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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Poderosos Heróis Marvel 5 - Homem-Aranha: Tormento


HOMEM-ARANHA DE TODD MCFARLANE 
NA COLECÇÃO PODEROSOS HERÓIS MARVEL

Poderosos Heróis Marvel Vol. 5
Homem-Aranha: Tormento
Argumento E Desenhos – Todd Mcfarlane
Quinta, 20 de Agosto + 8,90 €

O quinto volume desta colecção, mais do que o regresso do Homem-Aranha, assinala a estreia nas colecções que o Público e a Levoir têm dedicado aos super-heróis americanos, de um dos maiores populares autores dos comics das últimas três décadas: Todd McFarlane.
Nascido em 1961 em Alberta, no Canadá, McFarlane começou a trabalhar profissionalmente em meados dos anos 80 para a DC Comics, em títulos como Infinity Inc. e Batman, onde substituiu Alan Davis e Paul Neary nos desenhos de Batman: Year Two, a continuação oficial, escrita por Mike W. Barr, do clássico Batman: Ano Um de Frank Miller e David Mazzucchelli. Da DC seguiu para a Marvel, onde assegurou a série Incredible Hulk, com argumentos de Peter David, entre 1987 e 1988. Foi o sucesso como ilustrador das aventuras do gigante verde que lhe garantiu o lugar de desenhador do Homem-Aranha a partir do número 298 de Amazing Spider-Man, de Março de 1988, ilustrando os argumentos de David Michelinie. O seu trabalho com o Homem-Aranha durante os dois anos seguintes, transformou-o, de jovem artista em ascensão, numa verdadeira superestrela dos comics.
Para essa rápida ascensão contribuiu, e muito, o seu inovador estilo gráfico. Um estilo barroco, marcado por uma planificação dinâmica e criativa, em explosão permanente de tensão e movimento, com uma quantidade cada vez maior de linhas cinéticas a acumularem-se em páginas de grande impacto visual. Também a forma de desenhar o Homem-Aranha era profundamente inovadora, com o herói a surgir em posições contorcidas e angulosas, com as teias figuradas com um pormenor e um detalhe inesperados, completamente diferentes do que até então se vira.
Depois de conseguir chamar a si a tarefa de passar a tinta os seus desenhos a lápis, assegurando assim a arte-final, o passo seguinte da afirmação de McFarlane como autor, foi conseguir assinar também o argumento das histórias que desenhava. Foi assim que, em Agosto de 1990 nasceu mais uma nova revista mensal do Homem-Aranha, intitulada apenas Spider-Man, cujos cinco primeiros números recolhem a história Tormento, que assinala a estreia de McFarlane como autor completo. Mas, conforme o próprio autor confessou numa entrevista, a sua estreia como argumentista deveu-se mais a uma vontade de controlar todas as etapas do processo criativo, do que a uma necessidade imperiosa de dar a conhecer as histórias que tinha para contar: “o desejo, o desejo criativo de escrever, nesta fase ainda não era tão forte, que me quisesse transformar um escritor. Então, apenas queria desenhar. Mas queria ter o máximo de controlo sobre aquilo que desenhava e a única maneira de conseguir esse controlo, era inventar as histórias que queria desenhar.”
E essa primeira história é uma narrativa mais próxima das histórias de terror do que das aventuras tradicionais do Homem-Aranha, em que o herói enfrenta o Lagarto, mas um Lagarto extraordinariamente violento e sanguinário, como os leitores nunca tinham visto. Em termos narrativos, McFarlane vai beber bastante ao trabalho de Frank Miller na série Demolidor, tanto em termos de divisão da página, marcada por estreitas vinhetas verticais, como de narração, com o recurso a pequenas caixas de texto, que dão um ritmo sincopado à narrativa, ajudando à criação do ambiente opressivo e de grande tensão.
Com mais de dois milhões e meio de cópias vendidas, só do primeiro número, Tormento marcou a carreira do seu autor e o mercado dos comics na década de 90. É esse livro histórico, que os leitores portugueses poderão ler no volume da colecção Poderosos Heróis Marvel que chega às bancas na próxima quinta-feira.
Publicado originalmente no jornal Público de 14/08/2015

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Textos Editoriais Marvel NOW! 5 - Homem-Aranha Superior 9

Na semana em que chegou às bancas a última edição mensal da Marvel publicada pela Panini Espanha no mercado português, aqui deixo o quinto e último texto que escrevi para essas revistas, sem saber na altura que seria o último. 
Esta não foi a primeira aventura da Panini Espanha na edição da Marvel em Portugal, pois em meados da década de 2000 tinham lançado dois ou três livros, entre os quais Os Eternos de Neil Gaiman e Romita Jr, em edições produzidas pela equipa da BD Mania e que apenas tiveram distribuição nas lojas FNAC.
Esta segunda tentativa não teve vida muito mais longa e acabou pelos mesmos motivos: fracas vendas, motivadas por uma escassa divulgação e por uma distribuição deficiente, que nem sequer previa a distribuição nas livrarias, ou a encomenda de números atrasados. Extinguiram-se assim, de forma ainda mais discreta do que começaram, as revistas que davam a conhecer aos leitores portugueses com uma qualidade muito superior à das edições brasileiras, a fase mais recente do Universo Marvel, deixando várias histórias por terminar. 
O futuro (próximo) dirá se alguém vai voltar a pegar na Marvel em Portugal em termos de publicações mensais, mas a fase Marvel Now! em português de Portugal, acabou agora. 
Resta-me agradecer ao José de Freitas, meu antigo patrão na Devir e amigo de sempre, o convite para colaborar neste projecto, escrevendo rigorosamente sobre o que me apeteceu e quando me apeteceu.   


ASSUSTADORA SIMETRIA

Tyger Tyger, burning bright, 
In the forests of the night; 
What immortal hand or eye, 
Could frame thy fearful symmetry?

Assim começa Tyger, o famoso poema de William Blake que, para além de ser o mais conhecido trabalho do poeta inglês, foi sendo objecto de citação e homenagem em diversos media, desde a música - servindo por exemplo de letra a uma canção dos Tangerine Dream - até ao cinema e televisão, e principalmente, a Banda Desenhada. Aqui, além de ser citado ao longo do 5º capítulo de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons intitulado precisamente Fearful Simetry, está também em grande destaque no clássico A Ultima Caçada de Kraven, uma história do Homem-Aranha, de J. M. De Matteis e Mike Zeck, recentemente editada em Portugal pela Levoir, numa colecção distribuída com o jornal Público. A história, que teve precisamente como título de trabalho Fearful Simetry, usa abundantemente o poema de Blake, numa versão ligeiramente modificada, em que o tigre (tyger) dá lugar à aranha (spyder), que funciona como uma espécie de mantra, que pontua e ilumina os momentos mais importantes da narrativa,
E foi precisamente a (re)leitura de A Última Caçada de Kraven para escrever o editorial desse volume, que me chamou a atenção para os grandes pontos de contacto entre o clássico de De Matteis e Zeck e a saga do Homem-Aranha Superior, criada por Dan Slott, que podem ler nesta revista. Comparando as duas histórias, há diversos elementos em comum  que revelam essa simetria. Uma simetria que, não sendo propriamente assustadora, não deixa de ser, no mínimo, curiosa…
A verdade é que a história de um vilão que mata o herói e assume o seu lugar, está longe de ser propriamente original. O próprio De Matteis já em meados da década de 80, tinha proposto à Marvel uma mini-série de Wonder Man, em que este era enterrado e acabava por conseguir libertar-se da campa, mas o editor Tom De Falco rejeitou a proposta, o que levou o escritor a reformular a história e e levá-la à DC, transformada numa aventura do Batman, em que o Joker mata o Batman, o que o deixa curado… Mais uma vez, a proposta seria rejeitada, neste caso, por ter alguns pontos de contacto com A Piada Mortal, que Alan Moore estava a preparar na altura. Só quando De Matteis reformulou novamente o conceito e o levou outra vez à Marvel, transformado numa aventura do Homem-Aranha, é que a história foi finalmente aceite, com o sucesso que conhecemos.
Outro exemplo é dado por Mark Millar em Wolverine: O velho Logan, também editado em Portugal pela Levoir, em que o Caveira Vermelha, depois de matar o Capitão América, não só assume o seu lugar, mas passa a usar o uniforme do Capitão, como símbolo da vitória final sobre o seu maior adversário
Mas, no caso da história de Dan Slott, há mais do que um ponto de partida semelhante, até porque o Kraven de De Matteis é o primeiro a considerar-se “superior” ao Homem-Aranha original, quando refere “Massacrei a Aranha. Transformei-me nela. Cacei como a aranha caça… consumi as suas presas. Provei que sou superior a ela em todas maneiras.” Ou seja, tanto Kraven, como o Dr. Octopus não se contentam em vencer e matar o Homem-Aranha. Decidem ocupar o seu lugar e desempenhar a sua missão, mas de uma forma mais eficiente, sem as restrições morais que afectam Peter Parker, e que por isso, eles consideram superior. Algo que os resultados iniciais da actuação de ambos, parece confirmar.
A grande diferença está na motivação de ambos e na forma como se relacionam com Peter Parker, o homem por trás da máscara do Homem-Aranha. Kraven vê o Homem-Aranha como um símbolo, não tendo qualquer interesse em descobrir a identidade secreta do herói. Apenas pretende derrotá-lo e tomar o seu lugar, o que consegue, mas a vitória deixa-o de tal forma vazio que considera que já não tem mais nenhum motivo para viver…
 Já o Dr. Octopus quer ocupar literalmente o lugar de Peter Parker, em todos os sentidos (mesmo que resista à tentação de se envolver com Mary Jane…) e a sua actuação é bastante mais linear e lógica do que a do emotivo Kraven, tal como o seu empenho em cumprir as funções do Homem-aranha de uma forma superior é bem mais acentuado. Esta diferença é natural, pois se Peter Parker e Sergei Kravinoff pouco têm em comum, já Parker e Otto Octavius são personalidades simétricas que optaram por caminhos diferentes (o caminho do mal, no caso do Dr. Octopus), mas ambas têm bem a noção de que grandes poderes implicam grandes responsabilidades. Responsabilidades que Otto Octavius não tem enjeitado, usando o corpo e os poderes de Peter Parker com os mesmos objectivos, mas com uma eficácia superior.
Texto originalmente publicado no nº 9 da revista Homem-Aranha Superior, de Ourtubro de 2014.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Textos editoriais Marvel NOW! 5 - Homem-Aranha Superior 06


O HÁBITO E O MONGE

Diz um conhecido ditado popular que “o hábito não faz o monge”. E, se como geralmente acontece, estes ditados têm um fundo de verdade, não é menos certo de que a realidade, ou no caso da Banda Desenhada, a ficção criada pela mente dos autores, acaba por ser bem mais complexa do que a sabedoria popular simplisticamente a apresenta.
A saga que temos acompanhado nesta revista é um bom exemplo de uma realidade demasiado complexa para se encaixar completamente neste ditado, mas a verdade é que as histórias de super-heróis, pela forma como exploram a ligação entre o herói e o uniforme que se torna a sua segunda pele, permitem facilmente uma aproximação a este provérbio.
Curiosamente, um dos pioneiros do género superheróico, o Fantasma, de Lee Falk, criado em 1936, ou seja, ainda antes do aparecimento do Super-Homem, é uma das raras excepções a esta regra, pois o homem por trás da máscara é apenas o mais recente membro de uma linhagem de vinte e uma gerações de combatentes do crime. Uma tradição nascida em 1536, quando o sobrevivente de um ataque de piratas em que morreu o seu pai, fez um juramento solene de combater o crime como o Fantasma até ser substituído pelo seu filho, quando a sua hora chegar. Assim o misterioso vingador aparentemente imortal conhecido como o “Espírito que Caminha” é apenas o mais recente elo de uma cadeia familiar, que o inconfundível uniforme justo, concebido por Lee Falk para ter cor cinzenta, mas que acabou por sair roxo devido a um erro da gráfica, ajuda a perpetuar.
Mas como bem sabem os leitores, a regra é encontrarmos sempre o mesmo homem dentro do uniforme. Steve Rogers é e será o Capitão América, Peter Parker, o Homem-Aranha, Matt Murdock, o Demolidor e Bruce Wayne, o Batman. Mesmo que Bucky Barnes já tenha sido o Capitão América, depois da morte de Rogers durante a Guerra Civil, e que o próprio Steve Rogers tenha assumido outras identidades, como Nomad, a seguir ao escândalo de Watergate, ou The Captain, ou que durante as décadas em que permaneceu em animação suspensa nos gelos do Ártico, outros homens, como William Naslund, Jeffrey Mace e William Burnside tenham também vestido o uniforme inspirado na bandeira americana.
Também Peter Parker tem assumido ao longo dos anos a grande responsabilidade de combater o crime como o Homem-Aranha, mesmo que a mente que ocupa o seu corpo seja a do Dr. Octopus, como acontece actualmente, ou como aconteceu na tristemente célebre saga do Clone, Ben Rilley, o Scarlet Spider, que se pensava ser um clone de Peter Parker, revelou ser o original e que o verdadeiro clone era o Peter Parker que os leitores conheciam desde sempre. Mas a mais interessante variação deste ditado, em que o hábito deu origem a um novo monge de uma ordem diferente, é mesmo a que sucedeu com o uniforme negro que Peter Parker arranjou durante as Guerras Secretas, e que cedo assumiu vida própria, revelando ser um simbiote alienígena que passou a infernizar a vida do Homem-Aranha como Venom.
Mais recentemente, face ao sucesso das personagens da Marvel no cinema, houve a necessidade de alterar os uniformes de alguns heróis, aproximando-os do aspecto com que aparecem no grande ecrã, e aqui o Gavião Arqueiro saiu claramente a ganhar, trocando o bastante ridículo uniforme original, pelo mais discreto e cinematográfico uniforme actual.
Quem leu o seminal Demolidor Renascido de Frank Miller e David Mazzucchelli, em que Matt Murdock passa a maioria da história sem uniforme, percebe que um herói continua a sê-lo, mesmo sem o fato vestido, mas isso não apaga a grande importância simbólica dos uniformes dos Super-Heróis. Mais do que um disfarce que protege a identidade de quem o usa, o uniforme do super-herói é um símbolo, uma ideia e, como bem lembra Alan Moore em V for Vendetta, “ as ideias são à prova de bala”, mesmo que os homens dentro do fato não o sejam.
Texto originalmente publicado em Homem-Aranha Superior nº 06, de Julho de 2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Universo Marvel 3 - Homem-Aranha: A Última Caçada de Kraven


Tal como aconteceu com o 1º volume, no caso deste A Última Caçada de Kraven, também o editorial é da minha autoria. Daí que, em vez do texto que saiu no Público, tenha optado por publicar o editorial que escrevi para o livro, que desenvolve alguns aspectos que estão apenas aflorados no texto do jornal. Aqui está ele!

A SOMBRA DO CAÇADOR

Se pegássemos na vastíssima galeria de vilões que passaram pelas aventuras do Homem-Aranha e fizéssemos um Top Ten dos seus principais inimigos, dificilmente Kraven, o Caçador entraria nos três primeiros, mas a verdade é que uma história por ele protagonizada foi muito justamente considerada pelos visitantes do prestigiado site Comic Book Resources, como a melhor história do Homem-Aranha de todos os tempos.
E é precisamente essa história, A Última Caçada de Kraven, que publicamos neste volume. Uma história sombria, que reúne os talentos do escritor J. M. Dematteis e dos desenhadores Mike Zeck e Bob McLeod ao serviço de uma intriga perturbadora, em que Kraven, o Caçador, alveja o Homem-Aranha, enterra-o numa campa e assume temporariamente o seu lugar. Ou seja, uma história muito perturbadora (até pelo controverso final, que tanta polémica causou junto dos leitores) que mostra o lado mais negro do Homem-Aranha, que aqui não é o “simpático amigo da vizinhança” da série de animação.
Publicada originalmente entre Outubro e Novembro de 1987, esta história em 6 capítulos deveria ter sido publicada apenas na revista Spectacular Spider-Man, mas o editor Jim Salicrup lembrou-se de a espalhar pelas outras duas revistas do Homem-Aranha (Amazing Spider-Man e Web of Spider-Man) cujas páginas ocupou durante dois meses. Uma decisão ditada por motivos comerciais, pois obrigava os leitores a comprar as três revistas para conseguir ler a história, mas também por questões de lógica editorial, pois se Kraven mata o Homem-Aranha e ocupa o seu lugar, seria naturalmente confuso para os leitores que a vida de Peter Parker seguisse o seu percurso normal nos outros títulos, enquanto o herói estava debaixo de seis palmos de terra nas páginas de Spectacular Spider-Man
Se a premissa-base da história, em que um vilão mata o Homem-Aranha e passa a vestir o seu uniforme e a fazer o seu trabalho, tem, para os leitores actuais, grandes semelhanças com a história que Dan Slott criou para o Homem-Aranha Superior, trocando apenas Kraven pelo Dr. Octopus, o que mostra a influência do trabalho de De Matteis, quase trinta nos depois, a verdade é que A Última Caçada de Kraven não foi a primeira vez que o escritor tentou contar a história de um vilão que mata o herói e assume o seu lugar. Longe disso.
Reza a lenda que, já em meados da década de 80, De Matteis tinha proposto à Marvel uma mini-série doWonder Man, em que este era enterrade e acabava por conseguir abandonar a campa, mas o editor Tom DeFalco rejeitou a proposta, o que, anos mais tarde, levou o escritor a reformular a história e levá-la à DC, transformada numa aventura do Batman, em que o Joker mata o Batman, o que o deixa curado… Mais uma vez, a proposta seria rejeitada, neste caso, por ter alguns pontos de contacto com A Piada Mortal, que Alan Moore estava a preparar na altura. Só quando John Marc De Matteis reformulou outra vez o conceito e o levou à Marvel, transformado numa aventura do Homem-Aranha, é que a história foi finalmente aceite, com o sucesso que hoje se conhece.
Com um tom muito mais sombrio do que o habitual e referências literárias pouco habituais numa história de super-heróis, esta história é filha do seu tempo, reflectindo a alteração dos comics de super-heróis para um registo mais violento e realista, destinado a um público mais adulto, fazendo por isso mais sentido fora da continuidade normal do herói. O próprio De Matteis é aliás o primeiro a reconhece-lo, quando diz: “não estou a pensar para além destes seis números. Esta história não entra muito na continuidade dos outros livros. Na verdade, acho que se podiam pegar nestes seis capítulos e publicá-los separados, como uma mini-série, ou uma novela gráfica”.
Nascido em Nova Iorque em 1953, John Marc De Matteis queria ser músico rock, ou desenhador de BD, mas seria como argumentista que construiria uma carreira tão prolífica como bem-sucedida. Tendo começado a trabalhar para a DC em finais dos anos 70, De Matteis chegaria à Marvel em 1980, graças ao mítico editor Jim Shooter, que depois de alguns trabalhos menores, lhe confiou a escrita da revista do Capitão América, no que seria sua primeira colaboração com o desenhador Mike Zeck. Mas, mais do que as histórias de super-heróis, seriam os projectos mais artísticos que ajudaram a construir a fama de De Matteis. Mini-séries de luxo, ilustradas em cor directa, como Moonshadow, que escreveu para Jon J. Muth, ou Blood: A Tale, uma poética história de vampiros, pensada para o traço de Kent Williams.
Num registo bem diferente, mas igualmente memorável, estão as divertidas histórias da Liga da Justiça Internacional, que escreveu a meias com Keith Giffen, que contrapõem ao registo sombrio que dominava os comics da época, um humor absolutamente delirante. Humor que está ausente de A Última Caçada de Kraven, história que dá uma dimensão trágica e uma dignidade insuspeitada a um vilão menor do Homem-Aranha, Kraven, dá o merecido destaque a Ratus, uma espécie de ratazana humana, que Zeck e Matteis tinham criado durante a sua passagem comum pela revista do Capitão América e utiliza de forma eficaz o aspecto mais sombrio do novo fato que o Homem-Aranha ganhou durante as Guerras Secretas.
Muito bem construída em termos narrativos, com uma versão do famoso poema The Tyger, de William Blake (que Alan Moore já tinha utilizado no capítulo 5 da série Watchmen) em que o tigre (tyger) dá lugar à aranha (spyder), a funcionar quase como um mantra, pontuando os momentos mais importantes da narrativa, A Última Caçada de Kraven é o exemplo perfeito de uma boa história a que a cumplicidade e colaboração entre o argumentista e o desenhador, dá uma dimensão extra.
A parte gráfica foi assegurada por Mike Zeck, prolífico e talentoso desenhador que os leitores portugueses já conhecem dos dois volumes da saga Guerras Secretas, publicada na primeira colecção que a Levoir dedicou à Marvel e que aqui, apoiado na inspirada arte-final de Bob McLeod, assina um dos seus melhores trabalhos de sempre, marcado por um realismo sombrio, muito típico da segunda metade da década de 80, em que a influência de obras seminais como The Dark Knight Returns, de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, se fazia sentir fortemente.
O sucesso de A Última Caçada… foi tal que o próprio De Matteis voltaria pegar na história, novamente com Mike Zeck, em 1992, na novela gráfica Soul of the Hunter. E as coisas não ficaram por aqui, pois, regularmente, a relação entre Kraven, O Caçador e o Homem-Aranha volta ser abordada em mini-séries como Grim Hunt e Kraven First Hunt, em que descobrimos que Kraven deixou uma filha, que está pronta para acabar o trabalho do pai. Mas essas continuações, apesar de bem conseguidas, não fazem esquecer a história original. Uma história que, graças a esta colecção, os leitores nacionais vão poder ler finalmente em português de Portugal, numa edição que faz justiça à importância da obra.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Textos editoriais Marvel NOW! 1 - Homem-Aranha Superior



Na altura em que já chegou às bancas o nº 3 da revista dos X-Men, com o meu segundo texto para as revistas da linha Marvel Now!, que a Panini Espanha está a publicar directamente em Portugal, parece-me boa altura para recuperar o primeiro texto que escrevi para as publicações que assinalam o regresso das revistas mensais da Marvel, em bom português, aos quiosques nacionais.
Estes textos partiram de um convite do José de Freitas, editor assistente da Panini e responsável pela coordenação das edições portuguesas da Panini, à semelhança do que tem feito com as colecções da Marvel e da DC que a Levoir tem lançado com os jornais, quemais uma vez, me deu o prazer de trabalharmos juntos.
Embora o espaço aqui seja muito mais reduzido do que era nos editoriais da DC, a liberdade é bastante maior. Mesmo assim, confesso que, quando recebi o convite para escrever sobre o Homem-Aranha Superior, pensei duas vezes, pois a premissa base da série parecia-me perfeitamente idiota. Mas ainda bem que decidi ler as histórias, pois foram uma muito agradável surpresa e esta é, provavelmente, a melhor saga do Homem-Aranha que já li, desde a fase inicial do J. M. Strackzinsky que a Devir lançou em Portugal há uns bons 10 anos.


NA PELE DO INIMIGO

Um dos mais populares argumentistas da actualidade, Dan Slott é também um dos mais controversos, muito por força deste Homem-Aranha Superior, cuja premissa base causou tal agitação junto dos fãs do “cabeça de teia”, que Slott chegou até a receber ameaças de morte de leitores mais indignados. Com efeito, a ideia de fazer com que a mente do Dr. Octopus moribundo ocupasse o corpo de Peter Parker, com o vilão a assumir os poderes e as responsabilidades do Homem-Aranha, é tão controversa como arriscada. Mas a verdade é que estamos perante uma das melhores histórias do Homem-Aranha das últimas décadas, mesmo que este Homem-Aranha não seja o que nos habituámos a conhecer. Este é um Homem-aranha diferente e, em muitos aspectos, um Homem-Aranha superior, pois aos poderes que permitiram Parker a tornar-se um super-herói, alia uma capacidade estratégica e científica que o anterior Homem-Aranha não possuía.
Todos vimos, no nº 1 desta revista, a facilidade com que derrotou o novo Sexteto Sinistro, descobrindo os seus pontos fracos e atacando-os com a precisão de um cirurgião. Ou como soube jogar com os media dando ao Homem-aranha, que sempre foi um herói incompreendido, a popularidade que muitas vezes lhe faltou, conseguindo até conquistar o seu crítico mais feroz, J. Jonah Jameson, que trocou o quarto poder pelo segundo, tornando-se Mayor de Nova Iorque. E, pela forma como constrói a sua teia pela cidade, usando os drones-aranha para recolher informação, este Homem-Aranha Superior está mais próximo do insecto que lhe deu o nome os poderes, do que Peter Parker alguma vez esteve. 
Slott passou os primeiros anos da sua carreira escrevendo histórias dirigidas a um público mais infantil, como as adaptações à BD das séries de animação Ren And Stimpy, Scooby Doo, Looney Tunes e Powerpuff Girls, mas rapidamente provou ser capaz de tratar com igual eficácia temas bem mais adultos e sombrios, na mini-série Arkham Asylum: Living Hell, ilustrada por Ryan Sook. Esta mini-série, de 2003, foi o seu último trabalho para a DC, antes de regressar à Marvel (que editava a revista do Ren e Stimpy) para escrever a nova revista da Mulher-Hulk, antes de se tornar o principal argumentista da revista Amazing Spider-Man. Actualmente, um dos principais argumentistas da Marvel, Slott não esquece a “Distinta Concorrência” e, como vimos no nº anterior, goza com o Batsinal, numa divertida cena em que faz ver a Jameson que um sinal luminoso gigante que permita aos inimigos do Homem-Aranha saber exactamente onde ele se encontra, é capaz de não ser uma grande ideia, mesmo que o dito sinal acabe por se revelar de grande utilidade para derrotar o abutre… 
Nas histórias que vão poder ler a seguir, Dan Slott prossegue com a humanização de Otto Octavius, fazendo com que o leitor se vá identificando gradualmente com o antigo vilão, desenvolvendo de forma hábil a relação dele com Anna Maria Marconi, uma anã com quem tem grandes afinidades intelectuais. Mas mesmo que, à sua maneira, Octavius aproveite esta oportunidade de se tornar literalmente um homem novo, a agressividade e o desprezo pela vida humana que caraterizavam o Dr. Octopus estão ainda presentes na forma impiedosa com que o Homem-aranha Superior trata o Massacre, o Polichinelo e a Croma, os vilões que vai defrontar neste número. 
Se nas histórias anteriores a arte tinha sido assegurada por Ryan Stegman, neste número Dan Slott mostra que continua a saber escolher muito bem os desenhadores com quem colabora. O italiano Giuseppe Camuncoli, que alia uma bem-sucedida carreira nos comics americanos, iniciada na Vertigo, com uma série bem eclética de trabalhos na sua Itália natal, que além de romances gráficos com Matteo Casali, inclui histórias de Dylan Dog e a continuação dos Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, encarrega-se de ilustrar num estilo realista o confronto com o Massacre, enquanto que o traço mais caricatural, que primeiro se estranha e depois se entranha, do mexicano Humberto Ramos se revela perfeito para a história em que o Polichinelo e a Croma põem à prova a (pouca) paciência do novo Homem-Aranha.
Publicado originalmente na revista Homem-Aranha Superior nº 2, de Março de 2014. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Colecção Heróis Marvel III - Crítica ao 1º Volume

Heróis Marvel – Volume 1
Homem-Aranha: Integral Frank Miller
Argumento – Denny O’Neil, Chris Claremont e Bill Mantlo Desenhos – Frank Miller e Herb Trimpe

De Spirou a Blueberry, de Thorgal aos Passageiros do Vento, o Público tem feito chegar aos quiosques nacionais, o melhor da Banda Desenhada franco-belga. Mas como a linguagem da Banda Desenhada é universal, apesar das especificidades que distinguem o mangá e os comics da BD franco-belga, chegou a vez dos comics de super-heróis regressarem aos quiosques, em bom português, na nova coleção Heróis Marvel. Mais uma parceria Público/Levoir que, durante 15 semanas vai trazer o melhor da Marvel, numa coleção que, com a excepção da primeira história dos X-Men, de Lee e Kirby, publica exclusivamente material inédito em Portugal.
A abrir a coleção, que chega às bancas no preciso dia em que estreia o novo filme do Homem-Aranha, está um volume dedicado a esse herói, que recolhe as histórias do personagem feitas por Frank Miller. Um dos mais importantes nomes dos comics americanos das últimas décadas, Frank Miller lançou-se nos inícios dos anos 80, com pouco mais de 20 anos, nas páginas da revista Daredevil, da Marvel, reformulando de forma brilhante o super-herói cego em histórias notáveis. Mas seria na DC que Miller iria revolucionar os comics americanos, primeiro com Ronin, e depois com Dark Knight Returns e Batman Year One, duas obras-primas, em que Miller redefine o futuro e a origem de Batman. Entre as suas criações mais recentes, destacam-se 300 e a série que redefiniu o policial negro na BD, Sin City, ambas adaptadas ao cinema com sucesso e Holy Terror, uma controversa reflexão sobre o terrorismo islâmico, motivada pelo 11 de Setembro.
Mas se Miller (quase que) dispensa apresentações, o mesmo não se pode dizer do seu trabalho na série Homem-Aranha, que este volume recolhe e que é bastante menos conhecido do que, por exemplo, as suas histórias do Demolidor. Publicado originalmente entre 1979 e 1980, este material permite constatar a extraordinária evolução do jovem autor em pouco menos de uma ano. Nesse aspecto, é interessante comparar Em Terra de Cegos e Das Cinzas às Cinzas, as histórias em que Miller desenhou pela primeira vez o Demolidor, com Retorno Sinistro e Spiderman: Perigo ou Ameaça, duas histórias de 1980, desenhadas numa fase em que Miller já era o desenhador da revista do Demolidor. E, mais do que no desenho é a nível da planificação que a evolução é mais gritante, com Miller a alternar aqui, de forma tão eficaz como harmoniosa, as vinhetas horizontais e verticais. Efeito que se iria tornar uma imagem de marca da primeira fase da sua carreira.
Os momentos mais interessantes deste livro, são duas histórias escritas por Denny O'Neil, que anos mais tarde, vai ser o editor de Miller em Batman: The Dark Knight Returns. A primeira é O Retorno Sinistro, em que o Homem-aranha se associa ao Dr. Estranho para combater umas ameaça mística, com Miller a prestar uma bela homenagem ao Dr. Estranho de Steve Ditko, para alem de usar muito bem a dupla página, em imagens cheias de pormenores. A 2ª é uma pequena pérola, que lembra os melhores episódios do Spirit de Will Eisner. Spiderman: Perigo ou Ameaça, que mais do que o Homem-Aranha tem como protagonista principal o jornal Clarim Diário e os homens que nele trabalham, utilizando de forma bastante divertida a primeira página do jornal, que vai mudando ao longo da história.
Versão integral do texto publicado no jornal Público de 29/06/2012