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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Evocando Corto Maltese



Apesar da morte de Hugo Pratt em 1995, ter ditado (pelo menos por enquanto) o fim das aventuras do seu principal herói, a popularidade de Corto Maltese continua bem alta, conquistando sucessivas gerações de leitores. E Portugal não foge à regra, tendo o ano de 2012 testemunhado dois exemplos dessa popularidade. O primeiro, que tive oportunidade de referir no meu blog, foi a magnífica exposição que a Fundação Eugénio de Almeida dedicou a Hugo Pratt. O segundo, que só agora aqui trago, foi a edição por Geraldes Lino, do nº 5 do seu mega-fanzine Efeméride, desta vez dedicado a Corto Maltese, lançado durante o último Festival de Beja.
Projecto ambicioso, até nas dimensões (um nada prático formato A3), iniciado em 2005, o fanzine Efeméride foi nas edições anteriores dedicado a Little Nemo, Príncipe Valente, Super-Homem e Tintin. Comparando com os volumes anteriores, este é, apesar das oscilações e desequilíbrios inerentes a um projecto colectivo desta natureza, o mais consistente dos volumes.
Uma obra só possível graças ao dinamismo e persistência de Geraldes Lino, que conseguiu juntar 45 autores, entre desenhadores e argumentistas, que assinam 43 histórias de uma página, todas inéditas (com a excepção da história de Marco Mendes, que recupera uma homenagem ao quadro “Nighthawks” de Edward Hopper, feita para a Capital da Cultura Guimarães 2012) dedicadas à criação maior de Hugo Pratt que tanto marcou uma geração de leitores que a descobriram nas páginas da revista “Tintin”, nos anos 70. Se o espaço limitado de uma página não permite muito grandes desenvolvimentos, há ainda assim, espaço para algumas abordagens interessantes e para reencontrar autores (mais ou menos) desaparecidos, como Arlindo Fagundes, Carlos Zíngaro, Nazaré Álvares, Renato Abreu e Ricardo Ferrand, que recupera aqui o seu Molto Portoghese, deliciosa personagem nascida noutra publicação de Geraldes Lino, o Tertúlia BDZine, para além da surpresa de Regina Pessoa, nome grande da animação nacional, que assina a magnífica capa.
Embora a maioria dos autores se procure colar, de forma mais ou menos conseguida, ao traço de Hugo Pratt, há excepções, como Andreia Rechena, Carlos Zíngaro e Paulo e Susa Monteiro, ou o caso peculiar de Alice Geirinhas, que reproduz uma série de vinhetas de Corto Maltese, utilizando a sua habitual técnica de “grattage”. Sendo naturalmente impossível, por questões de espaço, referir todas as colaborações, aqui fica a menção a três que me agradaram especialmente: a colaboração entre David Soares e Jorge Coelho, que explora os laços familiares (reais) entre Hugo Pratt e Bela Lugosi; o episódio assinado por Nuno Saraiva em que Corto se deixa de amores platónicos e passa finalmente à acção; e o improvável encontro entre o universo de Pratt e o “Space Oditty” de David Bowie, criado por Carlos Páscoa.
Ao que consta, este será o último número do Fanzine Efeméride, pois o seu editor afirma-se cansado destas (trabalhosas) andanças. Espero que não seja verdade, mas se fôr, não há dúvida que o Efeméride termina em beleza!
(“Corto Maltese no Século XXI”, Geraldes Lino (editor) e Vários Autores, 90 pags, 25 €)
Versão integral do texto publicado no Diário as Beiras de 02/02/2013
NOTA FINAL - Parafraseando Mark Twayn, parece que as notícias da morte do fanzine Efeméride após esta 5ª edição, eram manifestamente exageradas. Como o próprio editor fez questão de me informar vai mesmo haver um sexto, e último (até ver...) número do Efeméride. Um número de temática mais generalista, Os Heróis da BD no Século XXI que promete ter a colaboração de mais de uma centena de desenhadores, tendo alguns deles já entregues as suas pranchas, conforme podem ver aqui.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Corto Maltese em Évora



Continua em exibição até dia 2 de Dezembro, no Fórum Eugénio de Almeida, em Évora, a exposição Corto Maltese, Viagem à Aventura, que traz pela primeira vez a Portugal mais de 50 originais de Hugo Pratt, entre pranchas e ilustrações a tinta da china e belíssimas aguarelas, não só das aventuras de Corto Maltese, mas de outros trabalhos de Pratt, como Os Escorpiões do Deserto, A Macumba do Gringo, Saint-Exupery: O último Voo e Sven, o homem das Caraíbas. Pela qualidade do material exposto e pela rara oportunidade de ver ao vivo os originais do criador de Corto Maltese, esta é uma exposição a não perder e, por isso mesmo, estas férias, quando ia a caminho do Algarve, fiz um pequeno desvio até Évora, de que resultou esta pequena reportagem fotográfica.
Como a segurança era muito rigorosa em relação às fotografias, não permitindo sequer fotografar com telemovel, não consegui imagens do interior da exposição, servida por uma cenografia bastante sóbria, que valorizava os originais. Mas pude compensar essa falta com as imagens do excelente catálogo que a Fundação Eugénio de Almeida editou pela ocasião e que conta com textos de Cristina Taverna (uma galerista e editora italiana, amiga de Pratt, que conta, entre muitas outras coisas,como Pratt lhe sugeriu Manara para ilustrar as Cartas de Soror Mariana Alcoforado) e Stefano Checchetto.
Para além da beleza etérea das auguarelas do Mestre veneziano, contemplar o seu trabalho permite-nos também perceber a maneira como esse trabalho foi evoluindo, os diferente materiais utilizados e como as histórias de corto Maltese eram desenhadas em tiras separadas, de modo a poderem ser montadas em diferentes formatos. Mas, como uma imagem vale mais do que mil palavras, deixo-vos com as imagens de Hugo Pratt.
Corto Maltese: Viagem à Aventura, Fórum Eugénio de Almeida, Évora, de 25 de Julho a 2 de Dezembro de 2012






quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Sugestões de Verão relacionadas com BD


Este Verão, mesmo com a crise e sem subsídio de férias, nada melhor do que a Banda Desenhada para nos evadirmos deste quotidiano cinzento. E a esse nível não faltam propostas para estes tempos estivais, entre exposições, filmes e, naturalmente, livros.
Começando pelos livros, temos a colecção Heróis Marvel, com um volume novo a cada 5ª -feira nos quiosques e os últimos lançamentos da editora Asa, como o "Spirou" 50, o "Murena" 6 e 7, o 2º volume de "Asteroid Fighters", de Rui Lacas e a "Armadilha Maquiavélica", 2ª volume da série Philip e Francis, em que Veys e Barral parodiam o clássico "Blake & Mortimer" de E. P. Jacobs.
Passando para as exposições, é possível ver no Museu do Chiado a exposição "Subway Life", de António Jorge Gonçalves, que recolhe os desenhos feitos por António Jorge Gonçalves nos metros de várias cidades do mundo e que chega a Coimbra, integrada na programação do 4ª Festival das Artes. Mas absolutamente imperdível é "Corto Maltese: Viagem à Aventura", uma exposição de originais de Hugo Pratt, com 51 peças, entre aguarelas, guaches e pranchas originais, que estará em exibição em Évora, no Fórum Eugénio de Almeida, até 2 de Dezembro.

Para quem preferir o escurinho do cinema para fugir ao calor, também não faltam propostas relacionadas com BD. Seja o último Homem-Aranha, realizado por Marco Webb, aos dois filmes inspirados na série "Largo Winch", de Francq e Van Hamme, até um dos filmes mais aguardados do ano, o Cavaleiro das Trevas Renasce", capítulo final da trilogia Que Christopher Nolan dedicou ao Batman e que chega às salas de cinema nacionais a 2 de Agosto e que terá o devido (e natural) destaque neste blog, lá mais para o final da semana.
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 28/07/20112

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Corto Maltese regressa à Sibéria


A Asa prossegue com a reedição da série Corto Maltese, chegando agora a vez de “Corto Maltese na Sibéria”, uma das melhores aventuras de Corto Maltese. Embora esteja longe de ser novidade em Portugal, pois esta mesma história já teve duas edições a preto e branco e esta é a segunda edição a cores, o facto de esta obra seminal de Pratt estar novamente disponível em português é sempre notícia, até por se tratar, quanto a mim, de um dos pontos mais altos de uma série incontornável. Primeira aventura de Corto de longo fôlego, depois da “Balada do Mar Salgado”, “Corto Maltese na Sibéria” é uma aventura épica e plena de acção, o que explica que tenha sido esta a história escolhida para a longa-metragem de animação que Pascal Morelli realizou a partir da obra de Pratt. Uma história cheia de personagens “larger than life” mas surpreendentemente humanos, como o Barão Von Ungern-Stemberg, a Duquesa Maria Semenova (cuja imagem é inspirada em Marlene Dietrich, no filme o “Expresso de Xangai”) e Changai Li, a jovem chinesa que é protagonista de uma belíssima cena de despedida, bem representativa da notável capacidade de Pratt em criar ambientes e transmitir emoções sem necessitar de recorrer a diálogos.
Primorosa em termos narrativos, esta história apresenta Pratt no zénite do seu talento gráfico, com um estilo de uma elegância extraordinária, já liberto da influência do seu mestre Milton Caniff, que este álbum homenageia de forma indirecta através de uma movimentada aventura que começa em Veneza e acaba na China, depois de uma viagem num comboio carregado de ouro e de soldados, numa história com vários pontos de contacto com a série “Terry e os Piratas” de Caniff.
Mas falemos um pouco mais do desenho, cujo brilho as cores suaves de Patrícia Zanotti não vêm perturbar minimamente, dando a palavra a Charles Berberian, um dos autores de “Monsieur Jean”, que define de forma lapidar a arte de Pratt: “prefiro o desenho de Pratt ao de Milton Caniff, porque há em Corto Maltese, na sua maneira de fumar, de se passear de mãos nos bolsos, uma elegância latina, tal como no olhar das mulheres que o rodeiam, e nos seus corpos, há um langor mediterrânico. Mesmo que elas sejam africanas, chinesas, ou irlandesas, é o traço de Pratt que as quer assim. O seu virtuosismo não está na técnica do desenho, mas no que ele consegue fazer passar através do desenho”.

E basta ler este livro, para perceber que Pratt, que aqui conta pela primeira vez com a colaboração de Guido Fuga como assistente, responsável por desenhar os barcos e os comboios, consegue passar realmente tudo através do seu traço inspirado, simultaneamente elegante e dinâmico. Um traço que está ao serviço de uma narrativa fluida e eficaz, mas em que cada imagem tem força e equilíbrio suficiente para funcionar de forma isolada. Vejam-se dois exemplos distintos da força do desenho de Pratt: a imagem icónica de Corto a abrir a porta e o prodígio de movimento que é o quadrado em que vemos um guerreiro mongol a cavalo.
Quanto à edição da Asa, segue as novas edições a cores da Casterman, em que as habituais aguarelas de Pratt no prefácio são substituídas pelas fotografias de Marco D’Anna, o que só será um problema para quem ainda não tiver as belíssimas aguarelas de Pratt noutro lado… Já quanto à tradução, é pena que, ao contrário da anterior edição da Meribérica, traduzida directamente do italiano, desta vez seja feita a partir da versão francesa, em que o poema de Eugenio Genero, avô de Pratt, que na edição original italiana aparece nas páginas 95 e 96, é substituído por um poema de Rimbaud.
(“Corto Maltese na Sibéria”, de Hugo Pratt, Asa, 128 pags, 24,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 20/07/2012

domingo, 11 de setembro de 2011

Corto Maltese em África

É certo que podemos ter dificuldades em perceber a ordem pela qual a Asa está a publicar as aventuras de Corto Maltese, mas também não podemos deixar de reconhecer que o está a fazer a um bom ritmo, tendo publicado cinco volumes em pouco mais de um ano.
O mais recente desses volumes, “As Etiópicas”, afigurou-se como o pretexto ideal para voltar a falar da mais popular criação de Hugo Pratt, pois neste título, o criador de Corto Maltese apresenta-se em plena maturidade estética e literária, ao contrário de “Sob o Signo de Capricórnio”, em que Corto Maltese dava ainda os primeiros passos, ou de “Mu” em que os sinais de decadência, sobretudo gráfica, de Pratt são evidentes.
Com o marinheiro maltês a trocar os mares do Sul pelas areias do deserto, “As Etiópicas” relata a passagem de Corto pelo continente africano, durante o ano de 1918, num percurso que o leva do Iémen à Tanzânia, Passando pela Somália e pela Etiópia. Neste livro, Pratt mistura, tal como refere Marco Steiner no interessante prefácio, “cultura, natureza e aventura”, um trio de ingredientes temperados por um toque de fantástico, com que Pratt faz uma excelente receita. Das Suratas do Corão aos poemas de Rimbaud, passando por uma natureza desértica que funciona quase como uma personagem, aos tiroteios e violentos combates corpo-a-corpo, em que Corto mostra não ter medo de sujar as mãos, os três ingredientes estão lá, tal como estão as personagens carismáticas, como o feiticeiro abissínio Shamael, que volta a aparecer no livro “à l’Ouest de l’Edén” e, sobretudo, Cush, o guerreiro Danakil, cuja “química” com Corto é bem evidente.
Nestas quatro histórias, repletas de personagens inesquecíveis, encontramos vários momentos que mostram todo o talento narrativo de Pratt e a forma como joga com as convenções da Banda Desenhada, subvertendo-as. Veja-se como o poema de Rimbaud que fala de água dialoga de forma inesperada com as imagens áridas do deserto, na sequência inicial de “O Golpe de Misericórdia”, ou o efeito de zoom invertido que abre “Os Homens-Leopardo do Rufiji”, história que tem também uma belíssima sequência onírica, em que o fundo negro é usado com grande eficácia.
Mas estes são apenas pormenores, que não alteram o essencial, que é a grande qualidade deste punhado de histórias, bem desenhadas e melhor contadas, da passagem de Corto Maltese por África, num percurso que se cruza com o do próprio Hugo Pratt, que passou parte da sua juventude na Etiópia.
(“Corto Maltese: As Etiópicas”, de Hugo Pratt, Edições Asa, 112 pags, 24,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 10/09/2011

domingo, 26 de junho de 2011

Corto Maltese na América Latina

Depois de “Mu”, eis que as edições Asa lançam mais dois álbuns de Corto Maltese nas livrarias, 3 meses depois da edição em capa dura desses títulos ter estado à venda nas lojas da FNAC.”Sob a Bandeira dos Piratas” e Longínquas Ilhas do Vento” recolhem 6 das 11 histórias de 20 páginas passadas na América Latina que Hugo Pratt desenhou para a revista francesa “Pif” entre 1970 e 1973, em que Corto assume o papel de protagonista. Histórias essas, posteriormente recolhidas em dois álbuns, “Sous le Signe du Capricorne” e “Corto Toujours un peu plus Loin” (que em Portugal saiu com o título “Corto Maltese na Amazónia”, quando foi publicado pelas Edições 70, em inícios da década de 80).
Curiosamente, “Sob a Bandeira dos Piratas” recolhe as três últimas histórias de “Sous le Signe du Capricorne”, o que tem como consequência que, quem descubra a série pela primeira vez, fique sem saber muito quem são aquelas personagens (de Tristan Bantan a Boca Dorada, passando pelo Professor Steiner, ou Morgana) ou a que se refere a conversa entre Corto Maltese e Boca Dorada, nas páginas iniciais de “Uma Águia na Selva”… Até porque o volume seguinte, “Longínquas Ilhas do Vento” traz as primeiras 3 histórias do álbum seguinte, “Corto Toujours un Peu Plus Loin”, ficando as duas últimas histórias desse álbum por publicar.
Mas pondo de lado, o peculiar critério seguido pela Asa para a ordem pela qual edita a série, estes dois álbuns são altamente recomendáveis, sobretudo comparados com “Mu”, a última aventura de Corto Maltese. A qualidade dos diálogos, a elegância do traço de Pratt (que as cores suaves de Patrícia Zanotti não abafam) a riqueza das personagens, o sopro da aventura em cenários exóticos, tudo isso faz destas histórias verdadeiras pérolas. E, apesar de ainda estar a “apalpar terreno” em termos das aventuras de Corto Maltese, Pratt não tem medo de quebrar as convenções. Veja-se a primeira página de “Um Negócio de Bananas”em que Pratt utiliza os seus famosos “zooms”, dando a ideia que são os canos das armas que falam. Uma sequência que abre caminho a outras semelhantes em “As Etiópicas” e “Corto Maltese na Sibéria”.
Apesar destas reticências quanto à ordem de publicação da série, é bom não esquecer o mais importante. Aos poucos, as aventuras de Corto Maltese voltam a estar disponíveis em português, suprindo assim uma grave lacuna em termos da edição nacional de BD.
(“Corto Maltese: Sob a Bandeira dos Piratas”, de Hugo Pratt, Asa, 96 pags, 24,50 €
“Corto Maltese: As Longínquas Ilhas do Vento”, de Hugo Pratt, Asa, 96 pags, 24,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 25/06/2011

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Corto Maltese: Mu, A Cidade Perdida


Actual detentora dos direitos de publicação da série “Corto Maltese” para Portugal, a Asa iniciou a publicação da série com aquela que é a última aventura do marinheiro criado por Hugo Pratt, o álbum “MU”, que depois de uma edição em capa dura exclusiva da FNAC, chega ao restante mercado livreiro na edição em capa mole.
Publicada originalmente em Portugal, em 2004, numa edição a preto e branco em três volumes, distribuída com o jornal “Público”, “Mu” traz Corto de regresso ao Oceano Pacífico de cujas águas surgiu pela primeira vez em “A Balada do Mar Salgado”, numa aventura em que regressam vários personagens emblemáticos da série, como Boca Dourada, Tristan Bantan, o professor Steiner, Levi Colombia, Soledad Lokaarth e o índio Jesus-Maria, para além do inevitável Rasputine.
Se o cenário e as personagens nos remetem para os primeiros álbuns da série, de “A Balada do Mar Salgado” a “Sob o Signo do Capricórnio”, é nítida uma evolução no comportamento de Corto e no traço de Pratt, longe do virtuosismo de outros tempos e com uma rigidez que a cor lá vai de algum modo disfarçando. Depois de na aventura anterior, “As Helvéticas”, Corto ter passado a história toda a dormir num quarto na Suiça, onde já tinha estado Herman Hesse, não passando a aventura de um sonho, em “Mu”, Pratt regressa à aventura em locais exóticos, mas a fronteira entre o sonho e a realidade continua difusa e tanto Corto como Rasputine passam grande parte da história a dormir e/ou a sonhar…
Os grandes temas da obra de Pratt estão cá todos, mas a acção já não flui da mesma maneira, tal como os diálogos, não obstante uma excelente sequência inicial . Ou seja, Pratt tenta voltar ao passado, mas apesar das piscadelas de olho à sua própria obra, desde o encontro com o Monge, que não é o da “Balada do Mar Salgado”, às borboletas que Corto segue, que podiam ser as de “A Macumba do Gringo”, ou de “Corto Maltese na Sibéria”, este Corto Maltese já não tem, quanto a mim, o charme dos velhos tempos, parecendo mais uma obra de um imitador esforçado, do que do próprio Pratt.
Mas, mesmo não sendo “vintage” Pratt, muito longe disso, este não deixa de ser um trabalho importante na obra do mestre veneziano, que convoca a maioria das personagens da série para esta última aventura de Corto Maltese, bem servido por uma excelente edição, que tem, como (grande) senão, o preço escandalosamente alto para a realidade portuguesa.
(“Corto Maltese: MU, a Cidade Perdida”, de Hugo Pratt, Edições Asa, 200 pags, 30,79 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 16/09/2010