A MUSA, OS GATOS, O POETA E A MÁSCARA
Sandman - Vol 3
Terra do Sonho
Argumento - Neil Gaiman
Quinta, 20 de Outubro
Desenhos – Kelley Jones, Charles Vess, Colleen Doran e Malcon Jones III
Por + 11,90 €
Considerado por muita gente (entre os quais me incluo) como um dos melhores volumes da série, Terra do Sonho funciona como um interregno na longa história de Morfeu, para permitir a Neil Gaiman explorar as infinitas possibilidades que o tema do sonho oferece, num punhado de histórias que lidam com questões como a criatividade e o preço dos sonhos, tanto os concretizados, como os que ficam por cumprir.
Terra dos Sonho é pois constituída por quatro histórias autónomas e auto conclusivas, em que um escritor em busca de inspiração aprisiona uma musa, acabando por descobrir que há sempre um preço a pagar pelas ideias; uma gatinha descobre que houve um tempo em que o mundo era dominado pelos gatos e que só o poder dos sonhos poderá restaurar esse domínio; uma criatura superpoderosa anseia pela única coisa que lhe está vedada: a morte; e o poeta William Shakespeare apresenta a sua última peça para um público muito especial. Ou seja, histórias tão diferentes sobre a vida (e a morte), a criatividade, a solidão e o destino, unidas pela presença de Morfeu, o Senhor dos Sonhos e ilustradas por diferentes desenhadores que voltaremos a encontrar ao longo da série, numa demonstração do cuidado de Gaiman em encontrar sempre o artista com o traço mais adequado às diferentes histórias que quer contar.
Mesmo que seja muito difícil resistir ao encanto de Um Sonho de Mil Gatos, em que descobrimos que o Domínio do Sonho se estende também ao reino animal, a mais célebre dessas histórias é Sonho de uma Noite de Verão, em que Morfeu reencontra Shakespeare, depois de um primeiro encontro em Homens de Boa Vontade, história publicada no volume anterior, em que o poeta lhe diz “que queria dar aos homens sonhos que vivessem muito depois de ele ter morrido”. Um desejo que será satisfeito através de um acordo em que o dramaturgo se compromete a escrever duas peças para o Rei dos Sonhos.
Uma dessas peças é precisamente Midsummer’s Night Dream, conforme descobrimos nesta história de Terra dos Sonho, que foi justamente a primeira BD (e também a última, pois o regulamento foi imediatamente alterado para impedir que um sacrilégio desses voltasse a acontecer...) galardoada com o World Fantasy Award, um prestigioso prémio literário na área da literatura fantástica.
Ponto de entrada ideal no universo mágico de Sandman, o Mestre dos Sonhos, Terra do Sonho é o primeiro ponto alto de uma série incontornável, exemplo maior da obra de um autor tão criativo como talentoso, que sabe muito bem para onde vai e que se prepara para escrever algumas das páginas mais memoráveis da BD em língua inglesa.
Publicado originalmente no jornal Público de 14/10/2016
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quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Sandman 3: Terra do Sonho
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sábado, 25 de janeiro de 2014
Super Pig e a Língua de Shakespeare
Depois de “Roleta Nipónica”, o Super Pig está de regresso com “O Impaciente Inglês”, um ambicioso romance gráfico de 90 páginas, lançado no último Festival da Amadora, que confirma a evolução de Mário Freitas enquanto argumentista e o seu talento para se rodear dos ilustradores certos para cada projecto.
Criado em 2006, o personagem Super Pig tem funcionado como um veículo para as incursões do seu criador (e também editor) enquanto argumentista de BD. Personagem antropomórfico, Super Pig, como o próprio nome indica, é um porco que se movimenta num mundo de humanos, um pouco na linha do “Cerebus” de Dave Sim. À semelhança do próprio Cerebus, que começou como uma paródia de Conan, o Bárbaro, protagonizada por um papa-formigas antropomorfizado, para se transformar em algo bastante mais complexo e interessante, também o Super Pig tem crescido como personagem à medida que o seu criador se tem afirmado como argumentista.
Curiosamente, esse crescimento do Super Pig está ligado ao destaque cada vez maior que o seu pai, o milionário Calouste Pig, vai tendo nas últimas histórias. Algo que é evidente em “Roleta Nipónica”, uma incursão no mangá, em que o sushi se cruza com o leitão da Bairrada, ilustrada com grande eficácia por Osvaldo Medina, em que o principal protagonista é Calouste Pig, e que se acentua neste “O impaciente Inglês”.
Se “Roleta Nipónica” em termos narrativos, consistia num longo flash back protagonizado por Calouste Pig, neste “Impaciente Inglês” a coisa complexifica-se bastante, com diversos saltos temporais, que nos levam das épocas isabelina e vitoriana, até à actualidade, e narrativas paralelas, como as recordações da infância do Super Pig, que correm numa pequena tira no fundo de algumas páginasOutra particularidade desta história é ser parcialmente falada em inglês, com os personagens ingleses a falaram na língua de Shakespeare, sem tradução. E a língua de Shakespeare está presente também em sentido literal, pois o motor da história (o Mcguffin, para citar Hitchcock) é precisamente uma relíquia, a língua do poeta William Shakespeare, cortada depois deste morrer, e que passará pelas mãos de figuras históricas tão ilustres como John Dee, o poeta John Milton, a Raínha Vitória, Oscar Wilde e Wiston Churchil, para acabar na posse de Calouste Pig e, com isso, provocar o início da decadência do Império Britânico.
Os longos diálogos em inglês e a complexidade da intriga e da planificação, são aspectos que exigem um maior investimento do leitor em termos de atenção, mas a verdade é que o resultado final compensa bem o esforço.
Nesta história complexa e ambiciosa, onde se sente a sombra de Alan Moore, Grant Morrison e Neil Gaiman (John Dee é um dos protagonistas de “1602”), Mário Freitas contou com o talento gráfico de André Pereira, um jovem artista natural da Figueira da Foz, que se sai muito bem desta tarefa complexa, conseguindo algumas páginas espectaculares em termos gráficos e de planificação, embora por vezes sejam visíveis algumas hesitações e imprecisões no traço, que o bem conseguido trabalho de cor de Bernardo Majer, ajuda a disfarçar
Se o crescimento da editora Kingpin, alicerçado em títulos como “A Fórmula da Felicidade”, “Palmas para o Esquilo” e “O Baile” vem confirmar as capacidades de Mário Freitas enquanto editor, este “Impaciente Inglês” vem mostrar também que estamos perante um argumentista a seguir com atenção
(“Super Pig: O Impaciente Inglês”, de Mário M. Freitas, André Pereira e Bernardo Majer, Kingpin Books, 92 pags, 17,99 €)
Versão integral do texto publicado no Diário as Beiras de 25/01/2014
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