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segunda-feira, 21 de março de 2016

Super-heróis DC 7 - Super_Homem & Batman: Antologia

AINDA ANTES DO CINEMA, BATMAN E SUPER-HOMEM ENCONTRAM-SE NOS QUIOSQUES 

Super-Heróis DC Vol 6 Super-Homem & Batman: Antologia
Argumento – Vários Desenho – Vários 
Quinta, 17 de Março Por + 9,90 € 
Exactamente uma semana antes de se encontrarem pela primeira vez nos ecrãs de cinema, Batman e Super-Homem dividem o protagonismo no sétimo volume da colecção Super-Heróis DC, que chega aos quiosques na próxima quinta-feira.
Este volume antológico recolhe, por ordem cronológica, os principais encontros entre os dois mais populares heróis do Universo DC ao longo dos tempos. Criados respectivamente em 1938 e 1939, o Super-Homem e o Batman, apesar de partilharem a capa da revista World’s Finest Comics (que, como o próprio nome indica, recolhia aventuras a solo dos dois maiores heróis do Mundo), desde 1941, só se encontraram pela primeira vez numa BD em 1952, na história A Mais Poderosa Equipa do Mundo, de Ed Hamilton e Curt Swan, aventura que, não por acaso, abre o volume da próxima quinta-feira.
 Seguem-se duas histórias ilustradas pelo grande Neal Adams, nome bem conhecido dos leitores do Público, pois foi o desenhador de Batman: A Saga de Ra’s Al Ghul e Lanterna Verde e Arqueiro Verde: Inocência Perdida, dois clássicos incontornáveis, publicados na anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC. Um dos pontos altos desta edição é a história Ontem, Hoje e Amanhã, escrita por Geoff Johns em 2006, que revisita de forma nostálgica alguns dos momentos mais importantes da história dos dois heróis, interpretados no estilo original de cada um desses momentos por um naipe impressionante de artistas (que inclui nomes como Dick Giordano, George Pérez, Ethan Van Sciver, Adam Kubert, Ed Benes ou Dan Jurgens) que ao longo das décadas deixaram a sua marca nas aventuras dos dois heróis.
Depois de uma aventura escrita por Jeff Lemire, em que o Super-Homem e o Batman combatem ao lado de outro Super-Herói DC, o Átomo, chega outro momento imperdível deste volume: Se Calhar já Ouviram Esta…, uma tão divertida como delirante história, em que Joe Kelly e um punhado de artistas, actualizam e reinventam o primeiro encontro entre Batman e Super-Homem, tal como foi descrito em A Mais Poderosa Equipa do Mundo. A terminar, temos um breve momento de pura poesia de Jeph Loeb e Tim Sale, que imaginam o primeiro encontro entre Clark Kent e Bruce Wayne… que não chegou a ser, terminando em beleza este livro. Um volume antológico, recheado de grandes histórias, que permitirá aos leitores conhecer melhor o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas, antes do seu tão aguardado confronto nas salas de cinema.
Texto originalmente publicado no jornal Público de 11/03/2016

domingo, 18 de janeiro de 2015

75 Anos de Batman 1 - Batman: O Longo Halloween Vol 1


Como tem sido habitual, aqui deixarei os textos editoriais que escrevi para a colecção dedicada aos 75 Anos do Batman, que a Levoir está a lançar com o jornal Sol. O primeiro foi precisamente este, dedicado a um dos meus livros favoritos da dupla Jeph Loeb/Tim Sale.

BATMAN ANO DOIS

Se o leitor for um fã de cinema, encontrará certamente algo de familiar nas primeiras páginas deste livro. Com efeito, a imagem de Bruce Wayne, envolto nas sombras a dizer a Carmine Falcone, o Padrinho da principal família mafiosa de Gotham, que acredita na sua cidade, na página inicial desta história, não pode deixar de evocar no leitor cinéfilo, a cena de abertura do filme O Padrinho, de Francis Ford Coppola, que começa precisamente com a frase “acredito na América” dirigida a Vito Corleone, o Padrinho do romance de Mario Puzo, que inspirou o filme de Coppola.
Para além do Carmine Falcone desenhado por Tim Sale ter parecenças físicas com o Vito Corleone superiormente interpretado por Marlon Brando, o facto de ambas as cenas terem lugar durante a festa de casamento de um parente do chefe mafioso, não deixa dúvidas sobre a óbvia homenagem que Loeb e Sale quiseram prestar ao filme de Coppola. Uma homenagem tão merecida como arriscada, pois pode levar a inevitáveis comparações entre o clássico do cinema e a BD de Loeb e Sale. Mas a verdade é que, tal como O Padrinho tem um lugar de destaque no cânone do cinema americano do século XX, também The Long Halloween é presença indiscutível na lista das 10 melhores histórias do Batman de sempre.
Na anterior coleção da Levoir dedicada à DC, pudemos apreciar o trabalho de Tim Sale com o Batman, numa série de histórias soltas escritas por diferentes argumentistas, mas isso foi apenas um aperitivo para a "piece de resistance" que se vai seguir: o primeiro trabalho de grande fôlego da dupla Loeb/Sale protagonizado pelo Cavaleiro das Trevas. Um marco na história dos Comics americanos cuja influência é evidente na trilogia cinematográfica de Christopher Nolan.
Mas não negando os méritos do trabalho de uma dupla de criadores em perfeita sintonia, convém não esquecer o papel fundamental do editor Archie Goddwin em The Long Halloween, que Loeb é o primeiro a salientar, na entrevista que lhe fez o cineasta Kevin Smith para o programa de rádio Fatman on Batman. Aí Loeb refere que foi o mítico editor e argumentista a ir buscar a dupla para as revistas do Batman, numa fase em que o trabalho dos dois criadores para a DC se limitava à sua passagem pela série Chalengers of the Unknow, convidando-os a criar uma história de Halloween para a revista Legends of the Dark Knight, de que Godwin era o editor. Essa história foi Fears e a DC gostou tanto do resultado que resolveu lançar à história num número especial em "prestige format" (formato mais luxuoso, com papel de gramagem superior, lombada e capa cartonada, usado pela primeira no The Dark Knight Returns de Frank Miller), em vez de a espalhar por três Comics, como era habitual.
Uma aposta arriscada, tento em conta que tanto Loeb como Sale eram ainda relativamente desconhecidos, mas que se revelou ganhadora, tanto em termos críticos como comerciais. Seguiram-se mais dois especiais de Halloween nos anos seguintes (Madness e Ghosts, posteriormente reunidos, com Fears, no livro Haunted Knights), até que Goodwin, enquanto tomava o pequeno-almoço com Loeb, durante a Comic Con de San Diego, de 1995, se lembrou que podia ser interessante aplicar esta lógica a uma história que durasse o ano inteiro, sugerindo ainda o nome The Long Halloween, para essa história.
Para Loeb, que naquela época, além do seu trabalho no cinema e na televisão, estava também a escrever a série Cable para uma editora rival, não era fácil ter disponibilidade para aceitar o desafio, mas quando Goodwin lhe disse que tinha falado com Frank Miller e que este não se opunha a que alguém usasse os Falcone e os Maroni, as duas famílias mafiosas que Miller tinha criado em Ano Um, Loeb percebeu que não podia perder a oportunidade de explorar os primeiros anos de actividade de Batman, numa história que homenageasse simultaneamente o trabalho de Miller e os clássicos do filme noir.
Nascia assim The Long Halloween, uma história em 13 partes, pensada para funcionar simultaneamente como uma intriga policial clássica e como a continuação do Ano Um de Miller e Mazzucchelli, com a acção a decorrer seis meses depois dos acontecimentos de Batman: Ano Um. E se em Ano Um é Jim Gordon quem assume o principal protagonismo, agora, seguindo uma sugestão de Mark Waid, Loeb e Sale vão contar o processo de transformação de Harvey Dent no Duas Caras.
O resultado é uma história que mistura ingredientes do romance policial clássico, com o Film Noir e os filmes de gangsters, sem esquecer a mitologia do Cavaleiro das Trevas e a colorida galeria de vilões do Batman, que Sale teve carta-branca para reformular graficamente. A esse nível a mudança mais notável é a do Calendar Men, um dos mais obscuros (e também dos mais ridículos) vilões do Batman, que Sale já tinha tido oportunidade de desenhar numa história de Alan Grant - publicada em Portugal em Contos do Batman, volume pertencente à segunda colecção que a Levoir dedicou à DC Comics - e que aqui surge completamente transformado. Um personagem muito mais misterioso e sombrio, que da sua cela no Asilo Arkham vai dando pistas a Batman que o ajudem a descobrir a identidade do misterioso Holliday, o assassino dos Feriados. No fundo, um papel muito semelhante ao de Hannibal Lecter em relação à agente Clarice Sterling no filme The Silence of the Lambs, de Jonathan Demme.
Articulando de forma muito equilibrada o mistério e o suspense das boas histórias policiais, com a acção e as personagens hiperbólicas das histórias de super-heróis clássicas e o ambiente sombrio das histórias de gangsters, O Longo Halloween conquista o leitor de forma inapelável, tanto pela história como pela arte, com Tim Sale a aproveitar muito bem a grande quantidade de páginas disponíveis para brilhar nas sequências de acção e nas belas páginas duplas.

Terminado este primeiro volume, todos dados estão lançados e a intriga está em marcha. Agora só resta ao leitor esperar uma semana pela conclusão desta história épica, para conhecer finalmente a identidade do misterioso Halloween.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Universo Marvel 17 - Hulk: Cinzento


UNIVERSO MARVEL VOL 17
Hulk: Cinzento
Argumento - Jeph Loeb
Desenhos - Tim Sale

TRÊS CORES: CINZENTO

Se dissessem a um cinéfilo mais tradicional, daqueles que lêem a revista Cahiers du Cinema, que há grandes pontos de contacto entre a trilogia das cores do cineasta polaco Krzysztof Kieslowski e os trabalhos de Jeph Loeb e Tim Sale para a Marvel, este teria certamente dificuldade em acreditar, mas a verdade é que, por mais improvável que pareça, há muita coisa que aproxima os filmes do cineasta polaco e as Banda Desenhadas dos dois americanos.
Se Azul, Branco e Vermelho, os três filmes que Kieslowski dedicou às cores da bandeira de França e aos ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) são histórias de amor, marcadas pelo peso da memória, o mesmo se pode dizer de Homem-Aranha: Azul, Demolidor: Amarelo e Hulk: Cinzento, a trilogia das cores que Loeb e Sale dedicaram aos principais heróis da Marvel e que, depois da edição pela Devir dos dois livros anteriores, está finalmente disponível na íntegra em Portugal.
Revisitações nostálgicas dos primeiros tempos de actividade dos heróis, os três livros seguem uma estrutura muito semelhante, marcada pelos flash-backs. Tanto em Homem-Aranha: Azul, como em Demolidor: Amarelo, as histórias são narradas como cartas de amor a pessoas que já morreram (Peter Parker a Gwen Stacy em Homem-Aranha: Azul e Matt Murdock a Karen Page em Demolidor: Amarelo), mecanismo que permite o desencadear das recordações de um tempo que já passou, e que Loeb e Sale recuperam com o talento que se lhes reconhece.
Em Hulk: Cinzento, o que desencadeia os flash-backs, são as sessões de terapia entre Bruce Banner e Leonard “Doc” Samson, mas no centro dessas recordações está igualmente uma história de amor trágico, o triângulo amoroso entre Bruce Banner, Betty Ross e o Incrível Hulk, com a história mais centrada na relação impossível entre Betty e o Hulk, de uma forma que nos recorda o fascínio de King Kong por Ann Darrow (personagem interpretada de forma memorável pela actriz Fay Wray no filme original de Merian C. Cooper) que acaba por levar à sua perdição. Uma história centrada numa etapa inicial menos conhecida do percurso de Hulk, em que o gigante esmeralda era cinzento e a sua transformação era não consequência do aumento do stress, mas do cair da noite.
Mesmo que os outros heróis da Marvel com a excepção do Homem de Ferro, que não sai muito bem tratado desta história, brilhem pela ausência, Loeb não esquece os criadores que antes dele escreveram as aventuras do Hulk e em especial Peter David, responsável pelo argumento da revista do Hulk durante doze anos e que recuperou a versão cinzenta do Hulk, para além de ter criado também uma versão vermelha (cá temos outra trilogia das cores: cinzento, verde e vermelho...) A homenagem de Loeb a David é evidente no diálogo entre Banner e Samson sobre a mudança de cor do Hulk, com Banner a concluir o tema com a frase “mas estou a divagar” (“but I digress”, no original), que é precisamente o título da coluna de comentário sobre Banda Desenhada que Peter David Assinou na revista Comics Buyers Guide, de 1990 até 2013, data em que a revista cessou a publicação.
Nascido em 1956 em Ithaca, Nova Iorque, Sale passou a infância e a adolescência em Seattle, de onde saiu durante dois anos para frequentar a School of Visual Arts, a célebre escola nova-iorquina criada por Burne Hogarth, onde Will Eisner foi professor, para além de ter feito um workshop em Banda Desenhada com John Buscema. Mesmo que tenha regressado a Seattle sem ter concluído a sua licenciatura na S.V.A., o contacto com tão bons mestres deixou marcas e não admira que tenha acaba por decidir fazer carreira na Banda Desenhada. Uma carreira que se iniciou em 1983, com a série Mith Adventures da Warp Graphics, mas que só arrancaria realmente dois anos mais tarde ao conhecer o autor Matt Wagner e a editora Diana Schutz na Comic Con de San Diego. Encontro que lhe valeu o convite para colaborar na série Grendel, de Wagner, como desenhador, e que acabou por levar ao encontro mais importante da sua vida, com o escritor Jeph Loeb, que lhe foi apresentado por Wagner e Schutz.
Vindo do mundo do cinema, onde foi responsável pelo argumento de filmes como Teen Wolf e Commando e trabalhou na primeira série de ficção da HBO, The Hichhiker, foi o seu trabalho para um filme do Flash que nunca chegou a ser feito, que lhe abriu as portas da DC Comics, que detém os direitos da personagem e lhe permitiu iniciar uma carreira na Banda Desenhada, que não se limitou às colaborações com Sale. Uma carreira prolífica e frutuosa como argumentista de BD ligado às maiores editoras americanas, que Loeb tem sabido conciliar com a sua actividade de argumentista e produtor para televisão e que faz dele o homem ideal para o cada vez maior número de projectos em que Hollywood vai beber ao mundo da Banda Desenhada.
A série Chalengers of the Unkwon, o primeiro argumento de comics escrito por Loeb em 1991, foi naturalmente ilustrado por Sale e desde então a dupla colaborou em inúmeros projectos, com destaque para as sagas The Long Halloween e Dark Victory, que exploram o destino do Batman imediatamente após os acontecimentos do Year One, de Frank Miller e David Mazzucchelli e para Superman For All Seasons, história muita na linha da trilogia das cores da Marvel, de que é precursora e que foi assumida pelos criadores da série televisiva Smallville, onde Loeb também trabalhou, como uma das principais fontes de inspiração da série.
Mas as colaborações da dupla não se resumem à DC. Basta relembrar as mini-séries Homem-Aranha: Azul e Demolidor: Amarelo, os volumes anteriores da trilogia das cores, publicadas em Portugal pela Devir e da participação de Sale na série televisiva Heroes, de que Loeb foi produtor e argumentista e onde Sale, para além de conselheiro artístico, foi o responsável pelas pinturas de Isaac Mendez, um dos personagens da série, cujos poderes divinatórios se revelavam nos quadros que pintava.
E se Loeb e Sale já tinham estado em destaque nas duas colecções que a Levoir dedicou à DC, em que Loeb assinou o argumento dos últimos volumes da primeira e segunda série, com histórias que reúnem o Super-Homem e o Batman (A Rapariga de Krypton e Poder Absoluto) e Tim Sale foi responsável pela arte de Contos do Batman, em que ilustrava três histórias do Cavaleiro das Trevas, escritas por outros argumentistas que não Loeb, esta é a primeira vez que a dupla surge junta numa colecção da Levoir, assinando um dos seus melhores trabalhos conjuntos.
Um trabalho em que o traço de Sale revela uma plena maturidade, que ainda lhe faltava em Contos do Batman, e um apurado sentido narrativo, usando com grande efeito dramático, os grandes planos, as imagens de página inteira e as duplas páginas. Mas onde Sale mais brilha é na expressividade que consegue transmitir ao rosto do Hulk, usando com grande eficácia as sombras e os grandes planos, focando pormenores como os olhos e os dentes do Hulk, que se destacam no meio da escuridão. Veja-se, por exemplo a sequência que nos mostra a sua breve amizade com um coelho, ou o modo como o monstro se “derrete” na presença de Betty Ross. Betty, a mulher cuja memória está no centro da história, tal como aconteceu nos outros volumes da “trilogia das cores”, mas que na realidade acaba por ser mais um catalisador duma reflexão de contornos psicanalíticos sobre a relação difícil entre pais e filhos.
Pais geralmente ausentes, como nos casos de Bruce Banner e Rick Jones, dois órfãos com infâncias traumáticas, que estabelecem nesta história uma relação de pai e filho, ou mesmo de Betty Ross, que órfã de mãe tem no General Ross um pai ausente, para quem a obsessão em capturar o Hulk se sobrepõe tudo o resto, evocando uma personagem trágica da literatura, o capitão Ahab e a sua relação com Moby Dick, a baleia branca, que está no centro do famoso romance de Herman Melville.

sábado, 18 de janeiro de 2014

DC Comics Uncut 23 - Contos do Batman


O Batman segundo Tim Sale

Graças a obras tão populares e prestigiadas como The Long Halloween e Dark Victory, Tim Sale é considerado como um dos mais importantes artistas a desenhar o Batman nas últimas duas décadas. Mas a ligação de Sale com o Cavaleiro das Trevas não começou com as sagas em que Sale e Jeph Loeb deram continuidade ao passado de Batman, que Frank Miller e David Mazzucchelli começaram a narrar em Batman: Ano Um. Essa ligação começou bem antes. Começou precisamente nas histórias que vão poder ler neste volume.

Nascido em 1956 em Ithaca, Nova Iorque, Sale passou a infância e a dolescência em Seattle, de onde saiu para frequentar durante dois anos a School of Visual Arts, a célebre escola nova-iorquina criada por Burne Hogarth, onde Will Eisner foi professor,  para além de ter feito um workshop em Banda Desenhada com John Buscema. Mesmo que tenha regressado a Seattle sem ter concluído a sua licenciatura na S.V.A., o contacto com tão bons mestres deixou marcas e não admira que tenha acaba por decidir fazer carreira na Banda Desenhada. Uma carreira que se iniciou em 1983, com a série Mith Adventures da Warp Graphics, mas que só arrancaria dois anos mais tarde ao conhecer o autor Matt Wagner e a editora Diana Schutz na Comic Con de San Diego. Um encontro que lhe valeu o convite para colaborar na série Grendel, de Wagner, como desenhador, e que acabou por levar ao encontro mais importante da sua vida, com o escritor Jeph Loeb, vindo do mundo do cinema, que lhe foi apresentado por Wagner e Schutz.
A série Chalengers of the Unkwon, o primeiro argumento de comics escrito por Loeb em 1991, foi naturalmente ilustrado por Sale e desde então a dupla colaborou em inúmeros projectos, não só para a DC. Foi o caso das mini-séries Homem-Aranha: Azul e Demolidor: Amarelo, publicadas em Portugal pela Devir e da participação de Sale na série televisiva Heroes, de que Loeb foi produtor e argumentista e onde Sale, para além de conselheiro artístico, foi o responsável pelas pinturas de Isaac Mendez, um dos personagens da série, cujos poderes divinatórios se revelavam nos quadros que pintava.
 Mas apesar das memoráveis histórias do Batman em que trabalharam juntos, a estreia de Tim Sale como desenhador do Cavaleiro das Trevas não se faz ao lado de Loeb, mas sim do inglês James Robinson, o criador de Starman, com Lâminas (Blades), uma história em três partes publicada em 1992 nos nºs 32 a 34 da revista Legends of the Dark Knight, coordenada pelo mítico editor Archie Goodwin. Embora fosse a primeira vez que estava a desenhar o Batman, a imagem que abre a história mostra já duas características bem identificadoras do estilo de Sale: um cuidadoso uso das sombras, que cobrem o uniforme do Cavaleiro das Trevas e o rigor e o detalhe no tratamento do cenário, visível nos post-its que cobrem o frigorífico, ou nos retratos de família sobre a mesa da sala, que introduzem o leitor na casa da família cuja vida acaba de ser destruída.
 Com uma planificação dinâmica, que explora bem as possibilidades da dupla página, Sale não hesita perante algumas soluções narrativas mais ousadas, como na cena em que descobrimos a casa do Cavaleiro. Uma dupla página tratada como se fosse um plano-sequência, em que o Cavaleiro se movimenta pela sala como um actor pelo palco e que nos recorda as extraordinárias adaptações que o italiano Gianni De Luca fez das peças de Shakespeare, em que a página e a dupla página funcionavam como um palco por onde deambulavam as personagens.
Para esta aventura do início da carreira do Batman, Robinson vai recuperar o Cavaleiro, um obscuro vilão cuja primeira aparição remonta a 1943, numa história escrita por Don Cameron e desenhada por Bob Kane, o criador de Batman, publicada no nº 81 da revista Detective Comics. Mas apenas o nome e uso de uma espada ligam o Cavaleiro original ao personagem criado por Robinson e Sale. O novo Cavaleiro tem um traje mais próximo do do Zorro do que do fato de mosqueteiro do Cavaleiro original e mesmo o homem por trás da máscara é outro, com Mortimer Drake a dar lugar a Hudson Pyle, um ex-duplo de cinema em busca da fama que, por amor de uma mulher acaba por cair numa vida de crime e entrar em confronto com o Batman. Inspirado pelos heróis interpretados por Errol Flynn nos filmes clássicos de aventuras, como Robin Hood, The Sea Hawk, ou Captain Blood, o Cavaleiro revela-se um personagem extremamente interessante,  e até cativante, que nos remete para uma das inspirações do Batman, o Zorro.
O conto seguinte, Os Marginais (The Misfits) é assinado pelo inglês Alan Grant, um dos principais argumentistas do Judge Dredd, o mais conhecido vigilante da BD inglesa e é a segunda colaboração entre Grant e Sale ambientada no universo do Cavaleiro das Trevas, pois já antes a dupla tinha colaborado em Mad Men Across the Water, uma curiosa história de 1991, protagonizada pelos vilões do Asilo Arkham, em que o Batman prima pela ausência e onde Tim sale apenas assegura o desenho a lápis, ficando a arte-final a cargo de Jimmy Palmiotti. Para esta história, publicada originalmente nos nºs 7 a 9 da revista Shadow of the Bat, Grant vai recuperar vilões clássicos de segunda, ou terceira linha, como o Traça Assassina, O Homem-Gato e o Calendarista e criar um novo vilão, o Audaz, que junta num bando de falhados, chamado apropriadamente os Marginais, que decidem dar o golpe das suas vidas, ao raptar o Presidente da Câmara de Gotham, o Comissário Gordon e… Bruce Wayne.

Curiosamente, o Calendarista, que aqui tem um papel relativamente discreto, vai ser um personagem fundamental de The Long Halloween e da sua continuação, Dark Victory mas Loeb e Sale vão dar-lhe uma caracterização muito mais sinistra nessa nova versão. Para além de ser uma história bem contada, Os Marginais tem a particularidade de ser a única história do Batman que Sale desenhou dentro da continuidade regular da série, com Tim Drake, o terceiro Robin, a assumir algum protagonismo.

A terminar temos aMor Cego (Date Knight), uma pequena história protagonizada pelo Batman e pela Mulher-Gato. Publicada originalmente em 2004, no volume da série Solo dedicado a Tim Sale, esta história reúne Sale a Darwyn Cooke, com Cooke, que voltaria a trabalhar com Sale anos depois na revista Superman Confidential, a criar aqui uma intriga tão simples como movimentada e divertida, que faz brilhar a elegância, o dinamismo e o talento narrativo de Tim Sale. Curiosamente, esta história assinala o reencontro dos dois criadores com a Mulher-Gato, pois se Tim Sale já tinha tido oportunidade de desenhar a Mulher-Gato em When in Rome, um spin off de Dark Victory, escrito também por Jeph Loeb, já Darwyn Cooke tinha ilustrado as primeiras histórias do relançamento da revista da Mulher-Gato, feito por Ed Brubaker em 2001, para além de ter escrito e desenhado a novela gráfica Selina’s Big Score, que funcionou como prequela à fase de Ed Brubaker da revista mensal da felina mais sensual do universo DC.
Deixo-vos então com estas três histórias. Três contos do Batman, que traduzem outros tantos encontros entre o Cavaleiro das Trevas e um dos desenhadores que melhor lhe soube dar vida.