quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sandman 8: A Estalagem do Fim do Mundo

A CASA DAS HISTÓRIAS

Sandman – Vol. 8
A Estalagem do Fim do Mundo 
Argumento – Neil Gaiman
Desenho –Michael Allred, Gary Amaro, Mark Buckingham, Steve Leialoha, Vince Locke, Bryan Talbot e Michael Zulli
Quinta, 24 de Novembro
Por + 11,90€
Prosseguindo a alternância, que se tornou uma imagem de marca da série Sandman, entre volumes com histórias curtas e outros com narrativas mais longas centradas na jornada de Morfeu, A Estalagem do Fim do Mundo, volume a ser distribuído na próxima quinta-feira em todo o país, recolhe um punhado de histórias curtas, que confirmam Gaiman como um mestre da short story, também na BD.
Mas, ao contrário do que acontece em Terra do Sonho e Fábulas e Reflexões, desta vez há um dispositivo narrativo a unir todas essas histórias, com excepção de Ramadão, publicada originalmente na revista Sandman nº 50, que na edição americana foi incluída no volume 6 e que na versão portuguesa surge neste volume, por uma questão de equilíbrio de páginas entre cada volume e por, em termos da cronologia da série, ser a estória que precede o final de Vidas Breves (que termina no Sandman nº 49) e antecede A Estalagem… (que começa no nº 51 da edição americana).
Mas voltando ao tal dispositivo narrativo que agrupa todas as estórias, em A Estalagem… temos um grupo de viajantes refugiados numa estalagem, que contam histórias um aos outros para passarem o tempo. Se o conceito soar familiar ao leitor mais atento é porque este esquema narrativo remonta ao século XV e aos Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer, uma influência que o próprio Neil Gaiman é o primeiro a admitir, referindo: “agradava-me a ideia de usar um dos mais velhos dispositivos narrativos da história da literatura inglesa. Se vais roubar, é melhor roubares os melhores e os Canterbury Tales estão definitivamente nessa categoria.”
Assim, neste volume, temos histórias sobre cidades que sonham, fadas, monstros marinhos e necrópoles, e estórias dentro das histórias, que permitem a Gaiman e ao alargado leque de colaboradores que ilustram estas histórias, homenagear diversos géneros e autores, em singelos contos magnificamente construídos, em que as referências literárias mais ou menos explicitas, não perturbam em nada o fluir da narrativa.
E outra prova do génio de Gaiman, está na escolha do desenhador certo para cada história. Basta ver como o traço etéreo de Alec Stevens se revela perfeito para Um Conto de Duas Cidades que, apesar do título que remete para Dickens, é o mais borgesiano texto de Gaiman, ou como Michael Zulli, desenhador que estará em destaque no último volume da série, ilustra O Leviatã de Hob, uma história que recupera o fascínio da vida no mar dos romances de Conrad e Melville.
Publicado originalmente no jornal Público de 18/11/2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Dylan Dog em destaque na revista Bang!


Já chegou às lojas FNAC o nº 21 da revista Bang!, em que dou o devido destaque ao trigésimo aniversário da série de culto da editora Bonelli, criada por Tiziano Sclavi, que se estreou nos quiosques italianos em  Outubro de1986.

No próximo sábado colocarei aqui a versão alargada e actualizada (pois o Festival de BD de Lucca que ocorreu entre 28 de Outubro e 1 de Novembro, já depois de eu ter enviado o texto trouxe muitas novidades) do artigo que escrevi sobre Dylan Dog para a Bang! e que, pela sua extensão, será publicado em duas partes.
A primeira parte, dedicada às origens da série e às ligações ao cinema, que ficará online no sábado, dia 26 de Novembro, e a segunda, mais centrada na nova fase do personagem, coordenada por Roberto Recchioni, na terça-feira, dia 29.
Até lá, em jeito de teaser, deixo-vos com a capa da Bang! e com a primeira página do meu artigo sobre uma das melhores séries da BD europeia que, exceptuando a distribuição das edições brasileiras da Mythos, nunca teve em Portugal o destaque que bem merece.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sandman 7: Vidas Breves


PELA ESTRADA FORA

Sandman – Vol. 7 
Vidas Breves
Argumento - Neil Gaiman
Desenho – Jill Thompson, Vince Locke
Quinta, 17 de Novembro
Por + 11,90€

Depois dos maravilhosos interlúdios que foram as histórias curtas de Fábulas e Reflexões, a jornada de Morfeu volta a ocupar o centro do palco em Vidas Breves, capítulo que dá início ao último acto da série e que os leitores poderão descobrir no capítulo 7 da premiada série de Neil Gaiman, disponível a partir da próxima quinta-feira.
Reflexão sobre a mudança e a brevidade da vida, Vidas Breves dá destaque a dois dos Eternos, Sonho e Delírio, na sua busca por outro irmão, Destruição, que abandonou as suas funções e desapareceu no mundo desperto. Assim, na aparência estamos perante a mais linear das histórias, centrada numa viagem on the road de Sonho e Delírio pelos Estados Unidos da América, em busca das pessoas que possam conhecer o paradeiro de Destruição.
Um capítulo que se serve sobretudo para fazer avançar a história central, fazendo convergir diversos fios da intriga para a intricada tapeçaria tecida pelo autor, pois como o próprio Gaiman refere: “Vidas Breves, fornece informações sobre como e porquê Destruição abandonou o seu cargo e a família; conta como Orfeu consegue finalmente morrer; concretiza o objectivo de Desejo de conseguir com que o Sonho derrame o sangue da família, o que já vem da história do Imperador Norton e da Casa de Bonecas; e revela também muito sobre a Delírio… que é um dos raros personagens que chega ao fim desta história mais ou menos incólume.”
Mas, como é habitual em Gaiman, nem tudo é tão simples como parece, e muitos dos (aparentemente) meros mortais que encontramos ao longo da história e que vão sendo mortos para evitar que Morfeu descubra o paradeiro de Destruição, são na verdade Deuses que perderam os seus poderes quando deixaram de ter quem os adorasse e que, longe do esplendor de outrora (sobre)vivem escondidos no meio da humanidade, como Ishtar, a deusa do sexo da Babilónia, que agora dança como stripper num bar decadente. Um tema que Gaiman irá explorar posteriormente de forma mais profunda e complexa no seu romance American Gods, que está a ser adaptado à televisão pelo canal americano de cabo Starz, numa série de grande orçamento com estreia marcada (possivelmente também em Portugal) em 2017.
Em termos gráficos, este é um dos volumes mais consistentes da série, sendo inteiramente desenhado por Jill Thompson, com o apoio de Vince Locke na passagem a tinta. Thompson, que já tinha desenhado O Parlamento das Gralhas, a história final do volume anterior e que empresta o corpo e o rosto a Etain, a rapariga que consegue fugir do seu apartamento antes dele explodir, faz um excelente trabalho no tratamento das personagens, dando grande expressividade ao rosto e aos gestos de Delírio e tem sequências de grande beleza, como o céu estrelado sob o qual os Eternos conversam, ou a sequência em que as gotas do sangue que escorre das mãos de Morfeu, se transformam em flores vermelhas ao cair no chão.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/11/2016

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Sandman 6: Fábulas e Reflexões


OS IMPERADORES, O VIAJANTE E OS FILHOS DO SONHO

Sandman – Vol. 6 
Fábulas e Reflexões
Argumento – Neil Gaiman
Desenho – Bryan Talbot, Stan Woch, Shawn McManus, Collen Doran, Jill Thompson
Quinta, 10 de Novembro
Por + 11,90€
Confirmando a alternância entre grandes sagas que fazem avançar a narrativa global e histórias curtas que permitem explorar aspectos distintos da relação entre o Domínio do Sonho e o mundo Desperto, Fábulas e Reflexões, o sexto volume da série Sandman que chega às bancas na próxima quinta-feira, centra-se no modo como os percursos individuais de diferentes personagens históricas são afectados pelo encontro com o Mestre dos Sonhos.
Agosto, Termidor e Três Setembros e um Janeiro, os três contos que abrem o livro, para além de terem em comum serem histórias que têm títulos com nomes de meses (Termidor era o equivalente ao mês de Julho no novo calendário que a Revolução Francesa tentou implementar) centram-se na relação de três diferentes Imperadores com Morfeu. Seja o maior Imperador romano, Augusto, em Agosto, mês que lhe deve o nome, Robespierre, um dos principais responsáveis pela Revolução Francesa e pelo banho de sangue que se lhe seguiu em Termidor e o Imperador Norton, em Três Setembros e um Janeiro, título inspirado no do filme Quatro Casamentos e um Funeral, cujo argumentista, Richard Curtis, é amigo de Gaiman.
Por mais estranho do que possa parecer, Joshua Abraham Norton, o primeiro (e único) Imperador dos Estados Unidos é um personagem com existência real, cuja incrível história inspirou também Goscinny numa aventura de Lucky Luke, O Imperador Smith, e que aqui é o alvo inconsciente de uma disputa entre três dos Eternos, em que a força do sonho se revela superior ao desespero e à tentação.
Também o explorador Marco Polo encontra Morfeu no deserto, numa história que, alem de nos explicar o porquê de Morfeu também ser conhecido por Sandman, mostra-nos como o tempo se escoa de modo diferente nas faldas do domínio do Sonho, onde existem lugares suaves, onde as fronteiras entre o sonho e a realidade são porosas e a geografia dos sonhos se intromete na realidade.
Na história mais importante do livro, A Canção de Orfeu, Gaiman recupera uma lenda da mitologia clássica, o mito de Orfeu, para incorporar Orfeu e Eurídice no universo da série, num conto  que vai ter consequências decisivas para o destino de Morfeu e em que descobrimos que Orfeu é filho de Morfeu e da musa Calíope. Finalmente, em O Parlamento das Gralhas, Daniel, o filho de Lyta Hall que Morfeu disse que viria buscar, faz a sua primeira vista ao Domínio do Sonho.
Em termos gráficos, os destaques deste volume vão para Bryan Talbot, o autor de História de um Rato Mau, que assina os desenhos de Agosto e de A Canção de Orfeu, com grande rigor e um domínio perfeito da narrativa, e para Jill Thompson que, na sua estreia na série cria uma versão infantil dos Eternos transbordante de “fufura”, cujo estrondoso sucesso junto dos leitores levou a que protagonizassem duas histórias autónomas, Little Endless Storybook e Delirium’s Party, escritas e desenhadas por Jill Thompson.
Publicado originalmente no jornal Público de 04/11/2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Sandman 5: Um Jogo de Ti

A PRINCESA E O CUCO

Sandman  – Vol. 5 
Um Jogo de Ti
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Shawn McManus, Collen Doran, Bryan Talbot, George Pratt e Stan Woch
Quinta, 03 de Novembro
Por + 11,90€
Depois de ter estado em grande destaque no volume anterior, Morfeu, o Mestre dos Sonhos desta vez quase que sai de cena, cedendo o protagonismo a Barbie, uma das personagens de Casa de Bonecas, o segundo volume da série, que aqui se revela uma personalidade muito mais complexa do que deixava transparecer, capaz de criar o seu próprio reino encantado num recanto distante do Domínio do Sonho.
O problema é que Barbie deixou de sonhar na sequência do vórtice provocado por Rosie Walker no volume 2 e o reino encantado onde reinava como Princesa Bárbara está abandonado, tendo ficado à mercê do misterioso Cuco, que o pretende destruir, bem como aos companheiros de brincadeiras da Princesa Bárbara.
Conforme Gaiman refere na introdução para a edição brasileira deste volume, Um Jogo de Ti: “é uma história que toca diferentes géneros de ficção, da aventura mais comercial, aos contos de fadas e às histórias de terror. Tenta entrelaçar muitas coisas sobre as quais penso e tenho reflectido – as relações entre as pessoas e as histórias, as diferenças entre homem e mulher, adultos e crianças, contos e realidade. Talvez seja realismo mágico, mas nem a magia nem a realidade são tão fáceis de separar, ou até, de identificar, como as pessoas gostariam.”  
Para esta complexa fábula profundamente humana, em que ninguém é o que parece ser, Gaiman encontrou o artista ideal em Shawn McManus, um desenhador que descobriu através de Pog, uma belíssima homenagem ao Pogo de Walt Kelly escrita por Alan Moore na série Swamp Thing, em que McManus demonstra uma capacidade única de conciliar um registo caricatural de grande elegância e ternura, na linha da Disney, com momentos de terror e de grande intensidade dramática. E se McManus tinha estado perfeito em Pog, aqui consegue ir ainda mais além, contribuindo de forma decisiva para um dos momentos mais altos da série Sandman que, não sendo das histórias mais populares junto dos leitores, é uma das raras que está realmente próxima das expectativas iniciais do seu autor.
 Publicado originalmente no jornal Público de 28/10/2016