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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Frank Miller em Sin City



A propósito da estreia nos cinemas nacionais esta quinta-feira, de Sin City 2: A Mulher Fatal, pareceu-me interessante recuperar aqui o texto que escrevi em 2005, para o nº 3 do BD Jornal, a convite do Machado-Dias. 
Tenciono, naturalmente, falar também aqui do novo filme, que além do mais, é baseado numa das minhas histórias preferidas de Sin City, que tive o prazer de traduzir para português, mas só o deverei conseguir fazer durante a próxima semana, pois é pouco provável que consiga ir ver o filme antes disso. Até lá, deixo-vos com este texto sobre a série de Frank Miller e a sua passagem ao cinema 

SIN CITY: QUANDO O CINEMA SE TRANSFORMA EM BD

Depois do sucesso comercial no mercado americano e da passagem pelo Festival de Cinema de Cannes, chegou finalmente a Portugal no dia 9 de Junho aquele que a revista Première anuncia como o filme de culto do ano, Sin City, uma transposição para cinema, dirigida por Frank Miller e Robert Rodriguez, da série de culto de Frank Miller. O pretexto ideal para falarmos um pouco do filme, começando pelos livros disponíveis em Portugal que lhe deram origem.


BEM-VINDO A SIN CITY

Série revolucionária, pela forma como recupera um género considerado acabado (o policial negro) e o reinventa em violentas histórias de crime e castigo, desenhadas num espectacular preto e branco, altamente contrastado, Sin City tem conciliado o estatuto de obra de culto com um grande sucesso comercial, como de resto aconteceu em Portugal, onde as excelente vendas do primeiro volume se aliaram ao reconhecimento da crítica, traduzido no prémio de Melhor Clássico da BD editado em 2003, atribuído pelo Festival de Banda Desenhada da Amadora.

Estreada no nº 51 da revista Dark Horse Presents, Sin City assinalava um estrondoso e inesperado regresso de Frank Miller à prancheta de desenhador, que pôs fim a um hiato de dois anos (desde Elektra Lives Again), em que o criador de Elektra se dedicou a uma decepcionante experiência em Hollywood, onde colaborou nos argumentos dos filmes Robocop II e III.  Assegurando todo o processo criativo, desde o argumento e desenhos até à legendagem (ao contrário do que acontecia em Hollywood, onde era apenas mais uma peça da engrenagem), Miller criou com Sin City uma série policial extremamente violenta e inovadora no uso contrastante do preto e branco e na diluição do conceito de herói tradicional, que aqui cede o protagonismo à própria cidade, contribuindo para um novo fôlego dos comics policiais, há muito esquecidos num mercado atulhado de super-heróis.
Para os leitores menos atentos à trajectória de Miller, esta estilizada incursão pelos campos do romance "hard boiled" poderia parecer uma ruptura na carreira do autor, conhecido principalmente graças à revitalização de super-heróis como o Batman ou o Demolidor. Uma ruptura apenas aparente, pois Sin City  acaba antes por ser mais uma fase lógica na evolução estética e literária de um criador, que já mostrou o seu talento para incorporar os seus diferentes interesses e fontes de inspiração em obras originais e coerentes. Liberto dos constrangimentos editoriais existente nas grandes empresas, como a DC e a Marvel, em que lida com personagens com um passado bem conhecido e que irão continuar a existir muito para além da sua intervenção, Miller  soube aproveitar essa merecida liberdade para criar um universo de raiz, onde é rei e senhor.
As histórias policiais são um tema recorrente ao longo da obra de Frank Miller, que sempre teve vontade de fazer esse tipo de histórias, tendo-se dedicado aos super-heróis por ter sido o único tipo de trabalho que lhe apareceu no início de carreira. Mas as suas histórias de super-heróis revelam esse gosto pela literatura e cinema policial, em que personagens profundamente humanos, nas suas qualidades e defeitos, procuram sobreviver na grande cidade, submergida pela corrupção e pelo crime.
Estilização talvez seja o adjectivo que melhor defina o seu trabalho em Sin City, pois, sem nunca pretender fazer uma história realista, Miller procurou através de uma enorme economia de meios que tudo parecesse o mais atraente possível. Nas suas palavras: “queria que os carros fossem vintage, as mulheres fossem belas e as gabardines compridas. Se olharmos para um comic desenhado por Johnny Craig ou Wallace Wood [dois desenhadores da E. C. Comics] vemos que eles conseguiam dar "glamour" a todo e qualquer assunto. Eu quero que Sin City seja agradável de desenhar e consequentemente, agradável de ver, até porque eu sabia que estava a lidar com um material extremamente duro”.

Não era apenas em termos estéticos que Sin City foi inovador, pois não é nada habitual ver morrer o protagonista no fim da história, como acontece com Marv, (interpretado no cinema por Mickey Rourke, num espectacular desempenho que pode muito bem relançar a sua carreira, como aconteceu com John Travolta no filme Pulp Fiction). Um destino que serve para Miller mostrar de forma clara aos leitores que o verdadeiro protagonista da série é a cidade, de que Marv é apenas um habitante. Nas suas próprias palavras: “queria começar Sin City de forma que os leitores percebessem quão longe eu estava disposto a ir com os personagens. Não queria que fosse considerada como uma série centrada num único personagem. Assim evita-se a saturação. As pessoas realmente não vivem de uma aventura para a outra. Eu chego e visito esses personagens durante os períodos mais intensos da sua existência”.
A primeira história de Sin City, notável no seu experimentalismo gráfico, dificilmente ultrapassável, revelava no entanto alguns problemas narrativos, naturais numa história que se ia desenvolvendo de acordo com o prazer cada vez maior que Miller tinha em desenhá-la. Assim, apesar de algumas debilidades do argumento, em que a violência sádica está ao nível dos romances de Mickey Spillane e James Ellroy, o fabuloso sentido de planificação e a qualidade e eficácia da escrita emotiva e visceral de Miller, em que nada é supérfluo, fazem com que o resultado final seja uma excelente obra de BD.
Animado pelo sucesso de Sin City, Miller decide voltar às ruas da sua cidade, para nos apresentar Dwight, o protagonista de Mulher Fatal, o segundo volume da série, cuja história, já foi anunciado por Rodriguez, irá servir de base ao 2º filme, ainda sem data de estreia prevista. O experimentalismo do primeiro Sin City dá agora lugar ao rigor e classicismo desta nova entrega, em que a história (previsível, mas cheia de acção) de uma mulher fatal e do homem que se deixa dominar por ela, é contada de forma perfeita, respeitando todos os cânones do "cinema negro" que lhe deu origem.
Ava, a tal Mulher Fatal é claramente inspirada nas mulheres fatais do cinema. No entanto, esta personagem, ao contrário do que costuma suceder no cinema, não se apresenta tanto como uma vitima das circunstâncias, alguém a quem a vida arrastou para o crime, mas como uma pessoa extremamente calculista, que aparece aos outros personagens como uma encarnação do Mal em estado puro, muito mais aterrorizante para o leitor, que se apercebe da frieza e calculismo da personagem.
Também Dwight vai ter direito ao habitual tratamento de choque que Miller costuma dispensar aos seus heróis. O autor, que acredita piamente naquela máxima de Nietzsche, que diz que "o que não nos mata torna-nos mais fortes", vai fazer com que Dwight seja espancado e baleado, ficando entre a vida e a morte, para renascer como um novo homem, que aprendeu com a experiência traumática a que foi submetido. Um processo de expiação pelo sofrimento, enraizado na mitologia judaico-cristã, habitual na obra de Miller e pelo qual também já passaram Batman e o Demolidor.
Nesta segunda entrega ressalta o rigor de construção da violenta história, bem patente na forma hábil como Miller articula este episódio com o anterior, através da presença de Marv, que aqui tem um papel mais episódico, embora igualmente importante.
Depois de Mulher Fatal, Dwight, que no filme é interpretado pelo inglês Clive Owen, volta como protagonista de A Grande Matança, uma história ultra-violenta, contada quase em tempo real e onde o sangue corre ainda com maior abundância para as sarjetas de Sin City. Apesar de um argumento demasiado primário, merece destaque a forma como Miller gere o suspense, e que tem o seu ponto mais alto na cena em que se descobre que Jackie Boy (uma personagem a que Benicio Del Toro dá vida no filme) era polícia, e que a sua morte punha em causa o pacto tácito de não agressão com a polícia, de que dependia o estatuto especial da Cidade Velha.
Aquele Sacana Amarelo, o 4º volume da série é quando a mim o mais conseguido e o primeiro em que Miller quebra o habitual preto e branco, com a introdução de uma terceira cor, neste caso o amarelo, com resultados espectaculares, pois, como ele próprio comenta, “a cor é extremamente poderosa e o olhar é imediatamente atraído para ela, especialmente se se trata de uma cor isolada”.
  Introduzindo um novo herói, John Hartigan, um polícia à beira da reforma que paga caro o preço de não pactuar com o sistema, esta história destaca-se pela intensidade e carisma das personagens principais e pelo rigor da construção e gestão do suspense, que atingem aqui talvez o seu ponto máximo. Se Nancy revela ser bastante mais do que uma simples bailarina de corpo deslumbrante (a que a actriz Jessica Alba faz justiça no filme), capaz de proporcionar a Miller algumas notáveis cenas de puro voyeurismo, Hartigan, o mais puro e honesto personagem até agora avistado em Sin City, é também uma das mais bem conseguidas personagens de toda a série, a que Bruce Willis dá corpo no cinema com grande eficácia e que, tal como Marv, morre no fim da história em que aparece pela primeira vez, deixando muitas saudades.
  Considerado pelo próprio Miller como o seu trabalho favorito, apesar do aspecto algo ridículo (mas que se destaca bem do preto e branco da página e que o filme recria de forma impressionante) do filho do Senador Roark, com o seu sangue amarelo que vai enchendo as páginas à medida que a história se aproxima do fim, Aquele Sacana Amarelo é bem revelador da capacidade de Miller surpreender o leitor, que estava longe de imaginar que a pequena Nancy Callahan e a sensual bailarina do Kadie's são a mesma pessoa.


DA BD PARA O CINEMA

Sendo uma série claramente devedora da estética do film noir, o sucesso das histórias de Frank Miller ambientadas na cidade do pecado, atraiu naturalmente o interesse dos grandes estúdios cinematográficos, mas Miller, que trabalhou em Hollywood como argumentista e sabe bem como funcionam os estúdios de cinema, sempre se mostrou muito reticente a permitir que as suas personagens chegassem ao grande ecrã.
Foi preciso toda a persistência de Robert Rodriguez que, depois de mostrar a Miller uma série de imagens que provavam que era possível recriar no cinema, o preto e branco de alto contrate de Sin City, convidou o desenhador para assistir a um teste de filmagem da história curta O Cliente tem sempre Razão, para que ele pudesse ver por si próprio como, graças às novas tecnologias digitais, era possível recriar no ecrã até ao mais ínfimo pormenor, o grafismo único de Sin City. O tal teste, filmado com os actores  Josh Hartnett e Marley Shelton, ainda antes de haver um contrato assinado, serviu para convencer definitivamente Frank Miller, para além de se revelar um óptimo cartão de visita para recrutar um naipe assombroso de actores que, além de Mickey Rourke, inclui ainda Bruce Willis, Clive Owen, Michael Madsen, Benicio del Toro, Jaime King, Rosário Dawson, Elijah Wood, Carla Gugino, Jessica Alba, Michael Clarke Duncan, Britanny Murphy e Rutger Hauer.
Para além de O Cliente Tem Sempre Razão, história publicada em Portugal no nº 1 da revista Comix, e que funciona como cena de abertura do filme, a longa-metragem adapta mais três histórias, todas já disponíveis em português pela Devir. São elas, A Cidade do Pecado, o  primeiro volume de Sin City, rebaptizado como O Difícil Adeus na nova edição americana, O Grande Massacre e Aquele Sacana Amarelo.
Mais uma transposição do que propriamente uma adaptação, o filme é de uma fidelidade assombrosa à BD que lhe deu origem. Além de haver um respeito absoluto pelos enquadramentos, planificação e diálogos da BD, com as páginas a servirem de story-board, o próprio Frank Miller surge creditado como corealizador, a par de Rodriguez, que teve de abandonar a Director’s Guild of America, para poder conceder a Miller a realização conjunta e ainda convidar Quentin Tarantino para dirigir uma sequência de O Grande Massacre, recebendo um dólar de pagamento, em retribuição de Rodriguez ter feito música para o filme Kill Bill cobrando o mesmo valor. E, embora a cena filmada por Tarantino (uma surreal conversa dentro de um carro entre Dwight e o cadáver de Jackie Boy) não se distinga particularmente do resto do filme, Rodriguez ficou tão satisfeito com o resultado que lhe prometeu dobrar o salário no segundo Sin City...
Verdadeiro prodígio técnico, Sin City, o filme, visualmente espectacular, foi inteiramente rodado em suporte digital, única maneira de recriar o jogo de claro/escuro e a iluminação impossível de Miller, no estúdio de Rodriguez, no Texas, com os actores filmados contra um ecrã verde, que permitia que os cenários, o tratamento da imagem e a montagem das cenas fossem efectuados na pós-produção, única forma de fazer um filme com um elenco destes por apenas 40 milhões de dólares. E, embora isso depois não se note no ecrã, muitos dos actores que contracenam no filme, nem sequer se cruzaram nas filmagens, como foi o caso de Mickey Rourke, com Elijah Wood e Rutger Hauer, actores contratados muito depois de Rourke ter acabado de filmar as suas cenas.
Embora o filme apresente alguns problemas de ritmo e algumas das cenas precisassem de mais tempo, para os fãs da BD é uma experiência absolutamente fabulosa ver os desenhos de Miller ganharem vida no grande ecrã. Para o grande público, que não se deixe impressionar pela grande violência do filme, que faz Kill Bill  parecer quase um filme da Disney, será certamente uma experiência diferente e inovadora, que se adora ou se odeia, mas dificilmente se esquece.
Texto publicado originalmente no BD Jornal nº 3, de Julho de 2005

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Vítor Péon, o Desenhador Incansável

Se os nomes de E.T. Coelho e de Fernando Bento funcionam quase como símbolos das revistas Mosquito e Diabrete, em cujas páginas deixaram o grosso da sua produção, a carreira de Vitor Péon caracteriza-se pela ubiquidade. Nascido em Angola em 1923, Péon foi um dos mais versáteis e indiscutivelmente o mais produtivo autor de BD que este país conheceu, espalhando o seu talento por milhares de histórias feitas ao longo de uma carreira que durou mais de 40 anos, repartida entre a Inglaterra, França e Portugal, de onde partiu e aonde acabou por regressar.
Tendo descoberto a BD aos 13 anos através da revista O Mosquito, seria nas suas páginas que Vitor Péon, que trabalhava na aplicação de cor nas chapas litográficas, se estrearia como autor de BD 6 anos depois, em 1943, com Falsa Acusação, um movimentado western em que o seu desenho acompanha um texto palavroso onde se detecta a mão de Raúl Correia.
Dois anos e algumas histórias como Flibusteiros e o O Neto de Cartouche depois, dar-se-ia um encontro que iria marcar toda a sua carreira. Roussado Pinto, um jovem de 18 anos que se estreava na edição de BD, funda o Pluto, uma revista semanal claramente inspirada no Mosquito, indo buscar o seu mais jovem desenhador. Péon aceita o desafio e sozinho desenha quase toda a revista, adequando o seu traço às características de cada história, dando a ideia de que de diferentes desenhadores se tratava. Do seu lápis saem as ilustrações para os contos de Orlando Marques, uma construção de armar com o pseudónimo de Thomas Deerfoot, para além de BDs dos mais variados géneros, dos westerns como Três Balas e Traidor em Fuga, ao polícial Roubo e Crime, histórias humorísticas (Fitas Sonoras, As Aventuras do Pluto, Felizardo, o Rei do Azar e Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota) e Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem, um exemplo da aventura em estado puro, bem na linha do inglês Reg Perrot, em que Péon se mostra tão à vontade a desenhar os aviões como os animais selvagens e uma natureza enfurecida. Mas para além de todas estas séries em que as ilustrações eram acompanhadas por texto didascálico corrido (que no caso de Três Balas corria muito mais devagar do que os desenhos de Péon...), o desenhador faria ainda O Segredo do Oceano e Toyat o Rei dos Macacos, histórias que, para além de serem cópias descaradas de Flash Gordon e Tarzan, mostram que Péon também sabia usar os balões sem que isso afectasse o enorme dinamismo das suas pranchas.
Com o Pluto a ter de fechar as portas ao fim de 25 números, Péon, que nos últimos tempos da revista colaborava simultaneamente com o Diabrete, vai passar a trabalhar mais intensamente para a revista dirigida por Adolfo Simões Muller, publicando inúmeras histórias dos mais variados géneros em três anos de ritmo diabólico, capaz de fazer inveja a um Jack Kirby, o que não o impediu de colaborar também no Papagaio, novamente ao lado de Roussado Pinto, e ainda na Lusitas, revista da Mocidade Portuguesa destinada a um público feminino. Sendo obrigado a desenhar uma média de 40 páginas por mês para poder sustentar a família, Péon viu-se forçado a simplificar o seu estilo, conseguindo ainda assim níveis muito razoáveis de qualidade, bem reveladores do seu talento inato.
Mas seria com o seu regresso ao Mosquito em 1949 que teria lugar um dos pontos mais altos da sua imensa obra de BD. Violenta história de traição e vingança, A Casa da Azenha traduz uma ruptura com a temática habitual da BD portuguesa da época, insuflando-lhe um realismo e uma violência característicos dos romances políciais do outro lado do Atlântico. Na melhor tradição dos romances de Hammett, Chandler e Spillane, esta BD contém todas as características dos romances negros publicados nos "pulp magazines", incluindo gangsters sem escrúpulos, um empresário corrupto e uma "mulher fatal".
Em termos de desenho e planificação das imagens, são bem patentes as influências de Will Eisner e de Alex Raymond, sem que com isso o traço de Péon perca personalidade, dramatismo e eficácia, apesar de algumas falhas em termos de composição das vinhetas. E o desenhador chega mesmo a tentar uma incursão pelo campo do surrealismo, na fabulosa sequência do sonho, em que, como bem assinala A. Dias de Deus, os cenários de Dali para o filme Spellbound de Hitchcock e as capas de Candido Costa Pinto para a colecção Vampiro (onde foram publicados muitos dos romances policiais que Péon homenagea neste álbum) funcionaram como referência.
Mesmo um aspecto claramente datado, como o recurso a uma narração didascálica, em que o texto está separado da imagem, em vez do uso de balões para contar a história, acaba por resistir ao desgaste do tempo. Embora o texto de Raúl Correia que enche as vinhetas seja muitas vezes reduntante (como de resto era habitual no principal argumentista do Mosquito), limitando-se a descrever o que a imagem mostra, adequa-se perfeitamente aos cânones do romance policial "negro" que pretende homenagear, especialmente nos momentos em que é usado para nos transmitir os pensamentos de Ted Kirk, que narra a história na primeira pessoa.
Péon continuará no Mosquito produzindo excelentes trabalhos como o western A Vingança do Jaguar, ao mesmo tempo que se estreia na pintura expondo dois óleos no salão de Outono da Sociedade Nacional de Belas Artes. Em 1950, respondendo a mais um chamamento de Roussado Pinto, contratado pela Agência Portuguesa de Revistas para relançar o Mundo de Aventuras, vai passar a colaborar nessa revista contribuindo decisivamente para a sua fase de maior sucesso.
As páginas do Mundo de Aventuras enchem-se com as ilustrações e histórias de Vítor Péon, a maioria com argumento de Edgar Caygil (um dos vários pseudónimos de Roussado Pinto), abarcando todos os géneros de aventura, incluindo a BD de temática histórica. O traço maduro e dinâmico revelado nestas histórias, valorizado pelos enquadramentos judiciosamente escolhidos mostram um autor com um perfeito domínio da linguagem da Banda Desenhada. No Mundo de Aventuras, para além de heróis como Zama e Frank Savage nascerá o mais célebre personagem de Péon, o cowboy Tomahawk Tom, criado em colaboração com Roussado Pinto, que lhe permitia dar asas ao seu talento para desenhar cavalos, desenvolvido durante o serviço militar cumprido na cavalaria. Um dos pontos altos da colaboração da dupla na publicação da Agência Portuguesa de Revistas, é a história S.O.S. na Idade da Pedra de 1954, em que os próprios autores participam activamente da aventura, viajando no tempo para ajudarem um homem pré-histórico.
Quando em 1954 Roussado Pinto deixa o Mundo de Aventuras, para criar duas revistas de efémera duração; Titã e Flecha, Péon continua a seu lado, desenhando histórias e ilustrações para o Titã e ilustrações e uma construção de armar que ficaria incompleta, para o Flecha. Para a seguinte aventura editorial fracassada de Roussado Pinto, a revista Valente, Péon homenageará em 1956 o seu autor favorito, Reg Perrott, redesenhando um dos seus maiores êxitos, A Flecha de Ouro, publicada no Mosquito, em finais da década de 30. Apesar do empenho e do talento de Péon, que imita na perfeição os enquadramentos arrojados de Perrott, alternando plongées e contra plongées, esta nova versão não consegue atingir o esplendor e o rigor arquitectónico da história original de Perrott.
Como as imposições da censura às publicações juvenis reduzem praticamente a BD realista portuguesa às séries de temática histórica, restringindo drasticamente o campo de trabalho. Péon vê-se assim obrigado a seguir os conselhos de E.T. Coelho, então já a trabalhar em França, e tentar também ele a sua sorte no estrangeiro.
Depois de uma passagem por Dundee, fixa-se em Londres com a família, enquanto produz anonimamente histórias aos quadradinhos para as editoras D.C. Thompson e Fleetway e se começa a interessar seriamente pelo cinema de animação. As séries como Simon Crane e The Laughing Pirate só muito mais tarde seriam parcialmente conhecidas em Portugal, quando, a partir da década de 70, o Mundo de Aventuras reedita essas histórias antigas de Péon.
Durante a sua estadia em Inglaterra, apenas Nos Mares da China é publicado em Portugal, em 1962. Único álbum do Cavaleiro Andante feito por um autor português, esta aventura de temática histórica terá sido feita uns anos antes, quando Péon ainda se encontrava em Portugal, de acordo com A. J. Ferreira.
No regresso a Portugal em 1965, trocará temporariamente a BD pelo cinema de animação e pela pintura, com uma exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes de grande sucesso crítico, como o demonstram as palavras de Almada Negreiros, que o aconselhou a nunca deixar de pintar.
Em 1968, surge a versão portuguesa da revista Tintin onde as suas histórias, que se incluem nos seus melhores trabalhos de sempre, são as únicas a quebrar a hegemonia franco-belga, mas como o trabalho não era suficiente e o cinema de animação não se revelava economicamente viável, volta a partir, agora para França onde se ocupará dos desenhos da série Yataca, um sub-Tarzan, na linha de Tayat e Zama, de que desenhará uma vintena de episódios.
Acabará por voltar definitivamente a Portugal em 1974 e à BD, ressuscitando para o efeito Tomahawk Tom, o seu mais célebre personagem num álbum inédito, prejudicado por um desenho apressado e por uma péssima cor que empastela completamente o seu traço inimitável. O fracasso comercial de O regresso de Tomahawk Tom compromete outros projectos de auto-edição, impossibilitando os leitores de conhecerem as anunciadas aventuras de Sax, o Flibusteiro e do reverendo Benedict Jr... Mas Péon, que entretanto se envolveu na política, apoiando a candidatura à presidência da República do Almirante Pinheiro de Azevedo, para a qual desenhou alguns cartazes, não desiste e editará em 1976 o Vitor Péon Magazine. Esta revista, onde o autor recuperaria uma série de histórias produzidas nos anos 50 para o Mundo de Aventuras, incluindo pelo menos um episódio de Tomahawk Tom que tinha ficado por publicar, só conseguirá resistir durante três números num mercado já pouco atreito à aventura clássica.
Em Agosto de 1979 voltará ao Mundo de Aventuras para ilustrar O Rei dos Lobos, uma história escrita por Jorge Magalhães que é um dos melhores trabalhos do desenhador, que livre da pressão dos prazos apertados, que sempre condicionaram a sua obra, provou ainda ser capaz de inovar e surpreender. Publicada em formato italiano o que permite a reprodução dos desenhos num tamanho bastante próximo do original, esta lenda viking mostra um desenhador extremamente detalhado e exímio na composição e no tratamento negro dos fundos que ajudam ao clima fantástico da história, do mesmo modo que o realismo com que trata as rudes feições dos personagens as torna reais e credíveis. Nesta última fase, o seu estilo ganha um barroquismo e um pormenor que o aproxima de Burne Hogarth, autor com quem sempre partilhou o dinamismo e agitação das figuras, sempre em permanente tensão.
Se o talento do artista era já abundantemente conhecido, a sua capacidade de reflectir e de transmitir os seus conhecimentos sobre a Banda Desenhada ficaram bem patentes em História da Banda Desenhada e A Banda Desenhada como Arte, dois livrinhos notáveis pela concisão, que não consegue esconder uma grande erudição e amor à BD, editados pelo F.A.O.J., e no curso sobre BD que dará em 1980 no I.A.D.E.
A partir daqui, com excepção de algumas capas para a revista Selecções do Mundo de Aventuras, a sua carreira virar-se-á definitivamente para a BD de temática histórica e para a investigação historiográfica, realizando uma série de trabalhos de grande qualidade. São dessa fase os álbuns Gesta Heróica e A Epopeia dos Descobrimentos Portugueses (livro ilustrado que daria origem a uma colecção de cromos), trabalhos em que o estilo tão característico da fase final de Péon está ao serviço de um argumento bem documentado, onde abundam os arcaismos de linguagem.
Em 1985, pouco depois de ter sido galardoado pelo Clube Português de Banda Desenhada, Péon é acometido por uma trombose que lhe rouba a voz e o movimento da mão direita, vendo-se assim obrigado a renunciar definitivamente à BD. Acabaria por falecer em 5 de Novembro de 1991, ainda a tempo de assistir à justíssima homenagem que lhe foi prestada pelo Clube Português de Banda Desenhada, em Dezembro de 1990 no 9º Festival de Banda Desenhada de Lisboa, onde faz a sua última aparição pública.

Texto originalmente escrito em 1997, para um projecto de um História da BD Portuguesa, coordenado pelo João Paulo Cotrim, que não chegou a bom porto.Publicado pela primeira vez no BD Jornal nº 28, de Outubro de 2011, com algumas pequenas correcções sugeridas pelo Jorge Magalhães, a quem agradeço a leitura atenta.

sábado, 2 de julho de 2011

Relvas, o regresso do filho pródigo

Unanimemente considerado como um dos mais talentosos e personalizados autores portugueses de banda desenhada das últimas décadas, Fernando Relvas [Lisboa, 1954], apesar de já ter completado trinta anos de carreira, continua praticamente desaparecido das livrarias, com cinco livros publicados, que actualmente são quase impossíveis de encontrar. Uma situação que o regresso do autor a Portugal, poderá ajudar a mudar.
Tendo-se estreado nestas vidas ingratas da BD em 1974, na Gazeta da Semana. Relvas vai começar por dar nas vistas na revista Fungagá, para a qual realiza várias histórias que lhe servirão de cartão de apresentação para o próximo e decisivo passo da sua carreira, a publicação no Tintin português. Beneficiando do espírito de abertura em relação aos novos autores portugueses revelado por Dinis Machado e Vasco Granja, então responsáveis pela revista, Relvas vai-se estrear no Tintin em 1978, onde manterá uma presença ininterrupta até ao fim da revista.
A inserção no Tintin de um suplemento a preto e branco (por onde passou também o Corto Maltese de Hugo Pratt) veio diminuir substancialmente os custos da publicação de autores portugueses e o jovem autor aproveitou bem esta oportunidade de publicação para fazer nascer o Espião Acácio. Crónica humorística da Primeira Grande Guerra, inspirada pela leitura da Ilustracão Portuguesa, revista do princípio do século que funcionaria como principal fonte iconográfica e documental, a série cedo conquistaria os leitores do Tíntin, que aderiram sem reservas ao traço personalizado e ao humor de Relvas. Constituída por episódios de duas páginas, a série iria chegar quase à centena de páginas, apesar de ter terminado sem deixar muitas saudades... Relvas, talvez cansado deste tipo de humor, vai na fase final da série introduzir elementos de ficção científica perfeitamente estranhos à história que, quanto a mim, lhe retiraram todo o sentido e piada (isto apesar do próprio considerar estes últimos episódios como os seus preferidos). O mesmo se passa em termos gráficos, com a limpidez quase “linha clara” que caracterizava até então o seu traço, a dar lugar a experiências falhadas com o pincel.
Pouco depois do inicio da publicação de O Espião Acácio, Relvas deu os seus primeiros passos no sentido da internacionalização da sua carreira, deslocando-se a França e à Holanda, onde tentou, aparentemente sem grande convicção, mostrar o seu trabalho às grandes editoras. Uma oportunidade que acabaria por se gorar devido às dificuldades que Relvas revelou em se adaptar às regras do jogo dessas editoras.
O seu trabalho seguinte para o Tintin consistiu numa adaptação à banda desenhada da Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne. Trabalho claramente de encomenda, sobre o qual o autor não quer nem ouvir falar, esta obra deixa bastante a desejar, tanto em termos de respeito pelo originai, como de fluência narrativa. Mesmo o tratamento apressado dos (quase inexistentes) cenários é sintomático do pouco empenho de Relvas nesta adaptação, a que falta «alma» e convicção.
A história seguinte, Rosa Delta Sem Saída, representa a sua primeira incursão no campo da ficção científica, género que, segundo o próprio refere, apenas lhe interessa como reflexão sobre o destino da humanidade.
Esta ficção pós-apocalíptica, eivada de um profundo pessimismo, vale sobretudo pelas experiências empreendidas no uso das sombras, pois em termos narrativos a história padece do mesmo mal de muitos outros trabalhos de Relvas, a ausência de um argumento estruturado de forma lógica e compreensível. Uma falha que se alastrou aos restantes projectos nesta área, como VAST, uma história publicada na V série de O Mosquito, em que usa pela primeira vez tramas mecânicas e 0-3-0, o Controlador Louco, uma «coboiada espacial», nas palavras do autor, publicada em 1980, no Mundo de Aventuras.
Segue-se L123, um dos seus melhores trabalhos de sempre. Mudando radicalmente de temática, Relvas volta-se agora para aquilo que conhece bem da sua vivência pessoal, o ambiente suburbano de Lisboa. Com efeito, o próprio título da série é uma referência ao passe integrado de transportes colectivos que cobre Lisboa e arredores. L123 é um “thriller” (sub)urbano centrado no confronto entre dois grupos de traficantes de droga, profundamente ancorado na realidade que cercava o autor, que recorre com frequência a documentação fotográfica, utilizando os locais que frequenta como cenários e emprestando o rosto dos amigos aos personagens da série. Esta sensação de grande realismo, alicerçada em diálogos extremamente coloquiais e credíveis, é sintomática de uma grande sintonia com a realidade quotidiana, até então praticamente inexistente em termos da banda desenhada portuguesa.
Isso deverá ter sido consequência da grande liberdade concedida a Relvas, liberto pela primeira vez do espartilho da história em 44 páginas, tão característico da BD franco-belga, com condições de fazer uma obra de grande fôlego na linha das que nasceram em redor da revista (A Suivre). Temos assim uma complexa e movimentada história de mais de 100 páginas, onde são introduzidos de forma hábil alguns elementos fantásticos, estruturada de forma quase orgânica, com as pranchas a serem entregues apenas três meses antes da publicação, o que lhe deu hipóteses de ir modificando a história à medida que ia vendo o seu trabalho impresso.
Denotando um enorme à vontade no desenho e planificação das cenas de acção, onde revela um dinamismo sem equivalente em termos da actual banda desenhada portuguesa, Relvas mostra também toda a sua apurada técnica do preto e branco, que vai evoluindo de forma sensível ao longo da história e em que são visíveis as influências de Pratt, Jijé e Munoz. Digna de realce é ainda a utilização dramática (e cinematográfica) da banda sonora, com estratos de canções de Lou Reed, Beatles, Duran Duran, Stepenwolf e Kim Wilde a pontuarem, de forma ajustada, diferentes momentos da acção.
Depois deste excelente trabalho, plenamente merecedor da edição em álbum, Relvas vai recuperar Eco e Artur, dois personagens de L123 para a história seguinte, Cevadilha Speed. Apesar da vida de Cevadilha dar um, ou mesmo vinte livros, a personagem mais interessante é Lena, ou Ganza, uma bela e misteriosa mulher que Relvas criou a partir de uma fotografia de Helmut Newton. Em contraste com a complexidade de L123, esta história é bastante simples, consistindo no divertido relato de umas férias no Algarve, onde não faltam algumas cenas oníricas, para além de alemães e “alemoas”, muita cerveja e bagaço e cenas de pancadaria para animar.
Os dois projectos seguintes para o Tintin, Slow Motion e Briz 3 representam o seu regresso à ficção científica e às histórias de escassa coerência narrativa, de tal modo que ninguém deve ter ficado muito triste com o facto de a falência da revista ter deixado incompleta a publicação de Kriz 3.
O fim do Tintin não significou o fim da carreira de Relvas, subitamente privado de um espaço fixo de publicação, onde podia experimentar e evoluir. Foi apenas o fechar de um primeiro ciclo. Outro mais longo e produtivo se seguiria. Relvas, para além de ter encontrado novo «poiso» e total liberdade criativa no jornal Se7e, onde entre 1982 e 1988, publicaria alguns dos seus melhores trabalhos, esteve ainda presente no Salão de Angoulême de 1984, a convite da organização. Viagem que, para além de o pôr em contacto com os grandes nomes da BD europeia, lhe valeu um convite de jean-Pierre Dionet para trabalhar na Metal Hurlant Aventures, tendo-lhe sido sugerido que fizesse histórias com sexo e violência passadas no bas-fond de Lisboa. Infelizmente, o fim prematuro da revista inviabilizou esta hipótese, confirmando o azar que sempre acompanhou Relvas nas diversas tentativas de internacionalização da sua carreira.
Concerto para Oito Infantes e um Bastardo e Niuiork, as suas duas primeiras histórias publicadas no Se7e são, quanto a mim, os seus melhores trabalhos a preto e branco. A história, uma intriga policial movimentada, planificada de forma dinâmica e inovadora, que em Niuiork evolui para uma mais prosaica história de desencontros amorosos, é servida por uma primorosa técnica de preto e branco, ao serviço de um estilo pessoal e inconfundível.
Também em termos de argumento estamos perante um dos melhores trabalhos de Relvas, com a linearidade do enredo a ajudar a uma melhor compreensão da história. Do mesmo modo, a naturalidade e musicalidade dos diálogos, que sempre foi uma das suas características, continua presente nestas histórias narradas na primeira pessoa, na melhor tradição do «policial negro» americano. Jacinto, ou Jaca, o «ribatejano, bastardo e futuro diplomata», protagonista destas duas histórias, aparece ainda num anúncio aos jeans Lee que Relvas fez em 1983, mas será substituído nas páginas do Se7e pela decidida Sabina, a heroína da história seguinte. Narrativa on the road das aventuras de uma rapariga que vai para o Algarve num carro roubado para conhecer um famoso artista rock, Sabina merece destaque pela caricatura certeira que Relvas faz das várias tribos urbanas, e pelas experiências com tramas a fazer lembrar Alberto Breccia, que não tiveram sequência em posteriores trabalhos.
A partir de Ai, este chavalo seria tão barilo, se... Relvas divide a autoria das histórias com Marlene, pseudónimo de uma sua colega do Se7e, que se torna ela própria personagem em Herbie de Best, história em que o tom de crónica da noite lisboeta do episódio anterior dá lugar a uma trama policial que (não) termina com um duelo ao vento em plena planície algarvia, na melhor tradição dos western spaghetti.
Com Sangue Violeta, história nada linear de uma jovem desajustada e anti-social transformada em estreIa rock, Fernando Relvas regressa à temática humorística em que se iniciou, adaptando o seu estilo ao novo tipo de histórias, tornando-o mais caricatural. Exemplo típico da forma como Relvas por vezes se dispersa, a intriga principal é cortada por flash backs perfeitamente surrealistas e por uma versão western da história do capuchinho vermelho. É também aqui que vai aparecer pela primeira vez Karlos Starkiller, jornalista de ponta, o único personagem constante ao longo de toda a sua obra. Starkiller ganhará o estatuto de protagonista em A Sombra de Xizhakt Rabin uma complexa história de espionagem internacional passada no Líbano, vagamente inspirada no caso Irangate, que evoluirá para uma comédia delirante, onde aparece um Mário Soares com cabeça de abóbora, alguns colegas de Relvas no jornal Se7e e até o verdadeiro super-herói do Terceiro Mundo, o Capitão Latino-América. A forma como a história reflecte a actualidade está bem patente na interrupção da intriga durante uma semana, para dar lugar a uma entrevista com o Presidente americano Ronald Reagan, de visita a Portugal em Maio de 1985. Uma tomada de posição que, segundo o que Relvas me disse, se deveu às pressões da sua namorada da altura, uma rapariga politicamente muito empenhada...
Com a gradual introdução da cor no jornal Se7e, a partir de Dezembro de 1985 o desenhador vai poder fazer experiências neste campo, bem reveladoras do seu talento inato. Nunca Beijes a Sombra do teu Destino, talvez um dos seus melhores trabalhos de sempre e a sua estreia a cores, é uma história de paixão e ciúmes, em que a complexa intriga policial se alia a um clima de tensão erótica muito bem conseguido. Tudo isto servido por uma excelente cor, que se tornou ainda melhor quando o autor descobriu os lápis de cera.
Desde as histórias vagamente de espionagem como A Noite das Estrelas (onde reaparece Mário Soares, agora na pele de um vendedor de tapetes, tipo Oliveira de Figueira), ou o intimista O Diabo à Beira da Piscina (inspirada numa muito curiosa canção alemã dos anos 20), até aos divertimentos mais ou menos inconsequentes como A Costa do Marisco (onde para além de um papagaio sexualmente hiperactivo, reaparece também Karlos Starkiller), Perversa Sobranceria do Hermetismo no Saber, O Atraente Estranho (protagonizado por um marreco e por uma osga chamada Heidegger) e A Missão, Relvas assumiu-se como o cronista atento do Portugal de 80 visto a partir do Bairro Alto. Possuidor de uma técnica apurada e de um excelente dominio da cor, Fernando Relvas revela-se um autor pouco acomodado, sempre em busca de novas experiências estéticas. Infelizmente, fá•lo de forma algo diletante e inconsequente, mudando de estilo a meio da história, esquecendo-se positivamente do que estava a contar, o que, obviamente, tem reflexos negativos em termos de compreensão dos argumentos que escreve, o que é por demais notório nestes seus últimos trabalhos para o Se7e.
Apesar do seu à vontade nas histórias urbanas, O Umbral Lumioso, o seu último trabalho para o Se7e é uma incursão pela BD de temática histórica, tal como acontece com O Rei dos Búzios, uma aventura passada na época dos Descobrimentos e que foi parcialmente publicada na revista Sábado durante o ano de 1989. Foi uma pena que esta história nunca tenha sido completada, pois em termos gráficos e sobretudo cromáticos (Relvas faz milagres com os lápis de cera) é do melhor Relvas de sempre, sendo notório que o artista, que estava a ser muito bem pago para fazer este trabalho, se empenhou, talvez como nunca o fez, de modo a realizar um trabalho perfeito. Anos mais tarde, a história, cujos originais foram comprados pela Bedeteca de Lisboa, foi editada em CD-Rom em 1999, com Relvas a arranjar um final circular, que lhe permitisse utilizar as imagens existentes de modo a dar um fim a uma história que ficou incompleta, embora eu confesso que preferia que Relvas tivesse aproveitado a ocasião para terminar a história, tal como estava inicialmente planeada…
Com o fim da publicação na Sábado. Relvas vê-se obrigado a aproveitar as pesquisas feitas para O Rei dos Búzios para criar uma história que lhe permitisse concorrer ao Concurso promovido pela Comissão Nacional dos Descobrimentos, cujo prémio, de 500 contos lhe permitiria, nas suas próprias palavras, «pagar as dívidas acumuladas em refeições e copos fiados». Assim nascia Em Desgraça, primeiro volume das aventuras de Vaz Taborda contrabandista condenado ao degredo, incorporado à força na armada de D. Francisco de Almeida, que conquistou Calecut, que assinala a estreia de Relvas em álbum em 1993. Apesar de optar por mostrar o outro lado da gesta dos Descobrimentos, escolhendo um anti-herói para protagonista e fio condutor da história. É perfeitamente visível que Relvas não se empenhou o suficiente neste trabalho.
Para além de um excessivo didactismo e da falta de ligação entre os diferentes episódios dispersos, o que torna a história confusa, em termos gráficos estamos perante um trabalho descuidado e apressado, com uma cor extremamente débil, aspecto em que a editora não está isenta de culpas. O insucesso comercial deste álbum, cuja carreira de vendas não podia ser mais adequada ao titulo, bem como o claro desinvestimento das Edições Asa na banda desenhada portuguesa a partir de 1993, levou ao congelamento de todos os projectos de Relvas, desde o segundo volume das aventuras de Vaz Taborda, a Karlos Starkiller, até à série Piri Lau.
Acabarão por ser os Livros Horizonte em 1995, de forma discreta e sem o enquadramento que Relvas justificava, a dar finalmente à estampa O Nosso Primo em Bruxelas, primeiro volume da série Piri Lau. Aventura urbana, com sexo e violência quanto baste, este álbum narra as peripécias por que passam dois amigos, Lau e Zé Peixoto, de alcunha o «Piri-Piri» (apesar de em todo o álbum nunca ninguém o tratar pela alcunha...) que tocam nos bares de Lisboa. A acção decorre entre Lisboa e Sintra, num ambiente que o autor bem conhece, mas tem ramificações que vão desde Angola a Bruxelas, onde está o primo de Zé «Piri-Piri» Peixoto que dá nome ao álbum, mas que nunca chega a aparecer... Esta história complexa de vinganças tendo por móbil o tráfico de diamantes foi projectada para dois álbuns. Dai que após a leitura do primeiro volume, os leitores saibam tanto quanto AI, o investigador que segue Zé Peixoto; isto é, quase nada! Mas apesar do argumento algo confuso, Relvas faz um bom trabalho em termos de planificação, com uma narração dinâmica e um traço nervoso e personalizado, apesar de, por vezes, demasiado sintético.
Estamos, mesmo assim, perante um trabalho mais à altura das enormes potencialidades de Fernando Relvas, um autor que, devido à sua maneira de ser e (falta de) método de trabalho, teria tudo a ganhar se trabalhasse com um editor (no sentido em que o termo é entendido nos EUA) que disciplinasse o seu talento inato... Infelizmente, os Livros Horizonte não chegaram a publicar o segundo álbum da série, e assim, Lau e Zé Peixoto foram juntar-se a Vaz Taborda, Gil Roiz (o herói de O Rei dos Búzios) e a Kriz 3 no vasto limbo onde estão as inúmeras personagens cuja história Relvas nunca acabou de contar.
Depois de um período em que fez cartoons para a revista TV Mais, Relvas volta à BD graças a O Inimigo, jornal dirigido por Júlio Pinto, o argumentista de «Filosofa de Ponta», série de grande sucesso, inicialmente pensada para o traço de Relvas que a recusou, gesto pelo qual Nuno Saraiva lhe deverá estar eternamente grato...
Nas páginas de O Inimigo regressa Karlos Starkiller em Testos Torres contra Cara Dread, uma história que seria objecto de diversas versões, primeiro no nº 2 da revista Quadrado e depois num fanzine montado em computador e auto-editado por Relvas. O Regresso do Hipopótamo, a sua história seguinte (que teve um fim brusco devido ao fecho do jornal O Inimigo), caracteriza-se por uma total ausência de lógica narrativa, tal como sucede com o ainda assim mais divertido Ananás que ri!, também auto-editado por Relvas. Mas para além destes divertimentos inconsequentes, em que a única coisa dignas de registo é a forma hábil como Relvas utiliza as mesmas imagens várias vezes trabalhando-as com o scanner, o autor preparava um projecto de maior fôlego, de que estiveram expostas algumas pranchas no Festival da Amadora de 1995.
Çufo, assim se chama o álbum lançado durante o Oitavo Salão do Porto, em 1995, aproveitando uma exposição comemorativa dos vinte anos de carreira de Relvas, foi um trabalho encomendado pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, que lhe permitiu voltar outra vez à BD de temática histórica, mas agora com muito melhores resultados do que os conseguidos com Em Desgraça. Na origem de Çufo está a vontade do Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses de contribuir para um melhor conhecimento da expansão portuguesa através do papel desempenhado pelos cidadãos anónimos, protagonistas muitas vezes forçados e involuntários da gesta dos Descobrimentos. Esta louvável opçâo de privilegiar a “arraia miúda” nesta série de biografias em BD, encontrou no traço de Relvas o suporte ideal. Relvas sempre preferiu para protagonistas das suas anti-epopeias, homens comuns que apenas se preocupam em sobreviver, como já era o caso de Vaz Taborda, o herói de Em Desgraça.
Quanto a Çufo, nascido em Braga com o nome de João Machado, também reúne todas as características dos (anti)heróis de Relvas. Embarcado para a costa oriental de África, para escapar a uma sentença de morte, João Machado nunca chegou a procurar o reino do Preste João, decidindo ir antes para a índia, onde fez carreira como mercenário ao serviço do Sultão de Bijapur. Tendo adoptado o nome árabe de Çufo, João Machado vê-se obrigado a enfrentar os seus compatriotas, quando como capitão do exército do Idalcão vai combater contra as tropas de Afonso de Albuquerque, que procuravam conquistar Goa. Dividido entre duas lealdades, vai funcionar como intermediário nas negociações com Afonso de Albuquerque, procurando ganhar aliados nos dois lados em disputa que lhe assegurassem a sobrevivência, qualquer que fosse o vencedor. Tomada Goa em 1510, Çufo espera ainda dois anos para voltar para junto dos seus compatriotas. Integrado no exército local e casado com uma goesa, João Machado sentia-se um estranho às duas culturas, olhado com desconfiança pelos portugueses que não esquecem o seu passado e consciente que a sua cor de pele nunca lhe permitiria ser um verdadeiro árabe. Vai morrer perto de Goa em 1517 num combate entre as tropas portuguesas e o exército do Idalcão, que tinha servido durante dez anos.
É a vida desta figura fascinante na sua humana ambiguidade, exemplo extremo da capacidade de adaptação dos portugueses, que Fernando Relvas vai contar em 56 páginas de banda desenhada. E fá-lo à boa maneira de Hugo Pratt, introduzindo bruscamente o leitor em plena acção, num acontecimento histórico concreto e bem documentado, de que o herói é espectador, mas que funciona apenas como um cenário, que é abandonado com a mesma brusquidão quando o herói sai de cena, sem que nos sejam fornecidos quaisquer dados sobre o que se passou a seguir.
O problema é que Relvas não tem o talento literário e narrativo de Pratt, e o resultado acaba por ser uma história feita de episódios desligados, o que retira fluidez à narração. De qualquer modo, em termos gráficos estamos perante um dos melhores trabalhos de Relvas, que desta vez se aplicou a fundo, conseguindo uma obra ao nível dos seus momentos mais altos na fase áurea do jornal Se7e. A forma dinâmica como trata as cenas de acção e o arrojo dos enquadramentos utilizados, provam que, neste aspecto, Relvas não tem quem se Ihe aproxime em Portugal, enquanto o excelente trabalho de cor revela um domínio perfeito das ecolines.
Está assim de parabéns o grupo de trabalho do Ministério da Educação que teve a visão e o arrojo de encomendar esta obra a Fernando Relvas, concedendo-lhe total liberdade criativa para a sua realização, em vez de, como era habitual neste tipo de obras, recorrer aos mesmos autores de sempre, que continuam ainda hoje a imitar (mal) o que E. T. Coelho fazia na década de 50.
Depois de durante alguns meses se ter dedicado à ilustração de livros escolares, Relvas voltou à BD através de um novo projecto para o grupo de trabalho do Ministério da Educação, que têm como protagonista a mítica Rainha Ginga. Pelo entusiasmo com que Relvas falava deste trabalho e tendo em conta o aturado trabalho de pesquisa que levou a cabo, este prometia ser um dos seus melhores trabalhos de sempre, com o aliciante em termos gráficos de assinalar o regresso de Relvas aos lápis de cera, e com excelentes resultados a avaliar pelos estudos preparatórios que tive ocasião de ver. Mas a verdade é que a Rainha Ginga nunca chegou a ser publicado e ainda não foi desta que Relvas teve a oportunidade de se afirmar decisivamente como um dos melhores desenhadores portugueses de sempre, que efectivamente é.
Depois de ter sido objecto de uma exposição individual em 1997, na Bedeteca de Lisboa, Relvas fez naturalmente parte dos 17 autores portugueses seleccionados para a exposição Perdidos no Oceano, presente no Festival de Angoulême de 1998, em que Portugal foi o país convidado. E Malabambu, a fantástica prancha original que Relvas fez para a exposição é um bom exemplo de todo o seu talento gráfico e narrativo. Uma grande página, a preto e branco, desenhada num traço fino com uns vestígios de aguada, dividida em 28 pequenos quadrados que, graças a uma montagem dinâmica, nos permite mergulhar no interior de um navio negreiro, que no final da página vemos desaparecer no alto mar.
A década seguinte, se não trouxe muitos trabalhos originais de Relvas, viu alguns dos seus trabalhos mais antigos serem recuperados para uma nova geração de leitores, primeiro com a edição em livro de Karlos Starkiller, pela BaleiAzul, depois com L123, pela ASIBDP, 18 anos depois da sua publicação inicial na revista Tintin e, dois anos depois, com a publicação de uma versão restaurada de Concerto para Oito Infantes e um Bastardo, a primeira história que fez para o jornal Se7e, na revista Comix, que o fim da revista em 2003 deixou incompleto. Mas a Comix não foi a única revista de BD nacional cujo fim deixou uma história de Relvas por publicar. O mesmo sucedeu dois anos antes com Iva Jau e Dr Manga, uma história (vagamente) de espionagem feita para a revista Selecções BD que só seria publicada através do site Lulu.com vários anos depois, numa nova versão, com novo título, Palmyra e grandes alterações a nível do argumento e diálogos.
Entretanto, Relvas decidiu emigrar em finais de 2002, primeiro para Espanha e depois para a Croácia e as poucas notícias que chegavam do seu trabalho, chegavam-nos via Internet, através de uma série de blogs que o autor ia criando e sucessivamente fechando e onde publicou um punhado de histórias, em que o desenho, assistido por computador, se misturava com a fotografia e com o simples texto. Não sendo a primeira experiência de Relvas na publicação directa em formato digital (em 2001, antes de emigrar, publicou uma série de cartoons no portal Tokaki.com) estes trabalhos dariam depois origem a um punhado de livros publicados em inglês no sistema de “print on demand” através do site Lulu.com, mas o preço elevado e os ainda mais elevados portes, levaram que mesmo os mais empedernidos fãs de Relvas pensassem duas vezes antes de adquirirem estes trabalhos…
E, como quem não aparece, esquece, o nome de Fernando Relvas foi gradualmente caindo no esquecimento, única justificação possível para a ausência da sua obra em projectos que se pretendiam representativos do que de mais importante se fez em Portugal em termos de BD, como a série Ver BD, ou a exposição Tinta nos Nervos, que assinalou a entrada da Banda Desenhada no Museu-Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, ambos coordenados por Pedro Vieira de Moura.
O regresso de Relvas a Portugal, em Setembro de 2010, para trabalhar num projecto de animação, veio recordar o óbvio a muita gente do meio da Banda Desenhada nacional. Relvas está vivo e ainda mexe! Daí que as exposições que os dois maiores Festivais de BD nacionais, o Festival da Amadora e o Salão de Beja, lhe vão dedicar e o grande dossier que o BD Jornal lhe dedica neste número, traduzam o justo reconhecimento da importância do trabalho de Fernando Relvas. Ontem como hoje, um dos maiores nomes da BD portuguesa, que finalmente regressa a casa!
Texto publicado no BD Jornal nº 27, de Maio de 2011. Versão revista e largamente actualizada do texto publicado no catálogo da exposição “Relvas, à queima-roupa”, editado pela Bedeteca de Lisboa em 1997.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

El Eternauta, ou as muitas vidas de Juan Salvo


Se perguntarem a um Argentino qual a melhor Banda Desenhada de sempre publicada no seu país, é muito natural que El Eternauta seja referido. Alvo de inúmeras reedições (nem todas legais) e de várias continuações, o clássico de ficção científica escrito por H. G. Oesterheld e desenhado por Solano Lopez é a única obra de BD a integrar a colecção dos Clássicos da Literatura Argentina publicada pelo jornal EL CLARIN, o que diz bem da sua popularidade, importância e reconhecimento institucional.
Publicada ao longo de dois anos na revista HORA CERO SEMANAL entre 1957 e 1959, El Eternauta é o relato da invasão da cidade de Buenos Aires por forças extraterrestres, relato que é feito por um dos sobreviventes, Juan Salvo, ao próprio Oesterheld, que, num exercício de meta ficção, aparece como personagem da sua própria história. Tudo começa com a queda de uma estranha neve fluorescente que mata ao contacto com a pele, neve essa que abre o caminho para uma invasão extraterrestre comandada pelos Ellos, seres que nunca veremos, e executada por tropas de assalto compostas por seres de outros planetas, como os Cascarudos, animais de grande porte parecidos com escaravelhos gigantes, e os Manos, semelhantes aos humanos, com a excepção das mãos com imensos dedos, povos conquistados pelos Ellos e usados como carne para canhão na invasão ao planeta Terra.
Depois de uma série de peripécias, em torno do combate desigual dos sobreviventes contra os invasores, Juan Salvo entra acidentalmente numa máquina dos invasores que o transporta para outras dimensões, para longe da sua família, transformando-o “num peregrino através dos séculos, um viajante na eternidade, um ETERNAUTA”.
Uma dessas muitas viagens pelo espaço e pelo tempo trá-lo finalmente de volta a Buenos Aires, em 1959, onde encontra Oesterheld a quem conta o que se irá passar anos depois (a acção da história decorre em 1963) para que este, através da Banda Desenhada, avise os leitores para o que está para acontecer.
Se as histórias de invasões extraterrestres não eram propriamente novidade, o que era novidade era que essa invasão tivesse como cenário a cidade de Buenos Aires, onde viviam a maioria dos leitores de HORA CERO, que reconheciam com facilidade os cenários desenhados com rigor fotográfico por Solano Lopez e se identificavam com Juan Salvo e os seus amigos, grupo heterogéneo na sua composição social que representava os vários extractos da sociedade argentina e que é o verdadeiro herói da história, como salienta Oesterheld: “O verdadeiro herói de El Eternauta é um herói colectivo, um grupo de homens. Isso reflecte, embora sem intenção prévia, as minhas convicções: o único herói válido é o herói “em grupo”, nunca o herói individual, o herói solitário”.
Para além da dimensão espectacular da aventura, e de algumas cenas fortíssimas, como a sequência inicial com a neve mortal, esta história de um grupo de indivíduos normais colocados numa situação excepcional, tem momentos de pura poesia, como é o caso da magnífica cena em que um dos Manos (seres pacíficos, obrigados a combater pelos Ellos, que lhes infiltraram uma “glândula de terror”, que liberta uma substância que os mata caso sintam medo) se despede da vida cantando uma estranha canção.
Anos mais tarde, em 1969, Oesterheld vai recuperar, agora com arte de Alberto Breccia, El Eternauta. Publicada agora na GENTE, uma revista semanal de informação, esta ficção apocalíptica protagonizada por um indivíduo que, tal como Sherlock Time e Mort Cinder, outros personagens criados por Oesterheld, não está sujeito às leis do tempo, podendo, ao atravessar um portal dimensiona1, aparecer num outro local ou época, não teve a aceitação que merecia e os autores esperavam.
Talvez devido às mudanças na própria história (nesta nova versão, em vez de uma invasão global, as grandes potências fazem um acordo com os invasores extraterrestres, entregando-lhes a América do Sul) algo perturbador para as consciências ociosas dos leitores da revista GENTE, ou ao grafismo de Breccia, a milhas do estilo mais convencional de Solano Lopez e um pouco abstracto para o gosto do público, que tem dificuldade em reconhecer a cidade de Buenos Aires nas colagens de Breccia, choveram as cartas de protesto e o editor decidiu acabar com a série, pedindo desculpas aos leitores. Isto permite perceber o final circular da história (a melhor maneira que Oesterheld encontrou de concluir rapidamente a narrativa) e o desequilíbrio dos capítulos finais, em que Oesterheld condensou em quatro ou cinco páginas, repletas de texto, uma acção inicialmente prevista para ocupar quinze ou vinte páginas.
De qualquer modo, e apesar deste final inglório, estamos perante um trabalho graficamente inovador, em que Breccia, aqui claramente seduzido pela arte contemporânea, visível nas inúmeras referências à "Op Art" e à "Pop Art", começava a utilizar a técnica da colagem, abrindo caminho para o que iria ser uma característica marcante da sua produção na década seguinte.
Conforme refere Oesterheld: “A versão de El Eternauta publicada na GENTE foi um fracasso. E fracassou porque não era para essa revista. Eu era outro, não podia escrever o mesmo. E Breccia, por seu lado, também era outro. Este Eternauta tinha as suas virtudes e também os seus defeitos. Por um lado, a mensagem literária, por outro, a mensagem gráfica. Quanto à mensagem literária, apercebi-me, muito mais tarde, que me tinham suprimido parágrafos inteiros. (…) Em relação à parte gráfica, o verdadeiro final foi quando chamaram o Breccia e lhe explicaram que havia um desfasamento com o que o público queria e lhe pediram que suavizasse a coisa. Avisaram-no mais duas ou três vezes, mas ele nunca fez caso. Não aceitou fazer modificações e então decidiram acabar com El Eternauta”.

Mas o Eternauta regressaria numa segunda aventura desenhada por Solano Lopéz, cuja publicação se iniciou em 1976, na revista SKORPIO. Escrita por Oesterheld então já na clandestinidade, devido à sua ligação activa ao movimento Montonero, a história terminou a sua publicação numa altura em que Oesterheld já tinha “desaparecido” às mãos da ditadura militar argentina e provavelmente já nem estaria vivo. Nesta história, passada num futuro próximo, Oesterheld não se limita a escutar as aventuras de Juan Salvo, o Eternauta, mas participa activamente nelas como membro da resistência. Ou seja, o personagem, tal como o seu criador, assume uma opção clara pela acção directa. Apesar do traço de Solano Lopéz mostrar uma grande evolução, o carácter marcadamente panfletário da história, faz com que esta continuação seja bastante menos interessante. Juan Salvo, em vez de um homem normal, preocupado em recuperar a sua família, surge aqui como um líder revolucionário implacável, disposto a tudo sacrificar à sua causa.
Uma mudança radical no comportamento do herói que Solano Lopéz não aceitou bem, pondo mesmo em causa que tivesse sido o próprio Oesterheld a escrever toda a história, mas que é coerente com a forma como a obra de Oesterheld reflecte as suas opções políticas e ideológicas. Conforme refere Carlos Trillo: “não é preciso ser um grande caçador de metáforas para associar os Ellos com os militares que tomaram o poder”. Impressão que o facto das três versões já referidas do Eternauta, terem sido publicadas na sequência de golpes de estado militares, só vem reforçar.
Houve ainda outras versões de El Eternauta publicadas sem Oesterheld e nem sempre desenhadas por Solano Lopéz, mas nenhuma delas ficará na história, para além de revelarem à evidência a força do personagem criado por Oesterheld. Personagem que foi alvo de diversas adaptações teatrais e até de uma Ópera Rock, para além de uma adaptação cinematográfica que está em produção e que, ao contrário do que chegou a ser anunciado, não vai ser realizado por Lucrécia Martel.

A comemoração dos 50 anos da publicação de El Eternauta, que coincidiram com os 30 anos do “desaparecimento” de Oesterheld, trouxeram de novo El Eternauta para a ribalta mediática, o que se traduziu em iniciativas como a exposição na Biblioteca Nacional Argentina e, mais importante, numa reedição condigna de El Eternauta, feita pela Editora Norma, que permite a uma nova geração descobrir a obra-prima de Oesterheld e Solano Lopéz.
Texto originalmente publicado no nº 25 do BD Jornal, em Maio de 2010.