terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Sangue e as Cinzas


Um dos períodos mais fascinantes da História da Humanidade, o Império Romano tem sido fonte de inspiração constante para os autores franco-belgas de BD. Basta pensar em séries como “Alix”, ou até mesmo “Astérix”, cuja acção se situa durante o governo de Júlio César. Mas, com a excepção desses clássicos, nas últimas décadas a Roma imperial deixou gradualmente de ser cenário habitual de aventuras, tanto na BD como no cinema. Se no cinema, o sucesso de um filme como “O Gladiador”, de Ridley Scott parece ter ressuscitado o “Peplum”, já na BD esse regresso dá-se mais cedo, em 1998, com “Murena”, a série de Dufaux e Delaby, que a Asa continua a editar no mercado nacional, tendo conseguido “apanhar” a edição francesa, com a publicação quase simultânea neste Verão dos tomos 8 e 9.
Argumentista de séries como “Rapaces” e “Jessica Blandy”, Dufaux já tinha tentado uma incursão pela BD histórica com a série “Giacomo C.”, passada na Veneza do século XIX, mas este “Murena” é claramente a sua aproximação mais feliz ao género e um dos seus trabalhos mais consistentes. Embora aqui, para além do talento narrativo de Dufaux, cuja eficácia é inquestionável, há também que contar com a grande riqueza do material que lhe serve de inspiração, pois a história do Império Romano, com todo um cortejo de sexo, violência, intrigas palacianas e corrupção, tem todos os ingredientes para prender o leitor, mais facilmente até do que uma história de ficção.

E “Murena”, aproveita muito bem o pano histórico em que se desenrola a acção, introduzindo personagens ficcionais num contexto histórico real, que acaba por ser o mais interessante da narrativa inventada por Dufaux, em que a lenda se apoia na História. Nesse aspecto, o jovem Murena, filho de Lola Paulina, a amante do Imperador Cláudio, que dá nome ao livro, revela-se um personagem muito menos interessante do que a personagem real de Agripina, a mãe de Nero, que tudo fez para colocar o seu filho no trono de Roma, ou do que o próprio Nero, em grande destaque nos mais recentes volumes da série.
E os dois últimos volumes centram-se precisamente no grande incêndio que quase destruiu Roma e que a lenda (e o romance “Quo Vadis” e o filme que o adapta) atribuiu a Nero, mas que nesta história resulta de um acto acidental de Lucius Murena.
Mas se a autoria do incêndio de Roma nunca foi provada, sendo um acidente a hipótese mais provável, a verdade é que o incêndio criou o pretexto ideal para uma perseguição aos cristãos, que o Imperador Nero não soube, não quis, ou não pode evitar. Por isso, mais do que Murena, é São Pedro que assume o protagonismo neste nono volume, que culmina com o seu martírio.

A eficácia do argumento de Dufaux tem correspondência, em termos gráficos, no traço clássico e pormenorizado de Philippe Delaby, um desenhador belga, com grande traquejo em termos de BD histórica (logo em 1994 ganhou o Prémio Clio atribuído pelo Salon Historique de Paris, com o álbum “Richard Coeur de Lion”, escrito pelo veterano Yves Duval) cujas páginas revelam um sólido trabalho de documentação e um apurado sentido narrativo. E, para quem acompanha a série deste o início, é evidente o modo como o traço de Delaby foi ganhando leveza, personalidade, e um espectacular sentido de composição, que brilha a grande altura no volume oito, dedicado ao incêndio de Roma. Não restam grandes dúvidas que Delaby é um dos grandes desenhadores realistas da actualidade, e o seu trabalho em “Murena”, onde é muito bem secundado pelo excelente trabalho de cores de Sebastien Girard, é a prova disso mesmo.
Agora que a edição portuguesa está finalmente a par com a original francesa, seria bom que a Asa reeditasse os volumes 1 e 2 da série, há muito esgotados, para que mais leitores possam descobrir uma das grandes séries franco-belgas das últimas décadas.
(“Murena 8: A Vingança das Cinzas”, de Dufaux e Delaby, Edições Asa, 56 pags, 16,50 €
“Murena 9: Espinhos”, de Dufaux e Delaby, Edições Asa, 48 pags, 16,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 14/09/2013

sábado, 14 de setembro de 2013

DC Comics UNCUT 10 - Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida


De todos os volumes desta colecção, este é o meu favorito! Também por isso, para além da selecção das histórias e do editorial, fiz questão de traduzi-lo. O editorial não sofreu qualquer alteração por parte da DC, pelo que a maior limitação foi mesmo o espaço disponível, que não me permitiu falar deste punhado de histórias incontornáveis, com o desenvolvimento que justificam. Espero vir a fazê-lo brevemente.

OS TEMPOS ESTÃO A MUDAR

The Times They Are a-Changin', cantava Bob Dylan em 1964 no tema título do seu terceiro álbum. E nos anos seguintes, um pouco por todo o lado, esses sinais de mudança tornavam-se cade vez mais evidentes. Os EUA estavam envolvidos na Guerra do Vietnam, de onde só sairiam, derrotados, em 1973. O reverendo Martin Luther King Jr., opositor declarado à guerra no Vietnam, que em 1964 tinha ganhado o Prémio Nobel da Paz, pelo seu combate não violento contra a discriminação racial, é assassinado em Memphis, no Tennessee, em Abril de 1968. Precisamente um mês antes de estalar em Paris uma revolta estudantil que pretendia levar “a imaginação ao poder”. Um mês depois, a 5 de Junho, em Los Angeles, o Senador Robert Kennedy, que seguindo as pisadas do irmão, se tinha candidatado à presidência dos E.U.A., tem o mesmo destino de John F. Kennedy, sendo assassinado a tiro, abrindo o caminho para a vitória de Richard Nixon nas Presidenciais, em Novembro desse ano.

Apenas os super-heróis não se apercebiam dos problemas de um mundo em convulsão, continuando a combater as mesmas ameaças galácticas, derrotando pela enésima vez os mesmos vilões fantasiados, não se dando conta que o mundo à sua volta estava a mudar. Até que em 1970, o lendário editor Julius Schwartz, um judeu de Nova Iorque apaixonado pela ficção científica e pela fantasia, tendo sido agente de escritores como Ray Bradbury e Robert Bloch, se lembrou de entregar o destino da revista Green Lantern, título então à beira do cancelamento devido às fracas vendas, nas mãos do argumentista Denny O’Neil.
O’Neil, que além de escritor tinha trabalhado como jornalista, procurou trazer para a Banda Desenhada uma mistura de ficção e jornalismo, na linha dos escritores que admirava, os “novos jornalistas” como Norman Mailer, Truman Capote e Hunter S. Thompson e a série Green Lantern podia ser o terreno ideal para essa experiência, de trazer temas do quotidiano socialmente relevantes para um universo dominado pela fantasia.
Como o próprio refere, na introdução a uma reedição da série, em 2004: “O que aconteceria se puséssemos um super-herói num cenário real, tendo que lidar com problemas da vida real? Comecemos pela personagem. O Lanterna Verde era, para todos os efeitos, um polícia. Um polícia incorruptível, obviamente, com intenções nobres, mas um polícia, um cripto-fascista: cumpria ordens, exercia a violência de acordo com as instruções dos seus superiores, cuja autoridade nunca questionava. Se assistia a alguma infração à lei, o seu instinto dizia-lhe para atacar quem não cumpriu a lei, sem se interrogar quanto aos seus motivos. Não foi essa mentalidade que mandou as tropas americanas para a Coreia e o Vietnam? (…) Não é que o Lanterna Verde fosse mau (…) ele apenas nunca teve nenhum motivo para duvidar das suas motivações. Aqui estava um bom ponto de partida. Ia dar-lhe dúvidas.

Enquanto magicava em possíveis histórias, apercebi-me que o Lanterna Verde necessitava de um parceiro, alguém com quem discutir. O Arqueiro Verde era a escolha lógica e não só por causa dos nomes. O Arqueiro Verde era o “bombeiro de serviço” dos heróis da DC. Andava por aí desde 1941, mas nunca foi suficientemente popular para ter uma revista própria. (…) Tirei partido dessa existência fluida numa história da Liga da Justiça, fazendo-o perder a sua fortuna e com isso arrastar os seus amigos para uma crise. Tive autorização para fazer isso porque nenhum dos editores se parecia preocupar muito com ele; ninguém estava minimamente interessado no que acontecia ao Arqueiro Verde. Por coincidência, Neal Adams, tinha alterado a sua aparência, redesenhado o seu uniforme, e acrescentado uma barba, numa história para a revista Brave & Bold, escrita por Bob Haney. Assim, o Arqueiro Verde já tinha um uniforme novo e um estatuto social diferente. Porque não dar-lhe também uma nova personalidade, especialmente porque a antiga era tão indefinida que ninguém sabia bem qual era? Ele podia ser um anarquista saudável e com pelo na venta, em contraste com o calmo e cerebral cidadão-modelo que era o Lanterna Verde. Formariam as duas partes em diálogo sobre os assuntos que decidíssemos abordar nas histórias”.
Embora O’Neil tenha escrito a primeira história pensando que seria o veterano Gil Kane, então o desenhador regular da série, a desenhá-la, Schwartz decidiu entregar essa missão ao jovem Neal Adams, que tinha feito um excelente trabalho ao criar o novo uniforme do Arqueiro e o resultado só veio confirmar a visão de Schwartz na escolha dos autores certos para cada herói.

Vindo da ilustração e da publicidade, Neal Adams concilia o dinamismo próprio dos comics de super-heróis, com um hiper-realismo no tratamento das feições, que se revela extremamente adequado a uma série que introduz os problemas da sociedade moderna, num universo de ficção heroica. Ao longo do livro qua vão ler, são inúmeros os exemplos da excelência do traço dinâmico de Adams e do seu notável talento narrativo. Mas detenhamo-nos apenas numa sequência da primeira história, uma sequência de três quadrados, dos mais reproduzidos da história da BD, em que um velho negro confronta o Lanterna Verde com a sua passividade face ao racismo. A cena passa-se no terraço de um prédio em ruinas, mas esse cenário, mostrado na página anterior, está ausente desta sequência, pois só iria distrair os leitores da importância do diálogo. Em vez disso, a cor dos fundos, diferente nos três quadrados, transmite emoções, desde a raiva do velho negro, simbolizada pelo fundo vermelho, até o desmoronar das certezas do Lanterna Verde, que o fundo cinzento e cheio de ruído, tal como a sua postura, de um homem abatido e envergonhado, bem traduzem.
E, mesmo que o talento de Adams fale por si, não resisto a citar mais uma vez O’Neil, a propósito da arte de Neal Adams: “ele é um indivíduo imensamente talentoso, com uma abordagem própria à arte da Banda Desenhada. No fundo é um realista cuja imaginação consegue esticar os parâmetros das coisas-tal-como-são, de modo a incluir o extravagante e o fantástico. “Se os super-heróis existissem”, disse-me uma vez, “tinham que se parecer com os meus desenhos”.
Nas histórias de Adams e O’Neil, o Lanterna Verde vai trocar os combates intergalácticos a que estava habituado, pela realidade da América profunda, que percorre na companhia do Arqueiro Verde e de um dos guardiões. Uma América onde há racismo, trabalho escravo e a lei protege os corruptos. Uma América que chora a morte dos Kennedy e de Luther King, com uma juventude que procura fugir à ameaça real da guerra do Vietnam refugiando-se na droga. Tudo temas controversos, aqui tratados de forma directa e sem grandes subtilezas. Veja-se o famoso díptico de histórias dedicado ao problema das drogas, em que o Arqueiro Verde descobre que o seu pupilo Speedy, é viciado em heroína. Para além do inesperado de ver um super-herói, mesmo júnior, entregue a um vício mortal, há ainda a posição pouco confortável do Arqueiro Verde, demasiado ocupado a tentar mudar o mundo para se aperceber do drama que tinha em sua casa. Uma história incontornável, que representou um verdadeiro choque para os leitores da época e trouxe a Banda Desenhada para as primeiras páginas dos jornais, para além de ter motivado uma carta de agradecimento do Presidente da Câmara de Nova Iorque, pela forma realista e responsável como um tema tão importante para a juventude, foi tratado.

Nesta série, que embora escrita e publicada no início da década de 70, está firmemente ancorada na década de 60, não falta uma homenagem a Bob Dylan e aos cantores de protesto, através da personagem de Johnny Walden, cuja música incentiva os habitantes de Desolation, uma pequena aldeia mineira, a lutarem contra o dono da mina que os escraviza. Memorável é também a história que encerra este volume, em que a figura de Jesus Cristo é actualizada para o século XX, através de Isaac, um líder ecologista disposto a morrer pelos seus ideais, que acaba crucificado na asa de um avião.
Apesar do impacto que a série teve, e da qualidade e da relevância das histórias que publicaram, a colaboração da dupla limitou-se a apenas doze números, os nºs 76 a 89 da revista Green Lantern publicados entre 1970 e 1972, para além de quatro histórias curtas, publicadas como complemento na revista Flash, entre 1973 e 1974. O seu esforço não foi suficiente para salvar a revista, que foi cancelada no nº 89. Mas então a dupla já estava mais centrada noutra aventura. Reformular o Batman, em histórias inesquecíveis, como as que tivemos o privilégio de ler no volume anterior desta colecção.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Dez Anos sem Johnny Cash


Passam precisamente  hoje dez anos sobre o falecimento de um dos maiores nomes da música americana do século XX, Johnny Cash, o "Man in Black". Descobri Cash algo tardiamente, mas fiquei absolutamente fascinado com os álbuns da fase final da sua carreira, a série "American Recordings", produzida por Rick Rubin, em que Cash cria versões definitivas de temas de gente tão díspares como U2, Nick Cave, Depeche Mode, Sting, ou Nine Inch Nails.

Apesar das excelentes interpretações de Joaquin Phoenix e de Reese Witherspoon (que até lhe valeu um Óscar) o filme Walk the Line, talvez por ser muito centrado na relação dele com June Carter, não me parece que tenha captado bem toda a complexidade de Johnny Cash. Algo que Cash: I See a Darkness, a biografia em Banda Desenhada do Man in Black escrita por Reinhard Kleist em que a vida e as canções de Cash se fundem e confundem, conseguiu bastante melhor. Não por acaso, a primeira edição da segunda série do programa Planeta Calafrio, um programa radiofónico sobre BD que fiz na Rádio Universidade de Coimbra, com a Maria Santos, foi dedicada a Johnny Cash e à novela gráfica de Kleist. Além da capa do livro, deixo-vos com o autógrafo que Kleist me fez em Angoulême e com o belíssimo  videoclip de Mark Romanek para a versão que Johnny Cash fez do Hurt dos Nine Inch Nails. Uma versão tão poderosa que o próprio Trent Raznor reconheceu que a canção deixou de ser dele para pertencer a Johnny Cash.



sexta-feira, 6 de setembro de 2013

DC Comics UNCUT 9 - Batman: saga de Ra's Al Ghul


Este volume, que é um dos meus favoritos da colecção, deveria logicamente ter publicado primeiro do que Herança Maldita, o vol 2 da colecção, cuja acção não só é posterior, mas deriva directamente dos acontecimentos narrados neste volume, mas por razões comerciais, a DC achou melhor publicar primeiro a história em que Batman conhece e treina o seu filho, do que a saga em que conhece Talia, a mãe do seu filho e esse filho é gerado... Por isso, se por acaso ainda não leram nenhum dos volumes, sugiro que comecem por este e só depois leiam o Herança Maldita...


BATMAN CONTRA O DEMÓNIO

Se quisermos encontrar a palavra que melhor define a passagem de Neal Adams e Denny O'Neil pela série Batman, entre os finais dos anos 60 e inícios da década de 70, essa palavra será mudança. Uma palavra que traduz bem o zeitgeist (espírito da época) de uma América a braços com a guerra do Vietname e a ainda a recuperar do pesadelo da morte de Kennedy, que assinalou o princípio do fim do sonho americano, que o escândalo de Watergate que levou à demissão de Nixon em 1974, enterraria de vez.
Nessa América em mudança, é natural que os jovens leitores já não se identificassem com a versão kitsch do Batman que marcou a década de 60, de que a série televisiva com Adam West foi o expoente máximo em termos mediáticos. Daí a necessidade de criar um novo herói para uma nova era, um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores. Julius Schwartz, o editor da DC encarregue da personagem, sabia quem eram os homens certos para esse trabalho e optou por reunir novamente o escritor Denny O'Neil com o desenhador Neal Adams, depois da revolucionária passagem da dupla pela série Lanterna Verde/Arqueiro Verde, de que poderemos ler uma selecção dos melhores episódios no próximo volume desta colecção.

Se Adams, com o seu traço único, que alia um realismo fotográfico a uma planificação dinâmica e espectacular, já tinha desenhado e modernizado a imagem de Batman na série The Brave And the Bold, ilustrando histórias de Bob Hanney, O'Neill, que começou a sua carreira como repórter especializados em assuntos criminais, vai introduzir uma série de alterações na vida da personagem, que farão com que os leitores percebam que estão perante um novo Batman, um Batman diferente. Para além do tom das histórias, mais sombrias e realistas, essas mudanças passam pela ida de Robin para a Universidade de Hudson, colocando fim ao duo dinâmico e levando Bruce Wayne a trocar a Mansão Wayne, demasiado grande para ele e o seu mordomo Alfred viverem lá sozinhos, por um luxuoso apartamento com terraço no centro de Gotham. Mas, a mais importante de todas essas mudanças e aquela que nos interessa especialmente foi o aparecimento de um novo inimigo do Batman, um inimigo diferente, sem uniformes vistosos, ou superpoderes, mas com os meios, a motivação e o intelecto que lhe permitem afirmar-se como uma tremenda ameaça para o Cavaleiro das Trevas. Esse vilão é Ra's Al Ghul.
Com um nome de origem árabe, sugerido por Schwartz, que numa tradução literal significa "cabeça do demónio", Ra's Al Ghul revela-se um adversário poderoso, com a perspicácia e os meios que lhe permitem descobrir a identidade secreta de Batman. Um homem a quem o Poço de Lázaro, dispositivo que lhe permite regenerar o corpo, dá uma espécie de imortalidade, e que está obcecado com a sua missão de transformar o mundo decadente que o rodeia num mundo melhor, sem crime, nem poluição. Uma missão que pretende cumprir a todo o custo, independente dos milhões de pessoas que seria preciso sacrificar para tornar esse sonho realidade. E que, embora tenha pelo Batman grande respeito e até admiração, não hesitará em matá-lo, caso o Cavaleiro das Trevas se atravesse no seu caminho.

O nome de origem árabe e o uso do terrorismo como meio de impor a sua ideologia, poderão levar alguns leitores a ver na personagem de Ra’s Al Ghul uma alusão, mais ou menos indirecta, ao terrorismo islâmico, mas esta é claramente uma interpretação abusiva, pois na época o terrorismo não era ainda um tema que tivesse grande impacto no público americano, para além de ser então, tanto na Europa como Médio Oriente, um processo mais colectivo, sem um líder carismático e claramente identificável. Parece-nos pois mais provável a interpretação de Jess Nevins, no livro Heroes and Monsters, que defende que a filiação de Ra’s Al Ghul vem mais de personagens da literatura pulp, como o Dr. Fu Manchu, de Sax Rohner. E a verdade é que Ra’s Al Ghul partilha com o Dr. Fu Manchu uma série de características, para além da origem não ocidental. Ambos são autênticos génios que pretendem a todo o custo moldar o mundo aos seus ideais. Os dois comandam uma rede de assassinos bem treinados, a Liga das Sombras de Al Ghul e os Si-Fan de Fu Manchu. E ambos têm filhas belas e independentes, Talia e Fah So Luee, que se vão envolver romanticamente com os inimigos dos pais, Batman e Sir Denis Nayland Smith  
E a sua filha Tália é outro aspecto que torna Ra’s Al Ghul uma personagem fundamental do universo DC. Uma mulher fatal, tão bela quanto perigosa, que se vai tornar o grande amor de Batman, apesar de muitas vezes estarem em lados diferentes da barricada. E essa história de amor, que as actividades criminosas de Talia e do seu pai, tornam proibido, vem revelar uma dimensão mais humana do Cavaleiro das Trevas, dividido entre o amor e o dever.

Curiosamente, Talia até aparece antes do pai nas aventuras do Batman, salvando a vida do herói numa história publicada em Maio de 1971 no nº 411 da revista Detective Comics, que O’Neil escreveu para os desenhos de Bob Brown e Dick Giordano e que, por uma questão de espaço não incluímos neste volume. E se o nome de Ra’s Al Ghul é aqui referido pela primeira vez, a sua primeira aparição física acontece apenas um mês depois, na história A Filha do Demónio, que abre este volume, em que Dick Giordano passa a tinta os desenhos de Neal Adams, de quem, curiosamente, era o editor na série Deadman. A imagem imediatamente identificável de Ra’s Al Ghul, com a testa larga, ausência de sobrancelhas que acentuam o olhar penetrante, nariz aquilino e lábios finos, é da inteira responsabilidade de Adams, que quis desenhar uma personagem que fosse imediatamente reconhecível, mesmo sem um uniforme colorido. Como refere O’Neil numa entrevista: “ na altura, não tinha nenhuma ideia para o visual dele. Foi uma surpresa quando vi o que Neal tinha feito com a personagem. Mas foi uma surpresa muito agradável.”
Embora o trabalho de Denny O’Neil com Ra’s Al Ghul seja incontornável, tanto nas histórias que escreveu para Neal Adams, como em trabalhos posteriores, como a novela gráfica Birth of the Demon, ilustrada por Norm Bretfogle que explora o passado de Al Ghul, entre a história e a lenda, O’ Neil não foi o único a utilizar a personagem em histórias com grande impacto na mitologia do Cavaleiro das Trevas. Para além de inúmeros exemplos na Banda Desenhada, veja-se a trilogia cinematográfica que Cristopher Nolan dedicou ao Cavaleiro das Trevas, em que Ra’s Al Ghul e a Liga das Sombras têm um papel fundamental, no primeiro e no terceiro filme.

Outro exemplo da importância de Ra’s Al Ghul na mitologia do Batman é O filho do Demónio, a novela gráfica de Mike W. Barr e Jerry Bingham que encerra este volume. Uma história épica, ilustrada de forma dinâmica por Bingham, com os cenários a acção e a grandiosidade dos melhores filmes de James Bond, em que Batman e Ra’s Al Ghul se aliam para derrotar Quain, um fanático religioso que tinha sido responsável pela morte da mãe de Talia e pretendia provocar a 3ª Guerra Mundial. É nesta história que se desenvolve até às últimas consequências o romance entre Batman e Talia. Uma complexa história de amor, finalmente consumado, e que vai dar origem a um filho.
Filho de cuja existência Batman só terá conhecimento anos mais tarde, quando Grant Morrison decide reintegrar Damian - assim se chama a criança que Talia vai criar e educar como um guerreiro - na continuidade oficial do Cavaleiro das Trevas. Isso aconteceu numa história que os leitores puderam acompanhar na saga Herança Maldita, já publicada no volume 2 desta coleção.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ainda está nas bancas um dos melhores Tex Gigante de sempre


Por regra, os meus textos destinados ao Diário As Beiras, saem primeiro no jornal, antes de serem publicados em versão alargada neste blog. Mas no caso do texto desta semana, dedicado ao Tex Gigante nº 25, que termina o seu percurso nas bancas no início da próxima semana, decidi abrir uma excepção para evitar que muitos dos meus leitores só se apercebam da saída deste belíssimo livro, quando ele já não estiver à venda.
E a verdade é que é mesmo um crime perder o melhor Tex Gigante que já li e que, por isso mesmo, já tinha feito parte da lista das minhas Melhores Leituras de 2011, apresentada neste blog em Janeiro de 2012.

Escrito por Gianfranco Manfredi, o argumentista do excelente Western “Mágico Vento”, outra bela série da Bonelli que também chegou a Portugal via edição brasileira da Mythos, o argumento de “Na Trilha do Oregon” surpreende pelo destaque pouco habitual dado às personagens femininas. Personagens essas que, por regra, brilham pela ausência no universo do ranger criado por G. L. Bonelli e Aurelio Galleppini, mas que aqui estão no centro da bem urdida intriga, centrada no percurso de uma caravana de mulheres, que se dirige para o Oregon, onde as esperam os futuros maridos e que se cruzam com Tex e Kit Carson, que seguem o mesmo caminho, em perseguição de um assassino fugitivo.  E, ao contrário do que seria de esperar, estas mulheres não são meras figurantes, mas personagens bem definidas, tal como o assassino que os heróis perseguem e que se revela uma figura trágica, por quem o leitor acaba por sentir alguma piedade.
Mas, apesar do belo argumento de Manfredi, o melhor deste Texone é o desenho do argentino Carlos Gomez. Numa coleção por onde já passaram grandes nomes da BD mundial, como Magnus, Joe Kubert, Jordi Bernett, Victor De La Fuente, Manfred Sommer, Guido Buzelli, ou José Ortiz, o traço elegante e pormenorizado de Gomez destaca-se ainda assim, confirmando o extraordinário talento do desenhador argentino, praticamente desconhecido em Portugal, mas muito popular em Itália graças à série “Dago”, que desenhou entre 1997 e 2008. Série que narra as aventuras de um nobre veneziano do século XVI que se torna mercenário, “Dago” foi o maior sucesso da Eura Editoriale, a grande concorrente da Bonelli nos quiosques italianos, muito por força do desenho de Gomez.

Tendo começado a sua carreira como assistente dos desenhadores argentinos Lito Fernandez e Horacio Lalia, Gomez saltou para a ribalta em 1997, quando substituiu Alberto Salinas, o filho do mítico José Luis Salinas, o desenhador de Cisco Kid, na série “Dago”, escrita pelo prolífico argumentista Robin Wood. Habituado a desenhar cavalos na série “Dago”, Gomez revelou-se uma escolha inspirada para desenhar um Western como Tex. Mas não é só nos cavalos que o desenhador argentino brilha, pois o desenhador argentino revela-se exuberante no tratamento dos cenários, notável na expressividade dos rostos e extraordinariamente eficaz nas cenas de acção. Com um traço de raiz clássica, que alia a visceralidade e o dinamismo à elegância, Gomez revela-se à altura dos grandes desenhadores do seu país, como Solano Lopez, José Muñoz, Alberto Breccia, Enrique Breccia, Eduardo Risso ou Horacio Altuna.
  Em resumo, se a coleção Tex Gigante merece sempre atenção, este “Na Trilha do Oregon” é mesmo a não perder, para quem gosta de uma história bem contada, servida por um excelente desenho realista de um artista argentino que se revelou um mestre dos fumetti, a BD italiana.
(“Tex Gigante nº 25: Na Trilha do Oregon”, de Gianfranco Manfredi e Carlos Gomez, Mythos Editora, 242 pags, 10,00 €)
Versão integral do texto a publicar no Diário As Beiras de 7 de Setembro de 2013