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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Septimus regressa no novo Blake & Mortimer



Mantendo a tradição, o final do ano viu chegar às livrarias mais um álbum, o 22º, da série “Blake e Mortimer”, que a Asa editou em Portugal quase em simultâneo com a edição no mercado francófono. Primeiro álbum assinado pelo argumentista Jean Dufaux, A Onda Septimus arrisca numa continuação para a mais mítica das aventuras de Blake & Mortimer, A Marca Amarela. Um desafio muito arriscado, de dar continuação a uma história perfeita (e perfeitamente fechada) mas do qual Dufaux se sai bastante bem.
Antes de avançarmos, fica um conselho aos leitores. Antes de lerem A Onda Septimus, releiam A Marca Amarela, pois este novo álbum não fará grande sentido para quem não conhecer o álbum que homenageia. E se todos os álbuns pós-Jacobs são marcados pela fidelidade ao modelo clássico do criador da série, de que A Marca Amarela é um dos mais conseguidos exemplos, Dufaux assume abertamente a homenagem, criando uma história plena de citações ao universo de  Edgar P. Jacobs e à ficção científica dos anos 50.

É precisamente a uma das mais populares personagens de culto da ficção científica inglesa, como grandes semelhanças com o próprio Mortimer, o Professor Bernard Quatermass, nascido numa série televisiva da BBC, que Dufaux vai buscar a solução que lhe permite fazer regressar o Professor Septimus ao universo da série, sem ter que o ressuscitar. Uma solução que é simultaneamente engenhosa e coerente com o universo de Jacobs, a que Dufaux acrescenta referências externas como a obra de Magritte, o grande pintor surrealista belga, cujo quadro “Golconda”, a multidão de Septimus de guarda-chuva e chapéu de coco cita abertamente.
Curiosamente, todos esses elementos estão presentes também  em Golconda, um episódio de Dylan Dog, escrito por Tiziano Sclavi e ilustrado por Luigi Picatto, publicado originalmente em Itália em 1990, no nº 40 da revista Dylan Dog, onde para além das magrittianas figuras de guarda-chuva e chapéu de coco, aparece o próprio Philip Mortimer, numa sequência de quatro páginas, em que se deixa conquistar por um grupo de fadas... Não sabemos se Dufaux conhece, ou não, este episódio de Dylan Dog, mas a coincidência não deixa de ser curiosa.
Outra referência óbvia, é a homenagem à trilogia inglesa de Floc’h e Rivière, iniciada com o álbum Encontro em Sevenoaks, evidente no momento em que Septimus descobre o livro A Marca Amarela na montra de uma Livraria, quando Francis Albany, o protagonista da trilogia inglesa, vai a passar na rua, com um livro da sua amiga Olivia Sturgess debaixo do braço.

Uma cena que funciona como espelho da sequência inicial de Encontro em Sevenoaks, em que George Croft descobre um livro que escreveu, assinado por outro autor, numa prateleira de um alfarrabista, ao lado de A Onda Mega, o romance que Septimus escreveu com o pseudónimo J. Wade, a explicar o processo de funcionamento da Onda Mega. A mesma Onda Mega que desempenha um papel importante na intriga de “A Marca Amarela” e ainda mais crucial nesta continuação. Para aumentar ainda mais o carácter metaficcional desta história, também o nome de Jacobs aparece na história, como autor do romance A Marca Amarela e da peça de teatro que a adapta.

Nesta aventura de Blake e Mortimer, é o vilão Olrik quem mais brilha, ficando os dois heróis limitados a um papel mais secundário, o que é sintomático do fascínio de Jean Dufaux por um dos mais carismáticos vilões da BD franco-belga, cuja origem, envolta em mistério, Dufaux gostaria de contar um dia. Mas não é só a origem de Olrik que Dufaux pretende contar. Como o final em aberto deixa perceber, A Onda Septimus é apenas o primeiro capítulo de uma trilogia que Dufaux tem planeado para a série, seguindo, nas suas próprias palavras, o exemplo de Cristhoper Nolan com a trilogia do Cavaleiro das Trevas, com o argumentista a confessar numa entrevista à revista Casemate que: “quero escavar o meu nicho no universo de Jacobs, como Christopher Nolan fez com o Batman”.  
Falta naturalmente falar da parte gráfica, assegurada com grande rigor por Antoine Aubin e Étienne Schréder, dupla que volta a colaborar depois dos bons resultados da segunda parte da Maldição dos Trinta Denários. O desenho a lápis de Aubin, passado a tinta por Schréder, mimetiza na perfeição o traço de Jacobs nos anos 50, com os artistas a revelarem um natural maior à-vontade na colagem ao estilo do mestre.

E, finalmente, foi feita justiça a Schréder, o nosso conhecido autor do Segredo de Coimbra, que depois de ter contribuído de forma decisiva para que os dois álbuns de A Maldição dos Trinta Denários vissem a luz do dia, tem finalmente o reconhecimento que merece, com o seu nome a surgir pela primeira vez na capa do livro em plano de igualdade com o de Antoine Aubin.
Não sendo claramente um álbum fácil, que necessita de ser lido mais do que uma vez, A Onda Septimus é, para mim, o mais interessante dos álbuns de Blake & Mortimer produzidos depois da morte do seu criador. Esperemos que o previsível sucesso comercial deste álbum permita a Jean Dufaux concluir a trilogia prevista e “escavar o seu nicho” no universo de Jacobs.
 (“Blake & Mortimer: A Onda Septimus”, de Jean Dufaux, Antoine Aubin e Etienne Schréder, Edições Asa, 64 pags, 15,90 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 04/01/2014

sábado, 5 de janeiro de 2013

Blake e Mortimer: O Juramento dos Cinco Lords


Como vem sendo hábito, o final do ano viu chegar às livrarias mais um álbum, o 21º, da série “Blake e Mortimer”, que a Asa editou em Portugal quase em simultâneo com a edição no mercado francófono. Quinto álbum assinado pela dupla Yves Sente e André Juillard, “O Juramento dos Cinco Lords” traz de volta os heróis mais “british” da BD franco-belga, para mais uma aventura, desta vez tendo como cenário a universidade de Oxford.

Tendo como modelo a fase áurea de Jacobs, entre os álbuns “A Marca Amarela” e “S.O.S. Meteoros”, a série prossegue a evolução na continuidade, alternando os álbuns escritos por Yves Sente, com os de Jean Van Hamme. Embora respeitando escrupulosamente o “caderno de encargos”, Sente não deixa ainda assim de apresentar algumas novidades neste álbum, como a mudança de cenário, trocando os cenários exóticos pela britânica cidade de Oxford, a ausência de Olrik, o eterno inimigo da dupla de aventureiros, ou o desenvolvimento de aspectos menos conhecidos do passado de Francis Blake, tal como tinha feito com Mortimer em “Os Sarcófagos do 6º Continente”.
Desta vez, ficamos a conhecer os primeiros tempos do Capitão Blake nos Serviços secretos ingleses e a sua participação involuntária na morte de T. E. Lawrence, o mítico Lawrence da Arábia. E é precisamente a memória de Lawrence da Arábia que marca toda esta história de vingança que se abate sobre um grupo de cinco antigos alunos de Oxford. Uma história escorreita e bem contada, onde estão completamente ausentes os elementos fantásticos e de ficção científica, por isso, mais próxima dos policiais à inglesa de Agatha Christie, do que das histórias clássicas de Jacobs. Uma mudança agradável, que confirma Sente e Juillard como os mais sólidos continuadores da série, mesmo que o talento gráfico de Juillard brilhe muito mais quando não tem que imitar Jacobs (algo que não é tão fácil como parece, que o digam os vários desenhadores com quem Van Hamme já trabalhou na série) e se limita a ser ele próprio.
A continuação das aventuras de Blake e Mortimer, após a morte de Jacobs foi ditada por razões meramente comerciais. Mas a verdade é que a aposta deu certo e mesmo os álbuns de Jacobs vendem mais agora do que quando ele era vivo. É um negócio em que todos ganham: o editor, os autores, que vendem bem mais do que com as suas séries habituais e os leitores, que têm a oportunidade de reencontrar os seus heróis favoritos. E, enquanto as aventuras de Blake e Mortimer pós-Jacobs, tiverem a qualidade média deste “Juramento dos Cinco Lords”, não sou eu que me vou queixar…
(“Blake & Mortimer: O Juramento dos Cinco Lords”, de Yves Sente e André Juillard, Edições Asa, 64 pags, 14,50 €)
Versão integral do texto publicado no Diário As Beiras de 04/01/2013

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Blake e Mortimer: A Maldição dos 30 Denários


Na passada sexta-feira, dia 20 de Novembro foi lançada, em simultâneo na França, Bélgica e Portugal, “A Maldição dos Trinta Denários”, o mais recente álbum da série “Blake e Mortimer”, a dupla de heróis “very british”, criada por Edgar P. Jacobs. Um álbum, cuja complicada produção, de mais de cinco anos e dois desenhadores, daria ela própria uma história, a que se poderia chamar “A Maldição de Blake e Mortimer”.
Após a morte de Jacobs, em 1987, a editora Dargaud, que adquiriu os direitos da série à família, decidiu fazer reviver a mítica dupla de heróis britânicos criados pelo belga Edgar P. Jacobs, numa muito bem montada operação, envolvendo duas equipas diferentes de autores, com a ingrata tarefa, não de fazer esquecer, mas de mimetizar o traço e o ambiente da fase de ouro de Jacobs, situado entre os álbuns “A Marca Amarela” e “S.O.S. Meteoros”. Mas se a ideia inicial da editora era alternar os álbuns assinados por Jean Van Hamme (o argumentista de “XIII” e “Thorgal”, que iniciou a fase “apócrifa” com “O Caso Francis Blake”), com os da dupla Yves Sente e André Juillard, os problemas que Van Hamme teve com os desenhadores com que trabalhou, desde a lentidão de Ted Benoit, que levou mais de 10 anos para desenhar dois álbuns, até à morte de René Steerne, o desenhador que substituiu Benoit, e desenhou as primeiras 29 páginas deste “A Maldição dos Trinta Denários”, leva a que se possa falar numa maldição dos desenhadores de “Blake e Mortimer”, a que só Juillard parece imune.

Maldição ou não, foi uma pena que René Sterne, desenhador conhecido pelo seu trabalho na série “Adler” tenha morrido de repente, aos 56 anos, de ataque cardíaco, deixando à sua mulher Chantal de Spiegeleer a ingrata (e emocionalmente muito dura) tarefa de terminar de desenhar a história, um trabalho que se pressente esforçado, mas cujos resultados não são brilhantes, especialmente nas cenas de acção, campo em que a desenhadora confessa não se sentir à vontade. Chantal, que juntou inúmeras personagens femininas à história, para se sentir confortável (o que se nota numa cena como a da página 33, em que há um verdadeiro desfile de mulheres de robes e camisas de dormir, impensável num álbum de Jacobs), contou ainda com a colaboração de Etienne Schréder (o nosso conhecido autor de “O Segredo de Coimbra”) nos desenhos dos cenários e de Laurence Croix na cor, neste último caso, com resultados pouco famosos, especialmente nas cenas nocturnas, que estão quase ilegíveis…
E, a sensação que dá, perante a última página do álbum, com muito menos quadrados do que o habitual, é que houve uma preocupação em terminar mais rapidamente este primeiro volume, talvez para que o livro pudesse sair, como saiu, próximo do aniversário da morte de René Sterne, que ocorreu a 15 de Novembro de 2006.

Capa alternativa da edição portuguesa, exclusiva das lojas FNAC
Quanto à história em si, Van Hamme revela a eficácia do costume, numa intriga sem grandes surpresas para quem conhece a série e que tem como modelo óbvio “O Mistério da Grande Piramide”.
O “mau da fita”, um ex-criminoso de guerra nazi com delírios de grandeza, que é uma mistura de Rastapoupolos, com o Imperador Basam Dandu, está longe de ser dos mais conseguidos da galeria de vilões da série e também não é muito claro como é que os trinta denários que Judas recebeu por ter traido Cristo, lhe vão permitir conquistar o mundo. Mas, apesar disso, a história lê-se bem e deixa-nos curiosos para saber como termina, no segundo volume, que está a ser desenhado por Aubin Frechon, um desenhador de 42 anos, vindo da animação, e que, depois de uma história de 4 páginas num álbum colectivo, se estreia na BD com este desafio de peso. Agora esperemos que Frechon não venha a ser mais um desenhador vítima da maldição de Blake e Mortimer…

Desenho a lápis de Aubin Frechon para um quadrado do 2º volume
(“Blake e Mortimer: A Maldição dos Trinta Denários” Tomo 1, de J. Van Hamme, R. Sterne e C. De Spiegeleer, Edições Asa, 56 pags, 14,50 €.)
Versão ligeiramente revista de um texto publicado originalmente no Diário As Beiras de 28/11/2009