quinta-feira, 21 de abril de 2016
Chernobyl: A Zona evoca os 30 anos da tragédia nuclear
30 ANOS DO DESASTRE DE CHERNOBYL EVOCADOS EM NOVELA GRÁFICA
Chernobyl: A Zona
Argumento – Francisco Sanchez
Desenho – Natacha Bustos
Quinta, 21 de Abril
Por + 11,90 €
No próximo dia 26 de Abril, completam-se precisamente trinta anos sobre a fusão no reactor IV da Central Nuclear de Chernobyl, que deu origem ao único acidente nuclear de nível 7 ocorrido até então, provocando a maior catástrofe nuclear do século XX. É precisamente para evocar esse acontecimento trágico da história recente da humanidade que o Público e a Levoir lançam já na próxima quinta-feira, dia 21, a novela gráfica Chernobyl: A Zona, de Francisco Sanchez e Natacha Bustos, obra inédita em Portugal, distinguida no Festival de Angoulême de 2012, com o Prémio Tournesol, destinado à melhor BD com preocupações ecológicas, publicada no ano anterior.
O desastre de Chernobyl já tinha sido alvo de diferentes abordagens em BD (basta pensar em O Sarcófago, de Christin e Bilal e Printemps à Tchérnobyl de Emmanuel Lepage), mas na novela gráfica que assinalou a estreia dos seus autores, Sanchez e Bustos exploram, não as razões do acidente, mas as consequências que a catástrofe nuclear teve sobre a vida daqueles que habitavam na zona. O que é feito na perspectiva de três gerações de uma família (fictícia, mas que corresponde a muitas famílias reais) de Pripiat, que se vê obrigada a deixar toda uma vida para trás, quando têm de abandonar a casa e todos os seus pertences, para fugirem da área que a radioactividade tornou inabitável.
Ou, como refere Sanchez: “é uma história de desenraizamento. Expulsaram estas gentes das suas terras e das suas casas, dizendo-lhes que regressariam em três dias e nunca mais puderam voltar.” Obra longamente maturada, a ideia de A Zona surgiu a Sanchez em 2006, depois de ver uma exposição no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, sobre os 20 anos da catástrofe e ganharia forma durante uma visita a Chernobyl em 2009, que lhe serviu para recolher documentação fundamental para o trabalho gráfico de Natacha Burgos.
Embora o traço, tão simples como expressivo, de Natacha Bustos, desenhadora espanhola actualmente a desenhar a série Moon Girl and Devil Dinosssaur para a Marvel, revele ainda algumas fragilidades, naturais numa obra de estreia, isso é compensado por um ritmo narrativo muito equilibrado e por uma extremamente eficaz gestão dos silêncios, que dão ao livro um toque hipnótico, que nos remete, por exemplo, para o cinema de Tarkovsky.
Lançada originalmente no Salão do Comic de Barcelona de 2011, para coincidir com o 25º aniversário do desastre, a publicação de Chernobyl: A Zona, acabaria por coincidir com o desastre de Fukushima, o outro único acidente nuclear de proporções semelhantes à da catástrofe de Chernobyl. Daí a importância do mapa com a localização das mais de quatro centenas de centrais nucleares ainda activas em todo o mundo, que encerra o livro, lembrando-nos, que se Chernobyl é História, a ameaça nuclear continua bem presente.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 15/04/2016
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domingo, 17 de abril de 2016
Jonathan de Cosey no Público - Algumas considerações sobre a colecção... e as suas ausências
É já no próximo dia 27 de Abril que o Público e a Asa iniciam mais uma colecção de BD franco-belga, explorando como tem sido habitual nos últimos tempo, o vasto espólio da revista Tintin, publicação que marcou gerações de leitores, actualmente entre os 40 e os 60 anos.
A série escolhida, Jonathan, de Cosey,era uma das minhas favoritas na revista mas, tal como aconteceu com Bernard Prince, a opção de publicar apenas parte da série, parece-me (mais) uma oportunidade perdida, pois dos 16 livros publicados até agora em França, a Asa apenas escolheu 10 para esta colecção, cuja lista podemos ver já abaixo:
De fora ficam portanto 6 livros, que podiam perfeitamente ser editados se se tivesse optado por álbuns duplos (como se fez com a sérieXIII), com a vantagem adicional de a sobreposição com as colecções da Levoir (a dos Super-Heróis DC, ainda nas bancas e a Série II das Novelas Gráficas, que chega em Junho) ser menor. Perde-se assim a oportunidade de editar integralmente a série em Portugal, o que os coleccionadores certamente agradeciam e, mesmo o critério de selecção dos álbuns excluidos, não me parece o mais lógico em termos da própria série e de como ela reflecte os interesses e as inquietações de Cosey.
Iniciada em 1975, a série Jonathan pode ser facilmente dividida em dois ciclos. Um primeiro ciclo, de onze álbuns, que termina em 1986, com Greyshore Island e um segundo ciclo, que compreende os cinco álbuns restantes, iniciado em 1997, com Celui qui Mène les Fleuves à la Mer, álbum que assinala o regresso de Cosey à série, após mais de 10 dedicado a outros projectos, como a novela gráfica Em Busca de Peter Pan, Viagem a Itália e Orquídea, só para falar de títulos editados em Portugal.
Não podendo editar a série toda, eu teria optado por publicar todo o primeiro ciclo, pois os álbuns que aqui faltam são importantes, como veremos.
Le Privilège du Serpent, para além da homenagem de Cosey a Derib (o criador de Yakari e Buddy Longway, que o ajudou a lançar na BD), que empresta o rosto a Casimir Forel, o protagonista da história, é um dos bons álbuns da série e o primeiro em que se torna evidente o fascínio de Cosey pela cultura americana e pelo cinema americano, patente nas referências ao célebre filme de Nicholas Ray com James Dean, Rebell Without a Cause (Fúria de Viver, em português) que estão no centro da história.
Esse fascínio pela América que marca também a obra de Cosey, a par da cultura oriental, é ainda mais evidente no díptico Oncle Howard est de Retour e Greyshore Island, em que Jonathan troca as montanhas do Tibete, pela América, de Nova Iorque à California. Aqui, para além dos cenários americanos, não faltam referências a icones da cultura Pop, como o Rato Mickey (que Cosey desenhou recentemente) e Michael Jackson, mas o que torna esta história verdadeiramente importante no contexto da série, é o regresso de Kate, o grande amor de Jonathan e uma das mais inesquecíveis personagens femininas da BD franco-belga.
Mesmo com estas falhas globais na colecção, aconselho vivamente alguns dos álbuns da série, como Kate, que ganhou o Prémio de Melhor BD no Festival de Angoulême, de 1982 e, sobretudo, o magnífico O Espaço Azul entre as Nuvens, mas se gostarem da série e souberem ler francês, o melhor mesmo é comprarem antes a edição integral francesa, recheada de belíssimos extras e que, em termos de relação qualidade/preço, bate aos pontos a coleccção que a Asa se prepara para lançar com o jornal Público.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Super-Heróis DC 10 - Legião dos Super-Heróis: Saga das Trevas Eternas
A LEGIÃO DOS SUPER-HERÓIS ENFRENTA DARKSEID
Super-Heróis DC Vol 10
Legião dos Super-Heróis: Saga das Trevas Eternas
Argumento – Paul Levitz
Desenho – Keith Giffen e Larry Mahlstead
Quinta, 07 de Abril
Por + 9,90 €
Depois de no volume 8 (O Quarto Mundo) o leitor ter podido descobrir em todo o seu esplendor, uma das grandes criações de Jack Kirby e o mais poderoso vilão do Universo DC, Darkseid, pois é a ele que me refiro, regressa para defrontar a Legião dos Super-Heróis, naquela que foi a sua primeira grande aparição depois da saga do dos Novos Deuses.
Criada em 1958, numa época em que a ficção científica tinha grande peso nas histórias de super-heróis, por Mort Weisinger e Otto Binder, a Legião dos Super-Heróis apareceu pela primeira vez numa aventura de Superboy (o jovem Clak Kent, então ainda a viver em Smallville, com os pais) publicada na revista Adventure Comics. O sucesso foi tal que os jovens heróis do século XXX passaram a ser presenças frequentes nas aventuras de Superboy e criaram uma legião de fãs extremamente fiéis, como Cary Bates, E. Nelson Bridwell e Jim Shooter, o mítico editor da Marvel, que lançou Frank Miller e Walt Simonson, e que, aos 13 anos de idade se conseguiu estrear como argumentista da série, depois de ter enviado a Mort Weisinger umas histórias da Legião que escreveu e desenhou e que impressionaram tanto o escritor, que este o decidiu contratar.
Entre esses fãs que conseguiram trabalhar na série, estão os autores do volume da próxima quinta-feira, Paul Levitz e Keith Giffen, que em 1982, assinaram a Saga das Trevas Eternas, publicada nos nºs 290 a 294 da segunda série da revista da Legião dos Super-Heróis. Uma história que demonstra o talento narrativo de Levitz, que guia o leitor por uma história com dezenas de personagens, ao mesmo tempo que gere o suspense sobre o a identidade do misterioso inimigo da Legião, que os leitores só no final do penúltimo capítulo descobrem que se trata de Darkseid, o impiedoso Senhor de Apokolips
Paul Levitz, que se tornaria um dos mais importantes nomes da DC, editora a que esteve ligado durante 35 anos, como escritor, editor e Presidente (entre 2002 e 2009) já tinha escrito uma vintena de histórias da Legião entre 1977 e 1979, mas será após o seu regresso ao título em 1981, que a Legião dos Super-Heróis vai conhecer a sua fase de maior sucesso, ombreando em popularidade com os Novos Titãs, de Marv Wolfman e George Pérez, de quem os leitores poderão descobrir uma das mais famosas sagas, O Contrato de Judas, no 13º volume desta colecção.
Contribuindo directamente para essa fase áurea da Legião, está o desenhador Keith Giffen, outro fã assumido da série, que vai começar a desenhar a revista a partir do nº 285, fazendo uma grande dupla com Levitz. Criador multifacetado, tão à vontade a escrever como a desenhar, Giffen foi responsável, entre outras coisas, pela fase mais divertida da Liga da Justiça, que escreveu a meias com J. M. De Matteis e, como desenhador, deu prova de uma versatilidade a toda a prova e de uma capacidade invulgar de alterar o registo gráfico, conciliando a criatividade com a eficácia e um profundo conhecimento da história dos comics. Neste caso, a arte-final bastante clássica de Larry Mahlstedt não deixa adivinhar essas características, mas elas estão presentes na planificação dinâmica das páginas, com grande alternância entre vinhetas horizontais e verticais, na linha do que Frank Miller vinha fazendo na revista Daredevil, e também na homenagem que Giffen faz à celebre pintura de Miguel Ângelo para o tecto da Capela Sistina, sobre a Criação do Mundo, que recria no capítulo final da história.
Texto originalmente publicado no jornal Público de 01/04/2016
Super-Heróis DC Vol 10
Legião dos Super-Heróis: Saga das Trevas Eternas
Argumento – Paul Levitz
Desenho – Keith Giffen e Larry Mahlstead
Quinta, 07 de Abril
Por + 9,90 €
Depois de no volume 8 (O Quarto Mundo) o leitor ter podido descobrir em todo o seu esplendor, uma das grandes criações de Jack Kirby e o mais poderoso vilão do Universo DC, Darkseid, pois é a ele que me refiro, regressa para defrontar a Legião dos Super-Heróis, naquela que foi a sua primeira grande aparição depois da saga do dos Novos Deuses.
Criada em 1958, numa época em que a ficção científica tinha grande peso nas histórias de super-heróis, por Mort Weisinger e Otto Binder, a Legião dos Super-Heróis apareceu pela primeira vez numa aventura de Superboy (o jovem Clak Kent, então ainda a viver em Smallville, com os pais) publicada na revista Adventure Comics. O sucesso foi tal que os jovens heróis do século XXX passaram a ser presenças frequentes nas aventuras de Superboy e criaram uma legião de fãs extremamente fiéis, como Cary Bates, E. Nelson Bridwell e Jim Shooter, o mítico editor da Marvel, que lançou Frank Miller e Walt Simonson, e que, aos 13 anos de idade se conseguiu estrear como argumentista da série, depois de ter enviado a Mort Weisinger umas histórias da Legião que escreveu e desenhou e que impressionaram tanto o escritor, que este o decidiu contratar.
Entre esses fãs que conseguiram trabalhar na série, estão os autores do volume da próxima quinta-feira, Paul Levitz e Keith Giffen, que em 1982, assinaram a Saga das Trevas Eternas, publicada nos nºs 290 a 294 da segunda série da revista da Legião dos Super-Heróis. Uma história que demonstra o talento narrativo de Levitz, que guia o leitor por uma história com dezenas de personagens, ao mesmo tempo que gere o suspense sobre o a identidade do misterioso inimigo da Legião, que os leitores só no final do penúltimo capítulo descobrem que se trata de Darkseid, o impiedoso Senhor de Apokolips
Paul Levitz, que se tornaria um dos mais importantes nomes da DC, editora a que esteve ligado durante 35 anos, como escritor, editor e Presidente (entre 2002 e 2009) já tinha escrito uma vintena de histórias da Legião entre 1977 e 1979, mas será após o seu regresso ao título em 1981, que a Legião dos Super-Heróis vai conhecer a sua fase de maior sucesso, ombreando em popularidade com os Novos Titãs, de Marv Wolfman e George Pérez, de quem os leitores poderão descobrir uma das mais famosas sagas, O Contrato de Judas, no 13º volume desta colecção.
Contribuindo directamente para essa fase áurea da Legião, está o desenhador Keith Giffen, outro fã assumido da série, que vai começar a desenhar a revista a partir do nº 285, fazendo uma grande dupla com Levitz. Criador multifacetado, tão à vontade a escrever como a desenhar, Giffen foi responsável, entre outras coisas, pela fase mais divertida da Liga da Justiça, que escreveu a meias com J. M. De Matteis e, como desenhador, deu prova de uma versatilidade a toda a prova e de uma capacidade invulgar de alterar o registo gráfico, conciliando a criatividade com a eficácia e um profundo conhecimento da história dos comics. Neste caso, a arte-final bastante clássica de Larry Mahlstedt não deixa adivinhar essas características, mas elas estão presentes na planificação dinâmica das páginas, com grande alternância entre vinhetas horizontais e verticais, na linha do que Frank Miller vinha fazendo na revista Daredevil, e também na homenagem que Giffen faz à celebre pintura de Miguel Ângelo para o tecto da Capela Sistina, sobre a Criação do Mundo, que recria no capítulo final da história.
Texto originalmente publicado no jornal Público de 01/04/2016
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quinta-feira, 31 de março de 2016
Super-Heróis DC 9 - Lex Luthor: Preconceito e Orgulho
LEX LUTHOR EM DESTAQUE
NA COLECÇÃO SUPER-HERÓIS DC
Super-Heróis DC Vol 9
Lex Luthor: Preconceito e Orgulho
Argumento – Brian Azzarello
Desenho – Lee Bermejo
Quinta, 31 de Março
Por + 9,90 €
Já dizia Alfred Hitchcock que o sucesso de um filme dependia, e muito, do carisma do vilão. E não há grandes dúvidas de que a DC tem os vilões mais carismáticos da história dos comics. É pois com naturalidade que, depois do Joker na colecção anterior, o destaque do volume que chega às bancas na próxima quinta-feira vá para o outro grande vilão do Universo DC, Lex Luthor, o Némesis do Super-Homem. Novamente, os responsáveis por esta abordagem inesperada da relação entre o Homem de Aço e o seu mais astucioso adversário, são Brian Azzarello e Lee Bermejo, os mesmos autores de Joker, que mostram mais uma vez a incrível sintonia existente entre eles, que lhes permite criar histórias inesquecíveis.
Embora tenha saído depois em Portugal, este Lex Luthor: Preconceito e Orgulho, é anterior ao livro dedicado ao Joker, tendo sido publicado originalmente nos EUA em 2005, como Lex Luthor: Men Of Steel, uma mini-série em 5 partes e foi precisamente o seu grande sucesso que possibilitou a posterior publicação da novela gráfica dedicada ao Joker.
Segunda colaboração entre o escritor Brian Azzarello e o desenhador Lee Bermejo, depois da mini-série Batman/Deathblow: After the Fire, de 2003, Lex Luthor… é uma das primeiras histórias a ter um vilão como protagonista, o que Azzarello justifica com uma maior facilidade em identificar-se com os vilões do que com os heróis, algo que a série 100 Bullets, onde não há inocentes, já deixava perceber.
Outro aspecto extremamente inovador deste livro, é a história ser contada na perspectiva do vilão, que nos apresenta a sua visão do Super-Homem, que Luthor considera, não como a encarnação do sonho americano e símbolo da verdade, da justiça e do modo de vida americano - como o emigrante que encontrou o sucesso na terra prometida - mas sim como uma ameaça extraterrestre. Um ser quase divino, demasiado poderoso para ser controlado e que Luthor considera como uma potencial ameaça para a humanidade. É precisamente a origem alienígena do Homem de Aço, aliada à sua popularidade, que faz dele um alvo a abater por Luthor, que o teme e o inveja.
Criado por Jerry Siegel e Joe Schuster em 1940, Lex Luthor começou por ser um cientista que criava armas de guerra que lhe permitissem dominar o mundo, mas depois disso já foi homem de negócios impiedoso, milionário, génio científico e até Presidente dos Estados Unidos, mas poucos autores compreenderam melhor a complexidade da personagem do que Azzarello e Bermejo.
NA COLECÇÃO SUPER-HERÓIS DC
Super-Heróis DC Vol 9
Lex Luthor: Preconceito e Orgulho
Argumento – Brian Azzarello
Desenho – Lee Bermejo
Quinta, 31 de Março
Por + 9,90 €
Já dizia Alfred Hitchcock que o sucesso de um filme dependia, e muito, do carisma do vilão. E não há grandes dúvidas de que a DC tem os vilões mais carismáticos da história dos comics. É pois com naturalidade que, depois do Joker na colecção anterior, o destaque do volume que chega às bancas na próxima quinta-feira vá para o outro grande vilão do Universo DC, Lex Luthor, o Némesis do Super-Homem. Novamente, os responsáveis por esta abordagem inesperada da relação entre o Homem de Aço e o seu mais astucioso adversário, são Brian Azzarello e Lee Bermejo, os mesmos autores de Joker, que mostram mais uma vez a incrível sintonia existente entre eles, que lhes permite criar histórias inesquecíveis.
Embora tenha saído depois em Portugal, este Lex Luthor: Preconceito e Orgulho, é anterior ao livro dedicado ao Joker, tendo sido publicado originalmente nos EUA em 2005, como Lex Luthor: Men Of Steel, uma mini-série em 5 partes e foi precisamente o seu grande sucesso que possibilitou a posterior publicação da novela gráfica dedicada ao Joker.
Segunda colaboração entre o escritor Brian Azzarello e o desenhador Lee Bermejo, depois da mini-série Batman/Deathblow: After the Fire, de 2003, Lex Luthor… é uma das primeiras histórias a ter um vilão como protagonista, o que Azzarello justifica com uma maior facilidade em identificar-se com os vilões do que com os heróis, algo que a série 100 Bullets, onde não há inocentes, já deixava perceber.
Outro aspecto extremamente inovador deste livro, é a história ser contada na perspectiva do vilão, que nos apresenta a sua visão do Super-Homem, que Luthor considera, não como a encarnação do sonho americano e símbolo da verdade, da justiça e do modo de vida americano - como o emigrante que encontrou o sucesso na terra prometida - mas sim como uma ameaça extraterrestre. Um ser quase divino, demasiado poderoso para ser controlado e que Luthor considera como uma potencial ameaça para a humanidade. É precisamente a origem alienígena do Homem de Aço, aliada à sua popularidade, que faz dele um alvo a abater por Luthor, que o teme e o inveja.
Criado por Jerry Siegel e Joe Schuster em 1940, Lex Luthor começou por ser um cientista que criava armas de guerra que lhe permitissem dominar o mundo, mas depois disso já foi homem de negócios impiedoso, milionário, génio científico e até Presidente dos Estados Unidos, mas poucos autores compreenderam melhor a complexidade da personagem do que Azzarello e Bermejo.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 25/03/2016
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sexta-feira, 25 de março de 2016
Super-Heróis DC 8 - Quarto Mundo: Génesis e Apokolips
Tive oportunidade (e o privilégio) de escrever a introdução para aquele que é o mais importante volume em termos históricos desta colecção. Razão porque vos deixo o texto do Público apenas em imagem. Ao contrário do que tem sido habitual nesta colecção, ste foi um daqueles textos em que foi necessário fazer algumas alterações pedidas pela DC, que naturalmente não afectam a versão que aqui publico, sem quaisquer cortes ou censuras.
E KIRBY CRIOU O QUARTO MUNDO
Se há obras claramente à frente do seu tempo, cujo verdadeiro impacto só é possível abarcar décadas mais tarde, o Quarto Mundo de Jack Kirby é um desses títulos. Nome maior dos comics americanos, com um trabalho de uma importância tal, que lhe valeu a alcunha de King (Rei), Kirby, que nasceu como Jacob Kurtzberg, em 1917, começou a sua carreira artística em 1936. Em 1939, depois de uma breve experiência com animação no estúdio dos irmãos Fleischer, ingressa nos estúdios Eisner/Iger - onde trabalhou também Bob Kane, o criador de Batman. Aí, sob a orientação de Will Eisner, esteve ligado ao arranque da indústria dos comics, produzindo o mais variado tipo de histórias para várias publicações. Ao longo da sua carreira de décadas, Kirby abordou os mais diversos géneros, do western, às histórias românticas, passando pelas histórias de monstros e o policial negro, mas foi como criador de super-heróis que ganha um lugar maior na história da banda desenhada.
Um percurso que começou em 1940, ao lado de Joe Simon, com quem criou o Capitão América, e teve o seu apogeu na década de 60, ao lado de Stan Lee, com a criação da maioria dos heróis da Marvel. Mas no início da década de 70, Kirby decide trocar a Marvel pela DC, regressando assim a uma casa para onde já tinha trabalhado com alguma regularidade durante as décadas de 40 e 50.
Aí, contando com total liberdade e autonomia, Jack Kirby começou a contar a história do Quarto Mundo. Uma saga épica, de uma dimensão cósmica, que levava o termo Larger than Life - Maior que a Vida - a uma escala inusitada, inteiramente editada, escrita e desenhada pelo King, transpondo para o papel um universo que, conforme refere Marv Wolfman, que na altura trabalhava na DC, já estava na sua cabeça há mais de quatro anos.
Ainda antes da saída dos três novos títulos que contam a saga dos Novos Deuses e o combate entre Nova Génesis e Apokolips, os personagens do Quarto Mundo fazem a sua aparição na revista Superman's Pal Jimmy Olsen, o primeiro título onde Kirby trabalha no seu regresso à DC, e para o qual vai recuperar personagens como o Guardião e a Legião dos Ardinas, criadas aquando da sua primeira passagem pela DC (então National Comics) e introduzir conceitos inovadores, como a clonagem e a nanotecnologia.
A presença do Super-Homem na revista - mesmo que os rostos do Homem de Aço e de Jimmy Olsen fossem redesenhados por Al Plastino, e mais tarde, por Murphy Anderson, para ficarem mais próximos da imagem oficial do Super-Homem na época, que tinha como modelo o Super-Homem desenhado por Curt Swan - permitiu apresentar as personagens do que viria a ser o Novo Mundo a um leque mais vasto de leitores. Dessa forma, abriu-se o caminho ao lançamento em Fevereiro/Março de 1971 do primeiro número da revista New Gods, a que se seguiram as revistas The Forever People, no mesmo mês, e Mister Miracle, em Abril, completando o conjunto de quatro títulos bimestrais (o que obrigava Kirby a desenhar duas revistas por mês) que contam a história do Quarto Mundo.
O tema central da saga do Quarto Mundo é a eterna luta entre o Bem e o Mal, representados por Nova Génesis e Apokolips, dois mundos opostos nascidos do conflito cósmico que levou à queda dos Antigos Deuses e ao aparecimento dos Novos Deuses. Para pôr um termo à guerra sem quartel que ameaçava destruir galáxias, Izaya, o Pai Celestial de Nova Génesis, e o impiedoso Darkseid de Apokolips, decidem trocar filhos como reféns, de modo a assegurar uma trégua. Assim, Órion, o filho de Darkseid, vai ser criado em Nova Génesis, enquanto Scott Free, o filho de Izaya, é enviado para Apokolips.
É este momento fulcral da história do Quarto Mundo que nos é contado em O Pacto, o episódio que abre este volume e que é considerado por muitos como a melhor história de sempre de Kirby. Este episódio é também importante por dar a conhecer a origem de Scott Free, cuja fuga de Apokolips para a Terra, onde se tornará o Sr. Milagre, traz a guerra entre Apokolips e Nova Génesis para o nosso mundo e dá a Darkseid o pretexto ideal para pôr fim à trégua entre os dois mundos. É dessa guerra sem quartel, que põe em risco a sobrevivência do nosso planeta, de que o leitor terá uma visão panorâmica neste volume que proporciona uma primeira aproximação, necessariamente sintética, à história do Quarto Mundo.
Se quisermos encontrar um adjectivo que melhor descreva o trabalho de Kirby em O Quarto Mundo, o único adequado é mesmo kirbyesco, mas épico também está bastante próximo. Essa dimensão épica está patente na força majestática dos desenhos, na corporalidade miguelangelesca das figuras, na pura energia que irradia das páginas cheias de acção, na maquinaria impossível, radiante de poder, que Kirby desenhava como ninguém, e também no próprio tom empolado da narrativa e dos diálogos. Aspectos que, aliados aos próprios nomes das personagens, que remetem para a Bíblia (como Izaya e Esak), para a mitologia clássica (como Órion), ou para a literatura (Desaad, o Cruel, lembra o Marquês de Sade, e Kalibak, o filho monstruoso de Darkseid, evoca Caliban, de A Tempestade, de Shakespeare) mostram a vontade de Kirby em criar uma mitologia para o século XX, pois como o próprio refere numa entrevista de 1984, republicada quase três décadas mais tarde na revista Jack Kirby Collector: "com os Novos Deuses, senti que estava a criar uma mitologia para os nossos tempos. Parecia-me que essa mitologia entretinha os leitores, como era o meu objectivo. O que eu estava a fazer era uma parábola dos nossos tempos."
Mas a verdade é que, ao contrário do que o próprio Kirby pensava, a sua criação estava muito à frente do seu tempo e os leitores não estavam ainda preparados para uma história cuja acção se espalhava por quatro títulos diferentes e que lhes pedia uma capacidade de assimilar um grande leque de personagens e de cenários, que fugiam daquilo a que eles estavam habituados. O resultado foi o cancelamento das revistas New Gods e The Forever People ao fim de apenas 11 números e de Mr. Miracle (a mais próxima do registo tradicional das histórias de super-heróis) após 18 números, numa fase em que a história idealizada por Kirby estava ainda bem longe de estar contada. Só em 1984, aproveitando a reedição da série New Gods, como uma mini-série de seis volumes, Kirby pôde continuar a contar a história do Quarto Mundo, primeiro, com Even Gods Must Die, uma nova história de 48 páginas, incluída no sexto volume dessa reedição, que abre o caminho para The Hunger Gods, uma novela gráfica original, que concluiu a série, deixando no entanto a porta aberta para a utilização das personagens criadas pelo King por outros autores.
Mesmo que Kirby não tenha conseguido contar a história que queria, da maneira como queria, o impacto do Quarto Mundo no universo DC é incontornável. Basta ver esta colecção, onde Darkseid é a ameaça principal dos volumes dedicados à Liga da Justiça e à Legião dos Super-Heróis.
Em American Gods, Neil Gaiman defende que os deuses só sobrevivem enquanto houver quem acredite neles. Por isso, enquanto houver novos leitores a descobrir a magia e a glória do Quarto Mundo de Jack Kirby, os Novos Deuses de Apokolips e Nova Génesis manter-se-ão bem vivos.
E KIRBY CRIOU O QUARTO MUNDO
Se há obras claramente à frente do seu tempo, cujo verdadeiro impacto só é possível abarcar décadas mais tarde, o Quarto Mundo de Jack Kirby é um desses títulos. Nome maior dos comics americanos, com um trabalho de uma importância tal, que lhe valeu a alcunha de King (Rei), Kirby, que nasceu como Jacob Kurtzberg, em 1917, começou a sua carreira artística em 1936. Em 1939, depois de uma breve experiência com animação no estúdio dos irmãos Fleischer, ingressa nos estúdios Eisner/Iger - onde trabalhou também Bob Kane, o criador de Batman. Aí, sob a orientação de Will Eisner, esteve ligado ao arranque da indústria dos comics, produzindo o mais variado tipo de histórias para várias publicações. Ao longo da sua carreira de décadas, Kirby abordou os mais diversos géneros, do western, às histórias românticas, passando pelas histórias de monstros e o policial negro, mas foi como criador de super-heróis que ganha um lugar maior na história da banda desenhada.
Um percurso que começou em 1940, ao lado de Joe Simon, com quem criou o Capitão América, e teve o seu apogeu na década de 60, ao lado de Stan Lee, com a criação da maioria dos heróis da Marvel. Mas no início da década de 70, Kirby decide trocar a Marvel pela DC, regressando assim a uma casa para onde já tinha trabalhado com alguma regularidade durante as décadas de 40 e 50.
Aí, contando com total liberdade e autonomia, Jack Kirby começou a contar a história do Quarto Mundo. Uma saga épica, de uma dimensão cósmica, que levava o termo Larger than Life - Maior que a Vida - a uma escala inusitada, inteiramente editada, escrita e desenhada pelo King, transpondo para o papel um universo que, conforme refere Marv Wolfman, que na altura trabalhava na DC, já estava na sua cabeça há mais de quatro anos.
Ainda antes da saída dos três novos títulos que contam a saga dos Novos Deuses e o combate entre Nova Génesis e Apokolips, os personagens do Quarto Mundo fazem a sua aparição na revista Superman's Pal Jimmy Olsen, o primeiro título onde Kirby trabalha no seu regresso à DC, e para o qual vai recuperar personagens como o Guardião e a Legião dos Ardinas, criadas aquando da sua primeira passagem pela DC (então National Comics) e introduzir conceitos inovadores, como a clonagem e a nanotecnologia.
A presença do Super-Homem na revista - mesmo que os rostos do Homem de Aço e de Jimmy Olsen fossem redesenhados por Al Plastino, e mais tarde, por Murphy Anderson, para ficarem mais próximos da imagem oficial do Super-Homem na época, que tinha como modelo o Super-Homem desenhado por Curt Swan - permitiu apresentar as personagens do que viria a ser o Novo Mundo a um leque mais vasto de leitores. Dessa forma, abriu-se o caminho ao lançamento em Fevereiro/Março de 1971 do primeiro número da revista New Gods, a que se seguiram as revistas The Forever People, no mesmo mês, e Mister Miracle, em Abril, completando o conjunto de quatro títulos bimestrais (o que obrigava Kirby a desenhar duas revistas por mês) que contam a história do Quarto Mundo.
O tema central da saga do Quarto Mundo é a eterna luta entre o Bem e o Mal, representados por Nova Génesis e Apokolips, dois mundos opostos nascidos do conflito cósmico que levou à queda dos Antigos Deuses e ao aparecimento dos Novos Deuses. Para pôr um termo à guerra sem quartel que ameaçava destruir galáxias, Izaya, o Pai Celestial de Nova Génesis, e o impiedoso Darkseid de Apokolips, decidem trocar filhos como reféns, de modo a assegurar uma trégua. Assim, Órion, o filho de Darkseid, vai ser criado em Nova Génesis, enquanto Scott Free, o filho de Izaya, é enviado para Apokolips.
É este momento fulcral da história do Quarto Mundo que nos é contado em O Pacto, o episódio que abre este volume e que é considerado por muitos como a melhor história de sempre de Kirby. Este episódio é também importante por dar a conhecer a origem de Scott Free, cuja fuga de Apokolips para a Terra, onde se tornará o Sr. Milagre, traz a guerra entre Apokolips e Nova Génesis para o nosso mundo e dá a Darkseid o pretexto ideal para pôr fim à trégua entre os dois mundos. É dessa guerra sem quartel, que põe em risco a sobrevivência do nosso planeta, de que o leitor terá uma visão panorâmica neste volume que proporciona uma primeira aproximação, necessariamente sintética, à história do Quarto Mundo.
Se quisermos encontrar um adjectivo que melhor descreva o trabalho de Kirby em O Quarto Mundo, o único adequado é mesmo kirbyesco, mas épico também está bastante próximo. Essa dimensão épica está patente na força majestática dos desenhos, na corporalidade miguelangelesca das figuras, na pura energia que irradia das páginas cheias de acção, na maquinaria impossível, radiante de poder, que Kirby desenhava como ninguém, e também no próprio tom empolado da narrativa e dos diálogos. Aspectos que, aliados aos próprios nomes das personagens, que remetem para a Bíblia (como Izaya e Esak), para a mitologia clássica (como Órion), ou para a literatura (Desaad, o Cruel, lembra o Marquês de Sade, e Kalibak, o filho monstruoso de Darkseid, evoca Caliban, de A Tempestade, de Shakespeare) mostram a vontade de Kirby em criar uma mitologia para o século XX, pois como o próprio refere numa entrevista de 1984, republicada quase três décadas mais tarde na revista Jack Kirby Collector: "com os Novos Deuses, senti que estava a criar uma mitologia para os nossos tempos. Parecia-me que essa mitologia entretinha os leitores, como era o meu objectivo. O que eu estava a fazer era uma parábola dos nossos tempos."
Mas a verdade é que, ao contrário do que o próprio Kirby pensava, a sua criação estava muito à frente do seu tempo e os leitores não estavam ainda preparados para uma história cuja acção se espalhava por quatro títulos diferentes e que lhes pedia uma capacidade de assimilar um grande leque de personagens e de cenários, que fugiam daquilo a que eles estavam habituados. O resultado foi o cancelamento das revistas New Gods e The Forever People ao fim de apenas 11 números e de Mr. Miracle (a mais próxima do registo tradicional das histórias de super-heróis) após 18 números, numa fase em que a história idealizada por Kirby estava ainda bem longe de estar contada. Só em 1984, aproveitando a reedição da série New Gods, como uma mini-série de seis volumes, Kirby pôde continuar a contar a história do Quarto Mundo, primeiro, com Even Gods Must Die, uma nova história de 48 páginas, incluída no sexto volume dessa reedição, que abre o caminho para The Hunger Gods, uma novela gráfica original, que concluiu a série, deixando no entanto a porta aberta para a utilização das personagens criadas pelo King por outros autores.
Mesmo que Kirby não tenha conseguido contar a história que queria, da maneira como queria, o impacto do Quarto Mundo no universo DC é incontornável. Basta ver esta colecção, onde Darkseid é a ameaça principal dos volumes dedicados à Liga da Justiça e à Legião dos Super-Heróis.
Em American Gods, Neil Gaiman defende que os deuses só sobrevivem enquanto houver quem acredite neles. Por isso, enquanto houver novos leitores a descobrir a magia e a glória do Quarto Mundo de Jack Kirby, os Novos Deuses de Apokolips e Nova Génesis manter-se-ão bem vivos.
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