sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Universo Marvel 5 - Vingadores e Quarteto Fantástico: Invasão Secreta


VINGADORES E QUARTETO FANTÁSTICO ENFRENTAM A INVASÃO SECRETA DOS SKRULLS

Universo Marvel – Vol. 5
Vingadores e Quarteto Fantástico: Invasão Secreta
Argumento – Brian Michael Bendis
Desenhos – Leinyl Francis Yu
Quinta, 7 de Agosto, Por + 8,90 €
Neste volume, os Skrulls, uma raça alienígena capaz de assumir a forma e os poderes dos heróis do universo Marvel, infiltrou-se nos principais grupos de super-heróis, dando o passo decisivo para o sucesso do seu plano de conquista da Terra.
 Um plano complexo e maquiavélico, que os Vingadores e o Quarteto Fantástico vão tentar travar, mesmo sabendo que o herói que combate ao seu lado pode afinal ser um Skrull.
Umas das mais antigas raças alienígenas do universo Marvel, os Skrulls fizeram a sua primeira aparição logo no nº 2 da revista do Quarteto Fantástico, em 1962, numa história em que faziam uso das suas capacidades miméticas para se fazerem passar pelo Quarteto Fantástico e desde então têm sido presença habitual nas sagas galácticas do Universo Marvel, estando na origem de histórias memoráveis como The Kree – Skrull War, uma saga épica dos Vingadores assinada por Roy Thomas e Neal Adams nos anos 70. Com o seu aspecto reptiliano, a meio caminho entre os duendes da mitologia céltica e os extraterrestres dos filmes dos anos 50, os poderes dos Skrulls que lhes permitem infiltrar-se no meio dos heróis, remetem para o clima de paranóia da Guerra Fria, evidente em clássicos do cinema de ficção científica, como The Invasion of the Body Snatchers, de Don Siegel, de 1956, ou o mais recente They Live, de John Carpenter, de 1988. 
Como podemos ver no anterior volume, dedicado aos Guardiões da Galáxia, o plano dos Skrulls já estava em marcha e o terreno foi sendo preparado até chegarmos a esta saga, espoletada pela descoberta que a ninja Elektra era na realidade um Skrull. São as consequências dramáticas dessa revelação, que põe em causa o destino da Terra e a segurança dos seus heróis, que o argumentista Brian Michael Bendis, um dos principais arquitectos do novo Universo Marvel, explora de forma muito conseguida, numa história complexa e movimentada, bem servida pela arte de Leinil Francis Yu.
Nome conceituado da segunda vaga de autores filipinos que conquistaram o mercado americano a partir da década de 90, Leynil Francis Yu, depois de uma curta passagem pela Image, chegou à Marvel, onde começou por desenhar o Wolverine, dando início a uma ligação com a editora que ao longo da última década lhe permitiu desenhar os maiores heróis da “Casa das Ideias”. E a verdade é que Yu tem em Invasão Secreta um dos seus melhores trabalhos de sempre, brilhando a grande altura, especialmente nas páginas duplas cheias de personagens, em que o seu apurado sentido de composição lhe permite conciliar legibilidade e espectacularidade.
Título incontornável entre aqueles que formam o eixo condutor desta colecção Universo Marvel, esta Invasão Secreta vai ter consequências profundas, que se vão reflectir nos volumes posteriores desta colecção, Thor Renascido, Cerco e A Essência do Medo, sendo também por isso um volume a não perder.
Publicado originalmente no jornal Público de 01/08/2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Textos editoriais Marvel NOW! 5 - Homem-Aranha Superior 06


O HÁBITO E O MONGE

Diz um conhecido ditado popular que “o hábito não faz o monge”. E, se como geralmente acontece, estes ditados têm um fundo de verdade, não é menos certo de que a realidade, ou no caso da Banda Desenhada, a ficção criada pela mente dos autores, acaba por ser bem mais complexa do que a sabedoria popular simplisticamente a apresenta.
A saga que temos acompanhado nesta revista é um bom exemplo de uma realidade demasiado complexa para se encaixar completamente neste ditado, mas a verdade é que as histórias de super-heróis, pela forma como exploram a ligação entre o herói e o uniforme que se torna a sua segunda pele, permitem facilmente uma aproximação a este provérbio.
Curiosamente, um dos pioneiros do género superheróico, o Fantasma, de Lee Falk, criado em 1936, ou seja, ainda antes do aparecimento do Super-Homem, é uma das raras excepções a esta regra, pois o homem por trás da máscara é apenas o mais recente membro de uma linhagem de vinte e uma gerações de combatentes do crime. Uma tradição nascida em 1536, quando o sobrevivente de um ataque de piratas em que morreu o seu pai, fez um juramento solene de combater o crime como o Fantasma até ser substituído pelo seu filho, quando a sua hora chegar. Assim o misterioso vingador aparentemente imortal conhecido como o “Espírito que Caminha” é apenas o mais recente elo de uma cadeia familiar, que o inconfundível uniforme justo, concebido por Lee Falk para ter cor cinzenta, mas que acabou por sair roxo devido a um erro da gráfica, ajuda a perpetuar.
Mas como bem sabem os leitores, a regra é encontrarmos sempre o mesmo homem dentro do uniforme. Steve Rogers é e será o Capitão América, Peter Parker, o Homem-Aranha, Matt Murdock, o Demolidor e Bruce Wayne, o Batman. Mesmo que Bucky Barnes já tenha sido o Capitão América, depois da morte de Rogers durante a Guerra Civil, e que o próprio Steve Rogers tenha assumido outras identidades, como Nomad, a seguir ao escândalo de Watergate, ou The Captain, ou que durante as décadas em que permaneceu em animação suspensa nos gelos do Ártico, outros homens, como William Naslund, Jeffrey Mace e William Burnside tenham também vestido o uniforme inspirado na bandeira americana.
Também Peter Parker tem assumido ao longo dos anos a grande responsabilidade de combater o crime como o Homem-Aranha, mesmo que a mente que ocupa o seu corpo seja a do Dr. Octopus, como acontece actualmente, ou como aconteceu na tristemente célebre saga do Clone, Ben Rilley, o Scarlet Spider, que se pensava ser um clone de Peter Parker, revelou ser o original e que o verdadeiro clone era o Peter Parker que os leitores conheciam desde sempre. Mas a mais interessante variação deste ditado, em que o hábito deu origem a um novo monge de uma ordem diferente, é mesmo a que sucedeu com o uniforme negro que Peter Parker arranjou durante as Guerras Secretas, e que cedo assumiu vida própria, revelando ser um simbiote alienígena que passou a infernizar a vida do Homem-Aranha como Venom.
Mais recentemente, face ao sucesso das personagens da Marvel no cinema, houve a necessidade de alterar os uniformes de alguns heróis, aproximando-os do aspecto com que aparecem no grande ecrã, e aqui o Gavião Arqueiro saiu claramente a ganhar, trocando o bastante ridículo uniforme original, pelo mais discreto e cinematográfico uniforme actual.
Quem leu o seminal Demolidor Renascido de Frank Miller e David Mazzucchelli, em que Matt Murdock passa a maioria da história sem uniforme, percebe que um herói continua a sê-lo, mesmo sem o fato vestido, mas isso não apaga a grande importância simbólica dos uniformes dos Super-Heróis. Mais do que um disfarce que protege a identidade de quem o usa, o uniforme do super-herói é um símbolo, uma ideia e, como bem lembra Alan Moore em V for Vendetta, “ as ideias são à prova de bala”, mesmo que os homens dentro do fato não o sejam.
Texto originalmente publicado em Homem-Aranha Superior nº 06, de Julho de 2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Universo Marvel 4 - Guardiões da Galáxia: Legado


AINDA ANTES DAS SALAS DE CINEMA, OS GUARDIÕES DA GALÁXIA CHEGAM AO PÚBLICO

Universo Marvel – Vol. 4
Guardiões da Galáxia: Legado
Argumento – Dan Abnett e Andy Lanning
Desenhos – Paul Pelletier
Quinta, 31 de Julho + 8,90 €
Ainda antes de chegarem às salas de cinema nacionais, o que acontecerá no dia 7 de Agosto, uma semana depois da estreia nos EUA, os Guardiões da Galáxia, o mais recente grupo de heróis da Marvel a ter honras de adaptação cinematográfica, têm encontro marcado com os leitores do Público, no quarto volume da colecção Universo Marvel, que chega às bancas no próximo dia 31 de Julho. Volume que recolhe a história Legado, saga escrita por Dan Abnett e Andy Lanning, com arte de Paul Pelletier, que relançou a popularidade da equipa dos Guardiões da Galáxia e deu origem ao filme de James Gunn que, a avaliar pelas críticas e comentários de quem já viu, tem tudo para ser o próximo grande sucesso da Marvel no cinema.
Criados originalmente em 1969, por Arnold Drake e Gene Colan, no nº 18 da revista Marvel Super-Heroes, os Guardiões da Galáxia eram um grupo de super-heróis do século XXI, últimos sobreviventes das respectivas espécies, que se uniram para combater a Irmandade Badoon, uma raça alienígena que pretendia conquistar o universo. Depois desta primeira saga, os Guardiões tiveram encontros ocasionais com os outros heróis da Marvel em aparições episódicas nas diferentes revistas da “Casa das Ideias” ao longo das décadas seguintes, com destaque para o encontro com os Vingadores na famosa Saga de Korvack, em que os Guardiões se aliam aos Vingadores, para derrotar Michael Korvack, um vilão proveniente do mesmo futuro de que são originários os Guardiões da Galáxia. Seria preciso esperar até 1990, para que o grupo conquistasse finalmente o direito a uma revista própria, inicialmente escrita e ilustrada por Jim Valentino, que durou 62 números, até ser cancelada em 1995.
Depois disso, seria necessário esperar um pouco mais de uma década para que os Guardiões regressassem ao Universo Marvel em 2008, na história que podem ler nesta colecção e que apresenta uma nova formação dos Guardiões da Galáxia, composta por Peter Quill, o Senhor das Estrelas, Adam Warlock, Drax o Destruidor, Gamora, a nova Quasar, Rocket Raccoon, Groot e Mantis. Um grupo muito heterogéneo de heróis, comandado pelo Senhor das Estrelas, e que inclui membros como Gamora, filha adoptiva de Thanos e a mulher mais letal do universo, Rocket, um guaxinim com mau feitio e pontaria afinada e Groot, uma criatura vegetal com um vocabulário bastante limitado.

Os responsáveis pelo regresso dos Guardiões da Galáxia, os escritores Dan Abnett e Andy Lanning, cuja actividade conjunta lhes valeu a alcunha de DnA, têm uma larga experiência de sagas cósmicas como esta, que exploram a vastidão do Universo Marvel, desde a sua passagem pela revista da Legião dos Super-Heróis, da DC Comics, em 2000, onde foram responsáveis pela série Legion Lost, que relançou a Legião. Já na Marvel vão estar ligados às sagas Aniquilação e Aniquilação: Conquista, em que a maioria dos membros que irão formar os Guardiões da Galáxia têm participação activa.
Conciliando uma dimensão épica, com um lado cómico, evidente nos divertidos diálogos e nas personagens invulgares, como Rocket Raccoon e Groot, Abnett e Lanning, contando com o traço eficaz do desenhador americano Paul Pelletier, criam em Legado uma história bem conseguida, que alarga os horizontes do (já de si vasto) Universo Marvel, ao mesmo tempo que prepara o caminho para outra saga que vamos poder ler já no próximo volume desta colecção, a Invasão Secreta.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/07/2014

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Entrevista ao Diário As Beiras


Curiosamente, tendo terminado recentemente a coluna de Banda Desenhada que mantinha no Diário As Beiras há exactamente 20 anos, não esperava voltar tão cedo às páginas do jornal. Mas esse regresso aconteceu na passada sexta-feira, no renovado suplemento "Gente", onde também saia a minha coluna, quando a minha disponibilidade e o espaço disponível no jornal o permitiam.
A entrevista, profusamente ilustrada com fotografias de Luís Carregã, foi feita pela Patrícia Cruz Almeida e teve lugar na Livraria Dr. Kartoon. Foi uma conversa muito agradável, que me deu também a oportunidade indirecta de me despedir dos leitores do jornal, pois a minha coluna foi interrompida sem qualquer aviso aos leitores, que me acompanharam  desde Maio de 1994, quando o então director Joaquim Rosa de Carvalho, me convidou a escrever para o Diário As Beiras que tinha ainda poucos meses de vida, até Maio de 2014.
Foram vinte anos de publicação regular dos meus textos, que durante grande parte desse tempo foram  pagos  (mesmo que mal..), que chegaram ao fim de forma natural, face à minha menor disponibilidade e às sucessivas remodelações gráficas do jornal, que resultavam invariavelmente em menos espaço para a minha coluna, nos últimos tempos reduzida a um máximo de 1.200 caracteres.
Longe vão os anos em que cheguei a dispor de uma página completa do jornal, para publicar textos que ultrapassavam os 5.000 caracteres. Ficam as recordações, o Prémio de Imprensa do Festival da Amadora em 1996, para um texto publicado nas Beiras sobre a Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt e entrevistas a grandes nomes da BD europeia, como François Bourgeon,  Miguelanxo Prado, Hermann, André Juillard e Milo Manara.
E fica já a saudade dos amigos que fiz no jornal, como a Lídia Pereira e o Paulo Marques e, sobretudo, dos leitores, que me podem continuar a acompanhar neste blog, sem limites de espaço, ou quaisquer constrangimentos editoriais.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Universo Marvel 3 - Homem-Aranha: A Última Caçada de Kraven


Tal como aconteceu com o 1º volume, no caso deste A Última Caçada de Kraven, também o editorial é da minha autoria. Daí que, em vez do texto que saiu no Público, tenha optado por publicar o editorial que escrevi para o livro, que desenvolve alguns aspectos que estão apenas aflorados no texto do jornal. Aqui está ele!

A SOMBRA DO CAÇADOR

Se pegássemos na vastíssima galeria de vilões que passaram pelas aventuras do Homem-Aranha e fizéssemos um Top Ten dos seus principais inimigos, dificilmente Kraven, o Caçador entraria nos três primeiros, mas a verdade é que uma história por ele protagonizada foi muito justamente considerada pelos visitantes do prestigiado site Comic Book Resources, como a melhor história do Homem-Aranha de todos os tempos.
E é precisamente essa história, A Última Caçada de Kraven, que publicamos neste volume. Uma história sombria, que reúne os talentos do escritor J. M. Dematteis e dos desenhadores Mike Zeck e Bob McLeod ao serviço de uma intriga perturbadora, em que Kraven, o Caçador, alveja o Homem-Aranha, enterra-o numa campa e assume temporariamente o seu lugar. Ou seja, uma história muito perturbadora (até pelo controverso final, que tanta polémica causou junto dos leitores) que mostra o lado mais negro do Homem-Aranha, que aqui não é o “simpático amigo da vizinhança” da série de animação.
Publicada originalmente entre Outubro e Novembro de 1987, esta história em 6 capítulos deveria ter sido publicada apenas na revista Spectacular Spider-Man, mas o editor Jim Salicrup lembrou-se de a espalhar pelas outras duas revistas do Homem-Aranha (Amazing Spider-Man e Web of Spider-Man) cujas páginas ocupou durante dois meses. Uma decisão ditada por motivos comerciais, pois obrigava os leitores a comprar as três revistas para conseguir ler a história, mas também por questões de lógica editorial, pois se Kraven mata o Homem-Aranha e ocupa o seu lugar, seria naturalmente confuso para os leitores que a vida de Peter Parker seguisse o seu percurso normal nos outros títulos, enquanto o herói estava debaixo de seis palmos de terra nas páginas de Spectacular Spider-Man
Se a premissa-base da história, em que um vilão mata o Homem-Aranha e passa a vestir o seu uniforme e a fazer o seu trabalho, tem, para os leitores actuais, grandes semelhanças com a história que Dan Slott criou para o Homem-Aranha Superior, trocando apenas Kraven pelo Dr. Octopus, o que mostra a influência do trabalho de De Matteis, quase trinta nos depois, a verdade é que A Última Caçada de Kraven não foi a primeira vez que o escritor tentou contar a história de um vilão que mata o herói e assume o seu lugar. Longe disso.
Reza a lenda que, já em meados da década de 80, De Matteis tinha proposto à Marvel uma mini-série doWonder Man, em que este era enterrade e acabava por conseguir abandonar a campa, mas o editor Tom DeFalco rejeitou a proposta, o que, anos mais tarde, levou o escritor a reformular a história e levá-la à DC, transformada numa aventura do Batman, em que o Joker mata o Batman, o que o deixa curado… Mais uma vez, a proposta seria rejeitada, neste caso, por ter alguns pontos de contacto com A Piada Mortal, que Alan Moore estava a preparar na altura. Só quando John Marc De Matteis reformulou outra vez o conceito e o levou à Marvel, transformado numa aventura do Homem-Aranha, é que a história foi finalmente aceite, com o sucesso que hoje se conhece.
Com um tom muito mais sombrio do que o habitual e referências literárias pouco habituais numa história de super-heróis, esta história é filha do seu tempo, reflectindo a alteração dos comics de super-heróis para um registo mais violento e realista, destinado a um público mais adulto, fazendo por isso mais sentido fora da continuidade normal do herói. O próprio De Matteis é aliás o primeiro a reconhece-lo, quando diz: “não estou a pensar para além destes seis números. Esta história não entra muito na continuidade dos outros livros. Na verdade, acho que se podiam pegar nestes seis capítulos e publicá-los separados, como uma mini-série, ou uma novela gráfica”.
Nascido em Nova Iorque em 1953, John Marc De Matteis queria ser músico rock, ou desenhador de BD, mas seria como argumentista que construiria uma carreira tão prolífica como bem-sucedida. Tendo começado a trabalhar para a DC em finais dos anos 70, De Matteis chegaria à Marvel em 1980, graças ao mítico editor Jim Shooter, que depois de alguns trabalhos menores, lhe confiou a escrita da revista do Capitão América, no que seria sua primeira colaboração com o desenhador Mike Zeck. Mas, mais do que as histórias de super-heróis, seriam os projectos mais artísticos que ajudaram a construir a fama de De Matteis. Mini-séries de luxo, ilustradas em cor directa, como Moonshadow, que escreveu para Jon J. Muth, ou Blood: A Tale, uma poética história de vampiros, pensada para o traço de Kent Williams.
Num registo bem diferente, mas igualmente memorável, estão as divertidas histórias da Liga da Justiça Internacional, que escreveu a meias com Keith Giffen, que contrapõem ao registo sombrio que dominava os comics da época, um humor absolutamente delirante. Humor que está ausente de A Última Caçada de Kraven, história que dá uma dimensão trágica e uma dignidade insuspeitada a um vilão menor do Homem-Aranha, Kraven, dá o merecido destaque a Ratus, uma espécie de ratazana humana, que Zeck e Matteis tinham criado durante a sua passagem comum pela revista do Capitão América e utiliza de forma eficaz o aspecto mais sombrio do novo fato que o Homem-Aranha ganhou durante as Guerras Secretas.
Muito bem construída em termos narrativos, com uma versão do famoso poema The Tyger, de William Blake (que Alan Moore já tinha utilizado no capítulo 5 da série Watchmen) em que o tigre (tyger) dá lugar à aranha (spyder), a funcionar quase como um mantra, pontuando os momentos mais importantes da narrativa, A Última Caçada de Kraven é o exemplo perfeito de uma boa história a que a cumplicidade e colaboração entre o argumentista e o desenhador, dá uma dimensão extra.
A parte gráfica foi assegurada por Mike Zeck, prolífico e talentoso desenhador que os leitores portugueses já conhecem dos dois volumes da saga Guerras Secretas, publicada na primeira colecção que a Levoir dedicou à Marvel e que aqui, apoiado na inspirada arte-final de Bob McLeod, assina um dos seus melhores trabalhos de sempre, marcado por um realismo sombrio, muito típico da segunda metade da década de 80, em que a influência de obras seminais como The Dark Knight Returns, de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, se fazia sentir fortemente.
O sucesso de A Última Caçada… foi tal que o próprio De Matteis voltaria pegar na história, novamente com Mike Zeck, em 1992, na novela gráfica Soul of the Hunter. E as coisas não ficaram por aqui, pois, regularmente, a relação entre Kraven, O Caçador e o Homem-Aranha volta ser abordada em mini-séries como Grim Hunt e Kraven First Hunt, em que descobrimos que Kraven deixou uma filha, que está pronta para acabar o trabalho do pai. Mas essas continuações, apesar de bem conseguidas, não fazem esquecer a história original. Uma história que, graças a esta colecção, os leitores nacionais vão poder ler finalmente em português de Portugal, numa edição que faz justiça à importância da obra.