quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Poderosos Heróis Marvel 9 - Capitão América: Sonhadores Americanos

Neste volume, o editorial também é da minha autoria. Por isso, aqui o deixo, em vez do texto do Público, que surge apenas em imagem, mas que pode facilmente ser lido, por quem carregar na imagem.
O REGRESSO DO HERÓI


Depois de termos assistido ao início do percurso de oito anos de Ed Brubaker como argumentista da série Captain America, em O Soldado de Inverno - a saga em dois volumes que abriu a colecção Universo Marvel - este volume da colecção Poderosos Heróis Marvel permite-nos acompanhar o início daquele que foi o capítulo final desse percurso inesquecível, que marcou profundamente a história de Steve Rogers, bem como os leitores. Um percurso iniciado em Janeiro de 2005, quando Brubaker substituiu Robert Kirkman, o criador de The Walking Dead, como argumentista do Capitão América, no número um da quinta série da revista do Sentinela da Liberdade.

Nascido em 1966, nos EUA, Ed Brubaker começou a sua carreira como autor completo, escrevendo e desenhando histórias policiais para editoras independentes, como a Dark Horse, antes da Vertigo, a linha mais adulta e alternativa da DC, publicar algumas séries que assinou como argumentista e que lhe abriram as portas da DC, editora com que assinou um contrato de exclusividade em 2000. Brubaker teve então a oportunidade de explorar a fundo o universo do Batman, em aventuras bem mais próximas do policial negro do que das tradicionais histórias de super-heróis, mantendo uma tendência de reinvenção do género noir, já patente nos seus trabalhos anteriores de menor visibilidade.
O seu primeiro trabalho para a Marvel foi precisamente a série do Capitão América, onde, para além de ter introduzido elementos característicos das histórias de espionagem, trouxe de volta ao Universo Marvel James Buchanan Barnes, o jovem pupilo do Capitão, mais conhecido por Bucky - que os leitores julgavam morto desde o final da Segunda Guerra Mundial, na sequência dos eventos que colocaram Steve Rogers em estado de animação suspensa, congelado no meio do Árctico, até ser descoberto pelos Vingadores. Mas a verdade é que Bucky não só não tinha morrido, como tinha sido salvo pelo exército soviético, que lhe fez uma lavagem cerebral e o transformou numa verdadeira máquina de matar, o Soldado do Inverno.

De um anacrónico “sidekick”, Bucky vai tornar-se numa personagem fulcral da série, que acaba mesmo por substituir Steve Rogers no papel de Capitão América, depois do Sentinela da Liberdade original ser morto na sequência dos acontecimentos da Guerra Civil, a saga publicada numa anterior colecção da Levoir, que colocou em confronto directo os principais heróis da Marvel. Bucky mostrou ser digno de usar o uniforme e o escudo do Capitão América, honrando a herança de Steve Rogers, mas, como o leitor bem sabe, a morte raramente é definitiva nas histórias de super-heróis e o (esperado) regresso de Steve Rogers ao mundo dos vivos acabou naturalmente por acontecer na mini-série Captain America: Reborn, escrita também por Brubaker. Mas isso não impediu Bucky de continuar a ser o Capitão América, até ser aparentemente morto durante a saga A Essência do Medo, também já publicada pela Levoir, e Steve Rogers se ver forçado a pegar novamente no escudo e voltar a vestir o uniforme listrado. Um regresso natural, sobretudo tendo em conta a estreia nesse ano do filme do Capitão América, realizado por Joe Johnston, que levou ao relançamento da revista do Capitão América, em Julho de 2011, com um sexto volume, cujos primeiros cinco números são ocupados precisamente por Sonhadores Americanos, a história que poderão ler nas páginas seguintes.

Mantendo o toque inconfundível de Brubaker, este regresso não deixa de ter características muito próprias, com o clima das histórias de espionagem a dar lugar a um registo de aventura em estado mais puro, com dimensões paralelas, um adolescente capaz de abrir portais para outras dimensões, robots gigantes e muita acção. Mas o que se mantém constante é a importância do passado na vida de Steve Rogers: mesmo que o funeral de Peggy Carter logo no início da história pareça indicar o fim de um ciclo, o passado de Steve Rogers durante a Segunda Guerra Mundial vai voltar para o atormentar na figura de Richard Bravo, um espião americano submetido nos anos vinte a um tratamento experimental semelhante ao programa do super soldado - que criou o Capitão América - que passou os últimos sessenta anos preso numa dimensão paralela, de onde saiu para descobrir que o sonho americano imaginado durante a Segunda Guerra Mundial tinha dado origem a uma realidade bem mais próxima do pesadelo.
A dar vida a esta história de Brubaker está um nome bem conhecido dos leitores das colecções que a Levoir dedicou à Casa das Ideias: Steve McNiven, O desenhador de origem canadiana, que se estreou na BD no início da década de 2000, desenhando a série Meridian e outros trabalhos para a editora CrossGen, rapidamente passou para a Marvel, onde se tornou um dos desenhadores mais populares da editora, graças ao seu espectacular trabalho em livros como Wolverine: Velho Logan e Guerra Civil, já publicados em Portugal pela Levoir. McNiven mostra aqui mais uma vez todo o seu virtuosismo, em páginas com uma planificação extremamente dinâmica e variada, que ajuda ao ritmo infernal de uma história movimentada e visualmente espectacular.
No último número da série, o desenhador canadiano conta com a ajuda de Giuseppe Camuncoli, desenhador italiano extremamente versátil, que tem dividido o seu talento entre o mercado americano, onde trabalhou tanto para a Marvel como para a DC, e o mercado europeu, onde também deixou a sua marca, seja a desenhar a série Dylan Dog ou a continuação da série Os Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese.
A completar este volume, temos três histórias curtas, extraídas da revista Captain America #616, número especial comemorativo dos setenta anos da criação, por Jack Kirby e Joe Simon, do Capitão. Um número cronologicamente anterior à história que o antecede, cuja acção decorre numa fase em que Steve Rogers, já regressado ao Universo Marvel, ainda não tinha decidido reassumir as funções de Capitão América e em que Bucky Barnes, o Soldado do Inverno, estava preso numa prisão russa. Duas dessas histórias recapitulam, cada uma à sua maneira, a carreira do Capitão América, o que, no caso da história ilustrada por Travis Charest, que tem aqui um breve regresso à BD, é feito em apenas uma página. A terminar, temos A Exposição, a única história deste volume que não é escrita por Brubaker. Uma história tão peculiar como curiosa, escrita por Franklin Tieri e ilustrada por Paul Azaceta, em que Steve Rogers investiga um marchand de arte que tem um segredo que o próprio desconhece…

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Poderosos Heróis Marvel 8 - Homem-Formiga: Um Mundo Pequeno


DEPOIS DO CINEMA, O HOMEM-FORMIGA ESTREIA-SE 
NA COLECÇÃO PODEROSOS HERÓIS MARVEL

Poderosos Heróis Marvel, Vol. 8
Homem-Formiga: Um Mundo Pequeno
Argumento – Stan Lee, David Michelinie e Tim Seeley
Desenho – Jack Kirby, John Byrne e Tim Seeley
Quinta, 10 de Setembro + 8,90 €

O próximo volume da colecção Poderosos Heróis Marvel assinala a estreia em Portugal do mais recente herói da Marvel a chegar ao cinema: o Homem-Formiga. Uma estreia que se dá num volume antológico que recolhe as aventuras de estreia dos diferentes homens que vestiram o fato do Homem-Formiga: Henry Pym, Scott Lang e Eric O’Grady.
Criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby em 1962, no nº 27 da revista Tales to Astonish, Henry “Hank” Pym, o Homem-Formiga original, era um cientista que descobriu uma formula que lhe permitia reduzir a sua massa e altura a dimensões microscópicas. Essa primeira história, que no fundo era uma adaptação não assumida do conto The Shrinking Man, de Richard Matheson, de 1956, levado ao cinema com grande sucesso no ano seguinte por Jack Arnold, não previa uma continuação, mas o sucesso junto dos leitores levou Stan Lee a promover o rápido regresso de Henry “Hank” Pym. O que aconteceu logo no nº 35 da revista Tales to Astonish, em que Hank Pym tem que usar a sua invenção para deter um grupo de espiões e decide passar a combater o crime como o Homem-Formiga. São essas duas primeiras aventuras, assinadas por Lee e Kirby que abrem o volume dedicado ao Homem-Formiga.
Um dos grandes cientistas do Universo Marvel, Hank Pym foi o responsável pela criação do robot Ultron e do andróide Visão, mas a sua carreira como Homem-Formiga foi relativamente curta, acabando por ceder o seu uniforme e o capacete que lhe permite comunicar com as formigas, a outra pessoa, Scott Lang. Um homem que roubou o fato de Homem-Formiga para poder salvar a vida da sua filha, mas que acabaria por assumir o papel de Homem-Formiga, com a bênção do seu mentor, Hank Pym, o Homem-Formiga original. É precisamente Scott Lang, o segundo Homem-Formiga, criado por David Micheliene e John Byrne em 1979, na história que podemos ler neste volume, que é o protagonista do mais recente filme da Marvel, acabado de chegar às salas de cinema.
Finalmente, este oitavo volume da colecção Poderosos Heróis Marvel, traz ainda uma aventura do terceiro Homem-Formiga, Eric O’Grady. Protagonista de uma história em três partes, escrita e desenhada por Tim Seeley em 2011, em que o novo Homem-Formiga tem de combater o crime ao lado de Hank Pym, o Homem-Formiga original, que assumiu a identidade secreta de Vespa, em memória de Janet Pym, a sua falecida mulher, que foi a Vespa original.
Três etapas marcantes na história de um herói incontornável do Universo Marvel, reunidas num único livro, assinado por alguns dos maiores nomes que passaram pela Casa das Ideias. Um livro que permite ao leitor conhecer melhor o último poderoso herói da Marvel a chegar ao grande ecrã.
Publicado originalmente no jornal Público de 04/09/2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Evocando Oesterheld, no Dia de la Historieta


Desde 2009, que na Argentina o dia 4 de Setembro é legalmente considerado como o Dia de la Historieta, o dia da Banda Desenhada na Argentina. Uma data escolhida por ter sido a 4 de Setembro de 1957 que saiu o primeiro número da revista Hora Cero, onde se começou a publicar El Eternauta, a obra-prima de Oesterheld e Solano Lopez. Associando-me às comemorações, aproveito para recuperar aqui o pósfacio que escrevi a edição de Mort Cinder, publicada na colecção Novela Gráfica. A abrir, coloquei uma citação de um General argentino, que não descobri a tempo de sair no livro, mas que traduz na perfeição o clima de absoluto terror que a Junta Militar instalou na Argentina e que custou a vida a perto de 30.000 pessoas, entre as quais Oesterheld e as suas filhas.. 

"Primeiro mataremos todos os subversivos,  depois todos os que colaboraram com eles, em seguida mataremos todos os seus simpatizantes, depois os indiferentes e finalmente mataremos os tímidos."

General Ibérico Saint-Jean, Comandante Militar da Província de Buenos Aires, 
num discurso proferido em 1977

O TRÁGICO DESTINO DA FAMÍLIA OESTERHELD

Na famosa entrevista que concedeu a Carlos Trillo e Guillermo Saccomano em inícios da década de 70 e que em Portugal foi publicada por capítulos na revista Tintin, Hector Germán Oesterheld, quando lhe perguntaram porque tinha morto alguns dos heróis que criou, respondeu que a morte é a grande personagem que ninguém aproveitava devidamente. Infelizmente, na sua história familiar, a morte teve o papel principal, num drama terrível, em que o toque fantástico das aventuras de Mort Cinder deu lugar a uma intriga tão real como cruel, escrita de forma canhestra por um bando de assassinos fardados.
Tendo sido raptado no bairro de La Plata, em Buenos Aires, em 27 de Abril de 1977, por elementos ligados à junta Militar que governava o país, Oesterheld nunca mais voltou a ser visto. Anos mais tarde, em 1979, o jornalista italiano Alberto Ongaro -  que, com Hugo Pratt, fez parte do famoso Grupo de Veneza, um punhado de autores italianos que foi trabalhar para a Argentina nos anos 50 - ao tentar descobrir o paradeiro do escritor, foi-lhe dito que Oesterheld tinha sido morto por ter escrito “a mais bela biografia de Ché Guevara jamais feita”.
Embora bastante poética, essa não terá sido a razão principal do “desaparecimento” de Oesterheld, pois mesmo que a biografia do Ché, que o escritor criou em 1968 para o traço de Alberto Breccia e do seu filho Enrique, tenha sido proibida pela Junta Militar que assumiu o poder na Argentina em 1976, a verdade é que, para além de algumas ameaças veladas, nem o “velho” Breccia, nem o jovem Enrique, chegaram a ser verdadeiramente incomodados pelos militares.
Já Oesterheld, para além das posições ideológicas bem evidentes nas suas histórias, era membro activo da guerrilha Montonera, um movimento rebelde de esquerda, tal como as suas quatro filhas, tendo passado à clandestinidade em 1976, logo a seguir ao golpe de estado militar. Terá sido esse o principal motivo para que a sua família se tornasse um alvo fácil para a Junta Militar, acabando por engrossar a lista de perto de trinta mil “desaparecidos” que mancham com o seu sangue essa página negra da história argentina.
A primeira a “desaparecer” foi a sua filha Beatriz, de 19 anos, sequestrada a 19 de Junho de 1976 e executada pouco depois, tendo sido o corpo entregue à mãe a 7 de Julho, para que a sepultasse. Dias antes, a 4 de Julho, Elsa, a mulher de Oesterheld soube pelos jornais que a sua filha Diana, de 23 anos, que estava grávida de seis meses, tinha sido morta, juntamente com o marido. O filho de ambos, Fernando, então com um ano, acabaria por ser entregue aos avós paternos.
Seguir-se-ia o sequestro do seu marido, em Abril de 1977 e, em final desse mesmo ano, recebeu uma carta da filha, Estela, de 24 anos, a contar-lhe que a irmã, Marina, de 18 anos e grávida de oito meses, tinha sido morta um mês antes. No dia em que Elsa recebeu essa carta, já a sua filha Estela estava morta, tendo sido assassinada, junto com o marido.
Martin, o filho de Estela, então com 3 anos, seria entregue à avó por dois dos carcereiros de Oesterheld, que tinham proporcionado um último encontro entre o avô e o neto em El Vesubio, uma das prisões clandestinas por onde Oesterheld passou. Sabe-se que ainda estaria vivo em Janeiro de 12978, pois Eduardo Arias, outro prisioneiro, recorda-se de se cruzar com um Oesterheld muito debilitado fisicamente, no centro de detenção El Vesubio, a que os prisioneiros chamavam ironicamente o “Sheraton”, devido às péssimas condições que tinha. Calcula-se que tenha sido assassinado pouco tempo depois, mas o seu corpo, tal como os de milhares de outras vítimas da ditadura militar, nunca foi encontrado.
Em pouco menos de dois anos, Elsa Sanchéz Oesterheld viu os militares levarem-lhe nove membros da família, entre marido, filhas, genros e netos. Apenas conseguiu recuperar dois netos e enterrar uma das filhas. Os restantes “desapareceram” para sempre.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Poderosos Heróis Marvel 7 - X-Men: Caixa Fantasma


WARREN ELLIS DÁ NOVA VIDA AOS X-MEN

Poderosos Heróis Marvel, Vol. 7
X-Men: Caixa Fantasma
Argumento – Warren Ellis
Desenho – Simone Bianchi
Quinta, 03 de Setembro + 8,90 €

O próximo volume da colecção Poderosos Heróis Marvel, assinala o regresso de dois criadores já conhecidos dos leitores: Warren Ellis e Simone Bianchi. Autores que vêm dar uma nova vida à mais popular equipa de heróis da Marvel, os X-Men. Ellis, que os leitores já conhecem de Homem de Ferro: Extremis, e Bianchi, que ilustrou Wolverine: Evolução, tiveram aqui o difícil desafio de suceder ao autor e cineasta Joss Whedon (conhecido principalmente por ser o realizador dos filmes dos Vingadores) e ao desenhador John Cassaday, responsáveis por um dos maiores sucessos comerciais e críticos dos anos recentes da Marvel, com a série Astonishing X-Men. Uma fase tão marcante como popular, que abriu uma nova era dos X-Men, em que Emma Frost passou a ser a líder dos mutantes, e cujo sucesso não era fácil de replicar.
Em 2008, a Marvel confiou ao britânico Warren Ellis a espinhosa missão de continuar essa fase de Whedon em Astonishing X-Men, relançando a equipa de uma maneira particularmente adequada para permitir que os novos leitores pudessem seguir com facilidade a saga dos mutantes. É precisamente Caixa Fantasma, a primeira das três histórias que Ellis escreveu para esse relançamento, que preenche o volume que chega às bancas na próxima quinta-feira. Um volume que apresenta algumas novidades aos leitores das aventuras dos X-Men.
Os mutantes têm agora uma nova base de operações, trocando a escola para mutantes de Nova Iorque criada pelo Professor Xavier, por um novo quartel-general, em São Francisco. Têm também uniformes e equipamento novos e uma equipa reformulada, que inclui um novo membro, a jovem japonesa Hisako Ichiki, com o nome de código, Armadura. Mas o principal desafio que se apresenta aos X-Men, consiste em lidar com as consequências do dia-M, o dia em que a Feiticeira Escarlate desactivou os genes-X de milhões de membros da raça mutante, deixando apenas 198 indivíduos dessa raça com os seus poderes (um acontecimento que os leitores portugueses puderam acompanhar em Dinastia de M, o primeiro volume da segunda série que o Público e a Levoir dedicaram à Casa das Ideias).
Tudo começa com uma mera operação policial em São Francisco, onde é descoberto o cadáver em chamas de um novo tipo de mutante. Acontecimento que vai dar origem a uma complexa e movimentada aventura, que passa por um cemitério de naves alienígenas em Chaparanga, onde os X-Men defrontam um inimigo poderoso e encontram um estranho artefacto: A Caixa Fantasma. Esse misterioso objecto, que dá nome ao livro, é um dispositivo que permite abrir portais para outras dimensões. Dimensões paralelas onde se encontram raças hostis e poderosas, que vêm na Terra um alvo apetecido.
Se Warren Ellis, cria uma história cativante, com aventura e emoção, a que não falta um toque de humor, sobretudo nos diálogos de Emma Frost, não podemos deixar de referir o extraordinário trabalho do desenhador italiano Simone Bianchi. Nascido em 1972 na Itália, em Lucca, Bianchi estreou-se na Marvel com Evolução, a história do Wolverine que pudemos ler na colecção Universo Marvel, mas este volume deixa perceber claramente a grande evolução do seu traço. Há um cuidado maior nos pormenores, mantendo-se inalterável um excelente sentido de composição, que lhe permite pensar a página e a dupla página com um a unidade estética autónoma, sem que com isso a narrativa perca legibilidade. E a escala cósmica e multidimensional desta aventura, proporciona-lhe algumas paisagens futuristas. Imagens complexas, que possibilitam espectaculares composições de dupla página, que acentuam a dimensão épica desta história.
Publicado originalmente no jornal Público de 28/08/2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Poderosos Heróis Marvel 6 - Justiceiro: A Ressurreição de Ma Gnucci


Mais uma vez, o texto editorial que abre este volume, é da minha autoria. Razão porque o aqui publico, em vez do texto do Público, que pode facilmente ser lido, bastando carregar na respectiva imagem.


O FIM DA VIAGEM

O protagonista deste volume da colecção Poderosos Heróis Marvel dificilmente se encaixa no título desta colecção, pois Frank Castle, o Justiceiro não tem qualquer poder e está claramente naquela fronteira difusa que separa os heróis dos vilões. Mas, apenas com a sua vontade indómita, um treino militar apurado e um impressionante arsenal bélico, o Justiceiro tornou-se rapidamente num dos mais carismáticos personagens da Marvel.
A primeira aparição do Justiceiro, teve lugar em 1974, na revista do Homem-Aranha, numa história escrita por Gerry Conway e desenhada por Ross Andru, que se inspirou em Clint Eastwood para criar a imagem do vigilante. Uma referência visual lógica, pois o Justiceiro, enquanto caçador impiedoso de criminosos, deve muito ao Dirty Harry, de Clint Eastwood e ao executor interpretado por Charles Bronson nos filmes da série Death Wish, que passaram em Portugal como o Justiceiro Implacável.
Depois de diversas aparições em histórias do Homem-Aranha e do Demolidor (onde chegou a ser desenhado por Frank Miller, que lhe deu grande destaque) o arranque a solo do Justiceiro dá-se em 1986, numa mini-série escrita por Steven Grant e desenhada por Mike Zeck, cujo sucesso levou à criação de uma revista mensal. Personagem perfeitamente enquadrada no espírito belicista da época (estávamos em plena administração Reagan e o Rambo, interpretado por Silvester Stallone era um dos símbolos da América) o Justiceiro viu a sua presença desdobrar-se por uma série de novos títulos, como Punisher War Journal, escrito por Carl Potts e desenhado por um jovem Jim Lee, cujo primeiro arco de histórias pudemos acompanhar a primeira colecção que a Levoir e o Público dedicaram à Marvel, e Punisher War Zone (com desenhos de John Romita Jr.). Já para não falar de versões do Justiceiro como anjo, ou como criatura de Frankenstein, nem das inúmeras mini-séries em que o Justiceiro enfrenta os mais variados heróis, desde Batman, Wolverine e até ao adolescente Archie, na mais inesperada das cross-overs...
Logicamente, esta superexposição levou a que o público se desinteressasse da personagem, que efectuou uma travessia do deserto até ser ressuscitado por Garth Ennis na linha Marvel Knights, no ano 2000. Uma escolha que não foi inocente, pois Ennis tinha assinado em 1995 a mais estranha e uma das mais populares das aventuras do Justiceiro, Punisher Kills the Marvel Universe, uma história cujo título fala por si…
O regresso de Ennis às histórias do Justiceiro faz-se com Welcome Back, Frank, uma série de doze números, ilustrada por Steve Dillon, que a Devir publicou em Portugal em 2004, numa edição em dois volumes, com o título O Regresso do Justiceiro, aproveitando o impacto mediático do filme de Jonathan Einsleigh, com Thomas Jane no papel de Frank Castle (o Justiceiro), que chegou às salas de cinema nesse ano. A BD de Garth Ennis e Steve Dillon acabou por ser justamente uma das principais fontes de inspiração do filme da Marvel, mas neste caso, o filme não soube estar à altura da BD original, numa adaptação falhada que nem o esforço de Thomas Jane, nem John Travolta (deliciosamente cabotino no papel de mau da fita) conseguem salvar...
Entre outros méritos, O Regresso do Justiceiro permitiu voltar a juntar Garth Ennis e Steve Dillon, a dupla responsável pela série de culto Preacher, numa história que alia o humor politicamente incorrecto a que Ennis habituou os seus leitores em Preacher, na sua passagem na série Hellblazer, ou em obras como a Pro, a uma intriga repleta de acção, em que os mortos em combate se contam às centenas.
Um dos mais famosos argumentistas de origem britânica a trabalhar nos EUA, o irlandês Garth Ennis iniciou a sua carreira em Inglaterra na revista 2000 AD, mas seria na Vertigo que o mundo descobriria o seu talento narrativo, em séries como Hellblazer, Preacher, ou Hit Man. O Justiceiro foi o seu primeiro trabalho para a Marvel, editora para onde também escreveu duas séries protagonizada por Nick Fury, duas mini-séries do Motoqueiro Fantasma e uma mini-série do Poderoso Thor, ilustrada por Glen Fabry, o autor das ilustrações de capa de Preacher.
Nascido em Londres em 1962, Steve Dillon estreou-se nos comics americanos como ilustrador da série Hellblazer, escrita por Garth Ennis, com quem voltou a colaborar na série de culto Preacher. Conhecido sobretudo pela eficácia com que os rostos que desenha conseguem transmitir todo o tipo de emoções, Dillon revelou-se igualmente à vontade nas violentas cenas de acção que enchem as histórias do Justiceiro.
Depois desta primeira história, Garth Ennis continuou a escrever as aventuras do Justiceiro durante mais oito anos, mas desta vez sem Steve Dillon do seu lado, sendo especialmente memoráveis os 60 números da série Max que escreveu para desenhadores como Leandro Fernandez e Goran Parlov, entre outros.
A história que vão ler a seguir, significa o adeus definitivo de Garth Ennis ao Justiceiro, reunindo para o efeito toda a equipa de Preacher, incluindo o colorista Matt Hollingsworth. Lançada em 2008, como uma mini-série em 6 números com o título Punisher War Zone, que remete para o filme de Lexi Alexander com o mesmo nome, que nesse ano trouxe o Justiceiro de regresso ao grande ecrã, esta era uma história que já estava escrita há mais de 3 anos, mas a que o lançamento do filme deu o empurrão decisivo para sair da gaveta.
Como referiu o próprio Ennis na altura do lançamento: “Joe Quesada tinha-me pedido para escrever esta história há cerca de três anos e meio. Ele achava que as pessoas queriam ver a Ma Gnucci e todas aquelas coisas delirantes outra vez. Eu estava algo relutante e não me interessava muito voltar a pegar naquelas personagens, mas o meu cérebro tem o hábito de me servir histórias mesmo sem eu querer.” Outra das dificuldades de Ennis era como fazer regressar Ma Gnucci, a mafiosa protagonista de O Regresso do Justiceiro, de que esta história é uma continuação directa? Ma Gnucci tinha sido lançada para a jaula de um urso polar, perdeu os braços e as pernas e o seu corpo foi atirado para uma casa a arder, estando indiscutivelmente morta. Mas, como poderão ver nas páginas seguintes, Ennis arranjou uma maneira engenhosa de a fazer regressar, bem como à detective Molly Von Richtofen, da Polícia de Nova Iorque.
Este regresso de Ennis e Dillon às histórias do Justiceiro resulta num cocktail único e inebriante de humor negro e hiperviolência, onde o politicamente correcto não tem lugar e, tratando-se de Ennis, não faltam também as referências cinematográficas, seja a O Bom, o Mau e o Vilão, de Sergio Leone, seja ao Segredo de Brokeback Mountain de Ang Lee, cujos diálogos mais emblemáticos, um mafioso simpático, que tem uma relação muito especial com uma abóbora, cita com frequência.
Steve Dillon, que Garth Ennis considera como “simplesmente o melhor narrador a trabalhar no mundo dos comics”, voltaria a desenhar o Justiceiro anos mais tarde, desta vez ao lado do argumentista Jason Aaron. Mas para o escritor irlandês, a Ressureição de Ma Gnucci significou o canto do cisne de um percurso incontornável de oito anos, trilhado em conjunto por Garth Ennis e Frank Castle.