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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sandman 10: As Benevolentes - Parte 2


O ÚLTIMO COMBATE DE MORFEU

Sandman – Vol. 10
As Benevolentes - Parte 2
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos – Marc Hempel, Teddy Kristiansen, Richard Case
Quinta, 08 de Dezembro
Por + 11,90€
Com a publicação do 10º volume de Sandman, que chega aos quiosques na próxima quinta-feira, chega ao fim a mais épica (e a maior) das histórias de Sandman, As Benevolentes, cujo inevitável desfecho vem confirmar a dimensão trágica do percurso de Morfeu, o Mestre dos Sonhos.
Um dos segredos do sucesso de Gaiman em Sandman, para além do seu talento a articular inúmeras personagens e diferentes histórias, dentro de uma narrativa global complexa, como se fosse a coisa mais simples do mundo, é a sua capacidade invulgar de harmonizar os elementos e a mitologia da tragédia clássica, com a dimensão mundana do dia-a-dia, a brevidade da vida e a importância do amor. No fundo, Os eternos e as outras divindades e criaturas mitológicas que Gaiman convocou para a saga de Sandman, são profundamente humanos nos seus comportamentos e atitudes.
Como bem refere o académico e escritor Frank McConnell, no prefácio do volume anterior: “É esta a premissa básica de As Benevolentes, e da própria saga de Sandman: a lenta realização que Sonho tem da intensidade da vida mortal, e da sua inescapável implicação nessa mesma intensidade. As Benevolentes, as Erínias, as Euménides, caçam-no ao longo deste livro porque ele matou o seu filho, Orfeu: claro, a pedido dele, mas mesmo assim matou-o. E com esse acto, Sonho entrou no tempo, escolha, culpa e remorso - entrou na esfera do que é humano.
No capítulo onze, depois de abandonar a segurança do Domínio do Sonho, a fada Nuala, que o invocou, faz-lhe a pergunta que poderá ser o segredo central da história. “Tu... queres que elas te castiguem, não queres? Queres ser castigado pela morte de Orfeu.”
E a vinheta seguinte, a resposta de Morfeu, é simplesmente a cara dele, vista de perto, sem palavras, uma cara torturada. (E já agora, um efeito que, nem um romance, nem um filme, poderiam conseguir com a mesma força, já que o romance teria de descrever a cara dele, e o filme apenas nos poderia mostrar um actor a tentar imitar aquela máscara sombria do remorso. O comic, com o estilo de desenho brilhantemente redutor de Marc Hempel, dá-nos a coisa em si.)”
E neste último parágrafo, McConnell alerta-nos para outro inegável talento de Neil Gaiman que, para além do grande escritor que a sua carreira de romancista demonstra, é alguém que tem um profundo conhecimento dos mecanismos narrativos da Banda Desenhada e que domina a linguagem da BD como poucos. A prová-lo está a escolha de Marc Hempel para desenhar esta história. Hempel, não sendo o mais vistoso, ou o mais talentoso dos desenhadores da série, bem longe disso, é alguém cujo estilo único se adequava perfeitamente ao tipo de história que Gaiman queria contar. E é precisamente esse casamento perfeito entre o texto e a imagem que torna única a linguagem da Banda Desenhada.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 02/12/2016

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sandman 9: As Benevolentes - Parte 1

O PRINCÍPIO DO FIM

Sandman – Vol. 9
As Benevolentes  - Parte 1
Argumento - Neil Gaiman
Desenhos –  Marc Hempel, D’Israeli, Glyn Dillon e Charles Vess
Quinta, 01 de Dezembro
Por + 11,90€
Com o nono volume, que chega aos quiosques nacionais na próxima quinta-feira, a história de Sandman entra no seu acto final e o preço que Morfeu terá de pagar por derramar o seu próprio sangue – ao conceder ao seu filho Orfeu, o alívio da morte por que ele ansiava há séculos – vai ser muito alto.
Se dúvidas ainda houvesse de que a história de Morfeu, o Mestre dos Sonhos, é uma tragédia clássica, o capítulo decisivo, que ocupa os próximos dois volumes da série, dissipá-las-á de vez.
Pensada inicialmente para ser contada em seis capítulos, As Benevolentes acabou por ocupar treze números da série mensal, sendo de muito longe, a mais longa história de Sandman, o que fez com que, por uma questão de equilíbrio entre o tamanho dos volumes, fosse dividida em dois na edição portuguesa. Mesmo assim, os leitores portugueses apenas terão de esperar uma semana pelo desenlace da mais decisiva história da série, ao contrário de quem leu na altura a edição original americana, em que a história se prolongou por mais de um ano.
História extraordinariamente meticulosa, em que todas as peças do puzzle que Gaiman foi construindo de forma rigorosa ao longo da série, se encaixam finalmente no espaço previsto desde o início, As Benevolentes foi o maior desafio que Gaiman enfrentou até então enquanto escritor. Como o próprio refere numa entrevista, “quando comecei a escrever As Benevolentes, vi-me a mim próprio dentro de um camião muito, muito, grande, apontado a uma parede e a meter o pé no acelerador”.  Mas, mostrando que tinha mãos para conduzir esse camião, o escritor evita o desastre com brilhantismo, construindo uma história fantástica a todos os níveis, que contribui de forma decisiva para a mitologia da série.
Falando de mitologia, As Benevolentes é o volume de Sandman em que a mitologia clássica está mais presente, começando logo nas Benevolentes, as Euménides, as Três Parcas que tecem o destino dos homens com os seus fios e que aqui aparecem com uma imagem de três simpáticas senhoras inglesas, a fiarem enquanto bebem o seu chá, mesmo que uma delas prefira acompanhar o chá com um rato morto, em vez de biscoitos de gengibre… E a imagem do fio da vida que se interrompe ao ser cortado por uma das Benevolentes está presente a abrir cada um dos capítulos, frisando a ideia que o destino de Morfeu está traçado e irá ser cumprido, tal como estava escrito no livro do seu irmão cego, Destino.
Em termos gráficos, Gaiman também optou por correr riscos. Numa fase em que a popularidade e prestígio da série lhe permitiriam ter qualquer desenhador que quisesse, Gaiman optou por Marc Hempel, cujo estilo expressionista está longe de ser consensual, mas que se adequa perfeitamente às necessidades de uma história carregada de emoções, em que as fronteiras entre o mundo real e a fantasia se esbatem.
Publicado originalmente no jornal Público de 25/11/2016