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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Novela Gráfica V 4 - No Rasto de Garcia Lorca

RECORDANDO GARCÍA LORCA

Novela Gráfica V - Vol. 4 
O Rasto de García Lorca
Argumento – Carlos Hernández e El Torres 
Desenhos – Carlos Hernández
Quinta-feira, 25 de Julho
Por + 10,90€
Nome maior da poesia e do teatro espanhol e figura incontornável da cultura mundial, a quem a morte trágica deu uma dimensão mítica, Federico García Lorca é o protagonista do quarto volume da colecção Novela Gráfica, que chega aos quiosques de todo o país no dia 25 de Julho, mas que dois dias antes será objecto de uma apresentação e lançamento na Fundação José Saramago, com a presença de Pilar del Rio, uma das autoras do prefácio.
Se as biografias de escritores, ou poetas são um tema bastante presente na novela gráfica espanhola contemporânea – basta pensar em Gente de Dublin, a biografia que Alfonso Zapico fez de James Joyce, publicada na colecção de 2018 – este O Rasto de García Lorca, para além de ser o primeiro, é diferente. Uma diferença que passa por traçar o retrato do poeta através da marca deixada por Federico Lorca em todos os que com ele conviveram - desde figuras célebres como Buñuel e Dalí, que não sai nada bem visto, até personagens bem mais anónimas, como Eládio, o criado anão do Hotel em Havana, onde Lorca se hospedou - nos locais por onde passou: pessoas que partilharam a vida e a morte do poeta, em cidades como Granada, Madrid, Havana ou Nova Iorque.
O ilustrador Carlos Hernández, que tem aqui o seu primeiro trabalho de grande fôlego, aliou-se a El Torres, o premiado argumentista de O Fantasma de Gaudi, para traçar doze momentos da vida de Garcia Lorca. Doze peças de um puzzle que, uma vez juntas, apresentam ao leitor um retrato bastante nítido do fundador da Barraca.
Embora o nome dos dois autores apareça em pé de igualdade na capa, a verdade é como refere modestamente El Torres, foi Carlos “quem comandou o barco” enquanto ele, como vem na ficha técnica se limitou a “limpar e dar brilho e esplendor” às suas ideias. Algo natural, pois Carlos Hernández é natural de Granada e, como refere numa entrevista: “como granadino, Federico García Lorca está no meu subconsciente e tem sido, desde que me lembro, o referente cultural da minha cidade, apesar das cinzas do passado e de um controverso silêncio de que a cidade ainda não se conseguiu de todo libertar. Lorca significa muito para qualquer um que tenha sensibilidade para sentir os seus passos naqueles recantos da cidade que ainda conservam o seu rasto.” Por isso, a história abre e fecha com as memórias de Alfonsito, um vizinho de Lorca, personagem inspirada no pai do próprio Carlos Hernández, que foi contemporâneo do poeta.
Dando mais uma vez a palavra a Carlos Hernández: “A premissa inicial foi de não contar a sua vida como mais uma biografia, mas antes construir diferentes relatos biográficos com uma certa independência, de que Lorca é o protagonista elíptico, muitas vezes ausente e outras não, mas sempre reflectindo, através do olhar dos seus amigos ou conhecidos, esse magnetismo, vitalidade e carismática presença que encontramos nas descrições de todos aqueles que o conheceram em vida. Por isso, escolhemos os temas em função de diversas prioridades. Por exemplo, contar algo da sua viagem a Nova Iorque, a sua estadia em La Habana, falar de sua relação com Dalí e Buñuel, a Residência de estudantes, relatar o seu dia-a-dia com a Barraca, e também mostrar a face sinistra de Granada, através do antigo soldado que se gabava de ter morto Lorca, uma história autêntica que as pessoas mais velhas da minha cidade ainda recordam.”
Graficamente, Hernández, que fez um sólido trabalho de pesquisa que dá grande veracidade à sua reconstituição de época, optou por um registo a sépia, que nos remete para as fotografias antigas, com resultados extremamente evocativos e poéticos. Mas onde o seu trabalho brilha mais é em termos narrativos, em momentos como a (surreal, mas verídica) entrevista a Salvador Dalí, ou as memórias de Luís Buñuel, em 1928, em que as palavras dos dois são acompanhadas por imagens que remetem para o filme Un Chien Andalou, que Dalí e Buñuel realizaram.
Publicado originalmente no jornal Público de 20/07/2019

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

As 10 Melhores BDs que li em 2016 - Parte 1


Cumprindo a tradição, aqui vos deixo, em duas partes, a lista das melhores Bandas Desenhadas que li pela primeira vez em 2016. Mais uma vez, a escolha não foi fácil e quase me deu vontade de criar uma categoria para as melhores BDs que reli em 2016, única maneira de incluir o Sandman de Neil Gaiman e o Miracleman, de Alan Moore (o "escritor original") nas minhas leituras de 2016.
Quanto às escolhas, apresentadas, como sempre, por ordem alfabética, deixam de fora uma obra-prima como o Le Rapport de Brodeck, de Larcenet, apenas porque o primeiro volume já tinha estado na minha lista de 2015.  Do mesmo modo, alguns dos argumentistas presentes nesta lista, (como Jason Aaron, El Torres, ou Tom King) poderiam estar representados por outros títulos, mas foi necessário escolher um título por autor.
Para a semana, fica prometida a segunda e última parte da lista.


1 - Black Dog: The Dreams of Paul Nash, Dave McKean, Dark Horse
Trabalho de encomenda no âmbito do projecto 14-18 Now, para comemorar o trabalho do pintor Paul Nash sobre a I Guerra Mundial, Black Dog é uma singular biografia do pintor, que parte das memórias e dos sonhos de Paul Nash para reconstituir a vida e a obra do artista. Fazendo juz ao seu imenso talento e versatilidade, McKean dá um verdadeiro show visual, fazendo uma muito conseguida síntese entre a arte de Nash e o seu próprio traço. Um regresso em grande forma de McKean à BD!




2 - Dylan Dog: Mater Morbi/ Dopo un Lungo Silenzio, Roberto Recchionni, Tiziano Sclavi, Massimo Carnevale, G. Casertano, Bonelli
No ano que passou tive ocasião de ler bastantes histórias de Dylan Dog e aí houve duas que sobressaíram, até pelas suas características bem distintas, razão porque neste caso optei por uma dupla nomeação. Mater Morbi, escrita por Roberto Recchionni, o actual responsável pela coordenação da série Dylan Dog é uma reflexão sombria sobre a doença e das melhores histórias do detective do pesadelo das últimas décadas, muito bem ilustrada por Massimo Carnevale. Já Dopo un Longo Silenzio assinala o regresso de Tiziano Sclavi à série que criou, numa história eivada de melancolia, em que os elementos fantásticos dão lugar à dura realidade do alcoolismo, quando Dylan Dog, um ex-alcoólico, volta a ceder ao vício.



3 - House of Penance, Peter Tomasi e Ian Bertram, Dark Horse

Uma das maiores surpresas de 2016, House of Penance parte de uma história real, já explorada por Alan Moore na série Swamp Thing: a casa Winchester, mandada construir por Sarah Winchester, a viúva de William Winchester, o milionário da indústria de armamento, criador das célebres espingardas Winchester. Uma mansão que se manteve em construção durante 38 anos, 24 horas por dia, até à morte de Sarah. Esta casa em perpétua ampliação, sem obedecer a um qualquer plano arquitectónico, que Sarah Winchester considerava como o meio de acalmar as almas de todas as pessoas mortas pelas espingardas Winchester, acaba por ser uma das personagens principais da história imaginada por Peter Tomasi e ilustrada num estilo extremamente original por Iam Beltram, num traço grandemente detalhado e caricatural, que faz lembrar um pouco o brasileiro Rafael Grampá, muitíssimo bem servido pelas cores de Dave Stewart.



4 - La Huela de Lorca, Carlos Hernandez e El Torres, Norma
Descobri o trabalho e a versatilidade de El Torres na última Comic Con, onde esteve presente com o livro Hoje Aconteceu-me uma Coisa Brutal, uma bem construída e eficaz história de super-heróis Made in Spain. depois disso li El Fantasma de Gaudi, uma belíssima homenagem à arquitectura de Gaudi, disfarçada de história policial clássica na melhor tradição franco-belga, mas o livro que me encheu as medidas foi este La Huela de Lorca, uma singular biografia do poeta espanhol contada através do olhar daqueles que o conheceram. Para além do excelente traço e de uma eficaz uilização da bicromia, Carlos Hernandez revela um excelente sentido de planificação, com algumas soluções narrativas muito bem conseguidas, especialmente nas sequências protagonizadas por Dali e Buñel.







5 - Le Retour de la Bondrée, Aimée De Jongh, Dargaud
Esta novela gráfica de estreia de Aimée De Jongh, uma jovem autora holandesa, foi uma belíssima surpresa, não tanto em termos gráficos, onde o trabalho de De Jongh é eficaz, sem grandes rasgos, mas sobretudo pela excelente história de um livreiro prestes a fechar uma etapa da sua vida, muitíssimo bem contada, com um final que se revela surpreendente, apesar das pistas estarem todas lá, ao alcance do leitor mais perspicaz. Uma bela estreia de uma autora a seguir com atenção.