Mostrar mensagens com a etiqueta Flash. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Flash. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de maio de 2016

Super-Heróis DC 11 - Flash e Lanterna Verde: O Audaz e o Destemido


Na semana em que chega às bancas o último volume da colecção Super-Heróis DC, aproveito para pôr a escrita em dia e publicar aqui os textos que ainda faltam. Por isso, esta semana, teremos um texto por dia, dedicado aos volumes da colecção ainda não publicados neste Blog. Aqui fica o primeiro.

FLASH E LANTERNA VERDE SÃO O AUDAZ E O DESTEMIDO

Super-Heróis DC Vol 11
Flash & Lanterna Verde: O Audaz e o Destemido
Argumento – Tom Peyer e Mark Waid
Desenho – Barry Kitson e Tom Grindberg
Quinta, 14 de Abril
Por + 9,90 €
Companheiros na Liga da Justiça, o Flash e o Lanterna Verde são dois dos mais carismáticos super-heróis do Panteão da DC, que vão dividir o protagonismo no volume da Colecção super-Heróis Dc que chega às bancas na próxima quinta-feira. Um volume preenchido com uma história cujo título evoca a mítica revista The Brave and the Bold, em cujas páginas os dois heróis se conheceram pela primeira vez, no nº 28, de 1960.
Desde Jay Garrick e Alan Scott nos anos 40, até Wally West e Kyle Rainer no século XXI, vários heróis vestiram o uniforme do Flash, ou usaram o anel do Lanterna Verde, mas para a grande maioria dos leitores, Barry Allen e Hal Jordan são o Flash e o Lanterna Verde definitivos e foram por isso os escolhidos por Mark Waid, Tom Peyer e Barry Kitson para protagonizarem esta história intemporal, que cobre todas as facetas da riquíssima história do Flash e do Lanterna Verde, e da amizade única que os une.
Publicada originalmente entre 1999 e 2000, como uma mini-série em 6 volumes, The Brave and the Bold viu a luz numa fase da história da DC em que tanto Barry Allen (que se sacrificou durante a Crise nas Trevas Infinitas, uma saga já publicada numa anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC) como Hal Jordan, estavam mortos, sendo pensada como evocação nostálgica, em que não falta um toque de humor, da riquíssima trajectória dos mais importantes Flash e Lanterna Verde da história da DC.
Uma história que o argumentista Mark Waid conhece como ninguém e que vai homenagear, com o auxílio de Tom Peyer no argumento e do britânico Barry Kitson nos desenhos, em aventuras em que os dois heróis encontram os seus antecessores da Golden Age (o Flash e o Lanterna Verde dos anos 40), defrontam os seus principais inimigos e, sobretudo, revisitam algum dos mais importantes momentos da sua história, em episódios onde não faltam as piscadelas de olho aos fãs de longa data. Piscadelas que passam pela própria estrutura de cada história, dividida em três capítulos, como era norma nos anos 60 e por pormenores como os nomes das ruas no mapa que o Lanterna Verde dá ao Flash no capítulo 1, que evocam os principais criadores que escreveram ou desenharam as aventuras dos heróis ou longo destas décadas.
Mas a mais bela homenagem acontece no capítulo 4, dedicado a Neal Adams e Denny O’Neil em que Waid revisita a fase incontornável do Lanterna Verde Arqueiro Verde de Adams e O’Neil, durante a década de 70 (de que os leitores puderam ler uma selecção de histórias no volume Inocência Perdida, na primeira colecção dedicada á DC), com Barry Kitson a ceder temporariamente o lápis a Tom Grindberg, de modo a imitar melhor o traço único de Neal Adams.
Texto originalmente publicado no jornal Público de 08/04/2016

terça-feira, 15 de outubro de 2013

DC Comics UNCUT 14: Crise de Identidade (Parte 2)


Crise de identidade, identidades em crise

Não é fácil encontrar uma história de super-heróis mais controversa do que Crise da Identidade, ou uma história que tenha polarizado de tal modo os fãs. Não só pelo facto de nela morrerem heróis, mas pela representação crua de acontecimentos e crimes chocantes e violentos. Na história da continuidade do Universo DC esta saga é sem dúvida um momento único e marcante.

Ao longo das duas últimas décadas, as histórias dos comics de super-heróis têm oscilado entre dois pólos opostos. Crise de Identidade inscreve-se claramente na corrente "revisionista", que pretende questionar muitos dos pressupostos das histórias de super-heróis, fazendo o contraste entre os super-poderes típicos das personagens deste género e o mundo real. Por outro lado, existe uma corrente que reagiu contra o revisionismo, e que quer devolver à história de super-heróis à sua posição clássica de história positiva, mais ligada ao entretenimento puro, e a que podemos chamar de "reconstrucionista", na feliz expressão do argumentista Kurt Busiek. Revisionismo e reconstrucionismo não são obviamente categorias absolutas, são maneiras de escrever as histórias de super-heróis que sempre existiram e que são de algum modo relativas a cada época. Podemos dizer, por exemplo, que as aventuras do Lanterna Verde e do Arqueiro Verde do periodo de Denny O'Neill e Neal Adams, algumas das quais já tivemos ocasião de ler nesta colecção, com todas as suas preocupações sociais, também eram revisionistas. Mas o revisionismo que nos interessa aqui é mais negro e questiona mais profundamente os comics de super-heróis.

Esse revisionismo surgiu na década de 80 em obras incontornáveis como Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, ou O Regresso do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Apresentavam-nos histórias em que as questões ligadas à existência dos super-heróis eram levadas às suas últimas consequências, e em que a interacção entre eles e um mundo mais ou menos real era mostrada de uma maneira mais realista. Infelizmente, muitos leitores apenas retiveram desta vaga inicial de histórias o lado violento e mais negro, e toda uma geração posterior de autores viria a desenvolver comics em que a único sinónimo que parecia existir para "realismo" era "violência", quer ela servisse ou não os propósitos do argumento.

Essa violência que foi a marca de algumas das obras mais importantes da época, surgiu naturalmente como reacção a alguns dos clichés do género, em que raramente eram mostradas as consequências últimas dos confrontos entre os heróis e vilões, por exemplo, e em que quase nunca eram pensados os "efeitos secundários" destes confrontos sobre o mundo que os rodeava. Mas o "revisionismo" não tinha como regra principal a violência, ela era apenas uma das questões que eram postas. Outras questões tinham a ver com outros clichés dos comics de super-heróis, como a existência de um status quo quase eterno nos universos ficcionais, em que cada mega-saga, cada invasão extra-terrestre ou conspiração global, cada conflito de proporções cataclísmicas, pura e simplesmente não afectava em nada o ambiente à volta dos heróis, ou o facto de os heróis raramente se envolverem em questões políticas ou sociais de modo relevante.

Esta nova vaga de realismo nos comics de super-heróis levou a uma série de histórias mais negras e violentas, e a reacção não tardou. Em poucos anos, autores como Kurt Busiek, com Marvels ou Astro City (que criou com Alex Ross e com Brent Anderson, respectivamente) por exemplo, voltaram a um tipo de histórias mais clássico e em que o lado mais negro da fase anterior dava lugar a histórias mais positivas. Talvez o momento definitivo da inversão das tendências tenha sido a estreia de Grant Morrison à frente da Liga da Justiça, em que ele conscientemente tentou incutir aos membros da Liga um lado mais mítico e mais representativo das qualidades positivas da humanidade. Nas melhores histórias desta fase reconstrucionista, as lições da era anterior não foram esquecidas, e os argumentos tiveram em conta a interacção com o mundo real de modo mais coerente. Ao longo dos dez anos seguintes foram surgindo sínteses excepcionais das duas correntes, em universos ficcionais de super-heróis em que a violência era posta ao serviço de histórias com um desenvolvimento inteligente e que não fugiam das questões sociais ou políticas que rapidamente se tornam subjacentes aos conflitos super-heróicos. The Authority, sobretudo na fase de Mark Millar e Frank Quitely, mas também na fase inicial, de Warren Ellis e Bryan Hitch, ou Planetary, do mesmo Ellis (com arte de John Cassaday), são alguns dos melhores exemplos disso.

No seu melhor, qualquer história de qualquer género pode servir a causa do entretenimento, e ao mesmo tempo fazer-nos reflectir sobre o mundo que nos rodeia, a condição humana, fazendo ecoar no seu enredo ideias relevantes para o leitor. Isso é verdade para o romance policial, para a fantasia ou o romance histórico, ou mesmo cor-de-rosa. E não é diferente para as histórias de super-heróis, que pode ser, por exemplo, um dos melhores géneros para explorar as questões sobre o poder e o relacionamento de heróis e pessoas normais com ele. Mas para que isso possa funcionar, é preciso também que a "distância" entre o mundo real a que o leitor pertence, e o mundo ficcional em que a história se passa, seja gerida de modo a não quebrar a plausibilidade. Isso pode ser feito apelando ao mito e arquétípo, por exemplo, quando os mundos são muito diferentes, mas nem todas as histórias podem ser mitos. Nos comics de super-heróis isso também pode ser feito confrontando coerentemente as personagens super-poderosas com os problemas do mundo real. Crise da Identidade, inscrevendo-se na corrente revisionista, e tendo sem dúvida um lado muito negro e trágico, consegue fazê-lo de modo notável.

Como vimos em Laços de Família, a introdução ao anterior volume desta colecção que apresenta a primeira parte de Crise de Identidade, Brad Meltzer, o argumentista da saga, é um conhecido autor de romances policiais. Muitas das características que fizeram de Crise um livro tão controverso são totalmente normais, diríamos mesmo banais, num romance policial. A violência, por vezes descrita ao pormenor, é comum e costuma até ser o ponto de partida da história. As consequências dessa violência sobre as personagens são frequentemente exploradas. De certa maneira, para um autor como Meltzer é mais fácil pensar a inserção destes factos normais e trágicos da vida real no universo dos super-heróis do que para a maioria dos argumentistas de comics. Como ele próprio diz, "há um custo de se pôr um a capa de super-herói, e acho que ao longo dos anos o temos ignorado, e muito". E a reacção dos fãs à mais terrível cena do livro - a violação de Sue Dibny pelo Dr. Luz - é a prova de que a tensão entre revisionismo e reconstrucionismo continua bem viva hoje em dia. Como se os super-heróis e as suas famílias, caso existissem, pudessem escapar à violência que existe na sociedade à sua volta.

Os heróis são assim colocados frente a um dilema tremendo, e a Liga dilacerada a partir do interior. Meltzer consegue mostrar um conflito em que parece por uma vez não existir um Bem ou um Mal claros. Mas quando vemos que a resposta da Liga à violação de Sue Dibny é a violação do Dr. Luz, sentimos também o peso terrível das decisões de cada um dos super-heróis, na cena maravilhosa da votação, que é fechada pelo voto decisivo de Barry Allen, o Flash anterior ao actual, e que para muitos é ainda hoje considerado uma das personagens que encarna melhor a ética dos super-heróis da Silver Age. Mas para os heróis, e para os leitores, a violação de Sue Dibny é a prova de que no universo dos super-heróis, tal como no nosso, existem outras ameaças à família dos heróis do que simplesmente o rapto ou a morte, que poderíamos considerar como ameaças mais convencionais. E tal como no nosso universo, as respostas a essa ameaça não são facilmente descritas em termos de Bem e de Mal.

Julian Darius, um dos mais perspicazes críticos e analistas dos comics de super-heróis, afirma que "Se queremos respeitar os comics, não os devemos respeitar porque são cool, ou porque achamos que dois nerds a discutir se o Hulk consegue vencer o Super-Homem merecem respeito ou são notícia. Mas deveríamos respeitá-los como forma de arte literária capaz de contar histórias novas e que nos tocam de maneiras que outros meios não conseguem fazer (...) e por serem livros que podemos arrumar ao lado da Guerra e Paz na prateleira. Infelizmente, achamos frequentemente que são um meio estranho mas giro de contar histórias e de gerar ideias para blockbusters com montes de explosões". Mas com histórias como Crise de Identidade, com a sua sofisticação e com a excepcional caracterização das suas personagens, que à sua maneira, no seu universo super-heróico, nos parecem tão reais, o respeito que os comics de super-heróis merecem parece estar mais que garantido

José Hartvig de Freitas

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

DC Comics UNCUT 11: Flash: Renascer


UM HERÓI PARA TODAS AS CRISES

Ele pode não fazer parte da Trindade dos heróis da DC (Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha) e é frequentemente relegado para segundo plano, quando comparado aos seus mais ilustres companheiros da Liga da Justiça, por exemplo. Mas o Flash é uma das mais importantes figuras da história dos comics de super-heróis, que devem a sua continuada existência em grande parte a esta personagem e ao seu legado único.

Criado em 1940 por Gardner Fox e Harry Lampert, o primeiro Flash foi Jay Garrick, um estudante universitário que, ao inalar vapores de água dura, ganhou o poder de super-velocidade. Alcunhado de «Corredor Carmim», este Flash foi uma personagem popular na década de 40, com direito a dois títulos (Flash Comics e All-Flash Quarterly) e ao estatuto de membro fundador da Sociedade da Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis da história. Vivia-se então o auge da chamada Idade do Ouro dos comics, quando estes se afirmaram como uma forma de arte e a sua publicação se tornou numa indústria lucrativa. Este estado de graça duraria até ao final da 2ª Guerra Mundial, à qual se seguiu um declínio acentuado da popularidade dos super-heróis, que viram o seu mercado ser tomado de assalto por histórias de horror, crime, romance e westerns. Inúmeros títulos, incluindo os do Flash, foram cancelados nos últimos anos da década de 40, à medida que os EUA entravam num período de introspecção pós-guerra, no qual foi deixando de haver lugar para heróis patrióticos, que se viram substituídos por anti-heróis e figuras niilistas à medida que uma nação sentia a iminência da Guerra Fria. Houve sobreviventes, mas mesmo um portento como o Super-Homem — cujo Action Comics #1 dera início à própria Idade do Ouro — apenas se conseguiu destacar durante a primeira metade da década de 50 graças à publicação Superman's Pal Jimmy Olsen, uma série de grande e duradouro sucesso, na qual o Homem de Aço servia praticamente como ajudante do seu jovem amigo em histórias de interesse humano. O mundo dos super-heróis estava em crise, portanto.

O primeiro sinal de mudança deu-se em 1954, quando, após uma série de controvérsias derivadas da alegada correlação entre a delinquência juvenil e o conteúdo dos comics (sobretudo os populares títulos de crime e horror), várias editoras decidiram implementar o Comics Code Authority. Uma vez regulado o conteúdo das suas publicações, as editoras começaram timidamente a optar novamente pelas apostas sadias e seguras do passado: os super-heróis. Havia no entanto que modernizar o material antigo, e a primeira dessas experiências foi, precisamente, o Flash, que surgiu «reembalado» com uma nova identidade, origem e uniforme em Showcase #4 (1956) pela mão de Robert Kanigher e Carmine Infantino. Este novo Flash era Barry Allen, um cientista forense cujo laboratório foi atingido por um relâmpago durante uma tempestade, banhando-o com uma solução de produtos químicos sobrecarregados que alterou a sua estrutura molecular permanentemente e fez do incauto cientista o novo Corredor Carmim. Após ler um velho comic do «velho» Flash dos anos 40(!), Barry Allen decide assumir a identidade desse herói e criar um uniforme para usar os seus poderes ao serviço da humanidade. A estreia deste novo Flash não criou grandes ondas, mas justificou uma segunda aventura em Showcase #8 no ano seguinte, no qual se registou um aumento nas vendas. Aberto este precedente, e embora o que mais vendia continuasse a ser humor, romance e western, o Flash abriu as portas para as estreias de mais heróis e nesse mesmo ano teve direito a duas outras aventuras nos #13-14 de Showcase. O crescente sucesso levou a DC Comics a devolver o Flash ao seu título epónimo, que continuou com a antiga numeração e recomeçou no número #105 (1959). Seguiram-se os regressos de Aquaman, Lanterna Verde e Arqueiro Verde, todos com novas origens e conceitos renovados, bem como uma modernização da Mulher-Maravilha e a criação da primeira super-heroína em dez anos: a Supermoça. Esta torrente de renovação criativa culminou em 1960 com a formação da sucessora da Sociedade da Justiça da América: a Liga da Justiça da América, que foi o título de maior sucesso da DC em 1961 e se tornou no ponto de referência para todo e qualquer grupo de super-heróis. A Idade da Prata dos comics começara, os super-heróis enquanto conceito estavam vivos e de boa saúde, outras editoras seguiram os passos da DC e o Flash resolvera a primeira de quatro crises.

Barry Allen viveu incontáveis aventuras, frequentemente acompanhado pelo jovem companheiro Kid Flash, e conseguiu basear mais de vinte anos de histórias à volta do aparentemente simplista conceito da velocidade que caracterizava o estilo de arte distinto usado por Carmine Infantino, cuja abordagem artística dava a impressão de movimento ao Flash nos quadradinhos. Mas não só: o Flash tem também aquela que é possivelmente a mais imaginativa galeria de vilões de qualquer herói da DC, com algozes como o Flautista, o Meteoromante, o Mestre dos Espelhos, o Gorila Grodd, o Flash Reverso e, certa vez, a própria Morte. Este nível de ameaças e o alto conceito científico do teor das suas aventuras — que frequentemente acarretavam viagens no tempo e o quebrar das barreiras que separam dimensões paralelas — obrigavam Barry Allen a ser criativo com os seus poderes de velocista, e alguns números do Flash eram autênticas lições de física (com precisão científica variável, bem entendido). Foram esses os poderes que salvaram o Universo DC nas crises subsequentes, a começar pela Crise nas Terras Infinitas, que deixou uma marca indelével no mundo dos comics. O papel do Corredor Carmim nesse épico foi fundamental, quando ultrapassou os limites da velocidade e sacrificou a própria vida para destruir o engenho apocalíptico que se preparava para obliterar o que restava de um já devassado multiverso. Tão depressa correu, que voltou atrás no tempo e se tornou no próprio relâmpago que lhe daria os seus poderes, numa recriação do símbolo de Ouroboros, a representação da eternidade da serpente que morde a própria cauda. Este fim ambíguo serviria de pretexto para o ocasional vislumbre de Barry Allen em futuras aventuras, mas após o fim desta segunda crise, o manto do Flash seria definitivamente assumido pelo seu parceiro Wally West, que até então fora o Kid Flash, e que continuou o legado do Corredor Carmim durante mais de vinte anos.

Muito aconteceu a Wally West durante esse período: duvidou durante anos estar à altura do seu mentor, mas finalmente fez por merecer o título de Flash; conheceu Bart Allen, o neto de Barry Allen, que veio do futuro e se tornou no jovem herói Impulso; casou e formou família; e descobriu a Força Aceleratriz, um conceito que viria a mudar para sempre a mitologia do Homem Mais Rápido do Mundo. Tratava-se de uma fonte de energia extra-dimensional, à qual os velocistas do Universo DC podiam aceder, cada um à sua maneira (tal como evidenciado pelos acidentes e experiências diferentes que deram a cada um dos Flashes os seus poderes) e uma espécie de vida após a morte para eles. Este último aspecto viria mais tarde a revelar-se essencial, pois a alma de Barry Allen fora parar precisamente à Força Aceleratriz, da qual emergiu num momento crucial durante a Crise Infinita (2006) para ajudar o seu antigo parceiro e o seu neto (que por essa altura já assumira a identidade de Kid Flash, em sinal de respeito para com o legado da sua família). Wally West desapareceu durante algum tempo após esse confronto, e o manto do Flash passou então temporariamente para Bart Allen, que se tornou no quarto Corredor Carmim. A terceira Crise fora solucionada...
...mas ainda faltava a Crise Final (2009), em que o derradeiro Mal regressava ao Universo DC e no qual, uma vez mais, Barry Allen viria a ser chamado a agir para evitar o fim da própria Criação. Misteriosamente trazido de volta ao mundo dos vivos em forma corpórea, a sua intervenção é novamente providencial na derrota do Mal, ao correr através do espaço e do tempo com a Morte a morder-lhe os calcanhares. Após uma ausência de duas décadas, Barry Allen regressava assim definitivamente ao mundo dos vivos, e as forças que o trouxeram de volta são explanadas neste Flash: Renascer, no qual o herói retornado questiona e tenta encontrar o seu lugar num mundo que muito lhe deve, mas que parece ter seguido em frente sem ele. Não só isso, pois a Força Aceleratriz parece ainda guardar alguns segredos surpreendentes, e o regresso de Barry Allen pode bem vir a significar um perigo mortal para todos os velocistas...

Seja como for, uma coisa é certa: Salvar o dia cabe frequentemente a heróis como o Super-Homem. Mas é ao Flash que o Universo DC deve o facto de ter sequer havido um dia para salvar ao longo de tantas crises, reais e fictícias. E esse é um legado que não pode ser ignorado.

FILIPE FARIA

sábado, 6 de julho de 2013

Apresentação da Colecção DC Comics

Já não será novidade para (quase) ninguém que a partir da próxima quinta-feira, 11 de Julho, o Jornal Público e a editora Levoir lançam mais uma colecção dedicada aos super-heróis, desta vez  da DC Comics, a editora de Batman e Super-Homem. A preparar a saída da colecção, o jornal Público lançou na edição de hoje um destacável de 4 páginas de apresentação da colecção, com textos deste vosso criado, que aqui se reproduz. A última página do destacável traz a lista dos títulos, com data de saída e respectivas capas, bastando clickar na imagem para ver as capas mais em pormenor. Como, por questões de espaço, os textos dedicados aos autores e aos heróis tiveram que sofrer cortes, aqui vos deixo a versão integral dos mesmos.

LIGA DA JUSTIÇA
A Liga da Justiça surgiu pela primeira vez em 1960, nas páginas da revista The Brave and the Bold, funcionando como sucessora da Sociedade da Justiça da América, criada nos anos 40 por Gardner Fox e pelo editor Sheldon Mayer, como montra para os super-heróis menos conhecidos da editora. O próprio Fox foi encarregue pelo editor Julius Schwartz de criar esta nova versão da Sociedade da Justiça, que mudou o nome para Liga, aproveitando o sucesso da recém-criada Liga Nacional de Baseball e, que ao contrário da sua antecessora, contava com os principais heróis como o Batman, ou Super-Homem. O sucesso da Liga foi um elemento fundamental no relançar das histórias de super-heróis durante os anos 60.
Embora a sua formação vá sofrendo alterações, com a entrada e saída de alguns membros, os maiores heróis da DC estão sempre na Liga de Justiça.

BATMAN
Quando os seus pais são assassinados à sua frente, o jovem Bruce Wayne decide dedicar a sua vida a combater o crime, usando a sua herança para concretizar esse objectivo. Mas cedo concluirá que precisa de algo mais para instilar o medo no coração dos criminosos. Precisa de um disfarce e de um símbolo e o morcego vai servir-lhe de inspiração.
Criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939, o Batman é um herói sombrio, próximo da tradição policial dos heróis da literatura Pulp, como o Shadow, sem qualquer poder especial para além de um treino rigoroso, uma vontade indómita e um arsenal de equipamento sofisticado. Mas essa ausência de poderes nunca o impediu de se tornar o mais carismático de todos os super-heróis, não só nos comics mas também no cinema.

SUPER-HOMEM
Perante a destruição iminente do Planeta Krypton, o cientista Jor-El decide tentar salvar o seu filho ainda bebé, lançando-o para o espaço numa nave espacial. Essa nave vai aterrar na Terra, no estado norte-americano do Kansas, onde a criança é recolhida por Jonathan e Martha Kent, um casal de agricultores, que o vão criar como seu filho, dando-lhe o nome de Clark e incutindo-lhe os valores tradicionais da América. As características diferentes do nosso sol em comparação com o que banhava o planeta Krypton, deram ao jovem Clark poderes quase ilimitados. Super-poderes de invulnerabilidade, visão de calor e de raios-X, força e velocidade, que lhe permitem voar e que, como Super-Homem, vai usar para combater o crime e ajudar a humanidade.

JOKER
Numa coleção com os principais heróis da DC, também há lugar para vilões. Com o seu cabelo verde, pele branca e eterno sorriso, o Joker é o maior vilão do Universo DC.
Criado por Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger em 1940, o Joker foi o antagonista do Batman logo na primeira aventura na sua própria revista e cedo ganhou uma tremenda popularidade, como o mais carismático de todos os vilões que povoam a vasta galeria de inimigos do Batman. Um louco perigoso, com um sentido de humor tão peculiar como mortal, que vem rasgar com as cores berrantes da loucura o universo sombrio do Cavaleiro das Trevas, a sua ligação ao Batman é um dos grandes elementos da dinâmica da série.

ARQUEIRO VERDE
Ao naufragar numa ilha deserta, o milionário Oliver Queen aprende a usar um arco, para poder caçar e se alimentar. Ao regressar à civilização, a destreza conseguida com esta arma, vai permitir-lhe combater o crime como o Arqueiro Verde. Criado em 1941 por Mort Weisinger e George Papp, o Arqueiro Verde inicialmente era uma espécie de cruzamento entre o Batman e Robin Hood, pois Oliver Queen, tal como Bruce Wayne, também era milionário, combatia o crime sob uma identidade secreta e tinha um jovem ajudante, Speedy.
O personagem adquiriria uma nova imagem e uma voz própria nos anos 70, através de Denny O’Neil e Neal Adams, numa série de histórias clássicas que podemos acompanhar nesta coleção, tal como a reformulação efectuada por Mike Grell nos anos 80, com a história Os Caçadores.

LANTERNA VERDE
Ao descobrir nos destroços de uma nave espacial, um extraterrestre moribundo, o piloto de testes Hal Jordan percebe que foi escolhido para substituir Abin-Sur, esse extra-terrrestre, como membro da Tropa dos Lanternas Verdes, uma espécie de polícia intergaláctica que zela pela paz no espaço sideral, tendo como única arma um anel que permite materializar através de energia tudo o que o seu portador imaginar.
Criado por John Broome e Gil Kane, em 1959, por indicação do editor Julius Schwartz, Hal Jordan não foi o primeiro e muito menos o único personagem a usar o anel, mas é de longe o mais popular dos Lanternas Verdes e o protagonista das histórias que pudemos ler nesta coleção.

FLASH
Tal como o Lanterna Verde, o Flash foi outro dos super-heróis criado nos anos 40 que foi reformulado na década de 60, ganhando uma nova origem e uma outra identidade secreta. A Jay Garrick, o Flash original criado por Gardner Fox e Harry Lampert em 1940, sucedeu em 1956, Barry Allen, um cientista que ganhou super-velocidade ao ser atingido por um raio enquanto manipulava produtos químicos no laboratório da polícia. O mais popular de todos os Flash, Barry Allen, criado por Bob Kanigher e Carmine Infantino, está em destaque nesta coleção, onde podemos acompanhar a sua morte em Crise das Terras Infinitas e o seu regresso, vinte anos depois, em Flash: Renascer.

MULHER-MARAVILHA
Filha de Hipólita, a Rainha das Amazonas, a Princesa Diana abandona a ilha Paraíso onde a sua tribo vive, para acompanhar Steve Trevor, um piloto americano cujo avião se despenhou na ilha, de volta ao “mundo dos homens” e combater a seu lado contra a ameaça nazi. Terminada a guerra, Diana continua na América e torna-se membro da Sociedade da Justiça da América, tornando-se como o Super-Homem, uma filha adoptiva da América, cujas cores estão presentes no seu uniforme.
Principal heroína do universo DC, a Mulher-Maravilha foi criada em 1940 pelo psiquiatra William Moulton Marston, inventor do poligrafo e pioneiro dos estudos feministas, como exemplo de um novo tipo de super-herói, capaz de triunfar não através da força, mas do amor.

BATWOMAN
Criada por Bob Kane, Sheldon Moldoff e Edmond Hamilton em 1956, numa tentativa de criar uma família de personagens à volta do Batman, como o Super-Homem já tinha, Batwoman é Kathy Kane, uma rica herdeira que, inspirada pelo exemplo do Batman, decide combater o crime como uma super-heroína. Uma heroína com uma vida bastante curta, pois o editor Julius Schwartz, ao reformular as revistas do Batman decide acabar com a personagem em 1964, por a considerar redundante face à existência da Batgirl.
Mas a Batwoman regressaria em 2006, como a primeira personagem lésbica importante do Universo DC. É essa nova fase, magnificamente ilustrada por J. H. Williams, que podemos acompanhar nesta colecção.

SUPERGIRL
Ao contrário do que o próprio pensava, o Super-Homem não foi o único kryptoniano a escapar à destruição do seu planeta natal. Também a sua prima, Kara Zor-El foi enviada para a Terra, onde adquiriu super-poderes semelhante ao do primo, cujo exemplo vai seguir, assumindo também ela uma carreira de super-heroína, como Supergirl.
Criada por Otto Binder e Al Plastino em 1959, a Supergirl vai ser uma das vítimas da Crise nas Terras Infinitas, onde é morta. Mas, como nas histórias de super-heróis a morte nem sempre é definitiva, acabará por regressar em 2004, pelas mãos de Jeph Loeb e Michael Turner, na história A Rapariga de Krypton, que encerra esta colecção.


SETE AUTORES EM DESTAQUE

Das largas dezenas de autores que participam nos vinte volumes desta colecção, o nosso destaque vai para um grupo de sete magníficos, que na realidade são oito (tal como os Três Mosqueteiros eram quatro…). Quatro desenhadores e quatro argumentistas, com a particularidade da dupla Denny O’Neil e Neal Adams, que formam equipa em dois dos volumes desta coleção, serem aqui tratados como um só.


GRANT MORRISON
Nascido na Escócia, Grant Morrison fez parte da célebre "invasão britânica" dos comics americanos, que levou inúmeros argumentistas da Grã-Bretanha a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se nos EUA, onde vieram revolucionar o género. Os seus trabalhos com um toque surreal e pós-moderno, nas séries Animal Man e Doom Patrol, para a Vertigo, tornaram-no conhecido, mas a fama chegaria com a novela gráfica do Batman, Arkham Asylum, magistralmente ilustrada por Dave McKean.
Desde então Morrison tem sido responsável por algumas das mais importantes histórias protagonizadas por Batman, Super-Homem e a Liga da Justiça. Nesta coleção podemos apreciar o seu trabalho com a Liga da Justiça, em Terra 2, volume inaugural desta coleção, e com Batman, em Herança Maldita, o 2º volume.

JIM LEE
Verdadeira estrela dos comics e um dos directores criativos da DC, Lee estreou-se como desenhador na Marvel em 1987, com as histórias do Justiceiro que publicámos na 1ª série da Coleccção Heróis Marvel. Depois do grande sucesso como desenhador da nova série dos X-Men, Lee juntamente com outros desenhadores deixou a Marvel para fundar a Image, publicando as suas histórias através do Estúdio Wildstorm. Quando a DC comprou a Wildstorm em 1998, Lee teve finalmente a oportunidade de desenhar os maiores heróis da DC, como o Super-Homem, Batman e Liga da Justiça. Nesta coleção podemos vê-lo a desenhar o Super-Homem, numa história em 2 volumes, em que conta com a colaboração habitual de Scott Williams na arte final e as cores de Alex Sinclair.

BRIAN AZZARELLO
Argumentista de BD desde meados dos anos 90, Azzarello é conhecido principalmente pela sua parceria com Eduardo Risso na premiada série 100 Bullets, editada pela Vertigo, onde foi também publicada a sua etapa na série Hellblazer, em que colaborou com Richard Corben e com Marcelo Frusin.
Embora o seu trabalho esteja mais associado ao “policial negro” do que aos super-heróis, Azzarello colaborou com Jim Lee na revista Superman, numa mediática história em 12 números que publicamos nos volumes 3 e 4 desta coleção e, entre outras incursões pelo universo do Batman, escreveu também a novela gráfica Joker, ilustrada pelo traço único de Lee Bermejo, que publicamos no volume dedicado ao maior inimigo do Batman.

DENNY O’NEIL E NEAL ADAMS
Editor e argumentista na Marvel e na DC durante mais de três décadas, o escritor Denny O’Neil foi responsável, durante a década de 70 por memoráveis colaborações com o desenhador Neal Adams nas séries Batman e Lanterna Verde/Arqueiro Verde, em histórias adultas, desenhadas com grande realismo que redefiniram a imagem dos heróis e que abriram caminho para a revolução realizada na década seguinte, por autores como Frank Miller e Alan Moore. São essas histórias, verdadeiros clássicos incontornáveis, que vamos acompanhar nos volumes 9 e 10 desta coleção.
Se O’Neil já está reformado, Adams que se estreou na BD em 1960, na Archie Comics, mantém-se activo ainda hoje, alternando a Banda Desenhada com a publicidade e continuando a desenhar páginas espectaculares.

GEOFF JOHNS
Director Criativo da DC, escritor para televisão e proprietário de uma loja de comics, Geoff Johns começou a sua carreira como assistente de Richard Donner, o realizador do primeiro filme do Super-Homem, com Christopher Reeve. Este escritor nascido em Detroit em 1973 é um dos mais populares argumentistas da actualidade, muito por via do seu trabalho para a DC, cujas últimas grandes sagas escreveu. Tendo escrito a maioria dos heróis da DC, com destaque para o seu trabalho incontornável com o Lanterna Verde, personagem pela qual foi responsável durante nove anos, Johns é, naturalmente, o escritor mais presente nesta coleção, onde assegura o argumento dos volumes dedicados ao Flash, Lanterna Verde e Super-Homem e a Legião dos Super-Heróis.

GEORGE PEREZ
Nascido em Nova Iorque em 1954, George Perez estreou-se na BD em 1973, como assistente do desenhador Rick Buckler, mas um ano depois já trabalhava regularmente para a Marvel. Apesar de ter trabalhado em séries como os Avengers e Fantastic Four, da Marvel, os trabalhos mais importantes da sua carreira foram publicados na DC, onde teve passagens memoráveis por séries como Teen Titans e Mulher-Maravilha, destacando-se pela extraordinária elegância e detalhe do seu traço. Nesta colecção podemos apreciar o seu trabalho nos dois volumes da saga cósmica Crise das Terras Infinitas, que revolucionou profundamente o universo da DC e no volume dedicado à Mulher-Maravilha.

J. H. WILLIAMS III
Tendo-se estreado na BD como desenhador da série Deathwish, da Milestone, em 1994 J. H. Williams III assinou o seu primeiro trabalho para a DC com a série Chase, em 1997, mas foi a sua memorável colaboração com Alan Moore nos 32 números da série Promethea, onde surpreendeu com as suas planificações complexas e páginas notáveis de beleza, reveladoras de um estilo camaleónico, capaz de citar as mais díspares referências artísticas, que o tornou uma verdadeira estrela dos comics.
Nesta coleção, vamos poder apreciar a sua colaboração com o escritor Greg Rucka na recuperação da Batwoman, numa história espectacularmente desenhada e planificada, que lhe valeu os principais galardões artísticos da indústria