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sábado, 14 de abril de 2012

Thorgal regressa com o jornal Público

Uma das mais populares séries de aventuras da moderna BD franco-belga, a série “Thorgal” está de regresso a Portugal, onde têm tido uma divulgação errática e pouco condizente com o extraordinário sucesso da série em França. Uma lacuna que esta coleção da Asa lançada com o jornal “Público”, procura corrigir, editando de uma penada 16 álbuns com aventuras de Thorgal Aegirsson, o Viking que veio das Estrelas.
Fruto da colaboração entre o belga Jean Van Hamme e o polaco Grzegorz Rosinski, esta série, em que se cruzam a BD histórica e a “Heroic Fantasy” com a ficção científica, nasceu em 1977 nas páginas do Tintin belga e, 33 álbuns e 2 séries paralelas depois, prossegue a sua publicação com um sucesso sempre crescente.

Nascido na Polónia em 1941 e tendo passado pela Academia de Belas Artes de Varsóvia, Rosinski cedo decidiu trocar a sua actividade de pintor e ilustrador pela banda desenhada, mas seria na sequência de uma visita a Bruxelas em 1976, que a sua vida iria verdadeiramente mudar, depois de conhecer o argumentista Jean Van Hamme. Mas deixemos que seja o próprio Van Hamme a contar como tudo começou: « Vi chegar esse tipo que não falava uma palavra de francês e decidi testá-lo: peguei em 2 páginas de um argumento da série “Michael Logan” e pedi-lhe que as ilustrasse para o dia seguinte de manhã. O que ele fez não era muito conseguido tecnicamente, mas mostrava garra. Percebi que se orientasse o seu trabalho, ensinando-o a enquadrar melhor os personagens, este tipo tinha condições para ir longe. Como trabalhava regularmente para as Editions du Lombard, peguei em Rosinski pelo pescoço e fomos ver A. P. Duchateau, na altura redactor-chefe da revista Tintin, com quem eu tinha boas relações.
O problema é que Rosinski não queria desenhar coisas modernas, pois não gostava, nem tinha documentação suficiente. Como ele era eslavo e eu sempre fui sensível àquilo a que se costuma chamar cultura germânica, propus-lhe uma aventura com vikings, vista numa perspectiva mitológica». Assim nascia Thorgal Aegirson, o filho das estrelas obrigado a partilhar o seu destino com uma tribo de guerreiros vikings, e que apenas queria ser feliz com a sua mulher, Aaricia, mas a quem o destino nunca dá tréguas, envolvendo-o nas mais complicadas intrigas e em mil perigos.
Outro aspecto interessante da série, é o facto das personagens envelhecerem, um pouco à semelhança do que acontece com o Príncipe Valente, de Hal Foster, com os filhos de Thorgal a irem gradualmente assumindo um maior protagonismo, à medida que vão crescendo.
O talento gráfico de Rosinski, cujo estilo evolui de forma notável do 1º para o 2º álbum, aliado ao apurado sentido dramático de Van Hamme e à sua habilidade para misturar os mais variados ingredientes numa receita de sucesso, cedo fizeram da série um best-seller. A Portugal, Thorgal chegaria em 1980, a cores nas páginas da revista Tintin e, quase em simultâneo, a preto e branco no “Mundo de Aventuras”, que publicaria os cinco primeiros álbuns da série e “O Drakkar Perdido”, uma história curta sobre a infância do herói, onde era explicada a sua origem extra-terrestre, em que o grande formato e a impressão a preto e branco permitiam apreciar melhor o excelente desenho de Rosinski, um mestre do desenho realista. E se o fim da revista implicou o fim da série em português, também em álbum o herói de Rosinski e Van Hamme não teve melhor sorte, vendo a sua carreira sucessivamente afectada pela difícil situação, primeiro da Bertrand e depois da Editorial Futura.
Depois de uma passagem pela revista “Selecções BD”, que publicou um par de histórias curtas, chegou a vez da Asa pegar na série em 2002, mas de forma pouco convicta, limitando-se a publicar 4 álbuns ao longo de quase 12 anos, para finalmente recuperar o tempo perdido com esta colecção. Uma colecção que se inicia com “Aaricia”, o 14ª álbum da série que, tal como acontecia em relação a Thorgal no álbum “L’Enfant des Étoiles”, desvenda em histórias curtas (duas das quais já tinham sido publicadas na revista “Selecções BD”), alguns aspectos obscuros da infância de Aaricia, a companheira de Thorgal. Um bom ponto de partida para uma coleção a seguir com atenção e que prossegue com “O Senhor das Montanhas”, um dos melhores títulos da série, em que Van Hamme joga com argúcia e eficácia com os paradoxos das viagens no tempo.
Só é pena que, tal como aconteceu com a coleção dedicada ao Tenente Blueberry, de Giraud e Charlier, esta coleção deixe de fora quase metade dos álbuns da série assinados pelos seus criadores originais (a partir do volume 30, o argumento da série passa a ser a assegurado por Yves Sente e as histórias centram-se mais em Jolan, o filho de Thorgal), muitos deles nunca publicados em Portugal. Resta esperar que o desejado sucesso desta coleção incentive a Asa a publicar os títulos que faltam, começando pelos três volumes do ciclo do País Qâ que ainda estão por publicar...
(“Thorgal 2: O Senhor das Montanhas”, de Rosinski e Van Hamme, Edições Asa/Público, 48 pags, 7,90 €. Todas as semanas em distribuição conjunta com o jornal "Público", entre 4 de Abril e 18 de Julho de 2011)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 13/04/2012
PS - Para meter inveja aos leitores deste blog, aqui fica um autógrafo que o Rosinski me desenhou, no Salão de Barcelona, em 2000.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Blake e Mortimer: A Maldição dos 30 Denários


Na passada sexta-feira, dia 20 de Novembro foi lançada, em simultâneo na França, Bélgica e Portugal, “A Maldição dos Trinta Denários”, o mais recente álbum da série “Blake e Mortimer”, a dupla de heróis “very british”, criada por Edgar P. Jacobs. Um álbum, cuja complicada produção, de mais de cinco anos e dois desenhadores, daria ela própria uma história, a que se poderia chamar “A Maldição de Blake e Mortimer”.
Após a morte de Jacobs, em 1987, a editora Dargaud, que adquiriu os direitos da série à família, decidiu fazer reviver a mítica dupla de heróis britânicos criados pelo belga Edgar P. Jacobs, numa muito bem montada operação, envolvendo duas equipas diferentes de autores, com a ingrata tarefa, não de fazer esquecer, mas de mimetizar o traço e o ambiente da fase de ouro de Jacobs, situado entre os álbuns “A Marca Amarela” e “S.O.S. Meteoros”. Mas se a ideia inicial da editora era alternar os álbuns assinados por Jean Van Hamme (o argumentista de “XIII” e “Thorgal”, que iniciou a fase “apócrifa” com “O Caso Francis Blake”), com os da dupla Yves Sente e André Juillard, os problemas que Van Hamme teve com os desenhadores com que trabalhou, desde a lentidão de Ted Benoit, que levou mais de 10 anos para desenhar dois álbuns, até à morte de René Steerne, o desenhador que substituiu Benoit, e desenhou as primeiras 29 páginas deste “A Maldição dos Trinta Denários”, leva a que se possa falar numa maldição dos desenhadores de “Blake e Mortimer”, a que só Juillard parece imune.

Maldição ou não, foi uma pena que René Sterne, desenhador conhecido pelo seu trabalho na série “Adler” tenha morrido de repente, aos 56 anos, de ataque cardíaco, deixando à sua mulher Chantal de Spiegeleer a ingrata (e emocionalmente muito dura) tarefa de terminar de desenhar a história, um trabalho que se pressente esforçado, mas cujos resultados não são brilhantes, especialmente nas cenas de acção, campo em que a desenhadora confessa não se sentir à vontade. Chantal, que juntou inúmeras personagens femininas à história, para se sentir confortável (o que se nota numa cena como a da página 33, em que há um verdadeiro desfile de mulheres de robes e camisas de dormir, impensável num álbum de Jacobs), contou ainda com a colaboração de Etienne Schréder (o nosso conhecido autor de “O Segredo de Coimbra”) nos desenhos dos cenários e de Laurence Croix na cor, neste último caso, com resultados pouco famosos, especialmente nas cenas nocturnas, que estão quase ilegíveis…
E, a sensação que dá, perante a última página do álbum, com muito menos quadrados do que o habitual, é que houve uma preocupação em terminar mais rapidamente este primeiro volume, talvez para que o livro pudesse sair, como saiu, próximo do aniversário da morte de René Sterne, que ocorreu a 15 de Novembro de 2006.

Capa alternativa da edição portuguesa, exclusiva das lojas FNAC
Quanto à história em si, Van Hamme revela a eficácia do costume, numa intriga sem grandes surpresas para quem conhece a série e que tem como modelo óbvio “O Mistério da Grande Piramide”.
O “mau da fita”, um ex-criminoso de guerra nazi com delírios de grandeza, que é uma mistura de Rastapoupolos, com o Imperador Basam Dandu, está longe de ser dos mais conseguidos da galeria de vilões da série e também não é muito claro como é que os trinta denários que Judas recebeu por ter traido Cristo, lhe vão permitir conquistar o mundo. Mas, apesar disso, a história lê-se bem e deixa-nos curiosos para saber como termina, no segundo volume, que está a ser desenhado por Aubin Frechon, um desenhador de 42 anos, vindo da animação, e que, depois de uma história de 4 páginas num álbum colectivo, se estreia na BD com este desafio de peso. Agora esperemos que Frechon não venha a ser mais um desenhador vítima da maldição de Blake e Mortimer…

Desenho a lápis de Aubin Frechon para um quadrado do 2º volume
(“Blake e Mortimer: A Maldição dos Trinta Denários” Tomo 1, de J. Van Hamme, R. Sterne e C. De Spiegeleer, Edições Asa, 56 pags, 14,50 €.)
Versão ligeiramente revista de um texto publicado originalmente no Diário As Beiras de 28/11/2009