lanterna Verde: Origem Secreta para novas e velhas gerações de leitores em igual medida.

FILIPE FARIA

domingo, 3 de novembro de 2013

Crítica ao novo álbum de Astérix


Desde a passada quinta-feira, que chegou às livrarias de toda a Europa, incluindo Portugal, “Astérix entre os Pictos” o tão aguardado 35º álbum da série Astérix, e o primeiro sem a assinatura de qualquer um dos seus criadores originais.
Com uma tiragem inicial de 2 milhões de exemplares, só em língua francesa, que esgotou numa semana, o novo Astérix, mais do que um livro, é um acontecimento mediático, que mereceu grande destaque em toda a imprensa, em que, dos jornais à Internet, muito se escreveu sobre o novo livro, que praticamente ninguém tinha tido ainda oportunidade de ler.
Mas agora, que o álbum já está nas livrarias e nas mãos de muitos leitores há mais de uma semana, podemos confirmar que, mesmo sem deslumbrar, o novo livro está à altura das expectativas e um largos furos acima dos últimos álbuns assinados por Uderzo, o que reconheça-se, só por si não é grande proeza, tal o nível a que a série tinha descido…

Profissionais competentes, Ferri e Conrad dão bem conta do pesado caderno de encargos, que no caso de Conrad implicou desenhar um livro de 48 páginas, num estilo que não é o seu, em apenas 6 meses. Uma tarefa ciclópica, de que se saiu com distinção, mesmo que seja evidente uma evolução ao longo do álbum (compare-se a vistosa mulher de Agecanonix das primeiras páginas, com a das últimas). Já Ferri, saiu-se também bastante bem da missão de recriar na sua história, os álbuns daquela que considera como a época de ouro da série, os anos 70 e, mesmo sem nunca atingir o nível de Goscinny (uma missão impossível), constrói uma história de viagens escorreita, com alguns trocadilhos bem conseguidos, embora nem todos resistam bem à tradução, e momentos divertidos, como o funcionário romano que pretende fazer um censo à população da aldeia gaulesa.
Ainda assim, a história peca por uma linearidade excessiva, pela pouca acção e pelo deficiente aproveitamento das potencialidades de uma figura como o Monstro de Loch Ness, cuja imagem parece ter sido criada mais a pensar nos bonecos de peluche a que vai dar origem…
Esperemos que num próximo álbum, os autores possam encontrar uma voz própria e prosseguir a renovação dentro da continuidade, que neste álbum, ainda é demasiado tímida. Assim Uderzo e a editora lhes deem oportunidade para isso…
(“Astérix entre os Pictos”, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, Edições Asa, 48 pags, 12,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 02/11/2013