segunda-feira, 6 de abril de 2015
Saga, o épico familiar de Brian k. Vaughan e Fiona Staples
Imaginem a história de Romeu e Julieta, mas com os dois amantes de Verona a trocarem uma morte romântica por uma vida em conjunto, com a filha que nasceu deste amor proibido. Em seguida troquem a Verona do século XVI pelo espaço sideral, juntem uma pitada de humor à história e dêem à Julieta uma personalidade forte e o resultado é a série Saga, um dos maiores sucessos dos Comics americanos dos últimos anos que, por uma vez, também está disponível em Portugal, numa bela edição em capa dura da G Floy.
Criada pelo Argumentista Brian K. Vaughan e pela Ilustradora Fiona Staples, Saga é um dos melhores exemplos dos novos caminhos que a Editora Image tem percorrido e que fazem dela a mais interessante editora de Comics do mercado americano actual e uma das de maior sucesso. Embora a série tenha começado a ser publicada nos EUA em Março de 2012, a verdade é que o conceito inicial é muito anterior, remontando à infância de Vaughan que refere "foi um universo ficcional que criei quando estava aborrecido nas aulas de matemática e que, a partir daí foi crescendo". Mas o click definitivo só aconteceria quando o escritor foi pai de uma menina. Nas palavras de Vaughan, "queria escrever sobre a experiência de ser pai, mas queria arranjar uma espécie de Cavalo de Tróia que me permitisse encaixar esse tema numa história interessante que desse para explorar os pontos de contacto entre a criação artística e a responsabilidade de criar um filho. "
E o escritor concretiza: "apercebi-me que fazer Comics e fazer filhos são coisas muito parecidas e que podia combinar as duas coisas numa mesma história e essa história seria muito menos chata se a ambientasse num universo alucinado que misturasse ficção científica e fantasia, em vez de me limitar a contar anedotas sobre mudar fraldas.(...) Não queria contar uma aventura tipo Star Wars, com todos esses nobres heróis a combater um Império. Interessava-me mais contar a história das personagens secundárias, que só querem escapar a uma guerra sem fim".
Quando o projecto foi divulgado pela primeira vez na San Diego Comic Con de 2011, o departamento de comunicação da Image apresentou Saga como "Star Wars encontra Game of Thrones", uma descrição apelativa, mas que não faz inteira justiça ao conceito por trás da série de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, pois se Saga se aproxima da saga épica de George R. R. Martin na presença da magia e no acompanhar de diferentes personagens que procuram sobreviver num mundo em guerra, essa guerra não é o centro da história. No centro da história estão as pessoas. Ou, para usar uma comparação feliz de Vaughn: “sempre achei que a guerra era tão importante para a nossa história, como era para a do filme Casablanca. Ou seja, era muito importante, mas não tão importante como as vidas das pessoas cuja história o filme conta”.
Por isso, o tom da BD de Vaughan e Staples acaba por estar mais próximo de comédias românticas como Modern Family, o que só demonstra a capacidade do autor de chegar a diferentes públicos, algo que esteve sempre presente na obra de Brian K. Vaughan. Por isso, para além da aventura, da magia, dos combates, temos um jovem casal com um filho recém-nascido, que tem de aprender a viver com essa nova realidade e que, num cenário fantástico e delirante, se debate com problemas iguais aos de qualquer jovem casal, desde a chegada dos sogros, que fecha o primeiro volume, ao reaparecimento de uma antiga namorada de Marko. Mas a pressão da vida familiar não afecta apenas os heróis da história, pois também o seu principal adversário, o Príncipe Robot IV, preferia estar em casa a acompanhar a gravidez da sua mulher e o nascimento do seu primeiro filho, em vez de ter que percorrer o cosmos em perseguição dos amantes fugitivos.
Com uma carreira dividida entre a Banda Desenhada e a televisão (foi um dos argumentista de Lost e é produtor de Under the Dome, a série televisiva baseada no romance de Stephen King com o mesmo nome) Vaughan foi responsável por duas das mais interessantes séries de comics deste século, que partem de cenários típicos de ficção científica, para uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. Foi o caso de Ex-Machina, série publicada pela Wild Storm, sobre um antigo super-herói que se torna Presidente da Câmara de Nova Iorque e que acaba por perceber que a política implica concessões e escolhas morais pouco consentâneas com os ideais defendidos por um super-herói.
Mas o seu trabalho mais conhecido, é Y, the Last Man, série da Vertigo, ilustrada por Pia Guera, que explora a vida de um homem num mundo em que toda a população masculina foi dizimada por um vírus e apenas as mulheres sobreviveram. Uma premissa típica de um episódio da série televisiva Twilight Zone, mas que Vaughn desenvolve de forma bastante interessante e inesperada.
Em Portugal, até à publicação de Saga pela G Floy, apenas tinham sido editados O Juramento, uma aventura do Dr. Strange, ilustrada pelo espanhol Marcos Martin, publicada na primeira colecção que a Levoir e o jornal Público dedicaram à Marvel e o excelente Fábula de Bagdad, baseado na história verídica de um bando de leões que escapou do zoo de Bagdad durante a Guerra do Golfo, magnificamente ilustrada pelo canadiano Niko Henrichon, que a BD Mania editou em Portugal na década de 2000.
Mas voltemos a Saga, para vermos mais em pormenor os principais protagonistas desta aventura cósmica, sobre as dificuldades de se criar uma filha, ainda para mais quando se pertence a espécies diferentes, que se guerreiam até à morte e se está no centro de uma guerra espacial.
Para além de Marko e Alana, o casal multirracial cuja história de amor está no centro da intriga, temos também Hazel, a filha do casal, a cujo nascimento assistimos nas primeiras páginas do livro e que narra a história. Um dispositivo narrativo, a “voz of”, que Vaughn utiliza aqui pela primeira vez numa BD, com excelentes resultados. Mas como na maioria das boas histórias, os personagens secundários são também importantes e carismáticos. Veja-se o mercenário A Vontade, uma mistura de Han Solo e Boba Fett, para voltarmos à comparação entre Saga e Star Wars, que tem uma grande vantagem sobre Han Solo, ao contar com um companheiro muito mais carismático do que o peludo Chewbaca, que é a fabulosa Gata Mentirosa. Um animal que entra de caras para a lista dos mais inesquecíveis animais da história da Banda Desenhada, muito por força do excelente trabalho gráfico de Fiona Staples, que lhe dá uma extraordinária expressividade.
Com um estilo que está longe de ser imediatamente consensual, o que faz com que o famoso slogan de Fernando Pessoas para a Coca-Cola, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, assente com uma luva ao seu grafismo singular. Senhora de um traço estilizado, tão simples como elegante, a que a cor digital dá profundidade, Staples foi escolhida por Vaughan, seguindo uma sugestão do escritor Steve Niles, que tinha trabalhado com a ilustradora canadiana na série Mystery Society. E Vaughan não podia nos elogios à sua companheira nesta aventura, afirmando: “a arte dela é incrível. Não se parece com nada. É completamente única”.
Conquistando seis prémios Eisner e seis Prémios Harveys, os principais galardões da indústria dos comics e um Hugo, prémio máximo da ficção científica, em apenas dois canos, Saga tem aliado o reconhecimento crítico ao sucesso comercial. Um sucesso que se está a concretizar também em Portugal, em que o segundo volume de Saga já deverá já estar nas livrarias nacionais quando este número da revista Bang! chegar à FNAC.
ACTUALIZAÇÃO - O 2º volume da série Saga vai ser distribuído na 2ª quinzena deste mês de Abril, juntamente com o 2º volume da série Fatale, de Ed Brubaker e Sean Phillips, que a G Floy também está a publicar em Portugal.
Texto originalmente publicado no nº 17 da revista Bang!, em Março de 2015.
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quinta-feira, 2 de abril de 2015
Colecção Novela Gráfica 6 - A Arte de Voar, de António Altarriba e Kim
A ARTE DE VOAR, OU O MERGULHO NO PASSADO
Novela Gráfica – Vol. 6
A Arte de Voar
Argumento – Antonio Altarriba
Desenhos – Kim
Quinta, 02 de Abril
Por + 9,90€
Na próxima quinta-feira os leitores portugueses vão poder descobrir a mais premiada das novelas gráficas espanholas: A Arte de Voar, de António Altarriba e Kim, um mergulho na história do século XX espanhol, tendo por base a experiência pessoal do pai do autor, o escritor e professor universitário António Altarriba, a que o desenhador Kim dá corpo.
Publicado originalmente em 2009, A Arte de Voar começou por ganhar o Prémio Calamo desse ano, para no ano seguinte arrebatar todas as mais importantes distinções espanholas, começando pelo Prémio Nacional da Catalunha (Comic), pelos troféus de Melhor Obra, Melhor Argumento e Melhor Desenho de autor espanhol do Salão do Comic de Barcelona, para culminar no Prémio Nacional do Comic de 2010. Um palmarés impressionante, revelador do impacto crítico de uma obra que extravasa o âmbito da Banda Desenhada e que afirma (e confirma) a força da novela gráfica no país vizinho.
Biografia de Antonio Altarriba Lope, nascido em 1910, em Peñaflor, numa aldeia perto de Saragoça, A Arte de Voar tem por base as memórias que Altarriba deixou escritas quando, em 2001, decidiu pôr termo à vida, lançando-se da janela do quarto andar do lar em que vivia. Memórias que o seu filho transformou numa narrativa poderosa, em que a vida de um homem que atravessou os momentos mais marcantes do século XX espanhol, com destaque para a Guerra Civil e para a 2ª Guerra Mundial, se (com)funde com a história do país.
Diz-se que, ao morrer, uma pessoa revive em segundos os principais acontecimentos da sua vida e é esse o mecanismo narrativo que Altarriba (filho) vai usar para contar a história de Altarriba (pai), transformando os poucos segundos da queda para a morte de Antonio Altarriba Lope em noventa anos de vida. O facto de o autor contar as memórias do seu pai, aproxima este livro de outro clássico da Novela Gráfica, o Maus de Art Spiegelman, mas aqui autor e personagem, pai e filho, acabam por se fundir no narrador: “o meu pai, que agora sou eu”, como refere o autor logo no início da história, enquanto que em Maus, a relação entre Art Spiegelman e o seu pai, Vladek, é marcada pelo antagonismo.
Relato sem concessões da dura realidade de um homem, romântico e anarquista, que vê ruir todos os seus sonhos e afundar todas as utopias por que lutou, A Arte de Voar, conta com o inspirado trabalho gráfico de Kim, cujo traço extraordinariamente detalhado, num estilo que oscila entre o hiper-realismo e a caricatura, dá corpo (e alma) às memórias de Antonio Altarriba Lope. De seu nome Joaquim Aubert i Puig-Arnal, o desenhador catalão Kim é um dos fundadores da revista satírica El Jueves, (título que pode ser visto como o equivalente espanhol da Charlie Hebdo) onde criou o emblemático Martinez, el Facha. Habituado ao registo das histórias curtas, Kim tem aqui o seu trabalho de maior fôlego e o mínimo que se pode dizer é que os dois anos passados a desenhar A Arte de Voar compensaram, pois permitiram dar vida a esta obra absolutamente incontornável, que o Público e a Levoir agora dão a descobrir aos leitores portugueses.
Publicado originalmente no jornal Público de 27/03/2015
Novela Gráfica – Vol. 6
A Arte de Voar
Argumento – Antonio Altarriba
Desenhos – Kim
Quinta, 02 de Abril
Por + 9,90€
Na próxima quinta-feira os leitores portugueses vão poder descobrir a mais premiada das novelas gráficas espanholas: A Arte de Voar, de António Altarriba e Kim, um mergulho na história do século XX espanhol, tendo por base a experiência pessoal do pai do autor, o escritor e professor universitário António Altarriba, a que o desenhador Kim dá corpo.
Publicado originalmente em 2009, A Arte de Voar começou por ganhar o Prémio Calamo desse ano, para no ano seguinte arrebatar todas as mais importantes distinções espanholas, começando pelo Prémio Nacional da Catalunha (Comic), pelos troféus de Melhor Obra, Melhor Argumento e Melhor Desenho de autor espanhol do Salão do Comic de Barcelona, para culminar no Prémio Nacional do Comic de 2010. Um palmarés impressionante, revelador do impacto crítico de uma obra que extravasa o âmbito da Banda Desenhada e que afirma (e confirma) a força da novela gráfica no país vizinho.
Biografia de Antonio Altarriba Lope, nascido em 1910, em Peñaflor, numa aldeia perto de Saragoça, A Arte de Voar tem por base as memórias que Altarriba deixou escritas quando, em 2001, decidiu pôr termo à vida, lançando-se da janela do quarto andar do lar em que vivia. Memórias que o seu filho transformou numa narrativa poderosa, em que a vida de um homem que atravessou os momentos mais marcantes do século XX espanhol, com destaque para a Guerra Civil e para a 2ª Guerra Mundial, se (com)funde com a história do país.
Diz-se que, ao morrer, uma pessoa revive em segundos os principais acontecimentos da sua vida e é esse o mecanismo narrativo que Altarriba (filho) vai usar para contar a história de Altarriba (pai), transformando os poucos segundos da queda para a morte de Antonio Altarriba Lope em noventa anos de vida. O facto de o autor contar as memórias do seu pai, aproxima este livro de outro clássico da Novela Gráfica, o Maus de Art Spiegelman, mas aqui autor e personagem, pai e filho, acabam por se fundir no narrador: “o meu pai, que agora sou eu”, como refere o autor logo no início da história, enquanto que em Maus, a relação entre Art Spiegelman e o seu pai, Vladek, é marcada pelo antagonismo.
Relato sem concessões da dura realidade de um homem, romântico e anarquista, que vê ruir todos os seus sonhos e afundar todas as utopias por que lutou, A Arte de Voar, conta com o inspirado trabalho gráfico de Kim, cujo traço extraordinariamente detalhado, num estilo que oscila entre o hiper-realismo e a caricatura, dá corpo (e alma) às memórias de Antonio Altarriba Lope. De seu nome Joaquim Aubert i Puig-Arnal, o desenhador catalão Kim é um dos fundadores da revista satírica El Jueves, (título que pode ser visto como o equivalente espanhol da Charlie Hebdo) onde criou o emblemático Martinez, el Facha. Habituado ao registo das histórias curtas, Kim tem aqui o seu trabalho de maior fôlego e o mínimo que se pode dizer é que os dois anos passados a desenhar A Arte de Voar compensaram, pois permitiram dar vida a esta obra absolutamente incontornável, que o Público e a Levoir agora dão a descobrir aos leitores portugueses.
Publicado originalmente no jornal Público de 27/03/2015
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domingo, 29 de março de 2015
As 10 Melhores BDs que li em 2014 - Parte 2
E aqui fica a segunda, e ultima, parte da lista das 10 Melhores BDs que li em 2014, onde aparecem alguns nomes que,de ano para ano, vão sendo recorrentes, como Naoki Urasawa, ou Marco Mendes. Quanto a editoras, a Image volta a aparecer, confirmando-se como a mais interessante editora americana da actualidade. Mas aqui fica o resto da lista, esperando que no próximo ano, consiga publicar este Best Of bem mais cedo...
6 - Los Zurcos del Azar, Paco Roca, Astiberri
Conhecido em Portugal pelo premiado Rugas, Paco Roca tem aqui o seu trabalho mais ambicioso nesta biografia ficcionada de Miguel Ruiz, que lhe permite contar a história de La Nueve, uma companhia do exército da França Livre, composta maioritariamente por espanhóis que tinham lutado do lado da República durante a Guerra Civil espanhola e que vão participar na libertação de Paris. Com uma estrutura narrativa que o aproxima do Maus de Art Spiegelman, Los Zurcos del Azar confirma o virtuosismo narrativo de Roca e o seu indiscutível talento.
7 - Manifest Destiny, Chris Dingess e MaThew Roberts, Image
Mais uma excelente nova série da Image, que pega na famosa expedição de Lewis e Clark, que no início do século XIX encetou a exploração costa a costa do continente norte-americano, introduzindo-lhe um toque fantástico que faz toda a diferença. É uma daquelas ideias tão simples quanto geniais, muito bem explorada por Dingess, e que tem no trabalho gráfico de Roberts e nas cores de Owen Gieni, uma mais-valia. Outro grande título da Image, a seguir com atenção.
8 - Master Keaton, Naoki Urasawa, Hokusei Katsushika e Takashi Nagasaki, Kana
Mais uma vez, um título de Urasawa entra numa minha lista de Melhores Leituras do ano. Neste caso, um trabalho mais antigo, em que Urasawa assina inicialmente apenas o desenho, pertencendo a história numa primeira fase a Katsushika e Nagasaki. Ao contrário dos outros títulos de Urasawa, que eram histórias de grande fôlego, Master Keaton é composto por episódios de 20 a 40 páginas que podem ser lidos de forma isolada, sendo por isso, um óptimo ponto de entrada na obra do meu autor japonês favorito.
9 - Sugar Skull, de Charles Burns, Pantheon
Capítulo final da trilogia hergeana de Charles Burns, Sugar Skull é o final inesperado de uma história estranha e perturbadora que articula a linha clara e o universo de Hergé, com o universo sombrio habitual de Burns, numa história com várias camadas e diferentes níveis de leitura. Embora não seja de apreensão tão imediata, esta trilogia está perfeitamente ao nível de Black Hole, o seu trabalho anterior.
10 - Zombie, de Marco Mendes, Mundo Fantasma/Turbina
Primeiro trabalho de grande fôlego de Marco Mendes, Zombie é um claro passo em frente na carreira do autor, que se sai muito da passagem das histórias curtas de uma página, para uma narrativa mais extensa e consistente. Misturando a ficção e a autobiografia, Mendes continua construir uma obra sólida, afirmando-se como uma voz singular e incontornável na BD nacional.
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quinta-feira, 26 de março de 2015
Colecção Novela Gráfica 5 - Beterraba: A vida numa Colher, de Miguel Rocha
MIGUEL ROCHA, UM AUTOR PORTUGUÊS
NA COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA
Novela Gráfica – Vol. 5
Beterraba: A Vida numa Colher
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Quinta, 26 de Março
Por + 9,90€
Numa colecção que reúne o melhor da BD de autor a nível mundial, a presença portuguesa está assegurada por Miguel Rocha, autor de Beterraba: A Vida numa Colher, um livro poderoso, marcado pelas cores quentes do Alentejo, e o seu mais ambicioso trabalho. Realizado ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, foi publicado originalmente em 2003, tendo arrebatado os prémios para Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival de BD da Amadora de 2004 e sido publicado em Espanha e França. Mais de uma década depois, é finalmente reeditado, com uma nova capa, na colecção Novela Gráfica.
Beterraba é a história de Olegário, um homem que, perante um mundo que não lhe servia, decidiu fazer outro à sua medida. Um patriarca em luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo nacional e o realismo mágico sul-americano, que Miguel Rocha conta em páginas de grande beleza, marcadas por uma utilização única da cor.
Nascido em Lisboa em 1968, Miguel Rocha só por volta dos 30 anos se sentiu impelido a fazer BD, mas isso não o impediu de construir uma importante carreira no género, onde ressaltam títulos como Salazar (com argumento de João Paulo Cotrim) e este Beterraba. Miguel Rocha é também um autor cuja obra está bastante ligada ao Público, pois para além de ter sido um dos autores a participar no projecto Vinte e Cinco, com que o Público assinalou os 25 anos do 25 de Abril, com O Museu (com argumento de João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos), foi também neste jornal que Borda d’água, um dos seus primeiros trabalhos, foi publicado a cores. Também por isso, a sua presença nesta colecção em que o Público e a Levoir dão a descobrir aos leitores portugueses o melhor da Novela Gráfica, surge como lógica e natural.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/03/2015
NA COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA
Novela Gráfica – Vol. 5
Beterraba: A Vida numa Colher
Argumento e Desenhos – Miguel Rocha
Quinta, 26 de Março
Por + 9,90€
Numa colecção que reúne o melhor da BD de autor a nível mundial, a presença portuguesa está assegurada por Miguel Rocha, autor de Beterraba: A Vida numa Colher, um livro poderoso, marcado pelas cores quentes do Alentejo, e o seu mais ambicioso trabalho. Realizado ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, foi publicado originalmente em 2003, tendo arrebatado os prémios para Melhor Livro e Melhor Desenho no Festival de BD da Amadora de 2004 e sido publicado em Espanha e França. Mais de uma década depois, é finalmente reeditado, com uma nova capa, na colecção Novela Gráfica.
Beterraba é a história de Olegário, um homem que, perante um mundo que não lhe servia, decidiu fazer outro à sua medida. Um patriarca em luta contra a avareza do solo alentejano, que nada lhe permite cultivar e a crueldade do destino, que lhe nega o filho varão que tanto deseja, tentando moldar a terra que o rodeia à sua ambição, numa história simultaneamente épica e intimista, a meio caminho entre o neo-realismo nacional e o realismo mágico sul-americano, que Miguel Rocha conta em páginas de grande beleza, marcadas por uma utilização única da cor.
Nascido em Lisboa em 1968, Miguel Rocha só por volta dos 30 anos se sentiu impelido a fazer BD, mas isso não o impediu de construir uma importante carreira no género, onde ressaltam títulos como Salazar (com argumento de João Paulo Cotrim) e este Beterraba. Miguel Rocha é também um autor cuja obra está bastante ligada ao Público, pois para além de ter sido um dos autores a participar no projecto Vinte e Cinco, com que o Público assinalou os 25 anos do 25 de Abril, com O Museu (com argumento de João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos), foi também neste jornal que Borda d’água, um dos seus primeiros trabalhos, foi publicado a cores. Também por isso, a sua presença nesta colecção em que o Público e a Levoir dão a descobrir aos leitores portugueses o melhor da Novela Gráfica, surge como lógica e natural.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/03/2015
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domingo, 22 de março de 2015
75 Anos do Batman 5 - Batman: 75 Anos de Aventuras
E com este 10º volume, o 5ª para o qual escrevi textos introdutórios, chega ao fim esta colecção dedicada aos 75 Anos do Cavaleiro Das Trevas, que permite ter novamente disponíveis algumas das melhores histórias de sempre do Batman, em belas edições. Esta foi também a colecção feita mais a correr, numa altura em que já começávamos a trabalhar na colecção das Novelas Gráficas. Mas julgo que o esforço valeu a pena e os fãs não se podem queixar, mesmo que inevitavelmente, haja sempre quem se queixe...
BATMAN, 75 ANOS DE AVENTURAS
Com esta recolha antológica de onze histórias de diferentes épocas, assinadas por alguns dos maiores nomes da história dos comics, concluímos esta viagem comemorativa dos 75 anos da criação do Batman. Criado por Bob Kane em 1939, com a colaboração de Bill Finger no argumento, na sequência do sucesso do Super-Homem de Jerry Siegel e Joe Schuster um ano antes, Batman é um dos super-heróis mais humanos e carismáticos de todos os tempos e um dos raros que não tem qualquer superpoder, funcionando quase como um negativo do Super-Homem. E é precisamente essa dimensão mais humana, que facilita a identificação dos leitores, um dos elementos que actualmente fazem do Batman o mais popular dos super-heróis.
Quando o descobrimos pela primeira vez, na história que abre este volume, publicada em 1939 no nº 27 da revista Detective Comics, Batman, o sombrio super-herói, está já no activo há algum tempo e a sua fama precede-o, enquanto o homem que se esconde por detrás da máscara, o milionário Bruce Wayne, tem uma participação mais discreta. E só largos meses depois, os leitores descobrem o que levou Bruce Wayne a transformar-se no vigilante vestido de morcego, através de um flash-back de duas páginas, publicado no # 33 da revista Detective Comics, que mostra como o assassinato dos pais do jovem Bruce Wayne levou o traumatizado órfão a consagrar a sua vida ao combate do crime, escolhendo a imagem do morcego para infundir terror a essas criaturas “medrosas e supersticiosas” que são os criminosos. Uma história que surge neste volume numa versão mais contemporânea, assinada por Jeph Loeb e Jim Lee.
O sucesso de Batman cedo lhe garantiu uma revista própria e, ao longo da década de 40, as aventuras de Batman começaram a aparecer também nas revistas Batman e World’s Finest Comics, para além da Detective Comics, que viria dar o nome à editora e onde tudo começou. É na revista Batman que vai aparecer pela primeira vez a jornalista Vicki Vale, uma intrépida repórter criada por Bob Kane, com o apoio de Bill Finger no argumento e de Charles Paris na arte, funcionando um pouco como a Lois Lane em relação ao Super-Homem. E é precisamente O Furo do Século, a história que assinala essa estreia, que este volume recolhe.
Com o aparecimento desses novos títulos, o grupo de colaboradores que rodeava Bob Kane, foi alargado a novos argumentistas e a desenhadores, para além de Bill Finger, como Sheldon Moldoff, Charles Paris, Jerry Robinson e Dick Sprang, autor cujo estilo único marcou a imagem do Homem-Morcego na década seguinte e que está presente neste livro com O Batman de Amanhã, história que explora o ambiente de ficção científica, tão em voga nos comics da década de 50.
Tal como a América, também o Batman vai mudar na década de 60. Esse processo, conhecido como “New Look”, culmina em Maio de 1964 com a mudança de imagem do herói, da qual o símbolo do morcego, que passa a surgir dentro de um círculo amarelo, é o exemplo mais imediato, mas que passa também pelo aparecimento de autores com um estilo mais elegante e realista como Carmine Infantino, aqui representado com a história que inaugurou essa mudança, publicada precisamente 25 anos e 300 nºs após a primeira aparição do Batman. O sucesso comercial deste “novo” Batman a que não é alheio o trabalho gráfico de Infantino, foi imediato e chamou a atenção do produtor William Dozier, que decidiu criar uma série de televisão dedicada ao Cruzado de Capa e que, quase 50 anos após a sua estreia, continua a marcar o imaginário de muitos leitores.
Na década de 70, Batman voltaria a aproximar-se do violento combatente do crime da fase inicial, graças ao trabalho da dupla Denny O’Neil/Neal Adams. Nessa América em mudança, é natural que os jovens leitores já não se identificassem com a versão kitsch do Batman que marcou a década de 60, de que a série televisiva com Adam West foi o expoente máximo em termos mediáticos. Daí a necessidade de criar um novo herói para uma nova era, um Batman mais sombrio e realista, na linha da dura realidade que rodeava os leitores. Julius Schwartz, o editor da DC encarregado da personagem, sabia quem eram os homens certos para esse trabalho e optou por reunir novamente o escritor Denny O'Neil com o desenhador Neal Adams, depois da revolucionária passagem da dupla pela série Lanterna Verde/Arqueiro Verde, que os leitores puderam acompanhar na primeira colecção que a Levoir dedicou à DC. E é precisamente a primeira colaboração da dupla numa história do Batman, que apresentamos neste livro.
Mas, no que ao Batman diz respeito, a década de 70 não se resume apenas ao trabalho de Neal Adams. Presentes neste volume estão dois outros mestres dos comics que desenharam o Batman nesta década. São eles Alex Toth, representado neste volume pela única história do Batman que desenhou ao longo da sua prestigiada carreira, e Marshall Rogers, ilustrador cujo estilo elegante e estilizado deu vida a uma imagem do Batman que à época foi considerada como “definitiva”. Mas como bem sabemos, “definitivo” é um termo difícil de aplicar a qualquer versão de um personagem que, como o Batman, se caracteriza por se saber adaptar ao pulsar do seu tempo. A prová-lo está a verdadeira revolução que chegaria em 1986, com Frank Miller e o seu Regresso do Cavaleiro das Trevas, já publicado nesta colecção. Mas já antes Miller tinha tido a oportunidade de desenhar o Batman em Procura-se: Pai Natal… morto ou vivo!, uma tão singela como bem conseguida história de Natal, que não podia faltar nesta antologia.
Neste volume, há ainda espaço para uma história da década de 90, Crise de Identidade, uma perturbadora viagem pela mente de Bruce Wayne, assinada por Tom Mandrake e por Peter Milligan, argumentista inglês que deixou a sua marca na linha Vertigo. E, para fechar temos o magnífico J. H. Williams III, cujo fabuloso trabalho visual e de composição os leitores já conhecem do volume dedicado à Batwoman, da primeira colecção que a Levoir dedicou à DC e que aqui ilustra um inspirado argumento de Paul Dini, escritor que esteve em destaque em Detective, o sétimo volume desta colecção.
Mas esta história de 75 anos de sucesso não acaba aqui. Cada vez mais popular, o Cavaleiro das Trevas soube renovar-se, tanto na BD, como no cinema, ou nos jogos de computador. Nos comics essa renovação atingiu todo o universo DC, que através da Linha Novos 52, foi actualizado para o século XXI. A esse nível, é impossível não citar o excelente trabalho de Scott Snyder e Greg Capullo na principal revista do Batman. Mas essa, já é uma outra história que, quem sabe, talvez possamos vir um dia a acompanhar, em português de Portugal, numa nova colecção da Levoir.
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