Pouco mais de um ano depois de “Animal’Z”, Bilal regressa ao universo pós-apocaliptico do álbum anterior, com “Júlia & Roem”, uma revisitação futurista do “Romeu e Julieta”, de Shakespeare.
Tal como o próprio Bilal referiu numa entrevista, aquando da saída de “Animal’Z”, estes dois últimos álbuns representam uma ruptura com a sua obra anterior. “Uma ruptura narrativa -um one-shot, uma história num único álbum de perto de 100 páginas- mas também gráfica: preto e branco, em vez de pintura, o desenho em estado puro, realçado por ligeiros toques de cor, um traço mais rápido, mais enérgico.”
Ou seja, temos um Bilal longe do fantástico trabalho de cor a que nos habituou, optando por explorar o traço de forma livre, num trabalho executado a grafite e pastel seco, num registo quase monocromático, em que a principal nota de cor é dada pela tonalidade do papel, com o azul dominante de “Animal’Z”, a dar lugar desta vez aos tons castanhos, quebrados por pequenos apontamentos de branco, azul e de vermelho.
Tendo como cenário o mesmo mundo que viu as suas condições climatéricas dramaticamente alteradas pelo “Golpe de Sangue”, uma catástrofe natural que tornou a maior parte do planeta inabitável e a água potável um bem tão raro como precioso, os dois álbuns são igualmente afectados pelo excesso de referências literárias e de citações, neste caso pertencentes à peça de William Shakespeare, que Bilal já tinha tratado numa série de ilustrações soltas.
Mas Shakespeare não é o único a ser citado, pois “Júlia & Roem” está cheio de referências a outros trabalhos de Bilal, em especial no cinema, com o hotel abandonado onde decorre parte da acção, a remeter para “Bunker Palace Hotel, o seu primeiro filme, enquanto que o segundo capítulo abre com uma citação de “Bleu Sang”, o seu último filme.
Resumindo, à parte de um final feliz, e do padre que guia um ferrari electríco e tem tatuados os símbolos de todas as ideologias e religiões, esta adaptação/revisitação do clássico de Shakespeare não traz nada de novo, o mesmo acontecendo no plano gráfico, onde o registo minimalista já perdeu o efeito-surpresa. Um livro só para os incondicionais de Bilal, que não faz esquecer as suas colaborações com Pierre Christin, ou mesmo a “Trilogia Nikopol”.
(“Júlia & Roem”, de Enki Bilal, Edições Asa, 96 pags, 21,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As beiras de 15/10/2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Quando a vida imita a Arte
Embora o homem tenha mau feitio, conforme dá para perceber por aqui, confesso que sou um fã incondicional de Manu Larcenet. A sua série Le Combat Ordinaire é genial, La ligne de Front e os dois primeiros volumes de Blast são livros notáveis e séries como Bill Baroud e Nick Oumouk são muito divertidas.
Talvez por Larcenet ser apenas o desenhador, nunca dei muita atenção à série Le Retour à la Terre, escrita por Jean-Yves Ferri, o futuro argumentista de Astérix, mas quando a comecei a ler, percebi que tinha feito mal. Le Retour à la Terre é um caso muito curioso de BD semi-autobiográfica, pois com base nas experiências pessoais de Larcenet, que trocou a cidade pelo campo, Ferry constrói uma divertida série, feita de gags de meia página, sobre a adaptação de um citadino à vida no campo.
Recentemente, fiz obras em casa e instalei uma gateira na porta da cozinha que dá para a varanda. A forma pouco cooperante como os meus dois gatos receberam esta inovação tecnológica, recordou-me imediatamente estas tiras de Les Revolutions, o 5º volume de Le Retour à la Terre. Ora vejam:
Talvez por Larcenet ser apenas o desenhador, nunca dei muita atenção à série Le Retour à la Terre, escrita por Jean-Yves Ferri, o futuro argumentista de Astérix, mas quando a comecei a ler, percebi que tinha feito mal. Le Retour à la Terre é um caso muito curioso de BD semi-autobiográfica, pois com base nas experiências pessoais de Larcenet, que trocou a cidade pelo campo, Ferry constrói uma divertida série, feita de gags de meia página, sobre a adaptação de um citadino à vida no campo.
Recentemente, fiz obras em casa e instalei uma gateira na porta da cozinha que dá para a varanda. A forma pouco cooperante como os meus dois gatos receberam esta inovação tecnológica, recordou-me imediatamente estas tiras de Les Revolutions, o 5º volume de Le Retour à la Terre. Ora vejam:
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Está quase a chegar!
É já no dia 18 que estreia na Fox, também em Portugal, a segunda temporada da série The Walking Dead, só dois dias depois de estrear nos EUA, no canal por cabo AMC. Até lá, aqui fica um trailler, que tem como banda sonora um excelente tema do Johny Cash. Uma mistura perfeita!
sábado, 8 de outubro de 2011
A Republica revisitada
Em termos de exposições, um dos pontos altos da edição de 2010 do Festival de Banda Desenhada da Amadora, foi a mostra dedicada ao livro “É de noite que faço as Perguntas”, projecto inserido nas comemorações do Centenário da República, em que David Soares coordena um grupo de cinco desenhadores, numa viagem plena de simbolismo pelos anos da primeira república. Precisamente um ano depois do inicialmente previsto, eis que o livro chega finalmente às livrarias, numa aposta corajosa (depois da overdose de edições sobre a República em 2010 e inícios de 2011, será que ainda há espaço nas livrarias para mais um livro sobre a República…) da Saída de Emergência, editora que assim se estreia finalmente na BD.
Embora actualmente se dedique mais ao romance do que à Banda Desenhada, David Soares tem trabalho feito (e muito bem feito) na BD, como argumentista e como autor completo, pelo que o convite da Amadora para escrever este livro, fez todo o sentido. A história, cuja acção decorre em Lisboa, em meados do século XX, sob um regime autocrático indefinido, mas cujas semelhanças com o Estado Novo salazarista são mais do que pura coincidência, parte das memórias da primeira república que um pai lega ao filho, numa carta que nunca chegará a enviar.
Se as sequências, inicial e final, são ilustradas por Richard Câmara num estilo quase esboçado, em contrate com o estilo realista dos restantes desenhadores, os diferentes episódios narrados pelo pai, são ilustrados cada um por diferentes desenhadores.
Assim, Jorge Coelho ilustra o período antecedente à implantação da República, desde o ultimato inglês de 1890 até ao assassinato do Rei D. Carlos, João Maio Pinto fica com o período da República, André Coelho com a 1ª Guerra Mundial e Daniel da Silva com o episódio final, em que os ideais da república dão lugar à realidade sombria do regime salazarista.
Embora nem todas as referências sejam facilmente perceptíveis para quem não conheça bem a história do período em causa (nesse aspecto, uma cronologia e umas notas de enquadramento no final do livro seriam de grande utilidade), a história está muito bem construída e revela o rigor da pesquisa habitual em David Soares, que soube muito bem escolher os seus colaboradores. Há sequências especialmente bem conseguidas, em que os autores jogam na perfeição com a repetição de alguns motivos, como o bacio com a forma de John Bull no episódio inicial, desenhado por Jorge Coelho, ou o eléctrico (que não por acaso, está na capa do livro) no episódio final, desenhado por Daniel da Silva.
Um excelente álbum, pelo qual valeu bem a pena esperar um ano e que, para além de confirmar o talento de David Soares, Richard Câmara, Jorge Coelho e João Maio Pinto, dá a descobrir dois desenhadores muito promissores, como André Coelho e (especialmente) Daniel da Silva.
(“É de noite que faço as Perguntas”, de David Soares e vários desenhadores, Saída de Emergência, 64 pags, 18,00 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 8/10/2011
Embora actualmente se dedique mais ao romance do que à Banda Desenhada, David Soares tem trabalho feito (e muito bem feito) na BD, como argumentista e como autor completo, pelo que o convite da Amadora para escrever este livro, fez todo o sentido. A história, cuja acção decorre em Lisboa, em meados do século XX, sob um regime autocrático indefinido, mas cujas semelhanças com o Estado Novo salazarista são mais do que pura coincidência, parte das memórias da primeira república que um pai lega ao filho, numa carta que nunca chegará a enviar.
Se as sequências, inicial e final, são ilustradas por Richard Câmara num estilo quase esboçado, em contrate com o estilo realista dos restantes desenhadores, os diferentes episódios narrados pelo pai, são ilustrados cada um por diferentes desenhadores.
Assim, Jorge Coelho ilustra o período antecedente à implantação da República, desde o ultimato inglês de 1890 até ao assassinato do Rei D. Carlos, João Maio Pinto fica com o período da República, André Coelho com a 1ª Guerra Mundial e Daniel da Silva com o episódio final, em que os ideais da república dão lugar à realidade sombria do regime salazarista.
Embora nem todas as referências sejam facilmente perceptíveis para quem não conheça bem a história do período em causa (nesse aspecto, uma cronologia e umas notas de enquadramento no final do livro seriam de grande utilidade), a história está muito bem construída e revela o rigor da pesquisa habitual em David Soares, que soube muito bem escolher os seus colaboradores. Há sequências especialmente bem conseguidas, em que os autores jogam na perfeição com a repetição de alguns motivos, como o bacio com a forma de John Bull no episódio inicial, desenhado por Jorge Coelho, ou o eléctrico (que não por acaso, está na capa do livro) no episódio final, desenhado por Daniel da Silva.
Um excelente álbum, pelo qual valeu bem a pena esperar um ano e que, para além de confirmar o talento de David Soares, Richard Câmara, Jorge Coelho e João Maio Pinto, dá a descobrir dois desenhadores muito promissores, como André Coelho e (especialmente) Daniel da Silva.
(“É de noite que faço as Perguntas”, de David Soares e vários desenhadores, Saída de Emergência, 64 pags, 18,00 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 8/10/2011
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sábado, 1 de outubro de 2011
Evocando Sérgio Bonelli
Faleceu no passado dia 26 de Setembro, em Milão, o nome mais importante da BD italiana da actualidade. Falo não de um autor, como Manara, Toppi, Liberatore, ou Giardino, mas sim de um editor, Sérgio Bonelli, que soube construir um verdadeiro império editorial, que não se limita apenas à série “Tex”, criada pelo seu pai Gian Luigi Bonelli e por Galep, o seu título mais popular.
O segredo dos “fumetti” (nome dado em Itália à BD) da Bonelli, consiste em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do meio milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos, o que leva à impressionante média de 25 milhões de exemplares vendidos por ano, algo que só é possível graças a um público heterogéneo, que não se restringe aos adolescentes habituais e que engloba também quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco.
Embora seja um fenómeno marcadamente italiano, as séries de Bonelli também têm procurado o sucesso internacional, estando igualmente presentes nos mercados, americano (através da Dark Horse), espanhol, francês e brasileiro. E é precisamente via Brasil que nos chegaram uma série de títulos bem representativos da qualidade e diversidade dos fumetti de Bonelli, actualmente reduzidos aos Westerns “Tex”, “Mágico Vento” e “Zagor”, e ao policial “J. Kendall”, cancelados que foram títulos como “Dylan Dog”, “Martin Mystere” e “Dampyr”.
Mas o contributo de Bonelli para a BD italiana, não se fica só pelas revistas mensais que editou, que mostram que BD de qualidade não tem que ser necessariamente luxuosa e cara. Além do seu trabalho de argumentista em “Mister No”, com o pseudónimo de Guido Nolitta, dos famosos “Texones”, as edições anuais que são uma referência habitual neste espaço, assinados por nomes como Buzelli, Magnus; Bernet, ou Joe Kubert, Sérgio Bonelli promoveu projectos como a série “Un Huomo, una Aventtura”, por onde passaram os maiores nomes da BD italiana, como Pratt, Manara, Crepax; Battaglia, Toppi e Buzzelli, além de ter dado a desenhadores como Victor De La Fuente, Esteban Maroto, José Ortiz, Alfonso Font, ou Manfred Sommer, a possibilidade de prosseguirem uma carreira na BD de acção e aventura.
Com a morte de Bonelli, desaparece um dos últimos cultores da Banda Desenhada de aventuras de grande público. Agora resta esperar para ver se a editora que criou consegue sobreviver ao desaparecimento do seu fundador.
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 1/10/2011
O segredo dos “fumetti” (nome dado em Itália à BD) da Bonelli, consiste em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
A reacção dos leitores italianos a esta nova forma de BD foi entusiástica, com algumas revistas de Bonelli a atingirem tiragens próximas do meio milhão de exemplares, para além das constantes reedições de títulos antigos, o que leva à impressionante média de 25 milhões de exemplares vendidos por ano, algo que só é possível graças a um público heterogéneo, que não se restringe aos adolescentes habituais e que engloba também quadros médios e universitários, e até intelectuais como Umberto Eco.
Embora seja um fenómeno marcadamente italiano, as séries de Bonelli também têm procurado o sucesso internacional, estando igualmente presentes nos mercados, americano (através da Dark Horse), espanhol, francês e brasileiro. E é precisamente via Brasil que nos chegaram uma série de títulos bem representativos da qualidade e diversidade dos fumetti de Bonelli, actualmente reduzidos aos Westerns “Tex”, “Mágico Vento” e “Zagor”, e ao policial “J. Kendall”, cancelados que foram títulos como “Dylan Dog”, “Martin Mystere” e “Dampyr”.
Mas o contributo de Bonelli para a BD italiana, não se fica só pelas revistas mensais que editou, que mostram que BD de qualidade não tem que ser necessariamente luxuosa e cara. Além do seu trabalho de argumentista em “Mister No”, com o pseudónimo de Guido Nolitta, dos famosos “Texones”, as edições anuais que são uma referência habitual neste espaço, assinados por nomes como Buzelli, Magnus; Bernet, ou Joe Kubert, Sérgio Bonelli promoveu projectos como a série “Un Huomo, una Aventtura”, por onde passaram os maiores nomes da BD italiana, como Pratt, Manara, Crepax; Battaglia, Toppi e Buzzelli, além de ter dado a desenhadores como Victor De La Fuente, Esteban Maroto, José Ortiz, Alfonso Font, ou Manfred Sommer, a possibilidade de prosseguirem uma carreira na BD de acção e aventura.
Com a morte de Bonelli, desaparece um dos últimos cultores da Banda Desenhada de aventuras de grande público. Agora resta esperar para ver se a editora que criou consegue sobreviver ao desaparecimento do seu fundador.
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 1/10/2011
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