sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Sandman 5: Um Jogo de Ti

A PRINCESA E O CUCO

Sandman  – Vol. 5 
Um Jogo de Ti
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Shawn McManus, Collen Doran, Bryan Talbot, George Pratt e Stan Woch
Quinta, 03 de Novembro
Por + 11,90€
Depois de ter estado em grande destaque no volume anterior, Morfeu, o Mestre dos Sonhos desta vez quase que sai de cena, cedendo o protagonismo a Barbie, uma das personagens de Casa de Bonecas, o segundo volume da série, que aqui se revela uma personalidade muito mais complexa do que deixava transparecer, capaz de criar o seu próprio reino encantado num recanto distante do Domínio do Sonho.
O problema é que Barbie deixou de sonhar na sequência do vórtice provocado por Rosie Walker no volume 2 e o reino encantado onde reinava como Princesa Bárbara está abandonado, tendo ficado à mercê do misterioso Cuco, que o pretende destruir, bem como aos companheiros de brincadeiras da Princesa Bárbara.
Conforme Gaiman refere na introdução para a edição brasileira deste volume, Um Jogo de Ti: “é uma história que toca diferentes géneros de ficção, da aventura mais comercial, aos contos de fadas e às histórias de terror. Tenta entrelaçar muitas coisas sobre as quais penso e tenho reflectido – as relações entre as pessoas e as histórias, as diferenças entre homem e mulher, adultos e crianças, contos e realidade. Talvez seja realismo mágico, mas nem a magia nem a realidade são tão fáceis de separar, ou até, de identificar, como as pessoas gostariam.”  
Para esta complexa fábula profundamente humana, em que ninguém é o que parece ser, Gaiman encontrou o artista ideal em Shawn McManus, um desenhador que descobriu através de Pog, uma belíssima homenagem ao Pogo de Walt Kelly escrita por Alan Moore na série Swamp Thing, em que McManus demonstra uma capacidade única de conciliar um registo caricatural de grande elegância e ternura, na linha da Disney, com momentos de terror e de grande intensidade dramática. E se McManus tinha estado perfeito em Pog, aqui consegue ir ainda mais além, contribuindo de forma decisiva para um dos momentos mais altos da série Sandman que, não sendo das histórias mais populares junto dos leitores, é uma das raras que está realmente próxima das expectativas iniciais do seu autor.
 Publicado originalmente no jornal Público de 28/10/2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

30 Anos de Dylan Dog comemorados em força em Itália


No passado dia 26 de Setembro, em Milão foram apresentados os planos da editora Bonelli para a comemoração dos 30 anos da série Dylan Dog, um dos mais populares fumetti da editora de Tex. E a data nao podia ser melhor escolhida, pois foi a 26 de Setembro de 1986 que o primeiro número de Dylan Dog chegou às bancas e quiosques de Itália e foi também nesse dia, há cinco anos, que faleceu Sérgio Bonelli.
E a editora Bonelli não deixou de comemorar devidamente a ocasião, através de uma série de iniciativas, como Dylan Dog Presenta, um ciclo de cinema em articulação com a Universal Itália, que culmina com a exibição de 30 Anni di Incubi, um documentário sobre a série, na noite de Halloween, uma nova adaptação radiofónica das aventuras de Dylan Dog, e uma Dylan Dog Experience, (que mais do uma exposição promete ser uma experiência sensorial irrepetível, aproveitando um palácio abandonado no centro de Lucca que vai ser transformado em Hotel) apresentada no Festival de BD de Lucca, que começa hoje na bela cidade italiana.
Mas o ponto mais alto destas comemorações é o regresso de Tiziano Sclavi, o criador de Dylan Dog, à série que lhe deu fama com Dopo un Longo Silenzio, uma aventura de Dylan Dog lançada durante o Festival de BD de Lucca e que chega também hoje aos quiosques de Itália. Um título que não podia ser mais apropriado, pois vem quebrar o silêncio de Sclavi, que já não escrevia nenhuma aventura de Dylan Dog há quase 10 anos e que agora regressa por ocasião do 30º aniversário do investigador do macabro.
Pela minha parte, também não deixei pasar esta efeméride em branco e escrevi um longo artigo sobre Dylan Dog para a revista Bang!, que aqui publicarei, depois da revista chegar às lojas FNAC, o que deverá acontecer lá mais para o final do ano.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sandman 4: estação das Brumas


MORFEU NO INFERNO

Sandman – Vol. 4
Estação das Brumas
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Mike Dringenberg, Kelley Jones, Malcon Jones III, Matt Wagner, P. Craig Russell e George Pratt
Quinta, 27 de Outubro
Por + 11,90€
Depois do interregno proporcionado pelas histórias curtas de Terra do Sonho, o quarto volume da série Sandman que chega às bancas na próxima quinta-feira, volta a centrar-se na saga de Morfeu, o Mestre dos Sonhos, que tem de regressar ao Inferno onde tinha estado no 1º volume para recuperar o seu elmo.
Se há algo que fica bem evidente nesta série, é que as acções têm consequências, que mais tarde ou mais cedo, acabam por se revelar. Vimos na primeira história do 2º volume que Morfeu tinha condenado a uma eternidade no Inferno a princesa Nada, uma mortal por quem se apaixonou, mas que se recusou a ficar a seu lado, mas só durante uma reunião familiar convocada pelo Destino, em que somos apresentados a (quase) todos os Eternos, é que o Senhor do Sonho reconhece que errou e se propõe voltar ao Inferno para corrigir esse erro, mesmo que para isso tenha de enfrentar o poder de Lúcifer, o anjo caído que reina sobre as planícies infernais.
Depois de um episódio centrado nos preparativos para o combate que se adivinhava épico entre Lúcifer e Morfeu, Neil Gaiman surpreende o leitor, pois Morfeu encontra um Inferno deserto e um Lúcifer que, farto das intrigas do Inferno e da forma como os mortais o usam como justificação para os erros e os pecados que cometem, decide abandonar a sua função como guardião do Submundo e a gozar a eternidade no meio dos mortais, deixando o Inferno nas mãos de Morfeu. Uma decisão absolutamente inesperada, que vem alterar o equilíbrio cósmico e a relação entre Céu e Inferno, e que deixa o Mestre dos Sonhos como fiel depositário da chave do Inferno. Um Inferno fechado e deserto, mas que continua a ser uma propriedade muito cobiçada pelos Deuses das mais diversas religiões, que se dirigem ao Domínio do Sonho, para tentarem pelos mais diversos meios que o Mestre dos Sonhos lhes ceda a chave do Inferno.
Em termos gráficos, o principal desenhador deste volume é Kelley Jones, contando com Malcon Jones III na passagem a tinta. A mesma dupla que já tinha desenhado Caliope e Um Sonho de Mil Gatos, duas histórias do volume anterior e cujo estilo barroco se revela perfeito para uma história com um sopro épico como esta, cheia de anjos, deuses e demónios. Veja-se a escala monumental dos portões do Inferno (que parecem saídos de um desenho feito a duas mãos por Druillet e Giger), a forma como trata elementos visuais já familiares ao leitor, como o elmo ou o manto de Morfeu, dando-lhes uma nova aparência muito mais espectacular, ou o modo subtil como a própria imagem de Morfeu se altera conforme os Deuses com que fala, ou a elegância majestática dos seus anjos.
Talvez o mais estranho para os leitores americanos, para quem Thor e Odin são personagens da Marvel, é a imagem que Jones dá deles, muito mais próxima da mitologia nórdica, do que da versão dos Deuses de Asgard criada por Jack Kirby para a “Casa das Ideias”.
Tal como acontecia em Casa de Bonecas, também este volume tem um capítulo que funciona como interlúdio, permitindo algum fôlego aos desenhadores da história principal para conseguirem manter o ritmo de publicação mensal. No caso da história desenhada por Matt Wagner, protagonizada por Edwin Paine e Charles Rowland, dois rapazes mortos que se vão tornar detectives juvenis, descobrimos que o Inferno pode ser um colégio interno inglês, naquele que é o episódio da série mais inspirado na própria vivência de Gaiman. Como refere o autor: “apesar de tudo nesta história ser inventado, este número é autobiográfico. Ou noutras palavras, Charles Rowland sou, em grande parte, eu.”
Publicado originalmente no jornal Público de 21/10/2016

domingo, 23 de outubro de 2016

Paco Roca regressa a casa com A Casa

UMA CASA CHEIA DE MEMÓRIAS

A Casa
Argumento e Desenho – Paco Roca
Sexta, 21 de Outubro
Por + 14,90 €
Depois de O Inverno do Desenhador, publicado este ano na série II da colecção Novela Gráfica, Paco Roca volta a marcar encontro com os seus leitores portugueses através de A Casa, o seu mais recente livro que chega às bancas e quiosques nacionais com o Público de sexta-feira, dia 21, no preciso dia em que arranca mais uma edição do AmadoraBD, o maior Festival nacional de Banda Desenhada, onde se espera que o autor espanhol possa marcar presença.
Conhecido inicialmente em Portugal pelo seu livro Rugas, uma belíssima reflexão sobre um tema delicado e cruel, a doença de Alzheimer, contada com um rigor que não se revela incompatível com a delicadeza e o humor, Paco Roca nasceu em Valência, em 1969, tendo-se estreado na BD em 1990, ilustrando capas para as revista El Vibora e Kiss Comics, da editorial La Cupula, onde saíram as suas primeiras histórias de BD, histórias curtas de temática erótica, desenhadas num estilo muito diferente do actual. Só no ano 2000 com o seu livro de estreia, El Juego Lúgubre, um livro em que a personagem e a obra de Salvador Dali servem de ponto de partida para uma história policial com contornos (naturalmente) surrealistas é que o seu estilo pessoal começa a despontar, evoluindo de forma fulgurante, até chegar à maturidade de Rugas e de O Inverno do Desenhador.

Galardoado com o prémio  para o Mejor Cómic Nacional de 2015, atribuído pela Confederación Española de Gremios y Asociaciones de Libreros (CEGAL), A Casa, que chegou às livrarias espanholas em Dezembro de 2015, surpreende pelo registo mais intimista, em comparação com o fôlego épico de Los Zurcos del Azar, o seu trabalho anterior, que está actualmente a ser adaptado para uma série de televisão de produção franco-espanhola.
Como bem refere o crítico e académico espanhol Pepo Perez, a memória é o tema dominante da obra de Paco Roca, seja a memória pessoal e colectiva de Zurcos del Azar, a memória perdida de Rugas, ou a memória dos derrotados de O Inverno do Desenhador. E, naturalmente, A Casa não foge a este tema, bem pelo contrário, fazendo dele o fulcro da narrativa. Uma narrativa com contornos autobiográficos, que a fotografia do autor com o pai no final do livro só vem ajudar a confirmar.
A Casa tem como ponto de partida o regresso de três irmãos à casa de família em que cresceram, um ano após a morte do seu pai, com o objectivo de esvaziarem a casa para a puderem vender. Mas o desfazer de uma casa implica um corte com um passado, cujas memórias impregnam os objectos, cheios de recordações de tempos mais simples e, talvez por isso, mais felizes. Ou seja, um relato intimista e de grande sensibilidade que fala da memória, de afectos, do passar do tempo, das relações familiares, com uma aparente simplicidade que esconde uma extraordinária eficácia narrativa.
Partindo da “Linha Clara” franco-belga para a transcender, Roca opta por um traço mais espontâneo do que o usado em O Inverno do Desenhador, em que a cor assume outra vez um papel fundamental para transmitir o passar do tempo. Gerindo com incrível precisão os diálogos e os silêncios, em páginas de estrutura clássica, em que a escolha do formato italiano (sobre o horizontal) do livro, corresponde perfeitamente à própria arquitectura da casa, lentamente “levantada do chão” (para citar Saramago) e ao ritmo da história, Roca arranja ainda espaço para algumas soluções narrativas notáveis, como a figueira transformada em árvore genealógica, ou o diagrama em que nos apercebemos das memórias guardadas pelos objectos deitados no contentor do lixo.
Livro após livro, Paco Roca tem-se afirmado rapidamente como um dos mais importantes autores europeus da actualidade e A Casa é mais um passo decisivo nesse caminho do autor espanhol em direcção ao sublime.
Publicado originalmente no jornal Público de 14/10/2016

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sandman 3: Terra do Sonho

A MUSA, OS GATOS, O POETA E A MÁSCARA

Sandman - Vol 3
Terra do Sonho
Argumento - Neil Gaiman
Quinta, 20 de Outubro
Desenhos – Kelley Jones, Charles Vess, Colleen Doran e Malcon Jones III
Por + 11,90 €
Considerado por muita gente (entre os quais me incluo) como um dos melhores volumes da série, Terra do Sonho funciona como um interregno na longa história de Morfeu, para permitir a Neil Gaiman explorar as infinitas possibilidades que o tema do sonho oferece, num punhado de histórias que lidam com questões como a criatividade e o preço dos sonhos, tanto os concretizados, como os que ficam por cumprir.
Terra dos Sonho é pois constituída por quatro histórias autónomas e auto conclusivas, em que um escritor em busca de inspiração aprisiona uma musa, acabando por descobrir que há sempre um preço a pagar pelas ideias; uma gatinha descobre que houve um tempo em que o mundo era dominado pelos gatos e que só o poder dos sonhos poderá restaurar esse domínio; uma criatura superpoderosa anseia pela única coisa que lhe está vedada: a morte; e o poeta William Shakespeare apresenta a sua última peça para um público muito especial. Ou seja, histórias tão diferentes sobre a vida (e a morte), a criatividade, a solidão e o destino, unidas pela presença de Morfeu, o Senhor dos Sonhos e ilustradas por diferentes desenhadores que voltaremos a encontrar ao longo da série, numa demonstração do cuidado de Gaiman em encontrar sempre o artista com o traço mais adequado às diferentes histórias que quer contar.
Mesmo que seja muito difícil resistir ao encanto de Um Sonho de Mil Gatos, em que descobrimos que o Domínio do Sonho se estende também ao reino animal, a mais célebre dessas histórias é Sonho de uma Noite de Verão, em que Morfeu reencontra Shakespeare, depois de um primeiro encontro em Homens de Boa Vontade, história publicada no volume anterior, em que o poeta lhe diz “que queria dar aos homens sonhos que vivessem muito depois de ele ter morrido”. Um desejo que será satisfeito através de um acordo em que o dramaturgo se compromete a escrever duas peças para o Rei dos Sonhos.
Uma dessas peças é precisamente Midsummer’s Night Dream, conforme descobrimos nesta história de Terra dos Sonho, que foi justamente a primeira BD (e também a última, pois o regulamento foi imediatamente alterado para impedir que um sacrilégio desses voltasse a acontecer...) galardoada com o World Fantasy Award, um prestigioso prémio literário na área da literatura fantástica.
Ponto de entrada ideal no universo mágico de Sandman, o Mestre dos Sonhos, Terra do Sonho é o primeiro ponto alto de uma série incontornável, exemplo maior da obra de um autor tão criativo como talentoso, que sabe muito bem para onde vai e que se prepara para escrever algumas das páginas mais memoráveis da BD em língua inglesa.
Publicado originalmente no jornal Público de 14/10/2016