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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Novela Gráfica V 6 - Gorazde: Zona de Segurança

CERCADOS EM GORAZDE

Novela Gráfica V – Vol. 6 
Gorazde: Zona de Segurança
Argumento e Desenhos – Joe Sacco
Quinta-feira, 08 de Agosto
Por + 10,90€
O próximo volume da colecção Novela Gráfica assinala o regresso de Joe Sacco, um dos nomes maiores da reportagem de guerra em Banda Desenhada, género que praticamente inventou com Palestina, a sua novela gráfica de estreia, publicada em Portugal no início deste século XXI.
Nascido na Ilha de Malta, mas residente em Nova Iorque, Sacco é acima de tudo um repórter que escolheu a linguagem da BD para transmitir aquilo que viu. A meio caminho entre a novela (autobio)gráfica e a reportagem pura e dura, as suas obras têm como fio condutor o próprio Joe Sacco. Ele é o narrador participante, por vezes irónico, por vezes distante, mas cuja presença se apaga gradualmente face à força dramática dos testemunhos que relata. Sacco não chega a grandes conclusões, nem apresenta soluções, limita-se a relatar o que viu. E o que viu não é nada bonito. Um retrato sem concessões, mas cheio de humanidade, dos horrores da guerra e das vidas das gentes que procuram sobreviver e encontrar alguma aparência de normalidade no meio do caos.
No cerne deste livro estão as quatro viagens que o autor fez a Gorazde, entre o final de 1995 e o início de 1996. Um pequeno enclave muçulmano em território sérvio, Gorazde foi designada pela ONU como área segura durante a Guerra da Bósnia. Uma designação optimista, pois a cidade, cercada pelas forças sérvias da Bósnia, esteve à beira da destruição por três anos e meio, com o povo de Gorazde a sofrer severas privações para manter sua cidade, enquanto o restante do leste da Bósnia era brutalmente "purificado" de sua população não-sérvia pelas tropas de Slobodan Milosevic.
Se o conflito na ex-Jugoslávia que se seguiu à morte do Marechal Tito - cuja mão de ferro conseguiu manter artificialmente unida durante quase três décadas, a então República Federal Socialista da Jugoslávia, que acabaria por se dividir numa série de pequenas repúblicas, correspondentes às diferentes comunidades étnicas e religiosas, de croatas, sérvios e muçulmanos - tem sido bastante tratado na BD, esses relatos centraram-se sempre na cidade de Sarajevo. Basta pensar em Fax de Sarajevo, de Joe Kubert, publicado na colecção de 2016, ou em Sarajevo-Tango, de Hermann, ainda inédito em português. Um aspecto que vem tornar ainda mais pertinente o esforço de Sacco, que permitiu alertar o grande público para o drama vivido em Goradze.
Para além da força dos relatos e da profunda humanidade com que Sacco os transmite, o livro vive também do traço detalhado e expressionista do desenhador. Um estilo a meio caminho entre o realista e o caricatural, feito de milhares de pequenos traços, numa técnica que se aproxima da gravura e que se revela extremamente eficaz nas cenas de conjunto. Mas além de um traço muito trabalhado, Sacco é também senhor de uma boa técnica narrativa, patente na forma dinâmica como o texto se espalha pelas páginas, ou como a planificação se vai alterando de acordo com as necessidades de cada capítulo.
Desde que foi publicado pela primeira vez em 2000, Gorazde: Zona de Segurança ganhou o Eisner de Melhor Novela Gráfica em 2001 e foi reconhecido como um dos clássicos absolutos da novela gráfica de reportagem. Um clássico que, quase vinte anos depois, chega finalmente a Portugal.
Publicado originalmente no jornal Público de 03/08/2019

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Novela Gráfica II 8 - Fax de Sarajevo


CERCADO EM SARAJEVO

Novela Gráfica II – Vol. 8
Fax de Sarajevo
Argumento e Desenho – Joe Kubert
Quinta, 04 de Agosto
Por + 9,90€
Depois da Guerra do Líbano, em A Dança das Andorinhas, de Zeina Abirached, a segunda série da colecção Novela Gráfica volta dar destaque à guerra vista na perspectiva de quem a sofreu na pele, neste caso com Fax de Sarajevo, a adaptação à BD feita por Joe Kubert da experiência real de Ervin Rustemagic, durante o cerco de Sarajevo, no início da década de 90 do século XX.
Nascido em 1926 (no seio de uma família de emigrantes judeus polacos, que imigrou para os Estados Unidos pouco depois do seu nascimento) e falecido em 2012, Kubert começou a trabalhar como arte-finalista para a MLJ Publications aos 12 anos de idade, tendo publicado a sua primeira BD, Voltron, em 1942. Senhor de uma carreira muito preenchida, em que abordou os mais diversos géneros, com destaque para as histórias de guerra, em Sgt Rock, Enemy Ace e Tales of the Green Berets, Kubert, além da sua actividade como autor de BD, foi também professor na Joe Kubert School of Cartoon and Graphics, uma escola de BD fundada por si e por onde passaram grandes talentos, como Stephen Bissette, Amanda Conner, Tom Mandrake e Adam e Andy Kubert, os dois filhos de Joe Kubert, que optaram por seguir as pisadas do pai com grande sucesso.
Na altura em que rebentou a guerra na ex-Jugoslávia, Kubert estava a trabalhar num álbum gigante da série Tex para a editora italiana Bonelli, trabalho que tinha sido intermediado pelo seu editor Ervin Rustemagic, que negociava os direitos das séries da Bonelli fora de Itália, mas optou por interromper esse Tex para escrever e desenhar Fax de Srajevo, sobre o drama bem real de Ervin Rustemagic.
Fundador e proprietário da editora Strip Art Features (SAF), Rustemagic lançou-se no mercado editorial de banda desenhada em 1972, com apenas 19 anos, quando começou a publicar uma revista de BD, distribuída por toda a Jugoslávia. Durante os anos 80, Rustemagic consolidou a sua posição como agente de direitos, representando no mercado editorial internacional grandes nomes, como Hugo Pratt, Carlos Trillo, Hermann, o desenhador de Bernard Prince e, claro, Joe Kubert.
Instalado nos arredores de Sarajevo, Rustemagic, assistiu impotente ao agudizar de um conflito latente desde a morte do General Tito, na década de 80, cujo punho de ferro mantinha artificialmente unida a então República Federal Socialista da Jugoslávia, que acabaria por se dividir numa série de pequenas repúblicas, correspondentes às diferentes comunidades étnicas e religiosas, de croatas, sérvios e muçulmanos. Com a proclamação de independência da Bósnia-Herzegovina, os sérvios da Bósnia, com o apoio de Belgrado, iniciam em Abril de 1992 o bombardeamento e cerco de Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegovina. Um cerco que se prolongará, durante mais de três anos, até Setembro de 1995.
Rustemagic e a sua família vêm a casa ser destruída pelos bombardeamentos sérvios, que não pouparam também os escritórios da sua editora, destruindo um espólio único de mais de 14.000 pranchas originais de BD. Refugiado na cave de um edifício, numa cidade sobre bombardeamentos constantes, em que a existência de electricidade e água canalizada eram luxos raros, e os tiros dos snipers eram uma ameaça constante, Rustemagic tinha como único contacto com o mundo exterior, uma linha telefónica (que nem, sempre funcionava) e um aparelho de fax, através do qual relatava aos seus amigos, como Joe Kubert, a sua luta para sobreviver. São precisamente esses faxes que serviram de base a Kubert para transformar em imagens o inferno vivido pelo seu editor e pela sua família, num livro fortíssimo.
Pode dizer-se, sem exagero, que foi a BD que salvou a vida de Rustemagic, pois para além de usar revistas de BD e placas de metal para forrar o carro, diminuindo assim o impacto das balas dos snipers que o alvejavam sempre que tinha que se deslocar ao consulado francês, o editor apenas conseguiu sair de Sarajevo graças ao esforço conjunto de uma série de autores que representava, como Joe Kubert, Hermann e Hugo Pratt.
Publicado originalmente em 1996, Fax de Sarajevo foi considerada a melhor Novela Gráfica do ano pelo New York Times, ganhou os Prémios Eisner e Harvey no ano seguinte e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro no Festival de Angoulême de 1998. Vinte anos depois, aqui está finalmente a edição portuguesa!
Publicado originalmente no jornal Público de 29/07/2016