terça-feira, 5 de novembro de 2013

DC Comics UNCUT 17 - Lanterna Verde: Origem Secreta


DA NOITE MAIS DENSA AO DIA MAIS CLARO

Para quem não é leitor assíduo de comics, o Lanterna Verde talvez seja daqueles heróis que se conhece, mas acerca do qual pouco se sabe, apesar de ele ser um dos «Sete Grandes» da afamada Liga da Justiça. Para isso, muito contribuiu o errático histórico de publicação da personagem, embora na última década tenha conseguido cimentar o seu estatuto como uma das estrelas maiores do panteão da DC. Seja como for, e independentemente do seu sucesso comercial ou da estabilidade do seu periódico, o Lanterna Verde foi frequentemente uma espécie de «farol» para o Universo DC, sinalizando o rumo durante algumas das épocas mais marcantes da história da editora.

Criado por Bill Finger e Martin Nodell na Idade de Ouro dos comics, a primeira encarnação do Lanterna Verde dava pelo nome de Alan Scott, um engenheiro ferroviário cuja vida mudaria para sempre em All-American Comics #16 (1940). Indumentado com um fato particularmente chamativo, munido de um anel mágico e uma lanterna verde provenientes de um meteorito que caíra na antiga China (e que lhe caíram nas mãos para que pudesse punir os responsáveis por um mortífero acidente ferroviário), Alan Scott reunia assim os ingredientes para uma personagem que incorporava vários dos elementos pulp que capturavam o espírito da época. Aquando da sua estreia, o Lanterna Verde era um dos mais poderosos heróis do mundo, capaz de efectuar autênticos milagres com o poder aparentemente ilimitado do seu anel, que tinha contudo um ponto fraco: era incapaz de afectar madeira ou matéria vegetal. Este aparentemente arbitrário calcanhar de Aquiles era um constante entrave e empecilho nas aventuras de Alan Scott, que invariavelmente se via atingido por paus e enfrentava algozes compostos de matéria vegetal ou capazes de controlar plantas. Outro ponto fraco era a carga limitada do anel místico, que tinha de ser recarregado a cada 24 horas pela lanterna verde que dava o nome à personagem, num ritual pontuado por um simples juramento solene, que foi evoluindo ao longo dos anos e que viria a tornar-se numa peça fundamental do legado e posterior mitologia da figura. Alan Scott foi uma personagem popular nos anos 40, aventurando-se sozinho no seu próprio título e em All-Star Comics com a Sociedade da Justiça da América, da qual foi membro e líder. Porém, tal como referido num anterior editorial, os super-heróis tiveram vida complicada após o final da 2ª Guerra Mundial, e a carreira do primeiro Lanterna Verde decaiu de forma acentuada no final da década. O periódico Green Lantern foi cancelado em 1949 e foi precisa uma espera de 10 anos até a luz do Lanterna Verde tornar a luzir, como que sinalizando a alvorada da Idade da Prata dos comics.

Em 1959, e perante as claras evidências de que os leitores davam mostras de um renovado interesse por super-heróis, o lendário editor Julius Schwartz quis repetir o mesmo tratamento que fora dado a uma outra personagem dos anos 40, o Flash, e alistou John Broome e Gil Kane para recriarem o Lanterna Verde. Uma vez que o volume em mão trata precisamente da origem de Hal Jordan, o piloto de prova que se tornaria no segundo Lanterna Verde, este editorial não se alongará muito acerca da génese da personagem, mas sim das diferenças que a distinguem do seu predecessor e de como estas pautaram a evolução de uma parte considerável do Universo DC. O anel e a bateria mantiveram-se, mas a natureza de ambos era agora científica e não mística, e ambos os artefactos eram obra de uma raça de potestades benignas que dedicavam as suas vidas à protecção do universo e se auto-intitulavam de Guardiões. Desta forma, o Lanterna Verde deixou de ser um herói baseado na Terra e a jurisdição dele estendeu-se a todo um sector espacial, o que deu uma nova esfera de acção às suas aventuras, cuja dimensão se expandiu mais ainda com a inclusão de um importantíssimo novo elemento: o Corpo dos Lanternas Verdes. Esta força policial intergaláctica composta de milhares de Lanternas de todos os cantos do universo rapidamente se tornou num dos principais esteios da DC, e viria a servir de base para algumas das mais marcantes sagas das décadas seguintes. Outro aspecto que se manteve foi o aparentemente arbitrário ponto fraco do anel, sendo que a madeira se viu substituída pela cor amarela, contra a qual a energia da bateria nada podia. Desta feita, o calcanhar de Aquiles foi explicado como uma «impureza necessária» na bateria, e escusado será dizer que não houve falta de inimigos e ameaças com guarda-roupa ou tez em tons amarelados. Este novo Lanterna Verde foi um sucesso, e Hal Jordan rapidamente ganhou a sua própria casa com o relançamento de Green Lantern em 1960, um título que, apesar do cariz cósmico das suas aventuras, pautou pela diferença de forma curiosamente mundana, nomeadamente a inclusão de personagens de minorias que não eram representadas como estereótipos, um aspecto no qual as histórias do Lanterna Verde foram pioneiras. A indústria dos comics espelhava assim as mudanças que se começavam a fazer sentir na consciência social americana do final da década de 60, sobretudo o movimento de contracultura que então predominava e que se reflectiu de forma notória no Lanterna Verde em particular.

Tal como o leitor pôde constatar em Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida (outro volume da presente colecção a não perder), Hal Jordan deu corpo à desautorização das normas vigentes da sua época e sofreu uma profunda crise de identidade, que culminou com o cancelamento do seu título em 1972, e a sua viagem de auto-(re)descoberta teve de continuar na forma de histórias complementares nas páginas de The Flash durante quatro anos. Green Lantern só regressou às bancas em 1976, e continuou a espelhar os danos que a guerra do Vietname e o escândalo de Watergate haviam infligido à auto-confiança e fé dos norte-americanos na sua presidência. Hal Jordan punha cada vez mais em causa o discernimento dos Guardiões e a situação chegou a um ponto crítico na década de 80, quando ele se viu forçado a escolher entre o dever e o amor, e acabou por abandonar o Corpo dos Lanternas Verdes. Não foi senão após a Crise nas Terras Infinitas (um evento espoletado pelas acções de um membro renegado da raça dos Guardiões, note-se) que Hal Jordan regressou ao Corpo, mas o seu título foi novamente cancelado em 1986. O que nem por isso diminuiu o impacto da mitologia do Lanterna Verde no resto do Universo DC, tal como o atesta a mini-série Millennium (1988), na qual se revela a terrível trama milenar dos Caçadores, os predecessores do Corpo. Enquanto isso, as aventuras do Lanterna Verde prosseguiram no título de antologia Action Comics Weekly, até Green Lantern ser novamente relançado em 1990.

Muitas outras mudanças se avizinhavam, no entanto. Além de ser dos poucos heróis de alto gabarito a envelhecerem visivelmente nas páginas do seu próprio título, qual baby boomer confrontado com a sua mortalidade e com as escolhas da sua vida, Hal Jordan tornou-se subsequentemente num dos mais proeminentes exemplos da mudança — a palavra de ordem da década de 90 — na DC. Numa altura em que o mundo assistia a um tremendo realinhamento do poder económico e político, à proliferação dos novos média e a um crescente cepticismo para com a ordem social estabelecida, vários super-heróis tombaram ou foram substituídos, e o Lanterna Verde foi quem sofreu a mais duradoura perda. A sua cidade-natal foi nivelada e Hal Jordan, tomado pelo pesar, tentou reconstrui-la com o poder do seu anel, que lhe foi então negado pelos Guardiões. Em resultado de tão grande perda e daquilo que viu como frieza e ingratidão dos seus mestres, Jordan enlouqueceu, destruiu o Corpo dos Lanternas Verdes e tornou-se no vilão Parallax, que mais tarde foi morto ao tentar reescrever a história em Zero Hour (1994). Foi então substituído por uma nova personagem, Kyle Rayner, que se tornou no novo Lanterna Verde. Hal Jordan apenas regressou em definitivo uns dez anos mais tarde em Green Lantern: Rebirth (2004), uma série limitada que redimiu e ressuscitou a personagem, dando início a uma autêntica vaga revivalista na DC Comics nos anos 00, nos quais, espelhando de certa forma o saudosismo que se fazia sentir na cultura popular, o panorama da DC viu o regresso de uma série de velhas personagens e conceitos. Foi esse o princípio do apogeu do Lanterna Verde, que às mãos de Geoff Johns viu redefinidos e modernizados inúmeros aspectos da sua mitologia e se tornou no portador da tocha para o rumo narrativo do Universo DC na década seguinte, conduzindo-o através de várias sagas de enorme sucesso como Sinestro Corps War (2007), Blackest Night (2009) ou Brightest Day (2010).

Assim, ao fim de mais de 50 anos de existência (70, se contarmos com Alan Scott), o Lanterna Verde é hoje uma das séries mais bem-sucedidas da indústria, tendo dado origem a uma autêntica «família» de títulos, algo que apenas está ao alcance dos nomes maiores dos comics — um estatuto que não mais pode ser negado a esta atribulada e fascinante personagem, cuja origem é recontada neste Lanterna Verde: Origem Secreta para novas e velhas gerações de leitores em igual medida.

FILIPE FARIA

domingo, 3 de novembro de 2013

Crítica ao novo álbum de Astérix


Desde a passada quinta-feira, que chegou às livrarias de toda a Europa, incluindo Portugal, “Astérix entre os Pictos” o tão aguardado 35º álbum da série Astérix, e o primeiro sem a assinatura de qualquer um dos seus criadores originais.
Com uma tiragem inicial de 2 milhões de exemplares, só em língua francesa, que esgotou numa semana, o novo Astérix, mais do que um livro, é um acontecimento mediático, que mereceu grande destaque em toda a imprensa, em que, dos jornais à Internet, muito se escreveu sobre o novo livro, que praticamente ninguém tinha tido ainda oportunidade de ler.
Mas agora, que o álbum já está nas livrarias e nas mãos de muitos leitores há mais de uma semana, podemos confirmar que, mesmo sem deslumbrar, o novo livro está à altura das expectativas e um largos furos acima dos últimos álbuns assinados por Uderzo, o que reconheça-se, só por si não é grande proeza, tal o nível a que a série tinha descido…

Profissionais competentes, Ferri e Conrad dão bem conta do pesado caderno de encargos, que no caso de Conrad implicou desenhar um livro de 48 páginas, num estilo que não é o seu, em apenas 6 meses. Uma tarefa ciclópica, de que se saiu com distinção, mesmo que seja evidente uma evolução ao longo do álbum (compare-se a vistosa mulher de Agecanonix das primeiras páginas, com a das últimas). Já Ferri, saiu-se também bastante bem da missão de recriar na sua história, os álbuns daquela que considera como a época de ouro da série, os anos 70 e, mesmo sem nunca atingir o nível de Goscinny (uma missão impossível), constrói uma história de viagens escorreita, com alguns trocadilhos bem conseguidos, embora nem todos resistam bem à tradução, e momentos divertidos, como o funcionário romano que pretende fazer um censo à população da aldeia gaulesa.
Ainda assim, a história peca por uma linearidade excessiva, pela pouca acção e pelo deficiente aproveitamento das potencialidades de uma figura como o Monstro de Loch Ness, cuja imagem parece ter sido criada mais a pensar nos bonecos de peluche a que vai dar origem…
Esperemos que num próximo álbum, os autores possam encontrar uma voz própria e prosseguir a renovação dentro da continuidade, que neste álbum, ainda é demasiado tímida. Assim Uderzo e a editora lhes deem oportunidade para isso…
(“Astérix entre os Pictos”, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, Edições Asa, 48 pags, 12,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 02/11/2013

terça-feira, 29 de outubro de 2013

DC Comics UNCUT 16 - Batwoman: Elegia

Batwoman: Ano um, ano cinquenta

A Batwoman é um dos super-heróis que fazem parte da família Batman, entre os quais podemos encontrar os vários Robins, a Batmoça, ou heróis como Asa Nocturna ou Azrael. Criada há décadas, Batwoman foi originalmente pensada como um potencial interesse romântico do Cavaleiro das Trevas, embora se tenha alçado rapidamente ao estatuto de verdadeira rival. Foi também uma das personagens que sofreu mais transformações ao longo dos tempos. De potencial namorada acabou por se transformar em rival, desapareceu durante parte dos anos 1960, para reaparecer e ser assassinada em finais dos anos 1970, e renascer finalmente já no século 21 como uma das mais invulgares personagens do Universo DC, uma super-heroína gay.

A década de 1950 foi crucial na evolução dos comics americanos. Quando em 1954 o psiquiatra Fredric Wertham publicou o seu livro Seduction of Innocents, em que responsabilizava os comics pelo aumento da violência e delinquência juvenil, estava-se longe de imaginar as transformações a que a indústria seria submetida. Wertham chegou a testemunhar numa comissão especial de inquérito do Senado Americano, após o que a indústria dos comics promulgou um código de conduta voluntário, o célebre Comics Code Authority, que serviu como um manual de regras de auto-censura. Nas suas críticas, Wertham destacou sobretudo os temas sexuais que estariam escondidos nos comics, atacando a nudez feminina, bem como os comportamentos dos heróis, tendo nomeadamente insinuado a existência duma relação homosexual entre Batman e Robin. Por tudo isso, não é de espantar que quando o grupo de editores à frente dos destinos das histórias do Homem-Morcego quis expandir a “família” de personagens do universo de Batman, a Batwoman tenha surgido como um interesse romântico para combater essas alegações de Wertham.

Batwoman surgiu pela primeira vez nas páginas da revista Detective Comics #233, em 1956, numa história escrita por Edmond Hamilton e desenhada por Sheldon Moldoff. Edmond Hamilton era um escritor famoso de ficção-científica e de pulps, com um estilo sensacionalista que era quase a antítese do estilo “moralmente aceitável” que Wertham ambicionava para os comics. E o sensacionalismo saltava quase fora da extraordinária capa desenhada por Sheldon Moldoff, que apresentava uma Batwoman de moto a afastar-se a grande velocidade do Batmóvel, em direcção ao leitor, com o Duo Dinâmico a exclamar que ela os ia ultrapassar na missão, anunciada nos céus pelo Batsinal! O fato amarelo e negro da heroína contrastava com o fato do Batman, que era na altura cinzento, e anunciava uma personagem bem cheia de "panache". Em apenas doze páginas, a Batwoman salva o Batman duas ou três vezes e demonstra ser o reflexo feminino do Homem-Morcego, numa espécie de imagem de espelho quase humorística. Em vez dos gadgets científicos e “militarizados” do Batman, os gadgets dela estão incorporados na panóplia feminina duma rapariga elegante da alta sociedade: as suas pulseiras servem de algemas e a caixa de pó de arroz consegue disparar uma nuvem de fumo que provoca espirros, enquanto o seu frasco de perfume pulveriza gás lacrimogéneo e a sua mala de senhora pode ser usada como as “bolas” das pampas argentinas para fazer tombar e capturar os seus adversários. No fim desta primeira aventura, Batman descobre a identidade da super-heroína e arranca-lhe a promessa de que ela não voltará a combater o crime. A Batwoman é Katherine Kane, uma talentosa artista de circo - trapezista e acrobata como o Robin, mas também a “melhor condutora de motos acrobática”, motos essas que passarão a ser uma das suas imagens de marca - que herdou uma fortuna. Decidiu então embarcar numa cruzada contra o crime, tal como o seu ídolo Batman, que ela espera assim conhecer, e talvez seduzir.

Claro que a Batwoman não cumprirá a sua palavra, e continuará a aparecer em inúmeras aventuras do Cavaleiro das Trevas, tornando-se numa personagem muito popular do universo do Batman. No entanto, quando o lendário editor Julius Schwartz começou a planear a sua reformulação do universo DC, empurrando-o para moldes mais realistas, decidiu remover personagens que achava não-essenciais. A família de personagens “Batman” tinha crescido até incorporar algumas personagens bastante ridículas, numa altura em que as aventuras do Homem-Morcego se tinham tornado cada vez mais satíricas e cómicas - um ser extradimensional diminuto, o Bat-Mite, ou Ace, o Batcão, por exemplo. Schwartz decidiu então reformular uma segunda personagem feminina, a Batmoça, originalmente a sobrinha de Katherine Kane e potencial interesse amoroso de Robin, transformando a sua identidade, que passou a ser a de Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon. Entre a nova Batmoça e a antiga Batwoman, a escolha foi óbvia, e Katherine Kane desapareceu de cena. Embora tenha reaparecido algumas vezes no final dos anos 70, acabaria por ser morta no número 485 de Detective Comics, pela Liga de Assassinos de Ra’s al Ghul. A personagem permaneceria fora de cena até ao século 21, mas em meados dos anos 2000 a DC reformulou o seu universo de super-heróis com a série Infinite Crisis, uma história que é descendente directa da Crise nas Terras Infinitas que já pudemos ler nesta colecção. Depois dessa Crise, todo o universo avançou um ano com o evento 52, durante o qual foi decidido relançar a Batwoman, tendo os editores da DC decidido fazer história e reformular completamente o conceito da personagem. A Batwoman renasceu nessa série como uma das poucas personagens homossexuais no universo dos super-heróis.

O trabalho de escrever a primeira história a solo desta nova heroína - Elegia, o volume que têm entre mãos - recaiu sobre o argumentista Greg Rucka, conhecido no meio pelas suas personagens femininas fortes e independentes. Rucka é um escritor de romances policiais aclamados, que irrompeu na cena dos comics no final dos anos 1990 com uma mini-série intitulada Whiteout (entretanto adaptada ao cinema, com Kate Beckinsale no papel principal), a que se seguiu a sua série mais longa até à data, Queen & Country. Em ambos os casos, tratam-se de histórias policiais ou de espionagem, em que as personagens principais são femininas e granjearam enorme popularidade junto dos leitores. Rucka começou entretanto a trabalhar para a DC, nos anos 2000, e já escreveu argumentos para inúmeras personagens, entre as quais destacamos as histórias que assinou para a Mulher Maravilha, e a série Gotham Central, que escreveu a meias com Ed Brubaker. O relançamento de Batwoman permitiu-lhe aliás recuperar personagens desse comic. Gotham Central acompanhava as aventuras e casos duma série de polícias e detectives de Gotham, focando a acção numa esquadra da polícia e não no Batman, e uma das personagens principais da série, a detective Renée Montoya, reaparece em na série da nova Batwoman como namorada da super-heroína. Tal como a primeira Batwoman, esta também é uma rica herdeira chamada Kate Kane. Ao contrário da primeira Batwoman, Kate é de origem judaica, a sua aparência é a duma jovem gótica e algo anarquista, é lésbica, e o seu pai é um ex-militar e operacional de forças especiais, que treinou a filha para combater o crime.

Mas para além do argumento da série Elegia, é justo reconhecer que uma parte importante da fama que este livro atingiu vem da arte estonteante de J. H. Williams, que assina aqui uma das suas obras-primas. Williams é um veterano dos comics que assinou várias séries para a DC em finais dos anos 1990, mas que atingiu pela primeira vez o sucesso crítico com o seu trabalho em Promethea, escrito por Alan Moore, com o qual conquistou o seu primeiro Prémio Eisner, os Óscares dos comics. Williams cria em Batwoman um registo duplo, em dois estilos completamente diferentes. Por um lado, o traço mais clássico e algo reservado que acompanha a vida de Kate Kane, a identidade secreta da super-heroína, por outro lado as páginas duplas absolutamente brilhantes e dinâmicas em que o protagonismo recai sobre a Batwoman. Williams conquistou mais dois Eisners em 2010 com este seu trabalho, como melhor artista e para a melhor capa. A história foi publicada na revista Detective Comics, num período em que Bruce Wayne estava aparentemente morto, parte do imenso arco de história revolucionário que o escritor Grant Morrison elaborou para o Cavaleiro das Trevas, como já referimos em Batman para Sempre!, o texto que acompanha o segundo volume desta colecção, e o sucesso foi tal que Batwoman acabou por incorporar o relançamento geral dos heróis da DC no evento New 52 com o seu próprio título, tendo J. H. Williams assumido a série também como argumentista, um passo decisivo na carreira deste criador.

Assim, numa espécie de retorno irónico da história, uma personagem que foi criada para combater os rumores de homossexualidade de Batman, renasceu ela própria cinquenta anos mais tarde como uma super-heroína gay, quase que como vingança do universo dos comics sobre o seu detractor. Mas não devemos levar demasiado a mal o Dr. Fredric Wertham, já que as suas acusações e o debate que causaram fizeram parte dos factores que inauguraram uma das maiores épocas de sempre da banda desenhada americana, a Silver Age of Comics. Essa era possibilitou o desenvolvimento da moderna era do comic de super-heróis, dos quais este espantoso Elegia é sem dúvida um dos bons exemplos.

José Hartvig de Freitas

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A propósito do novo Astérix - Entrevista com Jean-Yves Ferri


A convite do jornal Público, tive a oportunidade de entrevistar Ferri, o novo argumentista de Astérix, aquando da sua vinda a Lisboa, em finais de Setembro, quando ele passou fugazmente pela capital portuguesa, para promover uma colecção de álbuns do Astérix que o jornal começou a lançar esta semana. Aqui fica a entrevista na sua versão integral. As imagens foram pilhadas de forma mais ou menos indiscriminada pelos quatro cantos da Internet. 

Desenhador e argumentista, nascido em 1959, tal como Astérix, o francês Jean-Yves Ferri é o responsável pelo argumento da nova aventura do irredutível gaulês e dos seus companheiros que, pela primeira vez, não conta com nenhum dos seus criadores como autor. Astérix entre os Pictos o 35º álbum da série é publicado a nível mundial no dia 24 de Outubro e sairá em Dezembro, numa versão em capa mole, com o Jornal Público, integrado na colecção As Viagens de Astérix. Ferri, que passou por Lisboa em Setembro, para a apresentação da colecção, falou ao Público deste importante desafio e da sua experiência como sucessor de Goscinny no argumento de umas das mais populares séries da BD mundial.

Nasceu em 1959, precisamente o mesmo ano em que a série Astérix começou a ser publicada na revista Pilote. Vê o facto de ser escolhido como o novo argumentista de Astérix como uma simples coincidência, ou um sinal do destino?

O mais engraçado é que também o desenhador, Didier Conrad, nasceu em 1959. Por isso, talvez o próprio Uderzo tenha visto nisso um sinal de que seríamos as pessoas certas para continuar Astérix.
Como é que foi escolhido para ser o novo argumentista de Astérix?
Fui contactado pela editora Hachette (que detém os direitos da série desde 2011), tal como vários outros argumentistas, para apresentar uma proposta para uma história. O processo foi rodeado de grande secretismo, tendo sido obrigado a assinar uma cláusula de confidencialidade, que não me permitia contar a ninguém, nem à minha família, o que estava a fazer. As diversas propostas foram apresentadas, sem indicação dos autores, a Uderzo, que escolheu uma, que por acaso era a minha.

Considera-se um fã de Astérix?

Claro! Tanto eu como o Conrad fazemos parte de uma geração que cresceu a ler BD nas revistas semanais como o Tintin, Spirou e Pilote. Por isso, conhecíamos perfeitamente todos esses heróis e temos uma ligação afectiva com o Astérix, o que faz com que abordemos a série de um modo algo particular. O nosso objectivo, com este álbum, é recuperar aquelas impressões de infância, que sentimos ao ler as histórias pela primeira vez.
Por isso, procurei que este álbum estivesse na linha de alguns dos meus álbuns preferidos da década de 70, como o Astérix Legionário, O Escudo de Arverne, Astérix na Hispania, ou Astérix na Córsega. Que fosse uma homenagem a esses álbuns que tanto me marcaram. Posteriormente, espero conseguir impor o meu cunho próprio à série, mas este ainda é um álbum de transição. Uma transição suave, marcada pela minha admiração pela escrita de Goscinny.

O tema do novo álbum, os Pictos e a Escócia. Foi ideia sua, ou sugestão de Uderzo?

Foi ideia minha. Tive inteira liberdade na criação da história. Entreguei uma primeira sinopse de uma página e quando foi aprovada, comecei a escrever o argumento. Como também sou desenhador, fiz também um story board com a planificação da história, quadrado a quadrado, para o desenhador seguir.

E a editora impôs algumas alterações? 

Praticamente nenhumas. Apenas Uderzo sugeriu duas pequenas alterações. Uma tinha a ver com a estação do ano em que se desenrola a acção e a outra consistiu em algumas pequenas observações a propósito da psicologia do Obélix. Uderzo esteve muito mais atento ao trabalho do desenhador.

Por falar em desenhador. Sei que Conrad não foi o desenhador inicialmente escolhido. Houve um primeiro desenhador Frédérick Mébarky, que acabou por abandonar o projecto. O que é que realmente se passou?

É simples. Frédérick não aguentou a pressão e literalmente explodiu. O problema é que ele era um desenhador do estúdio de Uderzo, que fazia ilustrações publicitárias e passava a tinta os desenhos de Uderzo, mas que não tinha nenhuma experiência da planificação e da narrativa em BD. Por isso, tinha muitas dificuldades em contar uma história em Banda Desenhada. Quando percebemos que a coisa não ia resultar, tivemos que arranjar um substituto, que foi Conrad.

 E Conrad introduziu alguma alteração na história, em relação à versão com que Mebarky tinha trabalhado?

Não, e por duas razões. Primeiro, por quando ele chegou, o story board já estava todo feito e depois, como ele teve um prazo muito curto para desenhar o álbum, o meu story board até lhe deu jeito.

E o que é que nos pode adiantar sobre o novo álbum?

Oficialmente, a única coisa que posso adiantar é que a história termina com um banquete na aldeia gaulesa, como sempre (risos)… De resto, não posso dizer nada, mas como há algumas pequenas informações que já apareceram na Internet, posso dizer que, como é habitual nos álbuns de Astérix, haverá uma série de elementos típicos da tradição do país, como o monstro de Loch Ness e vamos saber também a verdadeira razão porque a Muralha de Adriano foi construída.

Foi à Escócia fazer pesquisa para escrever a história?

Já conhecia a Escócia e voltei lá por causa do álbum. Mas o cenário não é o principal. A história passa-se numa Escócia que, mais do que corresponder à Escócia histórica real, tem que corresponder à ideia que as pessoas têm da Escócia. Ou seja, há que jogar com os estereótipos de forma divertida. Do mesmo modo, a pesquisa histórica é importante, mas não é decisiva. Quando decidi escrever sobre os Pictos, fui naturalmente investigar. Mas a verdade é que não há grande informação sobre os Pictos, o que até me deu jeito, pois assim pude inventar os meus Pictos que, na boa tradição de Astérix, são os ascendentes dos escoceses modernos.

E já tem ideias para os próximos álbuns?

Ideias, tenho algumas. Mas a verdade é que o contrato que assinei foi só para este álbum. Vamos a ver como é que as coisas correm, como é que o livro é recebido… E depois, se a editora estiver interessada, também é preciso que eu arranje uma boa história que queira contar e que agrade ao editor. Sem estar entusiasmado com a história, não consigo trabalhar.

Qual é a diferença entre trabalhar numa série como Astérix, ou em projectos mais pessoais como a série Le Retour à la Terre, feita com o seu amigo Manu Larcenet.

São coisas diferentes. Com um personagem que eu criei, sou eu que comando o jogo. No caso de Astérix, não me sinto inteiramente responsável pelo universo da série. Astérix já existia, não fui eu que o criei. As regras do jogo são outras. É um desafio muito particular.

Está em Lisboa para o lançamento de uma colecção de álbuns de Astérix, que vai ser distribuída com o jornal Público. Que pensa deste tipo de iniciativas?

Acho que estas colecções vêm de encontro à vocação da Banda Desenhada, que é chegar ao grande público. Na minha infância, lembro-me que os álbuns de Lucky Luke eram vendidos em edição de capa mole, mais baratas e isso funcionava muito bem! E acho que no caso do Astérix também vai funcionar bem. Os colecionadores têm as edições normais em capa dura e estas edições chegam a um público mais alargado. Além disso, juntar as histórias de viagem todas numa mesma colecção é uma boa ideia!


Até agora, a presença dos Lusitanos na série Astérix limitou-se a um escravo no álbum o Domínio dos Deuses, que não sabia cantar, mas recitava poesia. Será que vamos ver algum dia Astérix na Lusitânia?

Astérix na Lusitânia é um bom título para um álbum. Soa mesmo a um título de Astérix! Já vi algumas sugestões nesse sentido na Internet.
E porque não? Mas para isso preciso de conhecer Portugal. Esta é a primeira vez que aqui venho e não vou ter tempo para ver grande coisa. Tenho que voltar com tempo, conhecer o país e arranjar uma história que justifique a visita de Astérix.
Versão integral da entrevista publicada no suplemento Fugas do jornal Público de 19/10/2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Duas revistas em formato digital


Se a época áurea das revistas há muito terminou, as novas tecnologias têm possibilitado o aparecimento de publicações periódicos, sem as limitações, constrangimentos e custos, inerentes às publicações impressas e que necessitam de uma estrutura de venda e distribuição para chegarem aos leitores. Assim, recentemente surgiram duas novas revistas digitais, que podem ser descarregadas gratuitamente através da Internet e que, pela sua qualidade, merecem natural referência neste espaço. Falo do terceiro número do webmagazine do colectivo Lisbon Studio e de Calafrios, uma revista digital de terror, editada por Filipe Azeredo, responsável pelo blog A Filactera.

Depois de uma primeira edição em papel em 2010, lançada no VI Festival Internacional de BD de Beja, a revista do Lisbon Studio, que apresentava trabalhos dos autores que partilhavam atelier no Lisbon Studio, entrou em hibernação durantes uns tempos para regressar em formato digital em Junho de 2013, anunciando uma periodicidade bimestral que, até agora, tem sido escrupulosamente cumprida. Este 3º número do TLS relativo a Outubro/Novembro, que pode ser visto a partir do blog do Lisbon Studio, para além de uma bela capa de Nuno Duarte, que assina como o outro Nuno Duarte, para não ser confundido com o argumentista de “A Fórmula da Felicidade” e “O Baile”, conta nas suas 152 páginas, com amostras do trabalho da maioria dos artistas residentes do espaçoso atelier colectivo (falta infelizmente neste número, o João Maio Pinto), localizado perto da Estação de Santa Apolónia, com destaque para a apresentação de Crime no Hotel Lisboa, um videojogo da Nerd Monkeys, criado por Filipe Duarte Pina, com concepção visual de Nuno Saraiva e para uma amostra dos mais recentes trabalhos de Jorge Coelho para o mercado americano, como desenhador da mini-série Polarity, da Boom Studios e da revista Venon, da Marvel, para além das Previews dos próximos trabalhos de Ricardo Cabral, Joana Afonso e André Oliveira e da recuperação de uma história que Pedro Brito fez para um álbum colectivo sobre Portimão.  
Já “Calafrios”, a revista digital de terror que Filipe Azeredo começou a editar, aposta na recuperação de clássicos do terror em Banda Desenhada, que já estejam no domínio público. E, embora o nome da revista remeta para a mítica revista brasileira Calafrio, que anos 80 recuperou o melhor do terror daquele país, incluindo o trabalho do português Jayme Cortez, este “Calafrios”, centra-se nos autores da EC Comics, como Bernard Krigstein, Jack Davis, Walace Wood, Reed Crandal, Basil Woverton e Alex Toth, com este primeiro número a trazer histórias ilustradas pelos três últimos.
Duas apostas completamente diferentes, mas igualmente interessantes, com a grande vantagem de serem gratuitas, o que, nos tempos que correm, não é aspecto a negligenciar…
(TLS WEBMAG # 3 - disponível aqui
Calafrios # 1 -  disponível aqui)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 19/10/2013