Mostrar mensagens com a etiqueta Humberto Ramos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Humberto Ramos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Textos editoriais Marvel NOW! 5 - Homem-Aranha Superior 06


O HÁBITO E O MONGE

Diz um conhecido ditado popular que “o hábito não faz o monge”. E, se como geralmente acontece, estes ditados têm um fundo de verdade, não é menos certo de que a realidade, ou no caso da Banda Desenhada, a ficção criada pela mente dos autores, acaba por ser bem mais complexa do que a sabedoria popular simplisticamente a apresenta.
A saga que temos acompanhado nesta revista é um bom exemplo de uma realidade demasiado complexa para se encaixar completamente neste ditado, mas a verdade é que as histórias de super-heróis, pela forma como exploram a ligação entre o herói e o uniforme que se torna a sua segunda pele, permitem facilmente uma aproximação a este provérbio.
Curiosamente, um dos pioneiros do género superheróico, o Fantasma, de Lee Falk, criado em 1936, ou seja, ainda antes do aparecimento do Super-Homem, é uma das raras excepções a esta regra, pois o homem por trás da máscara é apenas o mais recente membro de uma linhagem de vinte e uma gerações de combatentes do crime. Uma tradição nascida em 1536, quando o sobrevivente de um ataque de piratas em que morreu o seu pai, fez um juramento solene de combater o crime como o Fantasma até ser substituído pelo seu filho, quando a sua hora chegar. Assim o misterioso vingador aparentemente imortal conhecido como o “Espírito que Caminha” é apenas o mais recente elo de uma cadeia familiar, que o inconfundível uniforme justo, concebido por Lee Falk para ter cor cinzenta, mas que acabou por sair roxo devido a um erro da gráfica, ajuda a perpetuar.
Mas como bem sabem os leitores, a regra é encontrarmos sempre o mesmo homem dentro do uniforme. Steve Rogers é e será o Capitão América, Peter Parker, o Homem-Aranha, Matt Murdock, o Demolidor e Bruce Wayne, o Batman. Mesmo que Bucky Barnes já tenha sido o Capitão América, depois da morte de Rogers durante a Guerra Civil, e que o próprio Steve Rogers tenha assumido outras identidades, como Nomad, a seguir ao escândalo de Watergate, ou The Captain, ou que durante as décadas em que permaneceu em animação suspensa nos gelos do Ártico, outros homens, como William Naslund, Jeffrey Mace e William Burnside tenham também vestido o uniforme inspirado na bandeira americana.
Também Peter Parker tem assumido ao longo dos anos a grande responsabilidade de combater o crime como o Homem-Aranha, mesmo que a mente que ocupa o seu corpo seja a do Dr. Octopus, como acontece actualmente, ou como aconteceu na tristemente célebre saga do Clone, Ben Rilley, o Scarlet Spider, que se pensava ser um clone de Peter Parker, revelou ser o original e que o verdadeiro clone era o Peter Parker que os leitores conheciam desde sempre. Mas a mais interessante variação deste ditado, em que o hábito deu origem a um novo monge de uma ordem diferente, é mesmo a que sucedeu com o uniforme negro que Peter Parker arranjou durante as Guerras Secretas, e que cedo assumiu vida própria, revelando ser um simbiote alienígena que passou a infernizar a vida do Homem-Aranha como Venom.
Mais recentemente, face ao sucesso das personagens da Marvel no cinema, houve a necessidade de alterar os uniformes de alguns heróis, aproximando-os do aspecto com que aparecem no grande ecrã, e aqui o Gavião Arqueiro saiu claramente a ganhar, trocando o bastante ridículo uniforme original, pelo mais discreto e cinematográfico uniforme actual.
Quem leu o seminal Demolidor Renascido de Frank Miller e David Mazzucchelli, em que Matt Murdock passa a maioria da história sem uniforme, percebe que um herói continua a sê-lo, mesmo sem o fato vestido, mas isso não apaga a grande importância simbólica dos uniformes dos Super-Heróis. Mais do que um disfarce que protege a identidade de quem o usa, o uniforme do super-herói é um símbolo, uma ideia e, como bem lembra Alan Moore em V for Vendetta, “ as ideias são à prova de bala”, mesmo que os homens dentro do fato não o sejam.
Texto originalmente publicado em Homem-Aranha Superior nº 06, de Julho de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Textos editoriais Marvel NOW! 1 - Homem-Aranha Superior



Na altura em que já chegou às bancas o nº 3 da revista dos X-Men, com o meu segundo texto para as revistas da linha Marvel Now!, que a Panini Espanha está a publicar directamente em Portugal, parece-me boa altura para recuperar o primeiro texto que escrevi para as publicações que assinalam o regresso das revistas mensais da Marvel, em bom português, aos quiosques nacionais.
Estes textos partiram de um convite do José de Freitas, editor assistente da Panini e responsável pela coordenação das edições portuguesas da Panini, à semelhança do que tem feito com as colecções da Marvel e da DC que a Levoir tem lançado com os jornais, quemais uma vez, me deu o prazer de trabalharmos juntos.
Embora o espaço aqui seja muito mais reduzido do que era nos editoriais da DC, a liberdade é bastante maior. Mesmo assim, confesso que, quando recebi o convite para escrever sobre o Homem-Aranha Superior, pensei duas vezes, pois a premissa base da série parecia-me perfeitamente idiota. Mas ainda bem que decidi ler as histórias, pois foram uma muito agradável surpresa e esta é, provavelmente, a melhor saga do Homem-Aranha que já li, desde a fase inicial do J. M. Strackzinsky que a Devir lançou em Portugal há uns bons 10 anos.


NA PELE DO INIMIGO

Um dos mais populares argumentistas da actualidade, Dan Slott é também um dos mais controversos, muito por força deste Homem-Aranha Superior, cuja premissa base causou tal agitação junto dos fãs do “cabeça de teia”, que Slott chegou até a receber ameaças de morte de leitores mais indignados. Com efeito, a ideia de fazer com que a mente do Dr. Octopus moribundo ocupasse o corpo de Peter Parker, com o vilão a assumir os poderes e as responsabilidades do Homem-Aranha, é tão controversa como arriscada. Mas a verdade é que estamos perante uma das melhores histórias do Homem-Aranha das últimas décadas, mesmo que este Homem-Aranha não seja o que nos habituámos a conhecer. Este é um Homem-aranha diferente e, em muitos aspectos, um Homem-Aranha superior, pois aos poderes que permitiram Parker a tornar-se um super-herói, alia uma capacidade estratégica e científica que o anterior Homem-Aranha não possuía.
Todos vimos, no nº 1 desta revista, a facilidade com que derrotou o novo Sexteto Sinistro, descobrindo os seus pontos fracos e atacando-os com a precisão de um cirurgião. Ou como soube jogar com os media dando ao Homem-aranha, que sempre foi um herói incompreendido, a popularidade que muitas vezes lhe faltou, conseguindo até conquistar o seu crítico mais feroz, J. Jonah Jameson, que trocou o quarto poder pelo segundo, tornando-se Mayor de Nova Iorque. E, pela forma como constrói a sua teia pela cidade, usando os drones-aranha para recolher informação, este Homem-Aranha Superior está mais próximo do insecto que lhe deu o nome os poderes, do que Peter Parker alguma vez esteve. 
Slott passou os primeiros anos da sua carreira escrevendo histórias dirigidas a um público mais infantil, como as adaptações à BD das séries de animação Ren And Stimpy, Scooby Doo, Looney Tunes e Powerpuff Girls, mas rapidamente provou ser capaz de tratar com igual eficácia temas bem mais adultos e sombrios, na mini-série Arkham Asylum: Living Hell, ilustrada por Ryan Sook. Esta mini-série, de 2003, foi o seu último trabalho para a DC, antes de regressar à Marvel (que editava a revista do Ren e Stimpy) para escrever a nova revista da Mulher-Hulk, antes de se tornar o principal argumentista da revista Amazing Spider-Man. Actualmente, um dos principais argumentistas da Marvel, Slott não esquece a “Distinta Concorrência” e, como vimos no nº anterior, goza com o Batsinal, numa divertida cena em que faz ver a Jameson que um sinal luminoso gigante que permita aos inimigos do Homem-Aranha saber exactamente onde ele se encontra, é capaz de não ser uma grande ideia, mesmo que o dito sinal acabe por se revelar de grande utilidade para derrotar o abutre… 
Nas histórias que vão poder ler a seguir, Dan Slott prossegue com a humanização de Otto Octavius, fazendo com que o leitor se vá identificando gradualmente com o antigo vilão, desenvolvendo de forma hábil a relação dele com Anna Maria Marconi, uma anã com quem tem grandes afinidades intelectuais. Mas mesmo que, à sua maneira, Octavius aproveite esta oportunidade de se tornar literalmente um homem novo, a agressividade e o desprezo pela vida humana que caraterizavam o Dr. Octopus estão ainda presentes na forma impiedosa com que o Homem-aranha Superior trata o Massacre, o Polichinelo e a Croma, os vilões que vai defrontar neste número. 
Se nas histórias anteriores a arte tinha sido assegurada por Ryan Stegman, neste número Dan Slott mostra que continua a saber escolher muito bem os desenhadores com quem colabora. O italiano Giuseppe Camuncoli, que alia uma bem-sucedida carreira nos comics americanos, iniciada na Vertigo, com uma série bem eclética de trabalhos na sua Itália natal, que além de romances gráficos com Matteo Casali, inclui histórias de Dylan Dog e a continuação dos Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, encarrega-se de ilustrar num estilo realista o confronto com o Massacre, enquanto que o traço mais caricatural, que primeiro se estranha e depois se entranha, do mexicano Humberto Ramos se revela perfeito para a história em que o Polichinelo e a Croma põem à prova a (pouca) paciência do novo Homem-Aranha.
Publicado originalmente na revista Homem-Aranha Superior nº 2, de Março de 2014.