domingo, 8 de março de 2015

75 Anos de Batman 4 - Batman: O regresso do Cavaleiro das Trevas I


No penúltimo editorial que escrevi para a colecção 75 Anos do Batman tive o azar de ver o meu nome trocado e, a verdade, é que, embora, tenha sido eu a escrever o editorial deste volume, o texto acabou por sair assinado pelo Luís Salvado, que escreveu, isso sim, o editorial do volume seguinte. Não foi a primeira vez que isto me aconteceu, pois na primeira colecção que fizemos com a Panini para o Correio da Manhã, Os Clássicos da Banda Desenhada,  os textos que escrevi para o volume dedicado a Corto Maltese, saiu assinado em nome de João Miguel LAMERASI, em vez de João Miguel Lameiras. Feita a correcção, aqui fica o meu editorial para o 1º volume do Regresso do Cavaleiro das Trevas, a obra-prima de Frank Miller.



O ÚLTIMO COMBATE DE BATMAN

Se fizermos uma lista das mais importantes histórias do Batman ao longo dos 75 anos da vida do personagem, a história que vão poder ler em seguida, estará certamente no topo dessa lista.
Embora ainda sem o estatuto de superestrela que conquistaria nos anos seguintes, Frank Miller, em meados da década de 80, era já um autor influente graças ao seu trabalho na série Daredevil, que abandonou para a aproveitar a total liberdade concedida pela DC e criar Ronin, uma mini-série inovadora, misturando ficção científica e histórias de samurais que, por estar claramente à frente do seu tempo, não teve o acolhimento imediato que Miller esperava. O menor sucesso comercial de Ronin na altura em que foi lançado, não impediu a editora de continuar a apostar no evidente talento de Miller, não hesitando em entregar-lhe a sua jóia da coroa, ao dar-lhe a oportunidade de criar a sua versão do Batman, personagem que Miller já tinha desenhado uma vez em 1980, em Wanted Santa Claus - Dead ir Alive, uma história curta de Natal - escrita por Denny O'Neil que curiosamente seria um dos editores do Regresso do Cavaleiro das Trevas - que poderão ler no último volume desta colecção.
Originalmente publicada numa mini-série de quatro episódios, em 1986 (o mesmo ano em que foram publicados Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons e Maus de Art Spiegelmann, dois outros títulos fundamentais da história da BD) o extraordinário sucesso desta obra trouxe a Banda Desenhada para as primeiras páginas dos jornais e revistas (com Frank Miller a aparecer como capa da revista Roling Stone) ao mesmo tempo que ajudou a introduzir o formato graphic novel (edições mais luxuosas, impressas em excelente papel e com uma capa mais grossa do que o habitual nos comics) no mercado americano, e ainda abriu caminho para os filmes de Batman realizados por Tim Burton.
O Regresso do Cavaleiro das Trevas é uma história crepuscular que apresenta um Batman envelhecido, que interrompe a sua reforma, para lutar pela sobrevivência num futuro distópico, depois de ter sido obrigado a sair do seu torpor pelo aparecimento dos Mutantes, um novo gang urbano particularmente violento. Último super-herói num mundo violento, onde já não há lugar para super-heróis, o regresso ao activo do Cavaleiro das Trevas vai agitar profundamente a sociedade, incentivando o regresso dos seus principais adversários, que Miller apresenta como reflexos distorcidos do próprio Batman. O pulsar desta sociedade futura cujo status quo o regresso de Batman vem perturbar, é-nos dado de forma magistral através dos omnipresentes ecrãs de televisão, que pontuam a acção e nos transmitem informação, funcionando como o coro das tragédias gregas, ao mesmo tempo que traduzem a óbvia crítica de Frank Miller à cada vez maior mediatização da sociedade do seu tempo e à visão redutora e simplificada que a TV transmite da realidade. Uma análise que, quase três décadas passadas sobre a publicação original da história, não só não perdeu actualidade, como assume cada vez maior pertinência.
Apesar de ter resistido muito bem ao tempo, como verdadeiro clássico que é, O Regresso do Cavaleiro das Trevas é uma história que, tal como o Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, reflecte claramente o zeitgeist, o espírito da época em que foi criada, mesmo que a acção decorra num futuro próximo. Como o próprio Miller refere: "foi em 1985 que eu comecei a trabalhar nisto [O Regresso Do Cavaleiro das Trevas] e pensei, "que tipo de mundo será suficientemente assustador para o Batman?" Então olhei pela janela". E a verdade é que a Gotham City de Batman está bastante próxima da Nova Iorque dos anos 80, que Miller tinha recentemente trocado pela Califórnia, depois de ser assaltado pela terceira vez, e o clima político vigente é o da Guerra Fria que a política da administração Reagan veio reacender.
Contando com a arte-final de Klaus Janson, seu colaborador desde os tempos da revista Daredevil e com as cores de Lynn Varley, Miller consegue dar uma dimensão épica ao seu desenho, perfeitamente adequado a um herói poderoso e larger than life como é o Batman. Mas, apesar do resultado ser espectacular em termos visuais, o desenho não é ainda assim o ponto mais forte de Frank Miller que, apesar de ser um grande desenhador, é um óptimo escritor e sobretudo um extraordinário narrador.
Um bom exemplo, bem demonstrativo do talento narrativo de Frank Miller e do seu completo domínio dos mecanismos da linguagem da BD, é toda a sequência inicial, em que Bruce Wayne recorda o assassinato dos seus pais enquanto faz zapping na TV, ou a conversa entre Superman e o Presidente americano na página 28, do capítulo 2, que, pela sua extraordinária simplicidade e eficácia, merece uma análise mais detalhada:
Na primeira imagem da dita página, vemos a Casa Branca através dos portões vigiados por um guarda armado, enquanto que os balões de diálogo nos informam que, no seu interior, o Presidente conversa com alguém. Uma conversa que prossegue sempre fora de campo e a que assistimos sem nunca ver os interlocutores, pois a imagem é ocupada por uma bandeira americana tremulando ao vento, que através de um efeito de zoom, vai ficando cada vez mais próxima até que os seus contornos se fundem gradualmente no símbolo do Super-Homem. A força destes dois ícones imediatamente reconhecíveis (a bandeira americana e o S do Super-Homem) permitem-nos identificar facilmente a pessoa com quem o Presidente estava a falar, mesmo sem a ver, ao mesmo tempo que nos transmite de uma forma extremamente eficaz a relação entre o Super-Homem e o governo americano, com o Homem de Aço a ser retratado como um homem de mão da Casa Branca, aspecto que Miller desenvolve no segundo volume desta obra notável.

E o confronto entre o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas, que, a julgar pelo primeiro teaser, serviu de principal fonte de inspiração ao tão aguardado filme Batman V Superman: Dawn of Justice, de Zack Snyder, tal como o inevitável regresso para um combate final, de um velho e carismático inimigo, vão estar em foco no volume final desta história incontornável, cujo desfecho poderão ler já na próxima semana.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Colecção Novela Gráfica 2 - A Louca do Sacré-Coeur, de Moebius e Jodorowsky


MOEBIUS E JODOROWSKY CHEGAM À COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA 
COM A LOUCA DO SACRÉ-COEUR

Novela Gráfica- Vol 2
A Louca do Sacré-Coeur
Argumento - Jodorowsky 
Desenhos – Moebius

Conhecido em Portugal essencialmente pelo seu trabalho na série de Banda Desenhada, O Incal, ilustrada por Moebius, e em todo o universo que dela emanou (como A Casta dos Metabarões), Alejandro Jodorowsky é muito mais do que um mero argumentista de BD de ficção científica. Considerado como um guru por personalidades do mundo da música tão diferentes como John Lennon e Yoko Ono, que ajudaram a financiar os seus filmes El Topo e La Montaña Sagrada e Marilyn Manson, que cita abertamente La Montaña Sagrada no vídeo de The Dope Show, Jodorowsky revela-se uma personagem tão ou mais fascinante do que a sua própria obra, a qual reflecte as suas vivências e crenças místicas.
Verdadeiro homem do Renascimento, este filho de judeus emigrantes russos, nascido no Chile em 1929, foi actor, mimo (discípulo de Marcel Marceau), tarólogo de renome, responsável, com Philipe Camoin pela restauração do Tarot de Marselha, criador de uma nova técnica terapêutica chamada Psicomagia, poeta, escritor, dramaturgo, encenador, fundador do grupo surrealista Panique (com Fernando Arrabal e Roland Topor), realizador de cinema e principalmente, argumentista de BD.
Curiosamente foi no cinema que se deu a primeira colaboração entre Jodorowsky e Moebius, num projecto de adaptação cinematográfica do romance Dune, de Frank Herbert que acabou por não chegar a bom porto, mas que deu origem a uma frutuosa colaboração no campo da BD, de que nasceu a série O Incal, para além de outras pérolas como Os Olhos do Gato e esta A Louca do Sacré-Coeur.
Nascido em 1938 e falecido em 2012, Jean (Moebius) Giraud, foi um dos mais importantes nomes da BD europeia. Possivelmente, um dos melhores desenhadores realistas que a Banda Desenhada conheceu, com o nome Gir, com que assinava as aventuras do Tenente Blueberry, Giraud, com o pseudónimo Moebius, foi também um dos mais influentes autores de BD de sempre, co-fundador da revista Metal Hurlant e responsável pela criação de alguns dos mais fantásticos universos da BD, para além de ter emprestado o seu fabuloso traço à BD, em histórias surreais e ao cinema e à publicidade, em magníficas ilustrações marcadas pela originalidade do seu universo e pelo arrojo gráfico do seu traço.
Publicado originalmente em França em três tomos (La folle du Sacré-Coeur, de 1992, Le Piège de l'irrationnel, de 1993, e Le Fou de la Sorbonne, de 1998), A Louca… foi uma das raras histórias que Jodorowsky escreveu sem ter em mente um desenhador predefinido, mas que encontrou em Moebius o ilustrador ideal, capaz de equilibrar a dimensão realista inicial, com os elementos místicos e fantásticos que vão tendo uma importância cada vez maior à medida que a história avança.
Obra de ficção delirante, mas onde são perceptíveis contornos autobiográficos, que o próprio Moebius acentua ao dar a Mangel parecenças físicas com Jodorowsky, A Louca do Sacré-Coeur é uma obra tão divertida como perturbadora, marcada pelo contraste. Contraste entre a espiritualidade e a sexualidade, entre a racionalidade e o misticismo, entre o sublime e o escatológico, entre o realismo de Giraud e a fantasia de Moebius.

Não sendo o trabalho mais famoso da dupla, distinção que cabe ao Incal, A Louca do Sacré-Coeur foi o canto do cisne da colaboração entre Moebius e Jodorowsky e um momento único de perfeito alinhamento entre os dois universos gráficos que marcaram a obra de Giraud. Claramente o trabalho mais pessoal da dupla Moebius/Jodorowsky, A Louca do Sacré-Coeur é, também por isso, o mais fascinante.
Texto publicado no jornal Público de 27/02/2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Novela Gráfica: quando a Arte Sequencial se transforma em Literatura Desenhada

NOVELA GRÁFICA: QUANDO A ARTE SEQUENCIAL 
SE TRANSFORMA EM LITERATURA DESENHADA

A principal especificidade da linguagem da Banda Desenhada, reside na forma como o texto e a imagem se articulam, para formar algo que é mais do que a mera soma das partes. Algo único e inovador. E a consciência do carácter inovador dessa linguagem, está presente desde os primeiros tempos da história da BD.
O desenhador suiço Topffer, um pioneiro da BD e uma das primeiras pessoas a reflectir criticamente sobre a especificidade da sua linguagem, escreveu logo em 1833, na introdução a L’Histoire de Mr. Jabot, considerado como o primeiro álbum da história da Banda Desenhada, aquela que, na opinião do crítico e argumentista francês Benoit Peeters, é a melhor definição de BD. Sobre L’Histoire de Mr. Jabot, Topffer escreve que “este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos, sem o texto, teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa”.

Foi precisamente jogando com as quase ilimitadas possibilidades de articulação desses dois elementos, que a linguagem da Banda Desenhada se foi desenvolvendo, mas condicionada por modelos de publicação rígidos. Formatados durante décadas em modelos clássicos, como as tiras diárias, ou as pranchas semanais nos jornais, as revistas de 22 páginas, e os álbuns clássicos franco-belgas, de 44 páginas em capa dura, faltava aos autores de Banda Desenhada espaço para ensaiar outros voos. Voos que a necessidade de ter como protagonista um herói, que já existia antes da história começar e que vai continuar a existir no fim de cada história, também limitavam drasticamente.
Apesar disso, os formatos clássicos não impediram a criação de obras-primas. Um bom exemplo é Will Eisner, com a série The Spirit. Autor que muito naturalmente abriu esta colecção, Eisner sempre assumiu a sua admiração por escritores como Ambrose Bierce, Tcheckov, O. Henry e Maupassant. The Spirit mais do que uma serie policial, era o meio ideal, devido à liberdade e autonomia de que dispunha, para o seu autor concretizar um dos seus principais objectivos, que era o de fazer short stories na grande tradição clássica. Para isso escolheu a linguagem da BD (ou arte sequencial, como preferia chamar-lhe), cujos códigos aju¬dou a formar e na qual sintetizou elementos de outros meios, que se revelavam adequados ao seu objectivo primordial de contar histórias, de forma fluida e atraente.
Mas, quando, depois de décadas dedicadas ao ensino e à ilustração publicitária, Eisner decide voltar à BD em finais da década de 70, vai necessitar de um formato que lhe permitisse contar já não short stories, mas verdadeiros romances em imagens, com outro fôlego e maior ambição. Esse formato era a Novela Gráfica. Mesmo que o termo Graphic Novel começasse já a ser conhecido, a verdade é que o caracter inovador da obra de Eisner provocou problemas aos livreiros, que não sabiam em que secção arrumar Um Contrato com Deus, se junto da BD, se nas prateleiras da literatura, chegando o livro a aparecer na secção de assuntos religiosos…
Situação semelhante viveu Art Spiegelman com o seu Maus, outro título incontornável do cânone da Novela Gráfica, que muitos livreiros e o próprio júri do Prémio Pulitzer tiveram dificuldades em encaixar numa secção, ou categoria existente, o que no caso de Spiegelman até se revelou uma vantagem, pois como o próprio refere em entrevistas, muitos livreiros que não sabiam onde arrumar Maus, acabaram por o deixar durante anos na mesa das novidades, contribuindo assim para o seu sucesso.
Actualmente, este problema já não se põe, as principais livrarias americanas têm uma secção específica dedicada às graphic novels e, mesmo em Portugal, o termo Novela Gráfica já entrou na linguagem corrente e é rapidamente associado a uma Banda Desenhada de qualidade, que aproveita o facto de não estar limitada a um número de páginas fixo, para contar histórias revelantes, com grande qualidade estética e literária, que exploram de diferentes maneiras a articulação entre o texto e o desenho.
Nesta colecção, que, ao longo dos doze volumes que a compõem, procura dar uma ideia global da variedade de temas e de abordagens que o género permite, temos os mais variados tipos de articulação entre texto e imagem, com alguns autores a apoiarem-se mais no texto para contar a história, enquanto outros consideram que uma imagem vale mais do que mil palavras.
Vimos já, em Um Contrato com Deus, como Eisner mistura texto e imagem, com o texto a fundir-se literalmente com o desenho em algumas páginas. Já Baudoin, em A Viagem, apoia-se muito mais na imagem para contar uma história, criada originalmente para o público japonês, habituado a um tipo de narrativa eminentemente visual, enquanto Tardi, em Foi Assim a Guerra das Trincheiras recorre abundantemente à narração em off e aos cartuchos de texto, que estão praticamente ausentes em A Viagem. Em A Louca do Sacré-Coeur, cabe a Moebius pegar no texto em bruto de Jodorowsky e transformá-lo numa história em BD, com o talento que se lhe reconhece, um pouco como acontece com Kim em relação a António Altarriba em A Arte de Voar, embora aqui o menor impacto visual do traço de Kim seja compensado pela força da narrativa de Altarriba.
Mas não apenas o texto e o desenho servem para contar uma história. Em Beterraba, Miguel Rocha mostra que a própria cor pode ser um importante elemento narrativo, em páginas de cores belíssimas que capturam no papel toda a luz e a cor do Alentejo, tal como o preto e branco rasgado (literalmente) a navalha de Alberto Breccia em Mort Cinder, traduz as trevas bem reais que rodeavam os autores numa Argentina dominada pelos mesmos militares que iriam assassinar Oesterheld anos depois.
Robert Crumb, por exemplo, experimenta as mais variadas combinações nas histórias curtas de Mr. Natural. Desde histórias em que as palavras são praticamente desnecessárias, até As Origens de Mr. Natural em que o texto enche completamente as páginas. Com uma composição de página bastante dinâmica, Cosey gere bem os momentos de silêncio, especialmente nas cenas em que uma natureza imponente impõe a sua presença.
E se a composição de página de Cosey é dinâmica, que dizer do trabalho de Toppi em Sharaz-De, com fantásticas composições a substituírem a tradicional divisão em tiras e quadrados, resultando em páginas absolutamente deslumbrantes? Por ultimo, temos o trabalho de Taniguchi e de Danilo Beyruth, dois autores que se apoiam mais na imagem do que no texto, mas que em termos narrativos, vão beber muito ao cinema, com Taniguchi a afirmar-se como um discípulo de Ozu e Beyruth a utilizar os enquadramentos largos para a paisagem e os planos muito apertados para os rostos, na melhor tradição de Sergio Leone.
Tal como na música, um número limitado de notas, permite criar obras-primas completamente diferentes e únicas, também os autores presentes nesta colecção única, que assinala de forma perfeita os 25 anos do jornal Público, combinam os diferentes elementos da gramática da BD para criar verdadeiras sinfonias gráficas inimitáveis.
Texto publicado no Jornal Público de 04/03/2015

domingo, 1 de março de 2015

Revoir Paris 2 - No Atelier de Baudoin e Herman em Versailles


No que à Banda Desenhada diz respeito, esta estadia em Paris a seguir ao Festival de Angoulême, não se ficou pelas exposições de Schuiten e Peeters e Miyazaki, ou pela visita às Livrarias. do Quartier Latin. Um dos momentos mais importantes, de que não pude falar na altura em que fiz o primeiro post, por ainda não ser pública a colecção Novela Gráfica, que a Levoir está a editar com o jornal Público, foi a vista ao apartamento/atelier de Baudoin em Paris. Baudoin, um dos autores presentes na colecção Novela Gráfica, com o livro A Viagem, que traduzi durante a viagem e de que assinei o prefácio que poderão ler dentro de duas semanas, é um velho conhecido e uma pessoa extremamente simpática.
Conhecemo-nos em 2000 em Angoulême e, depois disso, cruzámo-nos algumas vezes tanto em Angoulême, como em Portugal, nos Festivais de Lisboa e da Amadora, onde ele esteve ainda em 2014, quando falámos pela primeira vez da edição de A Viagem em Portugal.
Daí que tenha aproveitado a oportunidade para lhe fazer uma visita em Paris e conversar sobre A Viagem e sobre os seus projectos actuais. Para além de me ter oferecido uma prancha original de Le Voyage, que podemos ver a assinar na foto aqui ao lado, Baudoin mostrou-me também algumas páginas do seu próximo trabalho, um livro desenhado a duas mãos com Craig Thompson, o autor de Blankets e de Habibi. Um projecto que não deverá sair antes de 2016 e que reúne dois mestres do desenho e que é ainda mais curioso, pois nem Baudoin fala inglês, nem Thompson fala francês, pelo que a comunicação entre eles foi feita através do desenho.
No final deste post podem ver duas pranchas deste magnífico projecto, que promete! Peço desculpa pela qualidade das imagens, fotografadas com o meu telemóvel, mas achei que mesmo assim, era importante mostrá-las!
Na viagem de regresso de Paris, ficámos um dia em Versailles, destino turístico por excelência, graças ao seu magnífico Palácio e Jardins, mas que neste caso tinha para nós um motivo de interesse acrescido, graças à exposição que a Câmara de Versailles dedicou ao desenhador belga Herman Huppen, nome bem conhecido dos leitores portugueses, graças a séries como Bernard Prince, Comanche, ou As Torres de Bois-Maury. Um mostra bastante sóbria, mas com muitos originais e algumas coisas menos conhecidas, como as ilustrações que Hermann fez para o filme Piratas de Roman Polansky, que mais tarde serviram de inspiração ao seu filho e argumentista, Yves H. para o argumento de O Diabo dos Sete Mares. Uma bela iniciativa da Câmara de Versailles que, descobri na altura, tem como tradição anual promover uma exposição dedicada a um autor de Banda Desenhada, logo a seguir ao Festival de Angoulême, em inícios de Fevereiro. Assim, antes de Hermann passaram pela Câmara de Versailles, autores como William Vance, André Juillard, Patrice Pellerin, Philippe Francq e Rosinsky. Ou seja, há que estar atento à programação da Câmara de Versailles, pois pode valer a pena fazer um desvio até Versailles, para quem se deslocar a França para o Festival de Angoulême, até porque não faltam pontos de interesse turístico pelo caminho.

Storyboard de Herman para o filme de Polansky
    Cartaz da exposição de Hermann nas escadarias da Câmara de Versailles
                                Pormenor da exposição
                                  Baudoin no seu apartamento/atellier
Prancha desenhada por Craig Thompson para o livro conjunto com Baudoin 
                          Página feita a duas mãos por Craig Thompson e Baudoin

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Colecção Novela Gráfica 1 - Um Contrato com Deus, de Will Eisner


WILL EISNER ABRE NOVA COLECÇÃO 
DEDICADA À NOVELA GRÁFICA

Novela Gráfica - Vol 1
Um Contrato com Deus
Argumento e Desenhos – Will Eisner

É já na próxima quinta-feira que a BD regressa ao Público numa inovadora colecção dedicada aos maiores nomes da novela gráfica, que se prolongará pelas próximas onze semanas. Uma colecção marcada pela qualidade e pela diversidade. Diversidade, de autores, de estilos, de nacionalidades, de formatos, mas que tem como elemento unificador a vontade de contar histórias de grande fôlego, difíceis de conter nos formatos mais tradicionais das 48 páginas dos álbuns franco-belgas e ainda menos nas 22 páginas dos comics americanos. A acompanhar-nos nesta emocionante viagem pelo universo da Novela Gráfica, temos uma verdadeira selecção mundial dos maiores nomes da Banda Desenhada, tal importância dos autores presentes - de Eisner a Moebius, passando por Toppi e Breccia, para citar apenas os que já nos deixaram - e a indiscutível qualidade dos seus trabalhos, muitos deles amplamente premiados.  
É precisamente o caso de Um Contrato com Deus, o livro que abre esta colecção, considerado por muitos como título iniciador do género Novela Gráfica – conta a lenda que, quando Eisner apresentou os originais de Um Contrato com Deus ao editor e ele lhe perguntou o que é que aquilo era, Eisner respondeu “it’s a graphic novel” -   e o mais marcante trabalho do seu criador, Will Eisner, falecido em 2005.
Nascido em 1917, Eisner estreou-se na BD em 1936, como desenhador, argumentista e responsável (com Jerry Eiger) por um estúdio encarregado da criação de uma série de heróis para os suplementos dominicais dos jornais, por onde passaram alguns autores que também ficaram na história, como Jack Kirby (criador, com Stan Lee, da maioria dos superheróis da Marvel), Lou Fine e Bob Kane, o criador de Batman. Apesar de desenhar dezenas de séries diferentes (a mais célebre foi a história de piratas, Hawks of the Sea) sob outros tantos pseudónimos, Will Eisner soube manter um elevado padrão de qualidade, o que lhe valeu ser contratado em 1939 pela Quality Comics Group para assegurar as 16 páginas de um suplemento dominical encomendado pelo Des Moines Register - Tribune Syndicate. É ai que vai nascer a sua maior criação, o Spirit, um detective mascarado que o vai acompanhar durante 12 anos e mais de 700 histórias, das quais bem mais de uma centena são clássicos incontornáveis e intemporais.
Apesar de, durante mais de 25 anos ter trocado as suas criações pela BD comercial e didáctica (durante duas décadas ilustrou manuais para o exército americano) e pelo ensino (foi durante muitos anos professor na School Of Visual Arts, de Nova Iorque, e autor de Comics and Sequencial Art, um livro incontornável sobre a técnica e linguagem da BD) Eisner regressou em grande força em 1978. Um regresso que se deu com este Um Contrato com Deus, livro que recolhe quatro histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos dos anos 1930, no Bronx, traçando uma imagem sentida das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vida das classes mais pobres da Grande Depressão na América.
Verdadeiro romance em Banda Desenhada, inspirado nas memórias da infância do autor, passada no Bronx, em que acontecimentos autobiográficos surgem ligeiramente ficcionados, Um Contrato com Deus, mostra também uma forma diferente de Eisner tratar a página de BD, abdicando muitas vezes da tradicional divisão em tiras e quadrados, fazendo as personagens evoluir suspensas ao longo da página, ao mesmo tempo que o texto e os balões se fundem com a arte. Também o uso das sombras, as perspectivas dramáticas e o expressivo tratamento das atitudes e expressões das muitas personagens que povoam este grande romance visual, revelam um autor maduro, mas suficientemente irrequieto para inovar os códigos da linguagem da BD, ou arte sequencial, como lhe preferia chamar, que ajudou a criar.
Texto publicado no jornal Público de 20/02/2015