Quase uma semana depois, aqui vos deixo as minhas impressões da 2ª Mostra do Clube Tex Portugal, que decorreu no passado fim-de-semana no Museu do Vinho, na Anadia, a uma vintena de quilómetros de Coimbra. A convite do incansável José Carlos Francisco, tive oportunidade de fazer umas perguntas e moderar a conversa com Stefano Biglia, um dos dois desenhadores do Tex presentes (o outro era Pasquale Frisenda) na tarde de domingo.
Mas o grande dia desta mostra foi o sábado, com o lançamento pela Polvo da edição portuguesa de Patagónia, o Tex Gigante desenhado por Frisenda que já tinha tido distribuição em Portugal em 2011, via edição brasileira da Mythos, de que falei aqui.
Para além de se tratar de um excelente livro, a edição da Polvo, apesar de ligeiramente mais pequena do que a edição da Mythos, compensa essa diferença de 3 cm na altura, com um tipo de papel muito superior à edição da Mythos que permite uma reprodução imaculada do traço de Frisenda, que capta todas as nuances do excelente trabalho de preto e branco de Frisenda. Com uma tiragem de apenas 500 exemplares, este segundo Tex "Made in Portugal" (o primeiro foi o volume 8 da colecção Série Ouro dos Clássicos da Banda Desenhada, lançada em 2003, como o jornal Correio da Manhã) tem tudo para ser um sucesso, face ao entusiasmo e à militância dos fãs portugueses do cowboy da editora Bonelli, pelo que não me admirava que a organização da Mostra e a Polvo, em próximas edições articulassem mais uma vez a vinda dos desenhadores, com a edição em português dos seus trabalhos.
Apenas consegui estar presente no sábado ao final da tarde, mas ainda deu para encontrar uma série de caras conhecidas destas andanças, como o João Amaral e a Cristina (a quem "roubei" a foto de grupo que publico neste post), o Geraldes Lino, Pedro Cleto, Ricardo Leite, Pedro Bouça, entre muitos outros que enchiam o Museu do Vinho.
Infelizmente, não tive grande ocasião de falar com Pasquale Frisenda, que, por razões familiares, apenas esteve presente no sábado, regressando a Itália logo de seguida, mas compensei no dia seguinte com Stefano Biglia, um ilustrador tão simpático como talentoso, que me fez uma belíssima "dedicace" em aguarela, que está entre as melhores da minha colecção.
Aqui vos deixo com um punhado de imagens desse fim-de-semana texiano, na sua maioria da autoria do fotógrafo Marco Guerra, que fez a cobertura do evento.
Foto de grupo na tarde de sábado
O jantar de sábado, na Nova Casa dos Leitões
Stefano Biglia a assinar o desenho que me fez
Exibindo o desenho para a fotografia de Marco Guerra
A belísima aguarela de Biglia, em todo o seu esplendor
sexta-feira, 15 de maio de 2015
domingo, 10 de maio de 2015
Colecção Novela Gráfica 11 - Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia
Nesta colecção Novela Gráfica, este foi um dos livros em que me deu mais prazer colaborar, não só porque conseguimos fazer uma edição que, não sendo perfeita, é possivelmente a melhor disponível a nível mundial, mas principalmente porque que se trata de um livro magnífico, de dois fantásticos criadores.
Deixo-vos aqui com o editorial que escrevi para este volume, que recupera um texto que fiz em 2009, a convite da Cristina Gouveia, para o catálogo da exposição Oesterheld: O Homem como Unidade de Medida, organizada pelo CNBDI, numa versão largamente revista, aumentada e actualizada.
O volume traz também um pósfacio meu sobre o destino trágico de Oesterheld e das suas filhas, que optei por deixar para publicar aqui mais tarde, possivelmente para o dia 4 de Setembro, dia que, desde 2005, é o "dia de la Historieta", na Argentina, precisamente por ter sido nesse dia, em 1957, que começou a ser publicado na revista HORA CERO, outro grande clássico de Oesterheld, a série El Eternauta.
AS MIL E UMA MORTES DE MORT CINDER
Do inesgotável filão de criadores que fazem da Banda Desenhada argentina uma das mais importantes a nível mundial, dois nomes sobressaem acima de todos. O de Hector German Oesterheld e o de Alberto Breccia.
Considerado muito justamente como o maior argumentista de Banda Desenhada de língua espanhola, H. G. Oesterheld, ao longo da sua carreira de quase três décadas (uma carreira extremamente produtiva, mas que foi tragicamente encurtada pela repressão da ditadura militar argentina) escreveu mais de cento e sessenta histórias para cinquenta desenhadores diferentes. Conciliando a quantidade com a qualidade na sua escrita, Oesterheld soube sempre encontrar desenhadores à altura do seu talento, conseguindo criar as parcerias adequadas a cada projecto.
De Solano Lopez em El Eternauta, passando por Hugo Pratt em Sgt. Kirk e Ernie Pike, Arturo Del Castillo em Randall, até uma colaboração com Dino Battaglia em Capitan Caribe, foram inúmeros os desenhadores com quem Oesterheld colaborou, mas a sua parceria mais importante foi a que estabeleceu com Alberto Breccia, o desenhador nascido no Uruguai, mas que fez da Argentina a sua pátria.
A primeira colaboração entre Alberto Breccia e Oesterheld deu-se em 1958, com Sherlock Time, um policial com toques de ficção científica e de fantástico, protagonizado por um detective que podia viajar no tempo (o nome, Sherlock Time, não engana), em que Breccia conseguiu criar um ambiente estranho e fantástico, sem no entanto abdicar de uma representação minuciosa e realista da cidade de Buenos Aires, onde se desenrola a intriga. Ou seja, características que encontramos também em El Eternauta, em que os leitores argentinos descobriram um espaço quotidiano que bem conheciam, a cidade de Buenos Aires, retratada com rigor fotográfico por Solano Lopéz, perturbado por fenómenos extraordinários (no caso de El Eternauta, uma invasão extraterrestre).
José Muñoz, discípulo de Breccia e seu aluno na Escola Panamericana de Artes, onde Hugo Pratt também leccionou, define assim o traço do mestre em Sherlock Time, : “em cada toque de pincel, frio, preciso e rigoroso, encontramos o tempo fechado definitivo de cada desenho. Esse pincel frio, queima”.
Em 1962, ano em que um golpe militar pretende pôr fim à actividade da guerrilha argentina, iniciada três anos antes, começa a ser publicada na revista MISTERIX aquela que é considerada a obra-prima da dupla Breccia/Oesterheld: a série Mort Cinder. Mort Cinder, como o definiu o próprio Oesterheld: “é a morte que nunca deixa de o ser (...) um herói que morre e ressuscita, e no qual há angústia e tortura". Esta capacidade de morrer e viver de novo, permite à personagem atravessar diferentes épocas e locais da história, dos quais guarda uma memória latente. O filósofo argentino Óscar Masotta, compara Mort Cinder a o Fantasma, personagem criado por Lee Falk, salientado o que os separa: “na verdade, Mort Cinder, o “homem das mil e uma mortes”, é uma interessante inversão do esquema que rege a personagem de Lee Falk, o ‘‘fantasma que caminha”, o único herói de BD que morre... (no Fantasma, o personagem não morre, só morrem os homens que vestem o fato de Fantasma, que passa de gerações em, gerações; em Mort Cinder o homem é imortal, só morrem as suas múltiplas incarnações históricas).” O Escritor argentino Juan Sasturain é mais pragmático, referindo: “Mort Cinder é mais um mecanismo do que uma personagem – sendo todos, não é ninguém - que serve de pretexto para tecer histórias sombrias de amor e morte”. E a morte, que Oesterheld considerava a maior das personagens, está bem presente no nome de Mort Cinder, mais um nome que não engana, e que evoca a morte e as cinzas.
Na prática, Mort Cinder é a sequência lógica e natural de outras personagens criadas anteriormente por Oesterheld, pois tal como Sherlock Time, ou o Juan Salvo de El Eternauta, Mort Cinder é mais um herói criado por Oesterheld que está liberto das leis do espaço e do tempo.
Se no caso de Juan Salvo e Sherlock Time essas viagens são feitas com recursos a máquinas sofisticadas, Mort Cinder viaja através da sua memória e das recordações que ela encerra. Recordações que são normalmente espoletadas por um qualquer objecto, cuja história está ligada a uma anterior vivência de Cinder. De modo a facilitar o reviver dessas experiências, Oesterheld criou como co-protagonista e narrador da série, a personagem de Ezra Winston, um antiquário amigo de Mort, que tem as feições do próprio Alberto Breccia, numa perturbante antevisão do que seria o rosto envelhecido do desenhador, algo que Breccia já tinha tentado antes com Eustáquio Mendez, personagem que aparece en El Ídolo, o segundo episódio de Sherlock Time, e cujas parecenças com Ezra Winston e com o próprio Breccia, são tão evidentes como inegáveis.
Já o rosto de Mort Cinder - que Breccia demorou a encontrar, razão que obrigou Oesterheld a retardar a entrada em cena de Cinder no episódio inicial, Os Olhos de Chumbo - é inspirado em Horácio Lalia, um futebolista argentino que mais tarde se tornaria também ele desenhador.
Já o rosto de Mort Cinder - que Breccia demorou a encontrar, razão que obrigou Oesterheld a retardar a entrada em cena de Cinder no episódio inicial, Os Olhos de Chumbo - é inspirado em Horácio Lalia, um futebolista argentino que mais tarde se tornaria também ele desenhador.
Demos outra vez a palavra a Oesterheld, desta vez partindo de um texto escrito em 1972, em que a personagem de Ezra Wiston se define na primeira pessoa e tenta explicar quem é Mort Cinder: “as coisas velhas ficam impregnadas da vida que as envolveu. Mas muito poucos conseguem captar as angústias, as emoções que ficaram aprisionadas, fósseis invisíveis, dentro das coisas velhas. Sou uma dessas raras pessoas, daí me ter tornado antiquário. Também sinto fascinação pelos templos, não importa a religião. Tantas preces, tanta dor, tanta esperança, dormem nas paredes de um templo. Também me fascinam as armas, carregadas para sempre com a morte que alguma vez deram. Morte talvez criminosa, talvez libertadora.
Mort Cinder consegue captar melhor, muito melhor do que eu ou qualquer outro, toda essa vida cristalizada para sempre. Mort Cinder é talvez essa vida que ficou incrustada na matéria inerte (nunca direi morte) das coisas. E digo talvez, porque nem eu, que vivi tanto tempo com ele, sei dizer quem é Mort Cinder”.
A partir deste esquema narrativo simples, mas engenhoso e cheio de potencialidades, a série foi sendo construída, de forma não muito planeada e quase mecânica, com o tema dos primeiros episódios a ser estruturado à medida que eram escritos, o que justifica alguns desequilíbrios. Mas Oesterheld não se preocupava em esconder o jogo, pois declarou numa célebre entrevista a Carlos Trillo e Guilhermo Saccomano, publicada em Portugal na revista Tintin, que: “as faltas e indefinições de Mort Cinder foram mais tarde elogiadas como uma descoberta acertada. Mas mentiria se afirmasse ter sido intencional. Na realidade, esse êxito, se assim se pode considerar, foi resultado das circunstâncias”.
Este carácter experimental está igualmente patente nos desenhos de Breccia, que, quando começou a desenhar a série, “não podia saber o que devia fazer, nem tão pouco comecei a ver o que os outros faziam”, optando por um estilo próprio, em que o jogo contrastante de luz e sombras e as figuras angulosas se adaptavam ao clima específico de cada história, ajudando a criar um ambiente de permanente tensão, com Breccia a variar as técnicas conforme as necessidades das histórias, como é o caso dos dois episódios passados na prisão, em que o trabalho do desenhador com tramas mecânicas é absolutamente notável e inovador.
Este carácter experimental está igualmente patente nos desenhos de Breccia, que, quando começou a desenhar a série, “não podia saber o que devia fazer, nem tão pouco comecei a ver o que os outros faziam”, optando por um estilo próprio, em que o jogo contrastante de luz e sombras e as figuras angulosas se adaptavam ao clima específico de cada história, ajudando a criar um ambiente de permanente tensão, com Breccia a variar as técnicas conforme as necessidades das histórias, como é o caso dos dois episódios passados na prisão, em que o trabalho do desenhador com tramas mecânicas é absolutamente notável e inovador.
Do mesmo modo, a iluminação que Breccia dá às suas pranchas, digna do melhor cinema expressionista, vai tornando-se cada vez mais dramática ao longo da série, fruto do próprio estado de espírito do desenhador, cuja primeira mulher estava à morte. Para esse efeito dramático contribui, e muito, a troca do “pincel frio que queima”, usado em Sherlock Time, pela lâmina que rasga a pele e as sombras, mais exactamente, lâminas de barbear utilizadas como espátulas, aspecto em que Breccia foi pioneiro e que resulta particularmente eficaz nos grandes planos dos rostos. Rostos sofridos, marcados pela vida e pelo destino, que não escondem uma profunda tristeza e sofrimento.
Igualmente inovador é o seu jogo de sombras em negativo e o preto e branco de alto contraste, aspecto que influenciou vários desenhadores, sendo Frank Miller, em Sin City, o exemplo mais evidente.
Igualmente inovador é o seu jogo de sombras em negativo e o preto e branco de alto contraste, aspecto que influenciou vários desenhadores, sendo Frank Miller, em Sin City, o exemplo mais evidente.
O próprio Oesterheld é o primeiro a reconhecer a importância do desenho de Breccia para o sucesso de Mort Cinder, ao dizer: “Há sofrimento, tormento em Mort Cinder. Isso reflecte talvez o meu estado de alma particular, mas o essencial dessa atmosfera vem de Breccia. Há uma quarta dimensão no seu desenho, uma capacidade de sugestão que o distingue da maioria dos desenhadores que conheço. É essa força constantemente aplicada, que dá ao seu desenho todo o seu valor e inflama a imaginação dos argumentistas.”
Em 1964, após terem sido publicadas mais de duzentas pranchas, correspondentes a dez episódios, em que Mort Cinder nos guiou da construção da Torre de Babel até às trincheiras da I Guerra Mundial, passando pela Batalha das Termópilas, em que 300 espartanos retardaram o avanço do poderoso exército de Xerxes, a série chega ao fim. O episódio dedicado à batalha das Termópilas é mesmo o último e nele, Mort Cinder, único sobrevivente das tropas espartanas, é deixado ir em paz pelo próprio Xerxes que, impressionado com a sua coragem lhe diz: “vai-te homem de Esparta... tu és mais Rei do que eu, és rei de ti próprio...” Um último diálogo, que poderia funcionar como epitáfio do próprio Oesterheld, “desaparecido” em 1977, juntamente com as quatro filhas, e que, provavelmente durante o ano de 1978, terá pago com a vida o ter querido ser Rei de si próprio, numa terra onde os militares não tinham um milésimo da nobreza de espírito do Grande Rei Xerxes...
O grande investimento artístico e humano dos seus autores foi recompensado, pois não só Mort Cinder é tida como uma das séries mais importantes da BD mundial, como o próprio Breccia a considerava, muito justamente, como a melhor coisa que fizera.
Em Portugal, onde a obra de Oesterheld tem sido insuficientemente divulgada, Mort Cinder é honrosa excepção. O episódio O Vitral, foi publicado em 1979 no jornal Lobo Mau, numa época em que, na Argentina, Oesterheld, ligado à guerrilha montonera e na clandestinidade desde 1976, já tinha sido preso e já estaria morto.
O resto da série foi parcialmente editada em álbum pelas Edições Asa, já neste século, embora essa editora tenha lançado apenas Os Olhos de Chumbo, o primeiro dos dois volumes que compõem a série na edição francesa da Vertige Graphic, que serve de base à edição da Asa. Finalmente, graças à edição que têm nas mãos, está finalmente disponível numa edição integral, bastante mais fiel ao original e com superior qualidade de reprodução, esta magnífica série, ponto mais alto da frutuosa colaboração entre Alberto Breccia e Hector German Oesterheld.
O resto da série foi parcialmente editada em álbum pelas Edições Asa, já neste século, embora essa editora tenha lançado apenas Os Olhos de Chumbo, o primeiro dos dois volumes que compõem a série na edição francesa da Vertige Graphic, que serve de base à edição da Asa. Finalmente, graças à edição que têm nas mãos, está finalmente disponível numa edição integral, bastante mais fiel ao original e com superior qualidade de reprodução, esta magnífica série, ponto mais alto da frutuosa colaboração entre Alberto Breccia e Hector German Oesterheld.
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terça-feira, 5 de maio de 2015
A Despedida da Colecção Novela Gráfica
Esta semana chegou ao fim a Colecção Novela Gráfica, com dois volumes distribuídos em dias sucessivos. Mort Cinder, na quarta-feira e Bando de Dois, no dia seguinte. Por isso, o meu texto para o Público foi dedicado aos dois livros em conjunto. Aqui deixo esse texto, prometendo mais para a frente dois textos mais longos, dedicados aos volumes individuais, começando por Mort Cinder, cujo editorial aqui publicarei durante o fim de semana. Até lá, aqui fica o meu último texto para o Público sobre a colecção Novela Gráfica.
NO FINAL DA COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA
Novela Gráfica – Vol. 11
Mort Cinder
6 de Maio
Argumento – Hector G. Oesterheld
Desenho – Alberto Breccia
Por + 9,90€
Novela Gráfica – Vol. 12
Bando de Dois
7 de Maio
Argumento e Desenho – Danilo Beyruth
Por + 9,90€
A colecção Novela gráfica chega ao fim na próxima semana, com o lançamento em dias simultâneos dos dois últimos volumes da colecção: Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia e Bando de Dois, de Danilo Beyruth. Um clássico incontornável da BD argentina e mundial e a obra de confirmação de um novo talento da BD brasileira.
Assim, logo na quarta-feira, dia 6 de Maio, chega às bancas a versão integral de Mort Cinder, do argentino Hector German Oesterheld e do uruguaio Alberto Breccia. No dia seguinte, é a vez de O Bando de Dois, do brasileiro Danilo Beyruth, fechar esta primeira colecção que o Público e a Levoir dedicam à novela gráfica.
Publicado originalmente na Argentina entre 1962 e 1964 na revista Misterix, Mort Cinder é uma obra de culto, considerada como o ponto mais alto da obra conjunta dos dois geniais criadores, que compreende títulos tão importantes como a série Sherlock Time, as biografias em BD de Ché Guevara e Evita Péron e a versão de 1969 de El Eternauta.
Nascido em 1919 em Buenos Aires, Oesterheld formou-se em geologia, mas cedo optou por se tornar escritor e jornalista, em vez de geólogo. Tendo começado a escrever para os jornais nos anos 40, só 10 anos depois escreveu a sua primeira Banda Desenhada, por sugestão de um editor, pois Osterheld nem sequer era leitor regular, nem tinha qualquer experiência no género. Isso não o impediu de, em menos de 30 anos, entre 1950 e 1976, ano em que “desapareceu” às mãos do exército argentino, ter escrito mais de cento e sessenta histórias para cinquenta desenhadores diferentes, entre os quais Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese.
Da sua obra ressaltam títulos incontornáveis, como a série El Eternauta, Sargento Kirk, ou Ernie Pike, mas Mort Cinder é considerado, muito justamente, como o seu mais importante trabalho.
Mort Cinder, como o definiu o próprio Oesterheld: “é a morte que nunca deixa de o ser (...) um herói que morre e ressuscita, e no qual há angústia e tortura". Esta capacidade de morrer e viver de novo, permite à personagem atravessar diferentes épocas e locais da história, dos quais guarda uma memória latente, que é despertada por um qualquer objecto, cuja história está ligada a uma anterior vivência de Cinder. De modo a facilitar o reviver dessas experiências, Oesterheld criou como co-protagonista e narrador da série, a personagem de Ezra Winston, um antiquário amigo de Mort, que tem as feições do desenhador Alberto Breccia.
O próprio Oesterheld é o primeiro a reconhecer a importância do desenho de Breccia para o sucesso de Mort Cinder, ao dizer: “Há sofrimento, tormento em Mort Cinder. Isso reflecte talvez o meu estado de alma particular, mas o essencial dessa atmosfera vem de Breccia. Há uma quarta dimensão no seu desenho, uma capacidade de sugestão que o distingue da maioria dos desenhadores que conheço. É essa força constantemente aplicada, que dá ao seu desenho todo o seu valor e inflama a imaginação dos argumentistas.”
E o trabalho de Breccia, desenhador de origem uruguaia que fez carreira na Argentina, é não só sugestivo, mas extraordinariamente inovador, misturando as mais diversas técnicas, desde o uso de colagens à utilização de lâminas de barbear como espátulas, para criar páginas únicas, com um preto e branco de alto contraste, que influenciou artistas como José Muñoz e Frank Miller, que no seu Sin City foi beber directamente ao trabalho de Breccia em Mort Cinder.
A luta dos cangaceiros, homens a meio caminho entre o salteador e o guerrilheiro, que combatiam a lei no sertão brasileiro nas primeiras décadas do século XX tem conhecido as mais diversas abordagens, desde a literatura de cordel, o cinema, com filmes como O Cangaceiro, de Lima Barreto (1953), ou Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (1964) e, naturalmente, a BD, onde para além de diversos autores brasileiros, grandes nomes europeus como Hermann (Caatinga) ou Hugo Pratt (La Macumba du Gringo) abordaram o fenómeno. Em Bando de Dois, Danilo Beyruth revela-se à altura de tão ilustres antecessores, ao criar uma história de vingança, que em termos de planificação e enquadramentos, vai beber muito aos Western Spaguetti de Sérgio Leone. História dura e violenta, contada com grande dinamismo e eficácia, Bando de Dois arrecadou todos os principais prémios da indústria brasileira aquando da sua publicação original em 2010, encerrando assim com chave de ouro a colecção Novela Gráfica.
Publicado originalmente no jornal Público de 01/05/2015
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quinta-feira, 30 de abril de 2015
Colecção Novela Gráfica 10 - O Diário do meu Pai, de Jiro Taniguchi
TANIGUCHI REGRESSA AO PASSADO COM O DIÁRIO DO MEU PAI
Novela Gráfica – Vol. 10
O Diário do meu Pai
30 de Abril
Argumento e Desenho – Jiro Taniguchi
Por + 9,90€
Na próxima quinta-feira, a colecção Novela Gráfica acolhe Taniguchi, o mais ocidental dos autores japoneses, com O Diário do meu Pai, uma história intimista e plena de sensibilidade, com laivos autobiográficos, considerada como um dos mais importantes trabalhos do autor nipónico.
Nascido em 1947 em Tottori, no Japão, Jiro Taniguchi começou a sua vida profissional como empregado de escritório, até descobrir que aquilo que queria realmente fazer era desenhar. Nos inícios dos anos 70, começou a publicar os seus trabalhos em diversas revistas japonesas, dando início a uma carreira sólida e prestigiada. Grande conhecedor da BD franco-belga e admirador confesso de autores como Moebius, Schuiten e Tito, Taniguchi, que já desenhou um argumento de Moebius, colaborou com Boilet e Peeters em Tokio est mon Jardin, foi o único autor japonês a ganhar dois prémios em Angoulême, o maior Festival de BD europeu, que lhe dedicou uma grande exposição em 2015.
Em O Diário do meu Pai, Taniguchi conta-nos a história de Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio e regressa a Tottori, a sua terra natal, depois de uma longa ausência, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que o leva a evocar a infância e a perceber finalmente o verdadeiro motivo por que o pai abandonou a família.
Taniguchi queria contar uma história que tivesse a sua terra natal, Tottori, como cenário, mas, como refere numa entrevista a Benoit Peeters: “quando me pus a reflectir na história, apercebi-me que, de facto, não sabia quase nada sobre o meu pai. Imaginei então uma personagem que regressa à sua terra natal para descobrir quem era verdadeiramente o seu pai. Comecei a fazer as pesquisas, voltei a Tottori para recolher documentação e aos poucos, a história nasceu (…) A história é inventada, mas os sentimentos e o espírito da história resultam da minha experiência pessoal. Tinha em relação ao meu pai o mesmo tipo de sentimentos que estão descritos no livro. No fundo, durante a minha juventude, tinha a ideia que não queria ser como ele. Achava que a vida do meu pai não era uma vida interessante. Mas depois, descobri que afinal não era bem assim, e é isso mesmo que tento transmitir neste livro”.
Não sendo a primeira vez que os leitores portugueses têm oportunidade de descobrir o trabalho de Taniguchi, pois O Homem que Caminha foi editado em 2005 na Série Ouro da Colecção Clássicos da Banda Desenhada, foi preciso esperar 10 anos para o poder voltar a ler novamente em português, mas desta vez numa edição em capa dura, traduzida directamente do japonês. Também por isso, valeu a pena a espera!
Publicado originalmente no jornal Público de 24/04/2015
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quinta-feira, 23 de abril de 2015
Colecção Novela Gráfica 9 - Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites, de Sergio Toppi
Desta vez, o espaço que o Público me disponibilizou foi bastante mais reduzido do que o habitual, devido ao destaque (natural e compreensível) que o jornal deu à reedição facsimilidada da mítica revista Orfeu. Assim, para além do texto de apresentação, demasiado curto para a importância do livro e para a genialidade do trabalho gráfico de Sergio Toppi, deixo-vos aqui o link do texto que escrevi sobre Toppi para a revista Bang!, aquando da morte do desenhador italiano, e com um punhado de imagens do mais bonito livro desta colecção, que chega hoje aos quiosques de todo o país.
TOPPI REINVENTA AS MIL E UMA NOITES EM SHARAZ-DE
Novela Gráfica – Vol. 9
Sharaz-De: Contos das Mil e Uma Noites
23 de Abril
Argumento e Desenho – Sergio Toppi
Por + 9,90€
No próximo volume da colecção Novela Gráfica, vai estar em destaque o imenso talento de Sergio Toppi, o mestre italiano que é o autor de Sharaz-De, uma adaptação única dos contos das Mil e Uma Noites, considerada como a sua obra-prima.
Nascido em Milão, em 1932, Toppi foi um dos mais inovadores e talentosos desenhadores europeus, premiado no Festival de Lucca de 1992, com o Yellow Kid para Melhor Desenhador. Em 1979, realizou para a revista italiana Alter Alter um conjunto de oito contos inspirados pelas Mil e Uma Noites, reunidos sob o título Sharaz-De. Face ao sucesso da edição francesa de Sharaz-De, publicada em 2000, a sua editora propôs-lhe criar uma continuação, com três novas histórias.
É a edição integral deste clássico incontornável da banda desenhada que os leitores podem descobrir, já na próxima semana. Uma oportunidade única de admirar o seu desenho deslumbrante, em que as personagens parecem cristalizadas numa natureza ameaçadora, o fantástico que emerge das suas histórias e a forma única de pulverizar a estrutura clássica da página, em que a divisão tradicional em tiras e quadrados, dá lugar a uma planificação mais dinâmica e artística, que considera a página como um todo, criando composições de grande equilíbrio e dinamismo. Elementos que fazem da obra de Toppi, algo único e inesquecível.
Publicado originalmente no jornal Público de 17/04/2015
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