quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Amadora BD 2011
É já amanhã que abre o 22º Festival da Amadora, este ano dedicado ao humor. Podem ver a programação e outra informação na página do Festival no Facebook. Mesmo sem grandes nomes internacionais, o Amadora BD merece sempre uma visita. Apareçam! Eu estarei por lá aos fins-de-semana, na Livraria do Festival, gerida pela Dr. Kartoon
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Bilal revisita Shakespeare
Pouco mais de um ano depois de “Animal’Z”, Bilal regressa ao universo pós-apocaliptico do álbum anterior, com “Júlia & Roem”, uma revisitação futurista do “Romeu e Julieta”, de Shakespeare.
Tal como o próprio Bilal referiu numa entrevista, aquando da saída de “Animal’Z”, estes dois últimos álbuns representam uma ruptura com a sua obra anterior. “Uma ruptura narrativa -um one-shot, uma história num único álbum de perto de 100 páginas- mas também gráfica: preto e branco, em vez de pintura, o desenho em estado puro, realçado por ligeiros toques de cor, um traço mais rápido, mais enérgico.”
Ou seja, temos um Bilal longe do fantástico trabalho de cor a que nos habituou, optando por explorar o traço de forma livre, num trabalho executado a grafite e pastel seco, num registo quase monocromático, em que a principal nota de cor é dada pela tonalidade do papel, com o azul dominante de “Animal’Z”, a dar lugar desta vez aos tons castanhos, quebrados por pequenos apontamentos de branco, azul e de vermelho.
Tendo como cenário o mesmo mundo que viu as suas condições climatéricas dramaticamente alteradas pelo “Golpe de Sangue”, uma catástrofe natural que tornou a maior parte do planeta inabitável e a água potável um bem tão raro como precioso, os dois álbuns são igualmente afectados pelo excesso de referências literárias e de citações, neste caso pertencentes à peça de William Shakespeare, que Bilal já tinha tratado numa série de ilustrações soltas.
Mas Shakespeare não é o único a ser citado, pois “Júlia & Roem” está cheio de referências a outros trabalhos de Bilal, em especial no cinema, com o hotel abandonado onde decorre parte da acção, a remeter para “Bunker Palace Hotel, o seu primeiro filme, enquanto que o segundo capítulo abre com uma citação de “Bleu Sang”, o seu último filme.
Resumindo, à parte de um final feliz, e do padre que guia um ferrari electríco e tem tatuados os símbolos de todas as ideologias e religiões, esta adaptação/revisitação do clássico de Shakespeare não traz nada de novo, o mesmo acontecendo no plano gráfico, onde o registo minimalista já perdeu o efeito-surpresa. Um livro só para os incondicionais de Bilal, que não faz esquecer as suas colaborações com Pierre Christin, ou mesmo a “Trilogia Nikopol”.
(“Júlia & Roem”, de Enki Bilal, Edições Asa, 96 pags, 21,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As beiras de 15/10/2011
Tal como o próprio Bilal referiu numa entrevista, aquando da saída de “Animal’Z”, estes dois últimos álbuns representam uma ruptura com a sua obra anterior. “Uma ruptura narrativa -um one-shot, uma história num único álbum de perto de 100 páginas- mas também gráfica: preto e branco, em vez de pintura, o desenho em estado puro, realçado por ligeiros toques de cor, um traço mais rápido, mais enérgico.”
Ou seja, temos um Bilal longe do fantástico trabalho de cor a que nos habituou, optando por explorar o traço de forma livre, num trabalho executado a grafite e pastel seco, num registo quase monocromático, em que a principal nota de cor é dada pela tonalidade do papel, com o azul dominante de “Animal’Z”, a dar lugar desta vez aos tons castanhos, quebrados por pequenos apontamentos de branco, azul e de vermelho.
Tendo como cenário o mesmo mundo que viu as suas condições climatéricas dramaticamente alteradas pelo “Golpe de Sangue”, uma catástrofe natural que tornou a maior parte do planeta inabitável e a água potável um bem tão raro como precioso, os dois álbuns são igualmente afectados pelo excesso de referências literárias e de citações, neste caso pertencentes à peça de William Shakespeare, que Bilal já tinha tratado numa série de ilustrações soltas.
Mas Shakespeare não é o único a ser citado, pois “Júlia & Roem” está cheio de referências a outros trabalhos de Bilal, em especial no cinema, com o hotel abandonado onde decorre parte da acção, a remeter para “Bunker Palace Hotel, o seu primeiro filme, enquanto que o segundo capítulo abre com uma citação de “Bleu Sang”, o seu último filme.
Resumindo, à parte de um final feliz, e do padre que guia um ferrari electríco e tem tatuados os símbolos de todas as ideologias e religiões, esta adaptação/revisitação do clássico de Shakespeare não traz nada de novo, o mesmo acontecendo no plano gráfico, onde o registo minimalista já perdeu o efeito-surpresa. Um livro só para os incondicionais de Bilal, que não faz esquecer as suas colaborações com Pierre Christin, ou mesmo a “Trilogia Nikopol”.
(“Júlia & Roem”, de Enki Bilal, Edições Asa, 96 pags, 21,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As beiras de 15/10/2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Quando a vida imita a Arte
Embora o homem tenha mau feitio, conforme dá para perceber por aqui, confesso que sou um fã incondicional de Manu Larcenet. A sua série Le Combat Ordinaire é genial, La ligne de Front e os dois primeiros volumes de Blast são livros notáveis e séries como Bill Baroud e Nick Oumouk são muito divertidas.
Talvez por Larcenet ser apenas o desenhador, nunca dei muita atenção à série Le Retour à la Terre, escrita por Jean-Yves Ferri, o futuro argumentista de Astérix, mas quando a comecei a ler, percebi que tinha feito mal. Le Retour à la Terre é um caso muito curioso de BD semi-autobiográfica, pois com base nas experiências pessoais de Larcenet, que trocou a cidade pelo campo, Ferry constrói uma divertida série, feita de gags de meia página, sobre a adaptação de um citadino à vida no campo.
Recentemente, fiz obras em casa e instalei uma gateira na porta da cozinha que dá para a varanda. A forma pouco cooperante como os meus dois gatos receberam esta inovação tecnológica, recordou-me imediatamente estas tiras de Les Revolutions, o 5º volume de Le Retour à la Terre. Ora vejam:
Talvez por Larcenet ser apenas o desenhador, nunca dei muita atenção à série Le Retour à la Terre, escrita por Jean-Yves Ferri, o futuro argumentista de Astérix, mas quando a comecei a ler, percebi que tinha feito mal. Le Retour à la Terre é um caso muito curioso de BD semi-autobiográfica, pois com base nas experiências pessoais de Larcenet, que trocou a cidade pelo campo, Ferry constrói uma divertida série, feita de gags de meia página, sobre a adaptação de um citadino à vida no campo.
Recentemente, fiz obras em casa e instalei uma gateira na porta da cozinha que dá para a varanda. A forma pouco cooperante como os meus dois gatos receberam esta inovação tecnológica, recordou-me imediatamente estas tiras de Les Revolutions, o 5º volume de Le Retour à la Terre. Ora vejam:
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Está quase a chegar!
É já no dia 18 que estreia na Fox, também em Portugal, a segunda temporada da série The Walking Dead, só dois dias depois de estrear nos EUA, no canal por cabo AMC. Até lá, aqui fica um trailler, que tem como banda sonora um excelente tema do Johny Cash. Uma mistura perfeita!
sábado, 8 de outubro de 2011
A Republica revisitada
Em termos de exposições, um dos pontos altos da edição de 2010 do Festival de Banda Desenhada da Amadora, foi a mostra dedicada ao livro “É de noite que faço as Perguntas”, projecto inserido nas comemorações do Centenário da República, em que David Soares coordena um grupo de cinco desenhadores, numa viagem plena de simbolismo pelos anos da primeira república. Precisamente um ano depois do inicialmente previsto, eis que o livro chega finalmente às livrarias, numa aposta corajosa (depois da overdose de edições sobre a República em 2010 e inícios de 2011, será que ainda há espaço nas livrarias para mais um livro sobre a República…) da Saída de Emergência, editora que assim se estreia finalmente na BD.
Embora actualmente se dedique mais ao romance do que à Banda Desenhada, David Soares tem trabalho feito (e muito bem feito) na BD, como argumentista e como autor completo, pelo que o convite da Amadora para escrever este livro, fez todo o sentido. A história, cuja acção decorre em Lisboa, em meados do século XX, sob um regime autocrático indefinido, mas cujas semelhanças com o Estado Novo salazarista são mais do que pura coincidência, parte das memórias da primeira república que um pai lega ao filho, numa carta que nunca chegará a enviar.
Se as sequências, inicial e final, são ilustradas por Richard Câmara num estilo quase esboçado, em contrate com o estilo realista dos restantes desenhadores, os diferentes episódios narrados pelo pai, são ilustrados cada um por diferentes desenhadores.
Assim, Jorge Coelho ilustra o período antecedente à implantação da República, desde o ultimato inglês de 1890 até ao assassinato do Rei D. Carlos, João Maio Pinto fica com o período da República, André Coelho com a 1ª Guerra Mundial e Daniel da Silva com o episódio final, em que os ideais da república dão lugar à realidade sombria do regime salazarista.
Embora nem todas as referências sejam facilmente perceptíveis para quem não conheça bem a história do período em causa (nesse aspecto, uma cronologia e umas notas de enquadramento no final do livro seriam de grande utilidade), a história está muito bem construída e revela o rigor da pesquisa habitual em David Soares, que soube muito bem escolher os seus colaboradores. Há sequências especialmente bem conseguidas, em que os autores jogam na perfeição com a repetição de alguns motivos, como o bacio com a forma de John Bull no episódio inicial, desenhado por Jorge Coelho, ou o eléctrico (que não por acaso, está na capa do livro) no episódio final, desenhado por Daniel da Silva.
Um excelente álbum, pelo qual valeu bem a pena esperar um ano e que, para além de confirmar o talento de David Soares, Richard Câmara, Jorge Coelho e João Maio Pinto, dá a descobrir dois desenhadores muito promissores, como André Coelho e (especialmente) Daniel da Silva.
(“É de noite que faço as Perguntas”, de David Soares e vários desenhadores, Saída de Emergência, 64 pags, 18,00 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 8/10/2011
Embora actualmente se dedique mais ao romance do que à Banda Desenhada, David Soares tem trabalho feito (e muito bem feito) na BD, como argumentista e como autor completo, pelo que o convite da Amadora para escrever este livro, fez todo o sentido. A história, cuja acção decorre em Lisboa, em meados do século XX, sob um regime autocrático indefinido, mas cujas semelhanças com o Estado Novo salazarista são mais do que pura coincidência, parte das memórias da primeira república que um pai lega ao filho, numa carta que nunca chegará a enviar.
Se as sequências, inicial e final, são ilustradas por Richard Câmara num estilo quase esboçado, em contrate com o estilo realista dos restantes desenhadores, os diferentes episódios narrados pelo pai, são ilustrados cada um por diferentes desenhadores.
Assim, Jorge Coelho ilustra o período antecedente à implantação da República, desde o ultimato inglês de 1890 até ao assassinato do Rei D. Carlos, João Maio Pinto fica com o período da República, André Coelho com a 1ª Guerra Mundial e Daniel da Silva com o episódio final, em que os ideais da república dão lugar à realidade sombria do regime salazarista.
Embora nem todas as referências sejam facilmente perceptíveis para quem não conheça bem a história do período em causa (nesse aspecto, uma cronologia e umas notas de enquadramento no final do livro seriam de grande utilidade), a história está muito bem construída e revela o rigor da pesquisa habitual em David Soares, que soube muito bem escolher os seus colaboradores. Há sequências especialmente bem conseguidas, em que os autores jogam na perfeição com a repetição de alguns motivos, como o bacio com a forma de John Bull no episódio inicial, desenhado por Jorge Coelho, ou o eléctrico (que não por acaso, está na capa do livro) no episódio final, desenhado por Daniel da Silva.
Um excelente álbum, pelo qual valeu bem a pena esperar um ano e que, para além de confirmar o talento de David Soares, Richard Câmara, Jorge Coelho e João Maio Pinto, dá a descobrir dois desenhadores muito promissores, como André Coelho e (especialmente) Daniel da Silva.
(“É de noite que faço as Perguntas”, de David Soares e vários desenhadores, Saída de Emergência, 64 pags, 18,00 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 8/10/2011
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