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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Poderosos Heróis Marvel 9 - Capitão América: Sonhadores Americanos

Neste volume, o editorial também é da minha autoria. Por isso, aqui o deixo, em vez do texto do Público, que surge apenas em imagem, mas que pode facilmente ser lido, por quem carregar na imagem.
O REGRESSO DO HERÓI


Depois de termos assistido ao início do percurso de oito anos de Ed Brubaker como argumentista da série Captain America, em O Soldado de Inverno - a saga em dois volumes que abriu a colecção Universo Marvel - este volume da colecção Poderosos Heróis Marvel permite-nos acompanhar o início daquele que foi o capítulo final desse percurso inesquecível, que marcou profundamente a história de Steve Rogers, bem como os leitores. Um percurso iniciado em Janeiro de 2005, quando Brubaker substituiu Robert Kirkman, o criador de The Walking Dead, como argumentista do Capitão América, no número um da quinta série da revista do Sentinela da Liberdade.

Nascido em 1966, nos EUA, Ed Brubaker começou a sua carreira como autor completo, escrevendo e desenhando histórias policiais para editoras independentes, como a Dark Horse, antes da Vertigo, a linha mais adulta e alternativa da DC, publicar algumas séries que assinou como argumentista e que lhe abriram as portas da DC, editora com que assinou um contrato de exclusividade em 2000. Brubaker teve então a oportunidade de explorar a fundo o universo do Batman, em aventuras bem mais próximas do policial negro do que das tradicionais histórias de super-heróis, mantendo uma tendência de reinvenção do género noir, já patente nos seus trabalhos anteriores de menor visibilidade.
O seu primeiro trabalho para a Marvel foi precisamente a série do Capitão América, onde, para além de ter introduzido elementos característicos das histórias de espionagem, trouxe de volta ao Universo Marvel James Buchanan Barnes, o jovem pupilo do Capitão, mais conhecido por Bucky - que os leitores julgavam morto desde o final da Segunda Guerra Mundial, na sequência dos eventos que colocaram Steve Rogers em estado de animação suspensa, congelado no meio do Árctico, até ser descoberto pelos Vingadores. Mas a verdade é que Bucky não só não tinha morrido, como tinha sido salvo pelo exército soviético, que lhe fez uma lavagem cerebral e o transformou numa verdadeira máquina de matar, o Soldado do Inverno.

De um anacrónico “sidekick”, Bucky vai tornar-se numa personagem fulcral da série, que acaba mesmo por substituir Steve Rogers no papel de Capitão América, depois do Sentinela da Liberdade original ser morto na sequência dos acontecimentos da Guerra Civil, a saga publicada numa anterior colecção da Levoir, que colocou em confronto directo os principais heróis da Marvel. Bucky mostrou ser digno de usar o uniforme e o escudo do Capitão América, honrando a herança de Steve Rogers, mas, como o leitor bem sabe, a morte raramente é definitiva nas histórias de super-heróis e o (esperado) regresso de Steve Rogers ao mundo dos vivos acabou naturalmente por acontecer na mini-série Captain America: Reborn, escrita também por Brubaker. Mas isso não impediu Bucky de continuar a ser o Capitão América, até ser aparentemente morto durante a saga A Essência do Medo, também já publicada pela Levoir, e Steve Rogers se ver forçado a pegar novamente no escudo e voltar a vestir o uniforme listrado. Um regresso natural, sobretudo tendo em conta a estreia nesse ano do filme do Capitão América, realizado por Joe Johnston, que levou ao relançamento da revista do Capitão América, em Julho de 2011, com um sexto volume, cujos primeiros cinco números são ocupados precisamente por Sonhadores Americanos, a história que poderão ler nas páginas seguintes.

Mantendo o toque inconfundível de Brubaker, este regresso não deixa de ter características muito próprias, com o clima das histórias de espionagem a dar lugar a um registo de aventura em estado mais puro, com dimensões paralelas, um adolescente capaz de abrir portais para outras dimensões, robots gigantes e muita acção. Mas o que se mantém constante é a importância do passado na vida de Steve Rogers: mesmo que o funeral de Peggy Carter logo no início da história pareça indicar o fim de um ciclo, o passado de Steve Rogers durante a Segunda Guerra Mundial vai voltar para o atormentar na figura de Richard Bravo, um espião americano submetido nos anos vinte a um tratamento experimental semelhante ao programa do super soldado - que criou o Capitão América - que passou os últimos sessenta anos preso numa dimensão paralela, de onde saiu para descobrir que o sonho americano imaginado durante a Segunda Guerra Mundial tinha dado origem a uma realidade bem mais próxima do pesadelo.
A dar vida a esta história de Brubaker está um nome bem conhecido dos leitores das colecções que a Levoir dedicou à Casa das Ideias: Steve McNiven, O desenhador de origem canadiana, que se estreou na BD no início da década de 2000, desenhando a série Meridian e outros trabalhos para a editora CrossGen, rapidamente passou para a Marvel, onde se tornou um dos desenhadores mais populares da editora, graças ao seu espectacular trabalho em livros como Wolverine: Velho Logan e Guerra Civil, já publicados em Portugal pela Levoir. McNiven mostra aqui mais uma vez todo o seu virtuosismo, em páginas com uma planificação extremamente dinâmica e variada, que ajuda ao ritmo infernal de uma história movimentada e visualmente espectacular.
No último número da série, o desenhador canadiano conta com a ajuda de Giuseppe Camuncoli, desenhador italiano extremamente versátil, que tem dividido o seu talento entre o mercado americano, onde trabalhou tanto para a Marvel como para a DC, e o mercado europeu, onde também deixou a sua marca, seja a desenhar a série Dylan Dog ou a continuação da série Os Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese.
A completar este volume, temos três histórias curtas, extraídas da revista Captain America #616, número especial comemorativo dos setenta anos da criação, por Jack Kirby e Joe Simon, do Capitão. Um número cronologicamente anterior à história que o antecede, cuja acção decorre numa fase em que Steve Rogers, já regressado ao Universo Marvel, ainda não tinha decidido reassumir as funções de Capitão América e em que Bucky Barnes, o Soldado do Inverno, estava preso numa prisão russa. Duas dessas histórias recapitulam, cada uma à sua maneira, a carreira do Capitão América, o que, no caso da história ilustrada por Travis Charest, que tem aqui um breve regresso à BD, é feito em apenas uma página. A terminar, temos A Exposição, a única história deste volume que não é escrita por Brubaker. Uma história tão peculiar como curiosa, escrita por Franklin Tieri e ilustrada por Paul Azaceta, em que Steve Rogers investiga um marchand de arte que tem um segredo que o próprio desconhece…

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Textos editoriais Marvel NOW! 1 - Homem-Aranha Superior



Na altura em que já chegou às bancas o nº 3 da revista dos X-Men, com o meu segundo texto para as revistas da linha Marvel Now!, que a Panini Espanha está a publicar directamente em Portugal, parece-me boa altura para recuperar o primeiro texto que escrevi para as publicações que assinalam o regresso das revistas mensais da Marvel, em bom português, aos quiosques nacionais.
Estes textos partiram de um convite do José de Freitas, editor assistente da Panini e responsável pela coordenação das edições portuguesas da Panini, à semelhança do que tem feito com as colecções da Marvel e da DC que a Levoir tem lançado com os jornais, quemais uma vez, me deu o prazer de trabalharmos juntos.
Embora o espaço aqui seja muito mais reduzido do que era nos editoriais da DC, a liberdade é bastante maior. Mesmo assim, confesso que, quando recebi o convite para escrever sobre o Homem-Aranha Superior, pensei duas vezes, pois a premissa base da série parecia-me perfeitamente idiota. Mas ainda bem que decidi ler as histórias, pois foram uma muito agradável surpresa e esta é, provavelmente, a melhor saga do Homem-Aranha que já li, desde a fase inicial do J. M. Strackzinsky que a Devir lançou em Portugal há uns bons 10 anos.


NA PELE DO INIMIGO

Um dos mais populares argumentistas da actualidade, Dan Slott é também um dos mais controversos, muito por força deste Homem-Aranha Superior, cuja premissa base causou tal agitação junto dos fãs do “cabeça de teia”, que Slott chegou até a receber ameaças de morte de leitores mais indignados. Com efeito, a ideia de fazer com que a mente do Dr. Octopus moribundo ocupasse o corpo de Peter Parker, com o vilão a assumir os poderes e as responsabilidades do Homem-Aranha, é tão controversa como arriscada. Mas a verdade é que estamos perante uma das melhores histórias do Homem-Aranha das últimas décadas, mesmo que este Homem-Aranha não seja o que nos habituámos a conhecer. Este é um Homem-aranha diferente e, em muitos aspectos, um Homem-Aranha superior, pois aos poderes que permitiram Parker a tornar-se um super-herói, alia uma capacidade estratégica e científica que o anterior Homem-Aranha não possuía.
Todos vimos, no nº 1 desta revista, a facilidade com que derrotou o novo Sexteto Sinistro, descobrindo os seus pontos fracos e atacando-os com a precisão de um cirurgião. Ou como soube jogar com os media dando ao Homem-aranha, que sempre foi um herói incompreendido, a popularidade que muitas vezes lhe faltou, conseguindo até conquistar o seu crítico mais feroz, J. Jonah Jameson, que trocou o quarto poder pelo segundo, tornando-se Mayor de Nova Iorque. E, pela forma como constrói a sua teia pela cidade, usando os drones-aranha para recolher informação, este Homem-Aranha Superior está mais próximo do insecto que lhe deu o nome os poderes, do que Peter Parker alguma vez esteve. 
Slott passou os primeiros anos da sua carreira escrevendo histórias dirigidas a um público mais infantil, como as adaptações à BD das séries de animação Ren And Stimpy, Scooby Doo, Looney Tunes e Powerpuff Girls, mas rapidamente provou ser capaz de tratar com igual eficácia temas bem mais adultos e sombrios, na mini-série Arkham Asylum: Living Hell, ilustrada por Ryan Sook. Esta mini-série, de 2003, foi o seu último trabalho para a DC, antes de regressar à Marvel (que editava a revista do Ren e Stimpy) para escrever a nova revista da Mulher-Hulk, antes de se tornar o principal argumentista da revista Amazing Spider-Man. Actualmente, um dos principais argumentistas da Marvel, Slott não esquece a “Distinta Concorrência” e, como vimos no nº anterior, goza com o Batsinal, numa divertida cena em que faz ver a Jameson que um sinal luminoso gigante que permita aos inimigos do Homem-Aranha saber exactamente onde ele se encontra, é capaz de não ser uma grande ideia, mesmo que o dito sinal acabe por se revelar de grande utilidade para derrotar o abutre… 
Nas histórias que vão poder ler a seguir, Dan Slott prossegue com a humanização de Otto Octavius, fazendo com que o leitor se vá identificando gradualmente com o antigo vilão, desenvolvendo de forma hábil a relação dele com Anna Maria Marconi, uma anã com quem tem grandes afinidades intelectuais. Mas mesmo que, à sua maneira, Octavius aproveite esta oportunidade de se tornar literalmente um homem novo, a agressividade e o desprezo pela vida humana que caraterizavam o Dr. Octopus estão ainda presentes na forma impiedosa com que o Homem-aranha Superior trata o Massacre, o Polichinelo e a Croma, os vilões que vai defrontar neste número. 
Se nas histórias anteriores a arte tinha sido assegurada por Ryan Stegman, neste número Dan Slott mostra que continua a saber escolher muito bem os desenhadores com quem colabora. O italiano Giuseppe Camuncoli, que alia uma bem-sucedida carreira nos comics americanos, iniciada na Vertigo, com uma série bem eclética de trabalhos na sua Itália natal, que além de romances gráficos com Matteo Casali, inclui histórias de Dylan Dog e a continuação dos Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, encarrega-se de ilustrar num estilo realista o confronto com o Massacre, enquanto que o traço mais caricatural, que primeiro se estranha e depois se entranha, do mexicano Humberto Ramos se revela perfeito para a história em que o Polichinelo e a Croma põem à prova a (pouca) paciência do novo Homem-Aranha.
Publicado originalmente na revista Homem-Aranha Superior nº 2, de Março de 2014.