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terça-feira, 29 de novembro de 2016

NOS TRINTA ANOS DE DYLAN DOG - Parte II: Da BD para o cinema


Conforme prometido, aqui está a segunda parte da versão (muito) alargada do artigo que escrevi para o último número da revista Bang! a propósito do trigésimo aniversário de Dylan Dog. A primeira parte do artigo pode ser lida aqui e a terceira e última parte será colocada on line no sábado, dia 3 de Dezembro.  

PARTE II - DA BD PARA O CINEMA

Curiosamente, antes de criar Dylan Dog, Sclavi tinha proposto a Bonelli recuperar os personagens de um dos seus primeiros romances, Dellamorte Dellamore e transformá-los em heróis de uma série de BD, sendo Francesco Dellamorte uma espécie de estudo preparatório para Dylan Dog, com quem compartilha o aspecto físico e a forma de vestir, para além de um peculiar assistente. Essa ideia acabou por não se concretizar no papel, apesar de Sclavi ter escrito uma história, Orore Nero, publicada no Dylan Dog Speciale nº 3, de 1989, em que Francesco Dellamorte e Dylan Dog quase que se encontram, mas aconteceu de forma indirecta no cinema, graças ao filme realizado em 1994 por Michele Soavi a partir do citado romance. Nascido em 1957, Soavi trabalhou com Dario Argento e Lamberto Bava, para além de Terry Gilliam, realizadores que o escolheram pelo seu impecável sentido estético e de composição, bem patentes em Dellamorte Dellamore, o ponto mais alto de uma curta cinematografica. Depois de ter servido de modelo para Dylan Dog, o actor inglês Rupert Everett acabou por ser o protagonista de Dellamorte Dellamore, o filme visualmente deslumbrante que consegue transpor com inesperado sucesso o universo único de Tiziano Sclavi para o grande ecrã e que o próprio Sclavi considera mesmo “muito melhor do que o livro”.
Confirmando as ligações de Dylan Dog e do seu criador com o cinema, o herói emprestou o nome ao Dylan Dog Horror Fest, um festival de cinema de terror, que teve quatro edições, entre 1987 e 1993, onde os desenhadores de Dylan Dog partilhavam o protagonismo com grandes nomes do cinema de terror, como Dário Argento, Clive Barker, Lamberto Bava, Herschell Gordon Lewis, Sergio Stivaletti, Robert Englund (o actor que faz de Freddy Krueger na série Nightmare in Elm Street) e Jeffrey Combs.
Essa ligação entre Dylan Dog e o cinema, acabaria por dar origem, em 2007, a um filme realizado por Kevin Munroe, que já tinha dirigido o 4º e último filme das Tartarugas Ninja. Um filme que passou despercebido do público, apesar de contar com Brandon Routh no principal papel e Sam Huntington no do seu assistente Marcus.
Um elenco muito habituado aos filmes inspirados na BD, pois Routh participou no divertidíssimo Scott Pilgrim Vs the World, foi o Super-Homem em Superman Returns de Bryan Singer, para além de participar actualmente nas séries televisivas Arrow e Legends of Tomorrow, como Ray Palmer, o Átomo da DC. Apesar da reconhecida experiência do elenco na transposição de BDs para o cinema, esta adaptação não prima pela fidelidade à BD original, bem pelo contrário, pois a acção foi transposta de Londres para New Orleans e, por questões de direitos, o ajudante de Dylan Dog na BD, inspirado no actor Groucho Marx teve que ser substituído por Marcus, o personagem de Hutington no filme, responsável pelos momentos mais divertidos, quando é transformado num zombie e tem que aprender a adaptar-se à sua nova condição de morto-vivo.
Mas o humor da personagem de Marcus e de alguns bons diálogos não salvam um filme com um argumento cheio de buracos, uma direcção pouco criativa, efeitos especiais bastante fracos e que não consegue preservar a originalidade de Dylan Dog, que distinguia a série de outras abordagens ao género do terror, ficando bem longe dos inúmeros filmes de fã, com destaque para os escritos, realizados e interpretados por Roberto D’Antona com meios infinitamente inferiores.
Apesar do resultado estar muito longe de ser brilhante, iniciativas como o filme ajudaram à popularidade da série, que do estatuto inicial de série de culto com vendas não especialmente entusiasmantes, rapidamente evoluiu para um verdadeiro fenómeno de massas, aspecto a que não será estranho a grande qualidade dos seus principais desenhadores, como Angelo Stano, Bruno Brindisi, Giovanni Freghieri, Gustavo Trigo, Nicola Mari, Giampero Casertano e principalmente Corrado Roi. O sucesso de Dylan Dog foi tal, que chegou mesmo ultrapassar Tex como o título mais vendido da casa Bonelli, ao mesmo tempo que a personagem, para além de ver as suas aventuras reeditadas nos mais variados formatos, era adaptada a outros meios de comunicação, desde os jogos de computador ao teatro radiofónico. Nesse campo, o mérito vai para o realizador Armando Traverso que, depois do sucesso das versões radiofónicas de outros clássicos dos fumetti como Tex, Lupo Alberto e Diabolik, decidiu adaptar algumas das mais famosas aventuras de Dylan Dog à rádio, numa série de 25 programas, emitidos em 2002 pela cadeia Radio Due.
Apesar do sucesso da série, que conseguiu conciliar a crítica com o grande público, aliando o sucesso comercial ao prestígio cultural, traduzido numa série de artigos nos mais prestigiados jornais e revistas italianas e não só, e em várias Tese de Mestrado e Doutoramento, Sclavi acabaria por se afastar gradualmente da escrita das aventuras de Dylan Dog. Mais do que o cansaço em relação à personagem, o afastamento foi motivado pela dificuldade cada vez maior em escrever novas aventuras para o (anti)herói que criou. Conforme confessou a Umberto Eco: “a força de Tex provém do carácter repetitivo das histórias: duas ou três tramas e algumas variações sobre esses temas. Isso nunca funcionaria com Dylan Dog, porque o leitor quer ser surpreendido. E asseguro-lhe que ao fim de 140 números é muito difícil continuar a surpreender os leitores.”
Por isso, Sclavi abandonou o seu herói, regressando apenas por ocasião do vigésimo aniversário, em 2006, no Dylan Dog nº 240, assinando o argumento de Ucronia, uma história ilustrada por Franco Saudeli, desenhador que, depois de nos anos 80 e 90 se ter dedicado à BD erótica, trabalha actualmente para a editora Bonelli. Um regresso que se revelou temporário, pois, depois de escrever também as histórias dos nº 243 e 244, o escritor voltaria a afastar-se da escrita da série que criou.



CONTINUA...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dellamorte Dellamore


Definitivamente, os zombies estão na moda, tanto no cinema, como na Banda Desenhada, onde a série Walking Dead, de Robert Kirkman, ao fim de 6 anos de publicação mensal continua a ser uma das mais interessantes séries em publicação no mercado americano. Depois de ver Zombieland, uma comédia com zombies, quase tão divertida como o inesquecível Shaun of the Dead, lembrei-me de recuperar um texto que escrevi em 2005 sobre um clássico dos filmes de zombies, publicado originalmente num site sobre cinema cujo nome não recordo e mais tarde reproduzido no fórum do site Tex.br pelo meu amigo José Carlos Francisco.
Esse clássico é Dellamorte Dellamore, (distribuído nos EUA com o título bem menos sujestivo de Cemetery Man) obra-prima de Michele Soavi, realizador sub-valorizado e discípulo inspirado de Dario Argento, mestre do “giallo” de quem Soavi foi assistente em Tenebrae e Phenomena, que aqui transpõe o universo peculiar de Ticianno Sclavi, o criador de Dylan Dog, para o grande ecrã.

Como refere António Pascoalinho, no catálogo da XVI edição do Fantasporto: “Michele Soavi não procurou afastar-se dos modelos associados ao gore: a morte, o sangue, o demónio, o Além, valores imutáveis de um imaginário que o público não dispensa neste género de filmes. O que ressalta à vista na sua obra é a vontade de adicionar poesia onde ela não deveria existir: na morte, no medo, nos crimes violentos. Através de um imenso cuidado estético. E, acima de tudo, com Arte. Como se Soavi não se considerasse um inventor. Limitando-se a fazer um trabalho idêntico a outros já existentes, mas reinventando-o. À sua maneira. E com alguns laivos de verdadeiro criador.”
Esse cuidado estético e a vontade de reinventar um género perfeitamente codificado, salientados por Pascoalinho, estão presentes em Dellamorte Dellamore, adaptação cinematográfica de um romance considerado “infilmável” de Sclavi, que através dos seus argumentos para a série Dylan Dog se afirmou como um dos mais singulares argumentistas italianos. Personagem deprimida e envolvida numa aura de mistério, Sclavi, que raramente dá entrevistas e muito menos se deixa fotografar, ganhou um prémio literário aos dezanove anos. Esse reconhecimento precoce do seu talento não lhe serviu de muito em termos de carreira pois, como refere “o público recebeu os seus livros com uma indiferença entusiástica”, o que o obrigou a trabalhar como jornalista, revisor e argumentista de BD para poder sobreviver, enquanto os seus romances, entre os quais Dellamorte Dellamore, aguardavam por um editor disposto a publicá-los.
É precisamente enquanto argumentista de BD que Sclavi vai iniciar uma colaboração com a editora Bonelli cujos “fumetti” (nome dado em Itália à BD) são um verdadeiro fenómeno editorial e sociológico. O segredo do sucesso de Bonelli, de que a série Tex é o exemplo mais representativo, consiste em fornecer aos leitores edições baratas, em pequeno formato, com muitas páginas, lançadas a um ritmo mensal. Essa receita, que consegue aliar uma produção quase industrial, com capacidade de lançar mais de mil páginas por mês, a uma qualidade muito razoável, nasceu como reacção ao boom da TV privada nos anos 70, que veio provocar uma crise no mercado da BD. Face a uma televisão que oferecia programas gratuitos para todos os gostos, Bonelli optou por propor aos seus leitores verdadeiras novelas gráficas de quase cem páginas, capazes de prender a atenção do leitor durante uma hora, ou mais, que vivem muito da notável capacidade produtiva de uma série de argumentistas de talento, como Sclavi aliado a um leque mais alargado de desenhadores.
Assim, além de criar Gli Aristocratici, com Alfredo Castelli, Sclavi vai assinar argumentos para outras séries da editora, como Zagor, Ken Parker e Mister No, antes de criar Dylan Dog em 1986, abrindo assim as portas do sucesso com o carismático detective do paranormal, cujas aventuras estiveram disponíveis em português através das edições mensais da editora brasileira Mythos .
Antes de criar Dylan Dog, Sclavi tinha proposto a Bonelli recuperar os personagens de Dellamorte Dellamore e transformá-los em heróis de uma série de BD, sendo Dellamorte uma espécie de estudo preparatório para Dylan Dog, com quem compartilha o aspecto físico e a forma de vestir. Essa ideia acabou por não se concretizar no papel, mas acontecerá de forma indirecta no cinema, graças ao filme de Michele Soavi a partir do romance, entretanto transformado num best-seller graças à popularidade que Dylan Dog trouxe a Sclavi. Depois de ter servido de modelo para Dylan Dog, o actor inglês Rupert Everett vai ser o protagonista de Dellamorte Dellamore, o filme que motiva esta crónica e que reflecte com sucesso o objectivo de Soavi de transpôr para o grande ecrã o universo único de Tiziano Sclavi.
Filme em que uma grande beleza se alia a um humor (muito) negro, Dellamorte Dellamore narra o dia-a-dia de Francesco Dellamorte, o melancólico guarda do cemitério da aldeia de Bufarolla que, além de enterrar os mortos, tem ainda que os matar definitivamente com um tiro na cabeça, quando eles ressuscitam como zombies sete dias depois, o que faz com um tédio e uma fleuma típicas de um funcionário público. Isolado do mundo, com a excepção do seu companheiro Gnaghi, um mudo com um atraso mental, que é personagem recorrente dos romances de Sclavi, e do seu amigo (imaginário?) Franco, com quem tem longas conversas telefónicas, Dellamorte vai descobrir a mulher da sua vida na pele de uma viúva (belíssima Anna Falchi) que acabará por matar, convencido que ela se tinha transformado também num zombie, depois de ter sido mordida pelo marido, recém-saído do túmulo em cima do qual ela fazia amor com Francesco.
História a meio caminho entre o drama psicológico e a comédia surreal, com contornos góticos, Dellamorte Dellamore (título que reflecte os dois temas sempre presentes na obra de Sclavi e na própria vida, o amor e a morte) é um filme visualmente arrebatador onde Michele Soavi, tal como Sclavi costuma fazer nas histórias de Dylan Dog, não poupa nas citações. Assim, na cena em que Francesco e a viúva, com os rostos envoltos num véu, se beijam no ossário, a imagem remete para o quadro Os Amantes de Magritte, do mesmo modo que a fonte no meio do cemitério é uma miniatura da Ilha dos Mortos de Arnold Brocklin.
Filme absolutamente recomendável e obra com todas as características para se tornar (como se tornou) um filme de culto, Dellamorte Dellamore não está (naturalmente) editado em Portugal. Para além da edição italiana em zona 2, existe também uma edição espanhola com o título (bastante ridículo) de Mi Novia es un Zombie, mas que tem a grande vantagem de se encontrar com facilidade em qualquer canto de Espanha, nos saldos do El Corte Inglês a um preço muito acessível.
Aqui fica a sugestão para que descubram o trabalho singular de Tiziano Sclavi, quer através do filme de Soavi quer das BDs de Dylan Dog, o detective do paranormal a que Rupert Everett deu a cara tanto na BD como (indirectamente) no cinema.