domingo, 29 de janeiro de 2012

Blankets finalmente em português

Quase ao mesmo tempo que "Habibi", o seu último livro saia nos Estados Unidos, chegava finalmente às livrarias nacionais, a edição de “Blankets”, a obra que deu fama a Craig Thompson, aquando da sua publicação original em 2003.
Como mais vale tarde do que nunca, Blankets aqui está em português, numa bela edição em capa dura da Devir, que assim abre da melhor maneira a colecção “Biblioteca de Alice”, dedicada à Banda Desenhada de Autor.
Belíssimo livro de quase 600 páginas, “Blankets” é uma história de amor e um relato autobiográfico sincero de uma infância vivida no Wisconsin, no seio de uma família fundamentalista cristã, em que o peso da religião e a noção de pecado estão sempre presentes, condicionando a vocação artística do autor, que chegou a queimar todos os seus desenhos de infância, por achar que a sua arte o afastava de Deus e da salvação…
Mas, mais do que a infância de Thompson num meio ultra-conservador, na América profunda, “Blankets” gira em torno da sua história de amor com Raina, uma rapariga que conheceu numa colónia de férias e que lhe oferece a manta de retalhos (blanket) dá nome ao livro. É esse primeiro amor, sempre inesquecível, que Thompson recorda em belíssimas sequências, muito bem contadas e magnificamente desenhadas. Mais do que um grande narrador, Thompson é um formidável desenhador, que alterna com elegância entre os registos realista e caricatural, explorando muito bem todas as potencialidades do preto e branco, através de um traço de grande dinâmica e elegância.
A vontade de homenagear Deus e as suas criações (pois como bem lembra, Roger Vadim, num filme com Brigitte Bardot, “Deus criou a mulher”…) fazem com que Thompson gaste quase 600 páginas a contar uma história que podia perfeitamente contada em menos de 100, caso se abdicasse do ritmo contemplativo e da hábil gestão dos silêncios que ajuda a que nos concentremos na contemplação do desenho. E a verdade é que estas quase 600 páginas se lêem de um fôlego e com grande prazer! Vencedor de vários Prémios Eisner e Harvey nos Estados Unidos, aquando da sua publicação original, “Blankets” é, (a par com “Emigrantes”, de Shaun Tan) o melhor livro de BD publicado em Portugal em 2011 e, naturalmente, um livro altamente recomendável para todos os leitores.
(“Blankets”, de Craig Thompson, Devir, 594 pags, 35 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 28/01/2012
PS - Para terminar, aqui fica o belo desenho que Craig Thompson me fez no Festival de Beja de 2009.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Miguelanxo Prado na TV espanhola

Miguelanxo Prado, o genial autor galego esteve em destaque no programa Ofícios de Cultura da TVE, com uma reportagem em que explica a um jovem desenhador o seu método de trabalho. Esta reportagem, além de revelar algumas pranchas e a capa do novo álbum de Prado, Ardalén,uma novela gráfica de 180 páginas, e nos dar a descobrir o estúdio onde o artista trabalha, tem também várias cenas filmadas na última edição do Festival Viñetas desde el atlântico, de que Prado é um dos directores.
Mesmo para quem não percebe o espanhol, vale muito a pena pelas imagens e pela oportunidade de ver Miguelanxo Prado (mas também Emile Bravo e Carlos Pacheco) a desenhar ao vivo.



sábado, 21 de janeiro de 2012

Cartografias da Memória e do Quotidiano inaugura hoje em Guimarães

Na programação da Capital Europeia da Cultura, Guimarães 2012, também há espaço para a BD e a ilustração, através da exposição Cartografias da Memória e do Quotidiano, que hoje inaugura. Esta exposição, coordenada pela ESAP-Guimarães para a Capital da Cultura conta com trabalhos de 6 ilustradores, 3 portugueses (João Fazenda, Marco Mendes e Nuno Sousa) e 3 estrangeiros, que regressarão a Portugal para o Festival MAB Invicta (Denis Deprez, Anke Feuchtenberger e Ulli Lust) realizados no âmbito de uma residência artística na cidade de Guimarães. As imagens (da terra, das gentes, da memória de Guimarães) resultantes destas residências foram ampliadas e espalhadas por vários espaços da cidade, em outdoors e na fachada dos prédios, mas os originais e os estudos preparatórios dos seis autores estão desde hoje expostos na Sociedade Martins Sarmento, até dia 4 de Março.
No dia 3 de Março, haverá uma mesa redonda com os autores presentes e será lançado o catálogo bilingue, que conta com um texto deste vosso escriba sobre a exposição. Mas até lá, aqui fica a sugestão para passarem por Guimarães, uma bela terra, onde nunca faltam motivos de interesse, especialmente nesta altura, como podem ver aqui

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As 10 Melhores BDs que li em 2011 - Parte II


6 - Parker: The Outfit, de Darwyn Cooke e Richard Stark, IDW

Segunda adaptação feita por Darwyn Cooke dos romances de Richard Stark (pseudónimo usado por Donald Westlake quando escrevia policiais) com o personagem Parker, The Outfit mostra um Cooke cada vez mais à vontade com o universo de Stark e sem qualquer receio de fazer experiências. Vejam-se as sequências do livro 3, apresentadas como um artigo numa revista, ou como um desenho animado da UPA, bem demonstrativas do talento narrativo de Cooke. Graficamente, mantêm-se a estilização e a elegância a que Darwyn Cooke nos habituou, com um trabalho bitonal que assenta como uma luva ao tom "retro" da história, passada nos anos 50.


7 - Polina, de Bastien Vivès, Casterman

Depois do magnífico Dans Mes Yeux, Bastien Vivés assina outro grande livro com Polina, a história da relação de uma jovem bailarina com o seu mestre, contada com um traço a preto e branco de extraordinária leveza, que parece flutuar na página, graças a um inteligente uso dos fundos cinzentos.Tão novo como talentoso, Vivès afirma-se cada vez mais como a grande revelação da BD franco-belga dos últimos anos.


8 - Portugal, de Cyril Pedrosa, Dupuis

Ficção autobiográfica sobre um autor que descobre as suas origens, Portugal tem conquistado a unanimidade da crítica e dos leitores franceses. O último trabalho de Cyril Pedrosa, autor francês de ascendência portuguesa, é uma belíssima viagem (a portugal, mas também interior) de quase 300 páginas, que se lêem de um fôlego. Integrando de forma harmoniosa os croquis do seu caderno de viagem, no meio das páginas de BD, Pedrosa constrói um belo livro, cheio de sensibildade e humor, mas que, infelizmente, dificilmente teremos oportunidade de ler em português...


9 - Stargazing Dog, de Takashi Murakami, Nbm

Esta bela capa transmite uma imagem de felicidade enganadora, pois esconde a história mais triste que li nos últimos anos. Os japoneses têm tradição nas histórias de fazer chorar as pedras da calçada (basta pensar num filme como Grave of the Fireflies, de Isao Takahata) e este Stargazing Dog é um bom exemplo. Uma história tão bela quanto triste, que Murakami conta de uma forma rigorosa, conseguindo (quase sempre) evitar cair na lamechice.


10 - Tex: Na Trilha do Oregon, de Manfredi e Gomez, Mythos Editora

Mais do que uma agradável surpresa, este Na Trilha do Oregon é, provavelmente o melhor "Texone" que já li. Para além de uma história interessante, muito bem construída por Gianfranco Manfredi que dá às personagens femininas um destaque pouco habitual numa história de Tex, há o desenho espectacular de Carlos Gomez. Verdadeira estrela em Itália, graças à série Dago, mas praticamente desconhecido no resto da Europa, este argentino é um desenhador de mão cheia, com um traço tão dinâmico como pormenorizado e que dá aos rostos uma grande expressividade que faz lembrar Buzzelli, embora o traço de Gomez seja mais elegante.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As 10 Melhores BDs que li em 2011 - Parte I

Nesta altura do ano, é quase inevitável fazer as listas das melhores leituras do ano que terminou, e eu, mais uma vez, não fujo à tradição. Como das outras vezes, o critério de escolha foi os livros que li pela primeira vez em 2011, independentemente do local, ou data de publicação original. Daí que as mais importantes edições nacionais de 2011, Blankets e Emigrantes, não estejam nesta lista, pois já as tinha lido na edição original, há já alguns anos. O mesmo se aplica às excelentes reedições que estão a ser lançadas no mercado francês, de séries como Philemon, de Fred, Jerry Spring, de Jijé, Theodore Poussin, de Frank Le Gal e La Dynastie Donald Duck, de Carl Barks, que teriam certamente entrado nesta lista, caso as tivesse lido em 2011 pela primeira vez. Do mesmo modo, fica fora desta lista o Agência de Viajes Leming de José Carlos Fernandes, pois embora só em 2011 tenha sido publicado em livro pela Astiberri, tive ocasião de o ler pela primeira vez em 2006, ainda em fotocópia e, mais tarde, cheguei a ver provas da edição da Devir que nunca chegou a ser publicada.
Explicados os critérios de escolha, aqui vai a primeira parte da lista, ordenada por ordem alfabética:



1 - 36-39: Malos Tiempos, de Carlos Gimenez, De Bolsillo


Este livro, previamente publicado em 5 volumes pela Glenat España é mais uma viagem de Carlos Giménez ao seu passado, na linha de Paracuellos. Uma ficção autobiográfica, que mistura momentos vividos pelo próprio, com depoimentos recolhidos por Gimenez. O retrato que Giménez traça da vida em Madrid durante a Guerra Civil espanhola, é impressionante e a forma como o conta, mostra todo o talento de um grande autor de BD, que há muito atingiu a maturidade.


2 - Criminal: The Last of the Innocent, de Ed Brubaker e Sean Philips, Marvel/Icon

Com a série Criminal, Ed Brubaker e Sean Philips assinaram alguns dos melhores policiais negros dos últimos anos, com personagens à beira do abismo, diálogos afiados como um bisturi e um desenho de uma eficácia extraordinária, que recria no papel a ambiência do melhor film noir. Neste The Last of the Innocent, Brubaker e Philips arranjaram um processo narrativo tão simples como genial para tratar os flash-backs da adolescência de Riley Richards, apresentando-os num estilo gráfico diferente, que remete para as revistas da Archie Comics, estabelecendo assim um óbvio contraste entre um passado tranquilo e feliz e um presente sombrio. Brubaker diz que este livro é capaz de ser a melhor coisa que ele já fez e não sou eu que o vai desmentir!


3- Dog Mendonça na Dark Horse, de Filipe Melo e juan Cavia, Dark Horse Presents nºs 4 a 7

A estreia de Dog Mendonça no mercado americano deu-se com estas quatro histórias de 8 páginas publicadas na revista Dark Horse Presents com o intuito de apresentar o lobisomem português aos leitores americanos, antes da Dark Horse lançar o primeiro álbum da série. Na realidade, estamos perante uma história em 3 partes, que relata a origem de Dog Mendonça e que termina precisamente onde começa o primeiro livro, e uma 2ª história solta,com os nossos heróis num Festival de BD. Para além do humor e das referências cinematográficas que são habituais na série, estes episódios introduzem uma nova dimensão metalinguística, ao colocar os personagens a falar directamente com os leitores, perfeitamente conscientes de que estão nas páginas da revista. Também em termos gráficos, é evidente o progresso de Juan Cavia, com as cores de Santiago Villa a serem reproduzidas, pela primeira vez, na perfeição. Um óbvio passo em frente para a mais popular BD portuguesa dos últimos anos.


4 - Dylan Dog: La Pequeña Muerte, de Sclavi, Ruju e Roi, Aleta ediciones


Desde que a Mythos deixou de publicar a série Dylan Dog, tenho tido grandes dificuldades em manter o contacto com o peculiar detective criado por Tiziano Sclavi. Até que descobri as edições espanholas da Aleta Ediciones, impressas no formato original e com um papel bastante superior ao usado pela Mythos. Entre as mais de 20 aventuras de Dylan Dog que li em 2011, La Pequeña Muerte, história desenvolvida por Pasquale Ruju a partir de uma ideia de Tiziano Sclavi, foi um dos melhores. O facto da história ser desenhada por Corrado Roi, o meu desenhador favorito de Dylan Dog e um grande desenhador em qualquer parte do mundo, como se pode ver por aqui, claro que também ajudou à escolha...


5 - Habibi, de Craig Thompson, Pantheon


Sete anos depois de Blankets, o tão aguardado novo livro de Craig Thompson aí está. E graficamente, não há qualquer dúvida que valeu a espera, com o magnífico traço de Thompson cada vez mais apurado e com um excelente uso das potencialidades decorativas da caligrafia árabe. Obra monumental e de grande ambição, Habibi acaba por ser um pouco vítima desse excesso de ambição, pois a necessidade de abordar tantos temas (a escravatura, a ecologia, o amor, a religião, etc) acaba por perturbar um pouco o fluir da narrativa. O que não impede que Habibi seja um livro belíssimo e uma leitura altamente recomendável!

Continua...